& Moira Bianchi: Mr Darcy
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segunda-feira, 30 de junho de 2025

Todos os caminhos SEMPRE me levam a Jane Austen - parte 1

 olá!

Faz tempo que eu não posto pensamentos e análises aqui, meus dias parecem que estão ficando mais curtos e me falta tempo. Mas esse ano comemoramos 250 anos de nascimento de Jane Austen e eu gostaria de lançar um romance Janeite (As anáguas de Lizzy Darcy), me aprofundar em outras obras como fiz Persuasão e Lady Susan, assim como fazer uns diários de leitura de livros inspirados/estudos sobre a vida e obra de Jane.

Na Bienal do livro do Rio eu ganhei o livro 'All Roads Lead to Austen - a yearlong journey with Jane' de Amy Elizabeth Smith. Uma tradução livre seria 'Todos os caminhos levam a Austen - uma viagem anual com Jane', um diário de viagem pareceu bem sugestivo para o meu intuito de um diário de leitura. É uma edição bem levinha, brochura com folhas de papel jornal, bem grosso - 365 páginas. Um ano! 

Esse é um ótimo começo para os diários de leitura, certo?

Então, para organizar meus pensamentos e o vídeo no meu perfil Jane Austen para Iniciantes no instagram não ficar muito longo, resolvi postar aqui antes. Me fale o que acha desta viagem com Austen.

Informações básicas primeiro

A autora Amy Elizabeth Smith é membro da JASNA, professora de literatura, solteira aos 42 anos (quando tirou o ano sabático em 2012), descrevendo sua aventura de viajar pela América Latina aprendendo espanhol e discutinho Austen com pessoas locais de 6 países: Guatemala, México, Equador, Chile, Paraguai e Argentina.

Pelo que entendi no início da leitura, ela conseguiu montar pequenos grupos de leitores em cada um desses países para discutir Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade e Emma duas vezes cada romance. Cadê Persuasão, né?

O livro é divido em partes:

- Getting started (introdução), 

1 para cada país dividida em capítulos

- Guatemala: papo de mulher

- México: razão na terra de sentimentos

- Equador: orgulho, preconceito e iguanas mansas

- Chile: Austen nos Andes

- Paraguai: suposições e Asunción

- Argentina: último tango em Highbury

- The end and the beginning (conclusão)

Cada parte tem um desenho fofo de Lucia Mancilla Prieto com detalhes do que será discutido ao redor de uma bonequinha que obviamente é a Jane da aquarela que Cassandra fez na juventude. Adorei a ideia! A capa também tem desenhos por dentro, mesmo sendo paperback (verso da capa). Também adorei.


Me parece também que seguiremos o love story a autora como seguimos Elizabeth Bennet - encantada por Wickham e acabando com Mr. Darcy. Ela começa falando de um motorista de taxi bonito e simpático do México e depois, na mesma introdução, diz 'meu noivo - talvez o taxista'... Não sei, vamos ver. A própria autora gosta da expressão "vamos a ver" em espanhol que é o mesmo em português.

Vibes de Comer, rezar, chatear

Logo de início, eu senti vibes de Comer, rezar, amar - um franquia que eu odeio! Acho chata, uma pessoa listando uma série de desculpas para as consequências de suas escolhas na vida o invés de enfrentar e construir algo melhor. Eu parei de ler quando ela chegou no 'rezar' porque não aguentava mais o mimimi infinito. Nunca vi o filme. 

E agora caí neste livro que tem bem essas vibes. Aff. Se tivesse percebido isso antes, nem tinha mostrado interesse neste livro o que levaria meu lindo filho a me presentear com uma das maravilhosas edições de Austen disponíveis na Bienal ao invés deste volume. Mas, aqui estamos...

Vamos que vamos.

Jane Austen ultrapassa páginas

A autora começa a INTRODUÇÃO contando da experiência de ensinar Austen para jovens de faculdade e como eles sempre montam uma lista de personagens que merecem uns tapas. Emma, John Thorpe, Sra. Bennet. É, concordo... mas isso já vale um papo de mil horas.

E aí ela faz uma observação boa: com Austen, a gente mergulha naquela vidinha que ela está contando diferente das Brönté que a gente observa de fora. Parei e pensei... concordo também! Que análise interessante. Tenho pouca intimidade com as B, muito menos do que tenho com Austen que é minha companheira quase que diária, e talvez por isso sempre pensei em Jane Eyre ou Morro dos ventos uivantes como obras para reverenciar. Mas e se for uma qualidade, um estilo?

Guardei isso para elocubrar mais tarde.

Contando sua história com Austen, a autora fala como introduziu um amigo em Austen Nation por O&P - eu sempre indico Lady Susan. Acho que as fofocas e mudanças de ponto de vista são encantadoras, até empolgantes. Quem não conhece Austen, certamente fica fã. Mas aqui é um homem adulto passando por um divórcio (de novo eu pensei, cadê Persuasão?). 

A indicação de Austen como cura para um coração partido é como ela fala da MAGIA DE JANE AUSTEN que eu já reconheci e até fiz uma agenda com 365 quotes diferentes - um para cada dia do ano. A pergunta da autora eu posso responder desde já: a conexão especial que as pessoas sentem ao ler Austen consegue ser traduzida?

Quando ela descreve os lugares que escolheu visitar e morar por uns meses para tocar esse projeto (de vida ou acadêmico?), ela diz que o Paraguai é misterioso e perigoso e que Buenos Aires é a 'capital literária da América do Sul'. Vixi, doeu!

Ela também se prepara para entrar na experiência de coração aberto dizendo que Austen 'não era fã de prejulgamentos e evitava preconceitos e sempre fazia questão de ler o ambiente ou a pessoa com quem conversava', mas Austen também nunca saiu da Inglaterra, nem foi muito longe de casa. 

Aí eu discordo.

Não das viagens, Austen nunca foi muito longe mesmo. Mas ela adorava um estereótipo. Todas as suas obras tinham uns grupinhos de bad boys com  um cafajeste, uma piriguete, um negligente e o mesmo com grupinhos de certinhos com mocinhas ingênuas e rapazes bons de doer. Ela sempre dava lição em quem fazia prejulgamentos, mas sempre usava desse artifício.

Ao final da introdução, eu estava curiosa com o livro, apesar de ver algumas red flags. Uma professora universitária americana com certeza ia querer encaixar pessoas da América Latina em seus moldes de ideologia marxista e isso eu não perdoo em Austen Nation. 

Mas bora lá.

Guatemala com Mr. Darcy

A primeira parte é Antigua na Guatemala onde a autora já havia passado umas semanas antes aprendendo espanhol em uma escola de idiomas com imersão. Ao invés de escolher as professoras que ela já havia conhecido antes, ela pede especificamente um professor homem que fala pouco, é sério e carrancudo. Ela o chama de misantropo, eu logo vi Mr. Darcy.

Desconfio que ela vai descobrir que o tal taxista mexicano é um embuste e vai voltar à Guatemala para os braços desse Darcy que não dá mole para ela - nem flertando, nem facilitando nas discussões em espanhol. Oh, como isso me deu vibes do livro chato...

Tem uma coisa bem interessante na detalhada descrição que ela faz deste homem udando uma descrição que vizinhos faziam de Austen: Jane era como um atiçador de lareira! Um objeto sempre presente e útil, mas silencioso, rígido e tenso, afiado e perigoso.

Ela descreve o sentimento de familiaridade melancólica de andar por Antigua como reler um Austen, voltar à Meryton de O&P ou HIghbury de Emma. Esse sentimento eu conheço bem, sempre me sinto visitando amigos quando releio Austen...

O grupo de leitura de Antigua é formado pelas professoras que ela já tinha conhecido antes mais algumas da mesma escola. São 5 mulheres adultas, casadas/divorciadas/solteiras com filhos/netos ou sem, para quem ela deu uma cópia de O&P em espanhol e mostrou o filme de 2005. A autora justifica a escolha de O&P como a obra mais popular de Austen, mas que ela não considera a melhor. Ai, doeu de novo!...

A coisa que mais gosto em livros inspirados/estudos são as análises. Sempre gosto de elocubrar sobre Austen. Olhe este trecho quando a autora tenta explicar Emma ao professor Darcy:

"Emma tem uma amiga mais nova, bem, que não é exatamente uma amiga porque é pobre, para quem Emma quer encontrar um marido de qualquer maneira, e quando ela encontra um homem que pode ser um marido para a amiga, esse homem se apaixona por Emma. Nossa! Resumindo, a trama parece bem piegas!... 

Não se trata apenas do que Austen diz no romance, é a maneira como ela diz isso, é a maneira como ela vê as coisas, a maneira como ela as diz, é ela, sua... voz. 

Não se trata das tramas, trata-se do comentário sutil da perspectiva narrativa, das inflexões cortantes, dos sorrisos linguísticos! É sobre aqueles golpes da faca satírica que você ignora se não for atencioso. É sobre a inocência do diálogo que direciona como a interpretação através de um enquadramento perfeitamente inteligente."

Perfeito! 

Sempre imagino Jane como uma pessoa que esconde o que pensa, e sempre pensa mal dos outros, julgando e imaginando segundas intenções em todo mundo. Por isso gostei tanto da Jane de Patsy Ferran em 'Miss Austen' - feinha, esperta, mousy.

Durante a estadia, ela se interessa por escritores do país, compra livros, fala de alguns enrredor e narrativas, mas não os inclui na sua jornada que em certo momento, se volta muito para a condição feminina na Guatemala naquele momento. E lá vem feminismo aguado.

Sra. Bennet é muito criticada, Charlotte também por fazer um casamento por interesse. Há uma discussão sobre a situação de Jane (solteira ou solteirona) e se ela se ressentia pelos irmãos terem tido mais educação do que ela. Acabam por decidir que O&P é sobre amor, sobre como o amor realmente é.

Eu sempre achei que fosse sobre amadurecimento.

Quando perguntadas se uma história como O&P poderia acontecer em Antigua, todas as mulheres do grupo disseram que sim. Bem, podeira e pode e acontece em qualquer lugar! Todos nós, seres humanos bichos sociais, falamos sem pensar e acreditamos na mentira mais bem contada até que a verdade e as consequências de nossos atos venham explodir na nossa cara. 

o PREÇO de Austen

Quando a autora vai mais fundo na dureza da vida da mulher adulta de Antigua, ela culpa a sociedade, como as meninas são criadas, as tradições, as raças, os preconceitos e isso e aquilo para dizer que essas 5 mulheres pagaram caro para ler O&P porque são muito ocupadas trabalhando e cuidando de casa/família. Eu pergunto: faz diferença o lugar ou o gênero da pessoa que tem responsabilidades?

Por fim, ela termina a Guatemala falando algo bonito sobre Jane:

uma mulher que escreveu um futuro incrível para si mesma, página a página 

No todo, estou gostando e continuo curiosa.

Próximo destino é o México onde ela vai cair nos braços do taxista (acho que será um Wickham).

Leia minhas impressões aqui.



Está gostando da análise? Me conta!

Leia All roads lead to Austen também.

Leia meu livro novo As anáguas de Lizzy Darcy.









sábado, 21 de junho de 2025

CARTAS DE JANE AUSTEN - um pack com as melhores dos romances da querida autora

Como Jane Austen Tecia Suas Tramas


compre o seu PACK DE CARTAS agora mesmo!

Wentworth e Edmund se declararam,

Darcy e Churchill se explicaram,

Susan contou seus planos...

Jane Austen sempre usava cartas em seus romances


No universo literário de Jane Austen, onde bailes cintilantes, conversas espirituosas e olhares furtivos ditavam o ritmo da vida social, um elemento discreto, mas de poder inquestionável, tecia as complexas tramas de seus romances: a carta. 

Jane era exímia correspondente, dizem que chegou a escrever milhares! Imagine se ela não ia incluí-las também em seus romances?!

As cartas trocadas entre personagens eram verdadeiros motores narrativos, ferramentas afiadas que Jane usava para moldar destinos, revelar segredos e aprofundar a psicologia de seus inesquecíveis protagonistas - seja no meio ou ao final das tramas.

Por isso criei o PACK DE CARTAS DOS ROMANCES FAMOSOS, um conjunto de 7 cartas escritas em fontes de caligrafia diferentes, dobradas e seladas com cera, atadas por uma fita rústica. Um mimo!


Eu estudo cartas de Jane e na época de Jane há um tempão! Veja meus estudos aqui

Na era Regencial, a comunicação por cartas era uma arte e uma necessidade. Sem telefones ou e-mails, correspondência era o principal elo entre pessoas distantes, um repositório de notícias, sentimentos e intenções. Jane Austen, com sua genialidade observacional, compreendia profundamente o potencial dramático e social desse recurso. Ela elevou a carta de um simples meio de comunicação a um dispositivo literário multifacetado, capaz de avançar a trama, desenvolver personagens de maneira sutil e, por vezes, criar um suspense de tirar o fôlego. 


Papel Multifacetado das Cartas



As cartas nos romances de Jane Austen são muito mais do que simples correspondências; elas são espelhos da alma, catalisadores de eventos e, por vezes, armas poderosas. Sua função se desdobra em diversas camadas, cada uma contribuindo para a riqueza e a complexidade das narrativas.

As cartas do PACK são:

- Orgulho e Preconceito: a carta de Mr. Darcy para Lizzy

- Persuasão: a carta do Capitão Wentworth para Anne

- Mansfield Park: a última carta de Edmund para Fanny

- Emma: a carta de Mr. Churchill que é contrabandeada para Emma

- Razão e Sensibilidade: a carta de Willoughby para Marianne

- Northanger Abbey: a carta de Isabella para Catherine

- Lady Susan: uma das cartas de Susan para Alicia


Todas cheias de Revelações de Sentimentos e Intenções



Uma das funções mais impactantes das cartas é a capacidade de expor os sentimentos e as intenções mais íntimas dos personagens, muitas vezes de uma forma que o diálogo falado não permitiria. 

Em uma sociedade onde a etiqueta e as convenções sociais ditavam o que podia ou não ser dito em voz alta, a carta oferecia um refúgio para a expressão sincera e, por vezes, dolorosa. 

O exemplo mais emblemático disso é a famosa carta de Mr. Darcy a Elizabeth Bennet em Orgulho e Preconceito. Após a humilhante recusa de Elizabeth à sua proposta de casamento, Darcy entrega-lhe uma carta detalhada. Esta missiva não é apenas uma defesa de seu caráter e uma explicação de suas ações em relação a Jane Bennet e Mr. Wickham; é uma janela para sua alma orgulhosa, revelando a profundidade de seus sentimentos por Elizabeth e a verdade por trás de sua fachada reservada. Sem essa carta, Elizabeth (e o leitor) jamais teria acesso à complexidade de Darcy, e a reviravolta em sua percepção seria impossível. A carta permite que a verdade, por mais inconveniente que seja, venha à tona, forçando Elizabeth a confrontar seus próprios preconceitos.



Moldando Percepções e Desfazendo Mal-entendidos

As cartas têm o poder de alterar drasticamente a percepção que os personagens têm uns dos outros, e consequentemente, a do leitor. 

 A já mencionada carta de Darcy é um exemplo primoroso de como uma correspondência pode remodelar uma visão. Elizabeth, inicialmente cega por seu orgulho e preconceito, é forçada a reavaliar tudo o que acreditava sobre Darcy e Wickham. A carta não apenas corrige, mas também questiona sua própria capacidade de julgamento. A correspondência, assim, torna-se um campo de batalha onde as verdades se confrontam com as percepções, e onde a ignorância dá lugar ao conhecimento.


Já imaginou ter a emoção de abrir uma carta dessas? Quebrar o lacre de cera e ler as palavras impactantes?

peça o seu PACK agora!


Avanço da Trama e Criação de Suspense

Jane Austen era uma mestra em usar as cartas como catalisadores para o avanço da trama e para a construção de suspense. Eventos cruciais, reviravoltas inesperadas e revelações chocantes são frequentemente comunicados ou desencadeados por meio de cartas, muitas vezes ocorrendo "fora de cena", mas com impacto direto na narrativa principal. 

O escândalo do rapto de Lydia Bennet por Mr. Wickham em Orgulho e Preconceito é um exemplo clássico. A notícia do elopement chega à família Bennet por meio de cartas, mergulhando-os no desespero e na vergonha. A subsequente carta de Mr. Gardiner, informando sobre o casamento de Lydia e Wickham (e a intervenção secreta de Darcy), é o que permite que a trama se desenrole para um desfecho, ainda que agridoce. 

Sem essas cartas, o leitor não teria conhecimento dos eventos que ocorrem longe dos olhos dos personagens principais, e a tensão e o drama seriam significativamente diminuídos. As cartas, portanto, funcionam como um elo vital entre os eventos, impulsionando a narrativa para frente.


Reflexo da Sociedade e Etiqueta

Além de suas funções narrativas e psicológicas, as cartas nos romances de Austen também servem como um reflexo fiel das normas sociais e da etiqueta da época. A forma como as cartas eram escritas, enviadas e recebidas, e as expectativas em torno de sua privacidade, revelam muito sobre as convenções sociais do século XIX. A quebra dessas regras, intencional ou não, frequentemente gerava drama e consequências. 

Em Razão e Sensibilidade, a falta de discrição de Marianne Dashwood ao trocar cartas apaixonadas com Willoughby, e a subsequente publicidade de sua correspondência, a expõe à fofoca e ao sofrimento. Em contraste, a prudência de Elinor em suas próprias correspondências reflete sua natureza mais reservada e racional. As cartas, assim, não apenas contam a história, mas também ilustram as complexas regras de conduta que governavam a sociedade da época, e como a transgressão dessas regras podia ter um impacto devastador na reputação e no destino de um indivíduo.


Persuasão: A Declaração Mais Romântica da Literatura



Em Persuasão, a carta de Capitão Wentworth a Anne Elliot é considerada por muitos como uma das mais belas e emocionantes declarações de amor da literatura inglesa. Escrita apressadamente após Wentworth ouvir Anne falar sobre a constância do amor feminino, a carta é um grito apaixonado de um coração que esperou por anos. "Eu sou metade agonia, metade esperança..." ele escreve, expressando a profundidade de seu sofrimento e a persistência de seu afeto. 



A carta é entregue a Anne em um momento de grande incerteza, e sua leitura sela o destino do casal. Ela permite que os dois amantes, que foram separados por anos devido a conselhos externos e mal-entendidos, finalmente se reconectem em um nível profundo e íntimo. A carta é um testemunho do poder do amor verdadeiro e da capacidade de Austen de criar momentos de intensa emoção através da palavra escrita.

É de cair de amores, não é?

Jane, por meio de seus personagens, nos escreve cartas em seus romances que são verdadeiros veículos para revelação de caráter,  construção de suspense, resolução de conflitos e a exploração das complexas normas sociais de sua época.

Elas nos permitem espiar a alma dos personagens, testemunhar suas vulnerabilidades e triunfos, e acompanhar de perto as reviravoltas que moldam seus destinos.

Através das cartas, Jane nos convida a refletir sobre a natureza da comunicação e seu impacto nas relações humanas. Em um mundo onde a troca de mensagens é instantânea e muitas vezes efêmera, a profundidade, a deliberação e o peso emocional de uma carta da era Regencial nos lembram do poder duradouro da palavra escrita. A genialidade de Austen reside em sua capacidade de usar um elemento tão comum para criar drama, humor e emoção que ressoam até hoje.


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Disponível na lojinha da Shoppee ou por INBOX no instagram


sábado, 22 de abril de 2023

Lizzy Bennet não merece perdão

 olá,

hoje eu li uma matéria no The Guardian sobre o manuscrito inacabado que Hilary Mantel, premiada autora de Wolf Hall (entre outros títulos), deixou. A manchete já diz logo que era uma fanfic de Orgulho e Preconceito, então eu me interessei na hora.

Depois vi que era sobre Mary Bennet, a irmã do meio. Perdi 50% do interesse porque Austen nunca quis dar crédito a Mary. Como sei disso? Ora, ela fez uma Bennet sob medida para Mr. Collins, mas casou o primo chato com Charlotte Lucas. Se Mary tivesse papel maior do que ser alívio cômico ao piano ou no zelotismo, ela teria ao menos dado uma doença da moda para a pobre irmã do meio - fez isso com Kitty, não foi?

Aparentemente, Mantel escolheu Mary porque considerava a personagem uma outsider como Cromwell na era Elizabetana. Olha, uma coisa que aprendi em Austenation é que todos somos donos e proprietários de Jane e cada um entende a obra dela como quer. Então, se Mantel queria ver em Mary algo que Austen não colocou, a escolha era dela.

pinterest

Isso me traz ao assunto deste post: subjetividade. 

Para isso, vou te mostrar o trecho divulgado deste manuscrito inacabado de Mantel. Reproduzo o que o Guardian postou na versão original (propriedade de Tertius Enterprises) e em tradução livre feita por mim. 

POVOCATION

An extract from Mantel’s unfinished Austen satire

Elizabeth took her new sister’s silence as a token of profundity. But I myself saw that, compared to Georgiana, my sister was Socrates. And this led me to question, in due course, whether Darcy himself were in command of any significant intellectual power. How often, I believe, we women must suppress the question? A solemn countenance, a grave manner, a pre-occupied frown; these suggest to us a mastering of life’s perplexities born of a habit of deep reflection, and vigorous examination of every fact and circumstance. Yet, but what if the frown means nothing but ill humour? If the grave and pre-occupied air means nothing but insufficiency in the face of whatever circumstances present? What if the long silences, so intimidating to my sex, are merely the consequence of having nothing to say? What if that prevailing solemnity results from a simple failure to see the joke? Reader, to think it is to know it: Darcy was a more harmless soul than we had imagined, and replete with good intentions; his silence in company proceeded, not from a conviction of natural superiority, but from a solid, sterling stupidity, such as an English gentleman alone dares display. When was Darcy ever contradicted? His every assertion was treated as scripture. When were his wishes not performed, as if they were law? Such infallible consideration must divide a man from himself: he is dull but never knows it, for he receives witty answers to witless questions. I saw that it would be Elizabeth’s lifetime work to collaborate with his innocent self-conceit. It is what she will give, in return for being mistress of Pemberley.

“Darcy believes it is going to rain!”– and the whole county must seek cover. “Darcy believes there will be a vote in the house!” and all interested parties are agog. Never mind that the sky is clear. Never mind that Parliament is prorogued. We simple souls will all agree that Darcy has power to perceive what is hidden from us, because he is a man, and a gentleman and has a park that is ten miles round. - fim do trecho.

- tradução livre -

PROVOCAÇÃO

Um trecho da sátira inacabada de Austen por H. Mantel

"Elizabeth interpretou o silêncio de sua nova irmã como um sinal de profundidade. Mas eu mesma vi que, comparada a Georgiana, minha irmã era Sócrates. E isso me levou a questionar, em sequência, se o próprio Darcy tinha comando de algum poder intelectual significativo. Quantas vezes, creio eu, nós, mulheres, devemos suprimir a pergunta? Um semblante solene, uma forma grave, uma carranca preocupada; estas expressões nos sugerem um domínio das perplexidades da vida nascido do hábito de reflexão profunda e exame vigoroso de cada fato e circunstância. No entanto, mas e se a carranca não significar nada além de mau humor? Se o ar grave e preocupado não significa nada além de frustração diante de quaisquer circunstâncias presentes? E se os longos silêncios, tão intimidantes para o meu sexo, forem apenas consequência de não ter nada a dizer? E se essa solenidade predominante resultar de uma simples falha em entender a piada? Leitor, pensar é saber: Darcy era uma alma mais inofensiva do que imaginávamos, e repleta de boas intenções; seu silêncio em companhia provinha, não de uma convicção de superioridade natural, mas de uma estupidez sólida e genuína, como só um cavalheiro inglês ousa exibir. Quando Darcy foi contrariado? Cada afirmação sua foi tratada como sagrada. Quando seus desejos não foram atendidos, como se fossem lei? Tal consideração infalível deve separar um homem de si mesmo: ele é obtuso, mas nunca sabe disso, pois recebe respostas espirituosas para perguntas sem sentido. Percebi que seria o trabalho de toda a vida de Elizabeth colaborar com sua presunção inocente. É o que ela dará em troca de ser a dona de Pemberley.

― Darcy acredita que vai chover! ―  e todo o condado deve procurar abrigo. ― Darcy acredita que haverá uma votação no parlamento! ― e todas as partes interessadas estão ansiosas. Não importa que o céu esteja claro. Não importa que a sessão no Parlamento seja adiada. Nós, almas simples, concordaremos que Darcy tem o poder de perceber o que está escondido de nós, porque ele é um homem, um cavalheiro e tem uma propriedade de dezesseis quilômetros de extensão." fim do trecho

E chegamos onde eu quero: vamos falar de Lizzy.

A divulgação desse trecho (o único polido o bastante para ser divulgado, segundo o viúvo da autora) pode ter várias razões:

  • chamar atenção atacando Mr. Darcy
  • mostrar o humor mordaz da autora
  • vender um feminismo anacrônico que ridiculariza Austen
  • provocar demanda para publicar a obra

Eu não sei se gosto do que li porque Lizzy é vista como uma interesseira que faz tudo para manter sua posição. Eu mesma já comparei Lizzy com Charlotte, elas são lados do mesmo espelho, na minha opinião. Mas o que me incomoda aqui é pintar a impulsividade vibrante de uma como a sagacidade calculada da outra.

aesthetics

Austen não nos apresentou Charlotte com 19 anos, não sabemos se ela gostava de flertar e mostrar sua inteligência, se gabava por ser esperta e julgava todo mundo por esporte. Quando a conhecemos, ela é uma jovem mulher sensata que entende a realidade feminina e precisa lidar com urgência da garantia de sua sobrevivência.

Já Lizzy nos é mostrada na flor da juventude. Vibrante, linguaruda, inconsequente, a estrela brilhante de uma família de garotas cujo patrimônio está atrelado a um herdeiro homem - que não existe. A beleza de Lizzy é justamente enfrentar a vida como se não tivesse o peso da realidade lhe puxando para baixo como uma âncora.

Ao rejeitar Mr. Collins (herdeiro do patrimônio que a sustenta) e depois Mr. Darcy (milionário), ela mostra que é regida pela emoção - reage com o fígado! Se ela pensasse mais objetivamente, teria aceitado qualquer uma das duas, por mais insuportável que fosse a convivência com um homem boçal ou com um arrogante.

Claro, a personagem amadurece (muito) ao longo da trama. Eu considero que ela tem um arco dentro do arco. Te explico. Lizzy começa arrogante e inconsequente, enfrenta desafios, quebra a cara, passa um aperto, faz as pazes consigo mesma e aceita o amor. Esse quebra a cara 'crescimento pessoal' é o arco secundário.


A mudança na personagem começa quando ela recebe a carta de Darcy. Nesta hora, Austen nos mostra claramente o quão errada Lizzy estava, é um tapa na cara!

  • ele é rico e por isso pode arcar com o custo de escrever tanto em papel caro;
  • ele entrega em mãos evitando expô-la já que solteiros honrados não deveria trocar correspondência;
  • ele conta segredos de família dizendo que confia na discrição dela;
  • ele justifica tim-tim por tim-tim a avaliação que fez do comportamento público da família dela;
  • ele avisa que não vai repetir que a ama.
Lizzy reconhece o peso dessa carta, mas nós aqui no século 21 desconhecemos o VALOR dessa comunicação e por vezes, passamos despercebidos. Daí para frente, Austen nos atropela com tantas pistas que nos sentimos humilhados como Lizzy.
Jane volta de Londres contando que nem viu Bingley, as irmãs mais novas fazem mil-e-uma titicas mostrando o quanto são insuportáveis, a tia gente-boa aparece para contar que conhece a família Darcy e fala bem deles e por último, ela aceita viajar com esses tios.
É nessa hora que Lizzy cai de joelhos. Viajar era um luxo na época, os pais dela não conseguem fazê-lo - nem sozinhos, nem com as filhas- então ela viaja na condição de convidada, de carona na diversão dos parentes. É dessa forma que ela conhece Pemberley, a casa de Mr. Darcy. E é nessa hora que ela é condenada para toda a eternidade:

... ela (Lizzy) percebeu que ser Senhora de Pemberley seria incrível!
"she felt that to be mistress of Pemberley might be something!" O&P, cap 43

Nesta fala, Austen nos mostra a epifania de Lizzy.
Caramba! Ele é um cara importante e eu agi como uma troglodita estúpida!
wifflegif

Veja bem, não é que Lizzy pense em DINHEIRO, ela pensa no ORGULHO de ter sido escolhida por um cara que tem tudo, que conhece o mundo, que já deve ter visto e conhecido garotas muito mais inteligentes ou bonitas que ela. É lisonjeiro ser notada por uma pessoa que tem horizonte mais amplo, que sabe mais do que você, que tem perspectiva. Mas ela não viu isso e foi um criança mimada fazendo pirraça.

Ah, Moira, está me dizendo que Lizzy tinha que ter aceitado os desaforos de Darcy?
Não!

Minha versão de O&P, 45 dias na Europa com Sr. Darcy, deixa claro que Lizzy tinha mesmo que fazê-lo engolir cada insulto!
O que quero dizer é que na hora que ela percebe a imponência do homem, ela passa a dar valor ao sentimento dele, mais do que - ou talvez tanto quanto - a fortuna que ele tem. E ela quebra a cara reconhecendo que entendeu tudo errado.
No entanto, para o mundo, Lizzy não merece perdão já que entende-se que ela é uma material girl encantada com dinheiro.
Assim eu te trago de volta ao texto de Mantel. Veja.

"Percebi que seria o trabalho de toda a vida de Elizabeth colaborar com a presunção inocente de seu marido idiota. 
É o que ela dará em troca de ser a dona de Pemberley."

Entendi errado? 
Não era para onde ela ia levar minha querida Lizzy Bennet?

gifer - The Lizzy Bennet Diaries

até mais,
M.

Leia minhas versões respeitosas e fofas de Orgulho e Preconceito

domingo, 28 de agosto de 2022

Persuasão detalhada em temas

Olá! Ainda quer saber de Persuasão?

the envoy web

Eu adoro Jane Austen, adoro estudá-la, mas até eu já estou achando que estou enchendo seu saco! Quanto mais eu mexo, mais acho. Tentei juntar o que era mais explicativo de sua última obra completa - e em muitos aspectos diferente das anteriores.

Até agora já postei:

Separei então 19 temas para te trazer como fechamento desse estudo e te mostro em dois posts. Neste agora trago Convencimento, Esferas separadas, Casamento, Cavalheiro perfeito, Rigidez de classes e mobilidade social, Sociedade e classe, Criadagem, Gênero e Memória & passado.

No próximo vou te contar de: Juventude x maturidade, Insensatez, Vaidade, Família, Pais tolos, Amizade, Agressividade viril, Doença, Aparências e Caminhadas 

Se você leu os outros posts, nem tudo vai ser novidade, mas agora tenho a chance de ir um pouco mais fundo e comparar com outras obras de Austen.

Aqui está...

rolling stones - Um brinde a Persuasão!!

TEMAS DE PERSUASÃO

1ª parte

Claro, Persuasão como convencimento é um dos temas principais do romance e aparece de várias formas em tons pejorativos e elogiosos, mas não é o único. A obra tem vários temas/assuntos importantes, trata de diversas vertentes dos relacionamentos humanos.

Sabemos que ‘Persuasão’ não foi um título escolhido por Jane Austen que faleceu antes de ver a publicação deste que foi seu último romance completo. O manuscrito dela era chamado de “The Elliots” e foi rebatizado por seus irmãos posteriormente. 

A julgar pela quantidade de cores que Persuasão nos mostra, essa escolha de título poderia ter sido bem diferente!

Vamos a eles:

Persuasão

Hoje, a persuasão/convencimento é um grande negócio, o marketing usa de diversas ferramentas para nos convencer de tudo o dia todo. Notícias, fake news, mensagens subliminares nas produções audiovisuais e musicais, propagandas em geral, outdoors, tweets, rótulos de produtos - é praticamente impossível resistir às tentativas de nos persuadir a comprar ou acreditar em algo. Na época de Austen, havia propaganda também (mesmo que os meios de comunicações tivessem menos alcance), e portanto avançava dos limites das relações familiares e amizades pessoais.

O romance retrata a persuasão como uma ferramenta poderosa, mas não a declara certa ou errada – depende de quem a usa e para quais fins. Um conselho útil, por exemplo, pode levar uma pessoa a uma decisão ruim ou a uma crença falsa. Anne Elliot sofre com suas escolhas e ao final, decide por si própria. 

Na época, como agora, precisamos contar com nosso próprio julgamento para encontrar um meio-termo entre acreditar no que ouvimos ou simplesmente ignorar. O romance questiona se é melhor ser firme em suas convicções ou estar aberto às sugestões dos outros. 

Depois de ter o coração partido por Anne que, oito anos antes seguiu conselhos para terminar o noivado, o capitão Wentworth decide que só se casará  com uma mulher de caráter forte e uma mente independente. Anne não discorda que essas são boas qualidades, mas também tem grande senso de obrigação e dever. Ao final do romance, ela conclui que era certo que ela se deixasse persuadir porque "um forte senso de dever não é parte ruim da porção de uma mulher" (cap 23) e Austen deixa para o leitor julgar se a persuasão é uma força positiva ou negativa no romance.

O tema titular do romance, a persuasão é tanto a essência quanto o principal conflito amoroso da história. Depois de quase oito anos de arrependimento, ambos os personagens lutam com sua raiva, dor e remorso e – eventualmente – tentam persuadir o outro a dar outra chance ao seu amor, apesar da decepção e desconfiança. 

Outros personagens também desenvolvem esse tema. Esteja alguém persuadindo, sendo persuadido ou encorajando alguém a persuadir outro, o tema serve como uma fonte constante de tensão. Tem sempre alguém querendo convencer alguém a fazer alguma coisa, não é mesmo?

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Esferas Separadas

A ideia de esferas separadas era uma doutrina do século XIX de que existem dois domínios da vida: o público e o doméstico. Tradicionalmente, o homem estaria encarregado do domínio público (finanças, questões legais, etc.), enquanto a mulher estaria encarregada do domínio privado (administrar a casa, criados, crianças, etc.). 

Navegando na sociedade, as mulheres geralmente se envolvem em decisões românticas por causa de limitações sociais estritas. No capítulo 4, vemos que Lady Russell, que influenciou Anne Elliot a romper seu noivado com o capitão Wentworth, a incentivou a se casar com Charles Musgrove. Lady Russell escolhe para sua afilhada um homem que Anne não ama porque, como filho primogênito do sr. Musgrove, sua "ele só fica atrás de Sir Walter em importância naquele condado ". Na maioria das vezes, os casamentos parecem mais um jogo de estratégia, e o amor é raro. 

Persuasão questiona a ideia de esferas separadas ao apresentar os Crofts. Apresentados como um exemplo de um casamento feliz e ideal, o Almirante e a Sra. Croft compartilham as esferas de suas vidas. A Sra. Croft se junta ao marido em seus navios no mar, e o Almirante Croft fica feliz em ajudar sua esposa nas tarefas domésticas. Eles têm uma parceria tão grande que até dividem a tarefa de dirigir uma carruagem. Austen, neste romance, desafia a noção predominante de esferas separadas.

Casamento

O casamento é outro motivo que desempenha um forte papel nos romances de Austen e muitas vezes é mal compreendido. Apesar do forte apelo romântico, o que está escondido nas camadas mais profundas é a sobrevivência feminina na rigidez das convenções sociais. 

Casamento, portanto, é mais a consumação de um caso de amor; o casamento determina diretamente as posições sociais na sociedade. Indivíduos, classes, títulos e realizações são medidos e pesados na consideração de um casamento. O namoro e noivado que antecedem a cerimônia permitem que amigos e familiares opinem sobre a adequação da união. O casamento serve, assim, como uma espécie de parâmetro social para medir e comparar os personagens do romance.

A fofoca constante em torno da busca do casamento, ou noivado, mostra o quanto a sociedade valorizava o casamento. Pelas conversas frequentes ao longo do romance, torna-se evidente para os leitores que o motivo para se casar é geralmente manter ou melhorar sua posição social. 

No cap 4, o exemplo básico é o noivado do Capitão Wentworth e Anne Elliot. Por causa do título de seu pai e da falta de dinheiro e antecedentes familiares de Wentworth, outros viram o noivado como inapropriado, apesar da adequação do caráter do casal e do profundo que os unia. No cap 21, até a Sra. Smith, que conhece intimamente a crueldade de William Elliot, insiste que seus sentimentos românticos por Anne são genuínos e tenta convencê-la a considerar se casar com ele. Ela insiste: "Sua paz não naufragará como a minha. Você está segura em todos os assuntos mundanos."

Embora Persuasão seja um romance segundo as definições objetivas (veja a wikipedia: Romance é um gênero de ficção com foco principal no relacionamento e no amor romântico entre duas pessoas e geralmente tem um final emocionalmente satisfatório e otimista.), esta obra também apresenta algumas ideias realistas (pouco românticas) sobre o casamento. 

Mostrando vários pares ao longo da trama (p.e. os Mugroves seniors e juniores), Austen nos conta que nem sempre é possível casar e viver feliz para sempre. É provável que depois do casamento, se perceba que o amado não é tudo o que parecia ser. 

Os personagens sortudos conseguem descobrir isso antes de atarem os laços do matrimônio, e os ainda mais sortudos acabam com um casamento feliz de qualquer maneira. Charlotte Lucas já havia nos dito isso em Orgulho e Preconceito: “... desejo sucesso a Jane de todo o coração; e se ela se casasse com ele amanhã, eu penso que ela teria uma chance tão boa de felicidade quanto se ela estivesse estudando o caráter dele (Sr. Bingley) por doze meses. A felicidade no casamento é inteiramente uma questão de sorte. Se as personalidades do casa são tão conhecidas ou tão semelhantes de antemão, isso não assegura em nada a sua felicidade. As pessoas sempre continuam a mudar, o que causa aborrecimento; e é melhor saber o mínimo possível dos defeitos da pessoa com quem você vai passar a vida.” (cap 6)

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E veja que Austen não restringe felicidade matrimonial ao mais idosos. Tanto os Crofts quanto os Harville são bastante felizes. 

A oposição do romance a longos noivados sugere que é impossível ter certeza do caráter do cônjuge antes de se casar com ele e que a escolha de um cônjuge deve ser baseada no instinto, e não no julgamento ponderado. Anne estava certa o tempo todo, pena que ouviu os outros...

“Se prestarmos atenção, todos nós temos um melhor conselheiro em nós mesmos do que qualquer outra pessoa pode ser.” Mansfield Park, cap 42

Cavalheiro perfeito

Persuasão apresenta duas versões muito diferentes do cavalheiro inglês. De um lado está Sir Walter, o homem tradicional, proprietário de terras, titulado, que evita o trabalho e busca conforto. Por outro lado estão o Capitão Wentworth e o Almirante Croft. Ambos os oficiais navais são trabalhadores que fizeram suas próprias fortunas. Embora suas maneiras sejam impecáveis, eles não são do mesmo alto nível social de Sir Walter. 

Nesse período da história inglesa, a definição de 'cavalheiro' estava se tornando cada vez mais flexível; este romance reflete essa mudança.

Há que se lembrar da influência da guerra nas esferas sociais. Um conflito de grande porte altera a economia, as taxas de mortalidade, a sobrevivência das famílias e tantos outros aspectos da vida civil. Era um momento de revolução social para todos.

Rigidez de Classe e Mobilidade Social

As questões de rigidez de classe e mobilidade social são temas importantes em Persuasão. Ela determina onde você mora, o que você come, quem você vê e sobre o que você fala.  Austen é conservadora em seu respeito às tradições de classe, reconhece regras e limites para a ambição social. Solteira com irmãos tanto na carreira militar quanto herdeiros, ela defendia os valores e tradições de respeito pela estrutura social. 

 Ela não era uma revolucionária, no entanto, é sutilmente subversiva, ou inconformada, em como fala da mobilidade social. Mulheres contavam com o casamento para manter sua posição social (Elizabeth) e subir (Sra. Clay). Homens tinham a chance de subir na vida por herança (Primo Elliot) e carreira na marinha (Capt Wentworth). 

Como forma positiva de subir gradualmente e com esforço, ela coloca a Marinha. Já o Sr. Elliot e a Sra. Clay são punidos pelo egoísmo que mostram ao ultrapassar seus limites e quebrar essas regras. 

Todas as alternativas têm altos custos e os personagens mostram o quanto se esforçam para alcançar esses objetivos.

Sociedade e classe

Os personagens de Persuasão estão tentando se adaptar a uma sociedade em que as fronteiras de classe são mais abertas do que costumavam ser – talvez devido às mudanças vindas das guerras Napoleônicas. 

Em muitos casos, personagens se apegam firmemente à estrutura de classe tradicional e rígida. Outros, no entanto, são mais abertos a julgar as pessoas com base em suas personalidades individuais. As fronteiras sociais em mudança não significam que as distinções de classe estão desaparecendo, mas mostra evolução e adaptação.

Vemos a decadência da aristocracia na vaidade do Sir Elliot e vazieira da Viscondessa Dalrimple, o que contrasta com a vida de amor do Capitão Harville e Almirante Croft. É a dicotomia entre riqueza monetária x riqueza familiar x posição social.

E nisso está a redenção de Wentworth que perseguiu a riqueza financeira e privilégios da classe alta, mantendo aparência e maneiras. 

Apesar da cordialidade, existe uma tensão entre os círculos sociais, mesmo aqueles com vínculos matrimoniais, como os Musgrove e os Hayter. Os homens da marinha (Almirante Croft, Capitão Benwick e Capitão Wentworth) são relutantemente aceitos pelos círculos sociais mais elevados, e isso somente quando alcançam posição social impulsionada por fortuna significativa.

Criadagem

Que papel os criados quase invisíveis desempenham em Persuasão? Talvez o mesmo que em Orgulho e Preconceito?

Austen raramente dava voz à criadagem, isso é muito curioso. Em OeP vemos a governanta de Pemberley corroborar a boa índole de Mr. Darcy e alguém misterioso contando do pedido de casamento de Mr. Darcy para Sr. Collins que conta para Lady Catherine que vai importunar Elizabeth. Teria sido uma criada?

Veja essa fala de Mary no cap 6: "A Sra. Musgrove acha que todos os seus criados são tão confiáveis que seria alta traição questioná-los; mas tenho certeza, sem exagero, que sua criada de chambre e sua lavadeira, em vez de trabalhaem, estão fofocando pela vila o dia todo. Eu as encontro onde quer que eu vá; e digo que nunca entro duas vezes no meu berçário sem ver algo delas. Se Jemima não fosse a criatura mais confiável e estável do mundo, bastaria mimá-la; porque ela me diz que elas estão sempre lhe tentando a passear com elas."

Conseguimos perfeitamente imaginar a fofocalhada que devia rolar entre o cottage e a big house de Uppercross e como Mary se beneficiava disso.

Gênero

Embora Persuasão às vezes sugira diferenças fundamentais entre os sexos, também sugere que essas diferenças se devem às diferentes expectativas e oportunidades sociais aplicadas a homens e mulheres na época. 

Enquanto se espera que os homens do romance ‘vivam no mundo’ e façam o melhor de si, as mulheres de uma certa classe social têm que ficar perto de casa, gostem ou não. O final do romance, no entanto, com seus elogios às "virtudes domésticas" da marinha (cap 24), sugere que a vida doméstica é melhor quando homens e mulheres estão em pé de igualdade.

Austen devia ter isso muito claro na mente, talvez porque viu seus irmãos homens ganharem o mundo enquanto ela e Cassandra ficaram em casa com os pais. Ela discute esse tema em Lady Susan de forma enviesada mostrando todas as tramoias que a protagonista precisa fazer para sobreviver enquanto os herdeiros (tanto seu cunhado quanto o cunhado dele) somente precisam... herdar.

As diferenças de gênero no romance rodam em torno da impossibilidade das mulheres ‘gentile’ em ganhar a vida, enquanto aos homens é permitido angariar poder e mobilidade. Elas não podem escapar de suas famílias (são filhas até serem esposas) e isso limita como sua identidade pode se desenvolver.

Em Orgulho e Preconceito, vemos a superioridade que Mr Darcy tem sobre Elizabeth devido ao seu conhecimento do mundo já que ela vive na sua vila e depende dos tios para viajar um pouco. E em Abadia de Northanger, o adorável Mr. Tilney se encanta com a inocência de Catherine em contraponto com a dureza que ele enfrenta em sua vida masculina.

Voltando a Persuasão, vemos os personagens masculinos e femininos pensando em casamento, cada qual querendo algo diferente da união. Mesmo se divididos em núcleos com Anne e Wentworth opostos a Elizabeth e o primo Elliot, cada qual tem suas razões. Veja algumas:


é tudo muito confuso mesmo, igual à vida...

Anne – Wentworth liberdade da família

Wentworth – Anne companheira para vida que ele vive

Elizabeth – manter o status, ao menos

Sr. Elliot – herdar o legado 

No final do romance, Anne e o Capitão Harville têm uma longa discussão sobre diferenças de gênero. O resto do romance reforça ou enfraquece alguma parte dessa discussão?

Há quem defenda que o enredo Persuasão depende das diferenças de gênero, quanto outros preferem olhar a trama pela ótica da importância do amadurecimento pelo qual os personagens passam – cada qual a seu nível.

Memória e passado

O passado não é facilmente esquecido em Persuasão. De fato, aqueles que romperam totalmente com o passado para se reinventar são vistos com desconfiança. E, no entanto, apegar-se demais ao passado também pode ser um problema. No final do romance, os personagens mais bem-sucedidos são aqueles que são capazes de aprender com suas experiências passadas mantendo a perspectiva.

Talvez Persuasão seja um romance sobre ambiguidade.

No final do romance, o capitão Wentworth diz que suas memórias o deixaram cego para o presente, mostrando o quanto suas dores o moldaram. 

Memórias moldam vários personagens além de Anne e Wentworth. Sir Elliot sente falta da esposa, Capitão Benwick sofre pela noiva (como Cassandra deve ter sofrido), Sra. Smith que perdeu o marido (e com isso, sua subsistência).


Veja a segunda parte deste post aqui.

fonte: meus arquivos pessoais, study.com, schmoop, reddit, spark notes, Jane Austen and the navy, wikipedia


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