& Moira Bianchi: Persuasão detalhada em temas

domingo, 28 de agosto de 2022

Persuasão detalhada em temas

Olá! Ainda quer saber de Persuasão?

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Eu adoro Jane Austen, adoro estudá-la, mas até eu já estou achando que estou enchendo seu saco! Quanto mais eu mexo, mais acho. Tentei juntar o que era mais explicativo de sua última obra completa - e em muitos aspectos diferente das anteriores.

Até agora já postei:

Separei então 19 temas para te trazer como fechamento desse estudo e te mostro em dois posts. Neste agora trago Convencimento, Esferas separadas, Casamento, Cavalheiro perfeito, Rigidez de classes e mobilidade social, Sociedade e classe, Criadagem, Gênero e Memória & passado.

No próximo vou te contar de: Juventude x maturidade, Insensatez, Vaidade, Família, Pais tolos, Amizade, Agressividade viril, Doença, Aparências e Caminhadas 

Se você leu os outros posts, nem tudo vai ser novidade, mas agora tenho a chance de ir um pouco mais fundo e comparar com outras obras de Austen.

Aqui está...

rolling stones - Um brinde a Persuasão!!

TEMAS DE PERSUASÃO

1ª parte

Claro, Persuasão como convencimento é um dos temas principais do romance e aparece de várias formas em tons pejorativos e elogiosos, mas não é o único. A obra tem vários temas/assuntos importantes, trata de diversas vertentes dos relacionamentos humanos.

Sabemos que ‘Persuasão’ não foi um título escolhido por Jane Austen que faleceu antes de ver a publicação deste que foi seu último romance completo. O manuscrito dela era chamado de “The Elliots” e foi rebatizado por seus irmãos posteriormente. 

A julgar pela quantidade de cores que Persuasão nos mostra, essa escolha de título poderia ter sido bem diferente!

Vamos a eles:

Persuasão

Hoje, a persuasão/convencimento é um grande negócio, o marketing usa de diversas ferramentas para nos convencer de tudo o dia todo. Notícias, fake news, mensagens subliminares nas produções audiovisuais e musicais, propagandas em geral, outdoors, tweets, rótulos de produtos - é praticamente impossível resistir às tentativas de nos persuadir a comprar ou acreditar em algo. Na época de Austen, havia propaganda também (mesmo que os meios de comunicações tivessem menos alcance), e portanto avançava dos limites das relações familiares e amizades pessoais.

O romance retrata a persuasão como uma ferramenta poderosa, mas não a declara certa ou errada – depende de quem a usa e para quais fins. Um conselho útil, por exemplo, pode levar uma pessoa a uma decisão ruim ou a uma crença falsa. Anne Elliot sofre com suas escolhas e ao final, decide por si própria. 

Na época, como agora, precisamos contar com nosso próprio julgamento para encontrar um meio-termo entre acreditar no que ouvimos ou simplesmente ignorar. O romance questiona se é melhor ser firme em suas convicções ou estar aberto às sugestões dos outros. 

Depois de ter o coração partido por Anne que, oito anos antes seguiu conselhos para terminar o noivado, o capitão Wentworth decide que só se casará  com uma mulher de caráter forte e uma mente independente. Anne não discorda que essas são boas qualidades, mas também tem grande senso de obrigação e dever. Ao final do romance, ela conclui que era certo que ela se deixasse persuadir porque "um forte senso de dever não é parte ruim da porção de uma mulher" (cap 23) e Austen deixa para o leitor julgar se a persuasão é uma força positiva ou negativa no romance.

O tema titular do romance, a persuasão é tanto a essência quanto o principal conflito amoroso da história. Depois de quase oito anos de arrependimento, ambos os personagens lutam com sua raiva, dor e remorso e – eventualmente – tentam persuadir o outro a dar outra chance ao seu amor, apesar da decepção e desconfiança. 

Outros personagens também desenvolvem esse tema. Esteja alguém persuadindo, sendo persuadido ou encorajando alguém a persuadir outro, o tema serve como uma fonte constante de tensão. Tem sempre alguém querendo convencer alguém a fazer alguma coisa, não é mesmo?

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Esferas Separadas

A ideia de esferas separadas era uma doutrina do século XIX de que existem dois domínios da vida: o público e o doméstico. Tradicionalmente, o homem estaria encarregado do domínio público (finanças, questões legais, etc.), enquanto a mulher estaria encarregada do domínio privado (administrar a casa, criados, crianças, etc.). 

Navegando na sociedade, as mulheres geralmente se envolvem em decisões românticas por causa de limitações sociais estritas. No capítulo 4, vemos que Lady Russell, que influenciou Anne Elliot a romper seu noivado com o capitão Wentworth, a incentivou a se casar com Charles Musgrove. Lady Russell escolhe para sua afilhada um homem que Anne não ama porque, como filho primogênito do sr. Musgrove, sua "ele só fica atrás de Sir Walter em importância naquele condado ". Na maioria das vezes, os casamentos parecem mais um jogo de estratégia, e o amor é raro. 

Persuasão questiona a ideia de esferas separadas ao apresentar os Crofts. Apresentados como um exemplo de um casamento feliz e ideal, o Almirante e a Sra. Croft compartilham as esferas de suas vidas. A Sra. Croft se junta ao marido em seus navios no mar, e o Almirante Croft fica feliz em ajudar sua esposa nas tarefas domésticas. Eles têm uma parceria tão grande que até dividem a tarefa de dirigir uma carruagem. Austen, neste romance, desafia a noção predominante de esferas separadas.

Casamento

O casamento é outro motivo que desempenha um forte papel nos romances de Austen e muitas vezes é mal compreendido. Apesar do forte apelo romântico, o que está escondido nas camadas mais profundas é a sobrevivência feminina na rigidez das convenções sociais. 

Casamento, portanto, é mais a consumação de um caso de amor; o casamento determina diretamente as posições sociais na sociedade. Indivíduos, classes, títulos e realizações são medidos e pesados na consideração de um casamento. O namoro e noivado que antecedem a cerimônia permitem que amigos e familiares opinem sobre a adequação da união. O casamento serve, assim, como uma espécie de parâmetro social para medir e comparar os personagens do romance.

A fofoca constante em torno da busca do casamento, ou noivado, mostra o quanto a sociedade valorizava o casamento. Pelas conversas frequentes ao longo do romance, torna-se evidente para os leitores que o motivo para se casar é geralmente manter ou melhorar sua posição social. 

No cap 4, o exemplo básico é o noivado do Capitão Wentworth e Anne Elliot. Por causa do título de seu pai e da falta de dinheiro e antecedentes familiares de Wentworth, outros viram o noivado como inapropriado, apesar da adequação do caráter do casal e do profundo que os unia. No cap 21, até a Sra. Smith, que conhece intimamente a crueldade de William Elliot, insiste que seus sentimentos românticos por Anne são genuínos e tenta convencê-la a considerar se casar com ele. Ela insiste: "Sua paz não naufragará como a minha. Você está segura em todos os assuntos mundanos."

Embora Persuasão seja um romance segundo as definições objetivas (veja a wikipedia: Romance é um gênero de ficção com foco principal no relacionamento e no amor romântico entre duas pessoas e geralmente tem um final emocionalmente satisfatório e otimista.), esta obra também apresenta algumas ideias realistas (pouco românticas) sobre o casamento. 

Mostrando vários pares ao longo da trama (p.e. os Mugroves seniors e juniores), Austen nos conta que nem sempre é possível casar e viver feliz para sempre. É provável que depois do casamento, se perceba que o amado não é tudo o que parecia ser. 

Os personagens sortudos conseguem descobrir isso antes de atarem os laços do matrimônio, e os ainda mais sortudos acabam com um casamento feliz de qualquer maneira. Charlotte Lucas já havia nos dito isso em Orgulho e Preconceito: “... desejo sucesso a Jane de todo o coração; e se ela se casasse com ele amanhã, eu penso que ela teria uma chance tão boa de felicidade quanto se ela estivesse estudando o caráter dele (Sr. Bingley) por doze meses. A felicidade no casamento é inteiramente uma questão de sorte. Se as personalidades do casa são tão conhecidas ou tão semelhantes de antemão, isso não assegura em nada a sua felicidade. As pessoas sempre continuam a mudar, o que causa aborrecimento; e é melhor saber o mínimo possível dos defeitos da pessoa com quem você vai passar a vida.” (cap 6)

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E veja que Austen não restringe felicidade matrimonial ao mais idosos. Tanto os Crofts quanto os Harville são bastante felizes. 

A oposição do romance a longos noivados sugere que é impossível ter certeza do caráter do cônjuge antes de se casar com ele e que a escolha de um cônjuge deve ser baseada no instinto, e não no julgamento ponderado. Anne estava certa o tempo todo, pena que ouviu os outros...

“Se prestarmos atenção, todos nós temos um melhor conselheiro em nós mesmos do que qualquer outra pessoa pode ser.” Mansfield Park, cap 42

Cavalheiro perfeito

Persuasão apresenta duas versões muito diferentes do cavalheiro inglês. De um lado está Sir Walter, o homem tradicional, proprietário de terras, titulado, que evita o trabalho e busca conforto. Por outro lado estão o Capitão Wentworth e o Almirante Croft. Ambos os oficiais navais são trabalhadores que fizeram suas próprias fortunas. Embora suas maneiras sejam impecáveis, eles não são do mesmo alto nível social de Sir Walter. 

Nesse período da história inglesa, a definição de 'cavalheiro' estava se tornando cada vez mais flexível; este romance reflete essa mudança.

Há que se lembrar da influência da guerra nas esferas sociais. Um conflito de grande porte altera a economia, as taxas de mortalidade, a sobrevivência das famílias e tantos outros aspectos da vida civil. Era um momento de revolução social para todos.

Rigidez de Classe e Mobilidade Social

As questões de rigidez de classe e mobilidade social são temas importantes em Persuasão. Ela determina onde você mora, o que você come, quem você vê e sobre o que você fala.  Austen é conservadora em seu respeito às tradições de classe, reconhece regras e limites para a ambição social. Solteira com irmãos tanto na carreira militar quanto herdeiros, ela defendia os valores e tradições de respeito pela estrutura social. 

 Ela não era uma revolucionária, no entanto, é sutilmente subversiva, ou inconformada, em como fala da mobilidade social. Mulheres contavam com o casamento para manter sua posição social (Elizabeth) e subir (Sra. Clay). Homens tinham a chance de subir na vida por herança (Primo Elliot) e carreira na marinha (Capt Wentworth). 

Como forma positiva de subir gradualmente e com esforço, ela coloca a Marinha. Já o Sr. Elliot e a Sra. Clay são punidos pelo egoísmo que mostram ao ultrapassar seus limites e quebrar essas regras. 

Todas as alternativas têm altos custos e os personagens mostram o quanto se esforçam para alcançar esses objetivos.

Sociedade e classe

Os personagens de Persuasão estão tentando se adaptar a uma sociedade em que as fronteiras de classe são mais abertas do que costumavam ser – talvez devido às mudanças vindas das guerras Napoleônicas. 

Em muitos casos, personagens se apegam firmemente à estrutura de classe tradicional e rígida. Outros, no entanto, são mais abertos a julgar as pessoas com base em suas personalidades individuais. As fronteiras sociais em mudança não significam que as distinções de classe estão desaparecendo, mas mostra evolução e adaptação.

Vemos a decadência da aristocracia na vaidade do Sir Elliot e vazieira da Viscondessa Dalrimple, o que contrasta com a vida de amor do Capitão Harville e Almirante Croft. É a dicotomia entre riqueza monetária x riqueza familiar x posição social.

E nisso está a redenção de Wentworth que perseguiu a riqueza financeira e privilégios da classe alta, mantendo aparência e maneiras. 

Apesar da cordialidade, existe uma tensão entre os círculos sociais, mesmo aqueles com vínculos matrimoniais, como os Musgrove e os Hayter. Os homens da marinha (Almirante Croft, Capitão Benwick e Capitão Wentworth) são relutantemente aceitos pelos círculos sociais mais elevados, e isso somente quando alcançam posição social impulsionada por fortuna significativa.

Criadagem

Que papel os criados quase invisíveis desempenham em Persuasão? Talvez o mesmo que em Orgulho e Preconceito?

Austen raramente dava voz à criadagem, isso é muito curioso. Em OeP vemos a governanta de Pemberley corroborar a boa índole de Mr. Darcy e alguém misterioso contando do pedido de casamento de Mr. Darcy para Sr. Collins que conta para Lady Catherine que vai importunar Elizabeth. Teria sido uma criada?

Veja essa fala de Mary no cap 6: "A Sra. Musgrove acha que todos os seus criados são tão confiáveis que seria alta traição questioná-los; mas tenho certeza, sem exagero, que sua criada de chambre e sua lavadeira, em vez de trabalhaem, estão fofocando pela vila o dia todo. Eu as encontro onde quer que eu vá; e digo que nunca entro duas vezes no meu berçário sem ver algo delas. Se Jemima não fosse a criatura mais confiável e estável do mundo, bastaria mimá-la; porque ela me diz que elas estão sempre lhe tentando a passear com elas."

Conseguimos perfeitamente imaginar a fofocalhada que devia rolar entre o cottage e a big house de Uppercross e como Mary se beneficiava disso.

Gênero

Embora Persuasão às vezes sugira diferenças fundamentais entre os sexos, também sugere que essas diferenças se devem às diferentes expectativas e oportunidades sociais aplicadas a homens e mulheres na época. 

Enquanto se espera que os homens do romance ‘vivam no mundo’ e façam o melhor de si, as mulheres de uma certa classe social têm que ficar perto de casa, gostem ou não. O final do romance, no entanto, com seus elogios às "virtudes domésticas" da marinha (cap 24), sugere que a vida doméstica é melhor quando homens e mulheres estão em pé de igualdade.

Austen devia ter isso muito claro na mente, talvez porque viu seus irmãos homens ganharem o mundo enquanto ela e Cassandra ficaram em casa com os pais. Ela discute esse tema em Lady Susan de forma enviesada mostrando todas as tramoias que a protagonista precisa fazer para sobreviver enquanto os herdeiros (tanto seu cunhado quanto o cunhado dele) somente precisam... herdar.

As diferenças de gênero no romance rodam em torno da impossibilidade das mulheres ‘gentile’ em ganhar a vida, enquanto aos homens é permitido angariar poder e mobilidade. Elas não podem escapar de suas famílias (são filhas até serem esposas) e isso limita como sua identidade pode se desenvolver.

Em Orgulho e Preconceito, vemos a superioridade que Mr Darcy tem sobre Elizabeth devido ao seu conhecimento do mundo já que ela vive na sua vila e depende dos tios para viajar um pouco. E em Abadia de Northanger, o adorável Mr. Tilney se encanta com a inocência de Catherine em contraponto com a dureza que ele enfrenta em sua vida masculina.

Voltando a Persuasão, vemos os personagens masculinos e femininos pensando em casamento, cada qual querendo algo diferente da união. Mesmo se divididos em núcleos com Anne e Wentworth opostos a Elizabeth e o primo Elliot, cada qual tem suas razões. Veja algumas:


é tudo muito confuso mesmo, igual à vida...

Anne – Wentworth liberdade da família

Wentworth – Anne companheira para vida que ele vive

Elizabeth – manter o status, ao menos

Sr. Elliot – herdar o legado 

No final do romance, Anne e o Capitão Harville têm uma longa discussão sobre diferenças de gênero. O resto do romance reforça ou enfraquece alguma parte dessa discussão?

Há quem defenda que o enredo Persuasão depende das diferenças de gênero, quanto outros preferem olhar a trama pela ótica da importância do amadurecimento pelo qual os personagens passam – cada qual a seu nível.

Memória e passado

O passado não é facilmente esquecido em Persuasão. De fato, aqueles que romperam totalmente com o passado para se reinventar são vistos com desconfiança. E, no entanto, apegar-se demais ao passado também pode ser um problema. No final do romance, os personagens mais bem-sucedidos são aqueles que são capazes de aprender com suas experiências passadas mantendo a perspectiva.

Talvez Persuasão seja um romance sobre ambiguidade.

No final do romance, o capitão Wentworth diz que suas memórias o deixaram cego para o presente, mostrando o quanto suas dores o moldaram. 

Memórias moldam vários personagens além de Anne e Wentworth. Sir Elliot sente falta da esposa, Capitão Benwick sofre pela noiva (como Cassandra deve ter sofrido), Sra. Smith que perdeu o marido (e com isso, sua subsistência).


Veja a segunda parte deste post aqui.

fonte: meus arquivos pessoais, study.com, schmoop, reddit, spark notes, Jane Austen and the navy, wikipedia


O que você acha?

Me fala aqui nos comentários o que você está achando.

Aqui você acha minhas PESQUISAS SOBRE JANE AUSTEN , 

inclusive os outros posts de Persuasão


te mostro JUVENÍLIA de Jane Austen na íntegra!

    


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