domingo, 29 de novembro de 2020

Compras, liberdade feminina e black friday: adoro!

Olá!

Black Friday chegou e passou, mas o Natal bate à nossa porta. Além de uva passa, parente serpente e show do rei RC, essa época significa:

COMPRAS!

Comprando anel de noivado, Bertha ficou famosa por ter dedos extremamente finos' - gravura da metade do século 19 - disponível na Amazon

Sabe qual é a importância desse 'hobby' para o universo feminino?

Ajudou muito o desenvolvimento das empresas de cartão de crédito, sim, mas ir às compras agiu principalmente no tocante da conquista da independência feminina.

Passear livremente

As mulheres eram confinadas às suas casas que não eram apenas confortáveis, mas consideradas o único lugar seguro para elas. Essa proteção era mais figurativa do que literal; na época, apenas ser olhado por uma pessoa “indesejável” era considerado um insulto a mulheres “respeitáveis”. Então, era comum o comércio a domicílio.

Antigamente, mascates visitavam casas vendendo de tudo um pouco: fitas, botões, tecidos, móveis, serviços de cabeleireiro, retratista, etc. Era assim na época de Jane Austen, aqui no Brasil Colonial, nos EUA. Bem me lembro da visita do mascate na minissérie Alias Grace (passado no Canadá de 1843). Já viu?

tumblr


Vale lembrar o que já comentei aqui em outros posts, a situação feminina nos séculos 18 e 19 era muito diferente da nossa no século 21. Naquela época, a mulher era um pacote que devia ser carregado para cá e para lá pelo homem da família - fosse ele pai, irmão, sobrinho, cunhado. Sair de casa sozinha era proibido, elas deviam estar sempre acompanhadas por um parente ou uma chaparone, essa função sim poderia ser ocupada por outra mulher - criada, mãe, preceptora, avó. Liberdade elas tinham dentro de casa - mas nunca na frente de criados. As mais empobrecidas tinham mobilidade porque precisavam trabalhar para sobreviver, iam e vinham cumprindo ordens dos patrões, viviam do sexo ou das artes (ambas funções condenadas) e com isso, estavam mais expostas aos riscos oferecidos pelos homens tarados. 

Parece exagero e bobeira, mas não era. Se tiver saco, leia este artigo que compila arquivos de tribunais do final da era Vitoriana e Eduardiana, a tendência de questionar a respeitabilidade feminina e julgar a vontade delas de adequadamente resistir (ou não) aos avanços sexuais masculinos.

A vendedora de modas Bénard - 1769 - wiki


Mas o assunto aqui não é tão espinhoso. A invenção do ato de fazer compras como experiência, lazer, forma de passar tempo agradavelmente foi muito importante para os direitos das mulheres que empurrou diretamente a ascensão dos centros comerciais de lojas, confeitarias e restaurantes. Os shopping centers de hoje eram os quarteirões de lojas elegantes - que existem ainda.

Esses lugares foram fundamentais, pois abriram as cidades modernas para as mulheres e deram-lhes áreas onde elas, como os homens, poderiam vagar à vontade

Para muitas mulheres na era Vitoriana, especialmente na Grã-Bretanha, sair para fazer compras significava um gostinho de liberdade e ponto de partida para entrada na vida pública. A historiadora E. Rappaport em seu livro Shopping For Pleasure explica assim: “A respeitabilidade e a posição social de uma família dependiam da ideia de que a esposa e a filha de classe média permaneciam separadas do mercado, da política e do espaço público, então a mulher compradora era uma figura especialmente perturbadora.”

Foi mesmo um tipo de escândalo social, uma revolução, quando no final do século 18 e no 19, os centros urbanos passaram do domínio masculino que se dedicavam política e negócios para a frequente visita feminina. As mulheres pouco tinham presença pública, podiam ir a galerias, ao parque e exposições nos museus com um acompanhante masculino, e algumas mais ricas faziam compras. Com a industrialização e a revolução manufatureira do século 19, que produziu móveis, talheres, roupas e etc e tal em volumes assombrosos. A explosão na variedade e disponibilidade de bens de consumo significou que a crescente classe média poderia repentinamente comprar coisas apenas pelo prazer. A quem caberia essa árdua tarefa de escolher o que comprar? Às mulheres, claro.

loja de vidro em Londres, Pellatt and Green's. 1809


Se eram elas que ficavam em casa, normalmente seriam elas a saber o que a vida doméstica precisava e com isso, nasceu um passatempo. Logo, as donas de casa começaram a vagar pela cidade sob o pretexto de comprar coisas. Por esta nova definição, “comprar” nem sempre envolveu uma compra real. Tratava-se dos prazeres de admirar, ver os pontos turísticos, as exibições, as pessoas. 

O mundo era dividido em duas esferas durante a era vitoriana, e essas fronteiras eram rígidas: os homens possuíam centros urbanos, as mulheres possuíam salas de estar.

Este desequilíbrio de poder era considerado necessário para manter a ordem social.

Os varejistas urbanos receberam as mulheres com entusiasmo a ponto de inventar lugares como a loja de departamentos, onde as mulheres podiam fazer compras com conforto, cercadas de amenidades e semiparticulares. O seriado Mr. Selfridge conta o passo-a-passo desse raciocínio, como ele percebeu que somente oferecendo segurança ele conseguiria convencer as pessoas - em especial mulheres - a frequentar sua loja.

media player news


“Ao fornecer um motivo - fazer compras - para que as mulheres apareçam sem escolta em público, bem como providenciar espaços seguros como banheiros e salões de chá onde as mulheres possam se reunir ou sentar-se sozinhas sem medo de serem molestadas por homens ... as lojas de departamentos também tornaram isso possível para as mulheres deixar o espaço doméstico da casa e reivindicar o centro da cidade “, escrevem os sociólogos Sharon Zukin e Jennifer Smith Maguire.

Mas muito antes das lojas de departamento, a cidade precisou se reconfigurar para receber essa nova demanda, as mulheres compradoras não tinham onde almoçar ou o banheiro. Mas logo, escreve Rappaport, feministas multiformes pressionaram o governo da cidade a instalar banheiros públicos. Clubes e casas de chá surgiram para as mulheres comerem entre as compras.

O normal era entrar na loja, cumprimentar o dono/vendedor e entregar uma lista do que a mulher precisava, se despedir e sair. O sujeito se ocuparia de separar tudo, embrulhar e mandar entregar na casa da madame e cobrar ao marido. Com o tempo, a mudança social permitiu que elas passassem tempo nas lojas escolhendo, experimentando, apreciando o passeio.

a tentação

the independent


Com essas mudanças surgiram novos males sociais como um surto de furtos em lojas. Autoridades, médicos inclusive, chegaram à conclusão que, por se tratar de ações (contravenções) perpetradas por mulheres, muitas abastadas, se tratava uma condição médica relacionada ao útero e inventaram a doença “cleptomania”. Klepto (roubo) e mania (mania) é um termo pela que descreve ladrões que agem impulsivamente surrupiando itens desnecessários por pura insanidade. É um comportamento caracterizado por irresistíveis e involuntários impulsos involuntários. A pessoa é “forçado a roubar” devido a uma doença mental, não por falta de fortaleza moral. Devido à percepção de que tal comportamento afetava apenas mulheres afetadas (atá!), explicações no final do século 19 ligavam o comportamento a doenças uterinas ou tensão pré-menstrual quanto possível causas. 

Com o aumento da variedade de roupas, alimentos e utensílios domésticos, as compras tornaram-se uma importante atividade cultural no século XVIII. Uma tentação também. Há até quem faça uma conexão da compra e venda durante o período e com os muitos bens de luxo e as plantations de escravos na América do Sul e no Caribe. O maior poder de compra e queda gradual dos preços levaram ao aumento da demanda por novos produtos de consumo como açúcar que na Grã-Bretanha, por exemplo, dobrou entre 1690 e 1740, enquanto o preço do chá caiu pela metade. Mas a maior disponibilidade de tais luxos tinha um lado mais sombrio. As importações de algodão em bruto, açúcar, rum e tabaco originavam das Américas e do Caribe escravocratas, onde africanos escravizados como sua principal fonte de trabalho.

Desde o período georgiano, descrito por historiadores como a "era das manufaturas", homens e mulheres britânicos passaram a ter acesso a uma gama estonteante de coisas materiais. Com as melhorias na tecnologia de transporte e fabricação, as oportunidades de compra e venda tornaram-se mais rápidas e eficientes do que nunca. Mais produtos criaram a necessidade de mais compradores para sustentar uma nova economia de consumo. Em resposta, as lojas decidiram ter como alvo um novo mercado: a mulher próspera. Se as mulheres tivessem um lugar seguro e socialmente aceitável para fazer compras, raciocinaram os varejistas, elas aprenderiam sobre e comprariam novos produtos. E como uma coisa puxa a outra que puxa uma que puxa a outra, vilas e cidades passaram a crescer rápido e as compras se tornaram uma parte importante da vida cotidiana, uma atividade cultural por si só. Para atender às demandas, apareceram nichos, como as muitas lojas refinadas em elegantes distritos, por exemplo Strand e Piccadilly, em Londres, e em balneários como Bath e Harrogate.

Nos bairros mais pobres, dezenas de lojas competiam entre si também representando um importante centro de atividade social na maioria das comunidades. As feiras semanais de produtos agrícolas e pecuários também eram eventos importantes na maioria das cidades (hoje ainda é assim, né?), junto com a agitação diária de vendedores ambulantes de todos os tipos de produtos por alguns centavos: doces, peixes, frutas, vegetais e uma variedade de produtos domésticos. Crianças vendedoras de flores eram comuns, outras também pediam moedas em troca de varrer a rua para damas atravessarem (não esqueça que com cavalos e carruagens, as ruas eram cheias de estrume. Éca!), e outras funções.

The Flower girl - J G Brown, 1877


As fachadas das lojas eram projetadas para atrair a atenção dos passantes e atrair os clientes para dentro. Janelas em arco exibindo mercadorias, placas penduradas, luzes brilhantes, espelhos e anúncios comerciais coloridos se tornaram características padrão do varejo no início do século.

Muitas lojas atendiam especificamente a gostos refinados, e comprar nelas passou a definir o status social de uma pessoa. Milliners, armarinhos, ourives e vendedores de móveis, entre outros, todos apelaram aos gostos mais recentes entre os ricos. Um visitante de Londres no final do século descreveu 'um mundo de placas de ouro e prata, depois pérolas e joias derramando seu brilho deslumbrante, manufaturas caseiras do gosto mais requintado, um oceano de anéis, relógios, correntes, pulseiras, perfumes, vestidos prontos, fitas, rendas, gorros e frutas de todas as zonas do mundo habitável '.

The repository of Arts, Literature, Commerce, Manufactures, FAshions and Politics, 1809


A maioria dos varejistas se especializava em produtos específicos: tecidos, livreiros, fabricantes de perucas, meias, por exemplo. A maioria dos comerciantes emitia cartões convidando pessoas de uma área local para atrair clientes e melhorar sua reputação. Os clientes que entravam em uma loja podiam manusear mercadorias no balcão da loja e eram estimulados a experimentar as mercadorias para sentir os tecidos mais recentes, por exemplo, ou para experimentar relógios ou simplesmente relaxar em móveis novos. Como hoje, a experiência geral de compra era frequentemente tão importante quanto a qualidade dos próprios produtos.

No seriado Sr. Selfridge, o plot da personagem Agnes começa quando ela é vendedora e deixa a cliente manusear luvas em uma lojinha. Apesar do seriado se passar em 1908, é tomado como uma novidade, a liberdade de tocar em mercadorias e acaba por nortear a visão comercial de Selfridge.

Roupas e moda eram muito importantes, um único item de roupa frequentemente representava o item mais caro nas posses de uma pessoa e novos itens menores como golas e punhos geralmente eram muito valorizados. As roupas de lã, pesadas e difíceis de limpar, começaram a desaparecer gradualmente a partir da primeira metade do século. Estes foram substituídos por tecidos de algodão estampados mais baratos que foram primeiro importados da Índia e posteriormente fabricados na expansão do comércio têxtil britânico no norte da Inglaterra. 

uma pausa para Mr. Thornton, please

Norte e Sul minissérie, pic do giphy - Não é neve, é fuligem de algodão da tecelagem dele.


As roupas de algodão permitiam aos homens e mulheres comuns uma escolha maior de roupas leves e coloridas, duráveis, fáceis de lavar e, portanto, mais higiênicas para o usuário. 

Cada vez mais havia opções variadas de itens à escolha para compor a vestimenta. Para homens de todas as classes, terno de três peças: calça, colete e casaco longo, camisa de babados, meias e cravat. Para as mulheres, corpete, anágua e saias, vestidos, luvas, parassol, bonnet, etc, etc. Os tecidos mais baratos eram impressos com desenhos florais ou estampados, embora os itens caros fossem feitos de seda e bordados ou acolchoados. 

Muitos homens perdem a paciência em dias de compras muito extensos, mas as mulheres geralmente adoram. Eu goshto muito e meu Hubs se aproveita disso: desde que casamos, ele nunca mais comprou uma peça de roupa; fica tudo comigo. Assim era desde sempre, acredito. 

Por isso coube às mulheres essa revolução de ir às compras.

Bom gosto e paciência

E não se limitava a vestuário, livros, etc; comida também teve parte nesta evolução. A maioria das cidades desfrutava de produtos frescos como resultado da expansão do comércio interno. Londres - como um porto marítimo movimentado - tinha acesso regular a frutos do mar, frutas e vegetais frescos também chegavam das hortas e pomares dos condados de origem nas proximidades, e outras cidades, outras cidades mantinham mercados agrícolas e pecuários semanais.

Comer e beber continuava na moda entre os ricos, mas mesmo para os membros mais pobres da sociedade, comer fora era possível. A maioria das cidades do século 18 tinha uma variedade de lojas de culinária e tavernas onde as refeições podiam ser compradas a baixo custo e bebidas como café e chocolate podiam ser consumidas. Em meados do século, havia cerca de 50.000 estalagens e tabernas na Grã-Bretanha atendendo a todos os tipos de clientes. Os cafés, em particular, tornaram-se grandes centros de sociabilidade, onde se discutia política e se realizavam transações comerciais. Muitos bancos e seguradoras, como o Lloyd's de Londres, devem suas origens a essa "cultura do café" do século XVIII.

Tal como aconteceu com a comida, ao longo desse período os objetos da vida cotidiana que antes eram caros demais para todos, exceto para os ricos, tornaram-se gradualmente acessíveis às massas. Variedades mais baratas e produzidas em massa de muitos itens domésticos estavam agora ao alcance do homem e da mulher comum.

A prosperidade e a expansão nas indústrias de manufatura, como cerâmica e metais, aumentaram drasticamente a escolha do consumidor. O  trabalhadores que comiam em travessas de metal com instrumentos de madeira, poderiam então jantar na porcelana Wedgwood. Os consumidores passaram a exigir uma série de novos produtos domésticos e móveis: facas e garfos de metal, por exemplo, assim como tapetes, carpetes, espelhos, fogões de cozinha, potes, panelas, relógios, relógios e uma variedade estonteante de móveis. A era do consumo em massa havia chegado.

prato vintage Wedgwood, sec 19 - £245,00 no ebay (R$ 1.750,00)

Para as mulheres, tudo mudou realmente com a invenção das lojas de departamento. Luxuosos palácios de varejo iluminados por milhares de lâmpadas a gás, grandes vitrines de vidro plano, recheadas de peles, luvas e tecidos, e de música tocada ao vivo artistas contratados foram os primeiros espaços urbanos onde as mulheres podiam circular sem a “proteção” dos homens fora de casa. Por mais que as mulheres gostassem de ser atendidas por vendedoras cuidadosamente vestidas ou relaxar nos assentos dispostos para conversar sobre suas compras com as amigas, elas estavam experimentando um novo tipo de liberdade.

Como era esperado que as mulheres de classe média e alta saíssem às ruas apenas acompanhadas, muitas lojas, restaurantes e locais públicos eram fechados ou mesmo proibidos para damas sozinhas. A etiqueta apropriada desencorajava as mulheres de se demorar nas calçadas, uma dama de bom comportamento deveria se vestir de maneira discreta, ter modos discretos, ser quase invisível em público.

O conceito de espaço seguro para mulheres perderem tempo avaliando itens e por conseguinte, comprando, levou à criação de um tipo totalmente diferente de loja, um ambiente mais feminino, por assim dizer.

respeitável, atraente, convidativa e bonita

Loja de departamentos Wanmakers inaugurada em 1876. Philly, USA. pic do pinterest

>> a loja de departamentos, não a mulher <<

Muito diferentes das monótonas lojas onde os homens costumavam se reunir,  as lojas de departamento eram grandes, limpas e atraentes, com muitos tipos diferentes de produtos sob o mesmo teto, organizados em seções. E seus inventores perceberam algo que os varejistas anteriores não perceberam: fazer compras podia ser divertido.

Varejistas experientes como Harry Gordon Selfridge e Rowland Hussey Macy fizeram dessas lojas uma extensão da casa de família, a fim de garantir às mulheres que fazer compras ali não prejudicaria sua reputação. Com uma equipe predominantemente feminina, as lojas apresentavam móveis luxuosos, tapetes, poltronas e confortáveis ​​vestiários privados. Os preços eram fixos, de modo que não se esperava que as mulheres barganhassem ou, em alguns casos, até lidassem com dinheiro - as cobranças eram enviadas depois, geralmente aos maridos (venda a crédito, né?). As lojas contavam com guardas de segurança e se tornaram, nas palavras do dono da loja de departamentos de Boston, Edward Filene, um... 

“Éden sem Adão”

Quanto mais caseira a atmosfera, maior a probabilidade de uma mulher permanecer ali. O Emporium em São Francisco, por exemplo, contava com: 

-berçário, 

-pronto-socorro, 

-correio, 

-salão de beleza 

-biblioteca. 

O Marshall Field's em Chicago tinha um escritório de informações em grande escala e apresentava vários lugares para as mulheres jantarem e tomarem chá. E separar salas para fumantes e até mesmo entradas oferecia aos homens um lugar para se divertir sem perturbar ou colocar em risco as mulheres dentro de si.

perfumaria da Harrods Londres, 19o3 - pinterest


As compras logo se tornaram uma forma popular de as mulheres saírem de casa. De repente, era socialmente aceitável que as mulheres estivessem na rua e tudo mudou. Restaurantes e teatros que antes eram fechados para mulheres sozinhas perceberam que elas também podiam ser clientes e começaram até ofereceram bebidas alcoólicas - uma inovação que acabou com outro tabu social. Mais mulheres começaram a usar o transporte público, frequentar saguões de hotéis e até ir a bancos.

Com essa mobilidade recém-descoberta veio o poder econômico também. Essa nova economia criou empregos para as mulheres e possibilitou que mulheres solteiras vivessem e trabalhassem fora de suas casas, sem colocar em risco sua reputação. 

As ricas compradoras geraram mais empregos para as mais empobrecidas, um círculo virtuoso de feminismo - uma tem liberdade de sair de casa para comprar para outra ter liberdade de sair de casa para vender. 

fashion plate Harrods Londres - wiki


Com o passar dos anos, as mulheres se tornaram as principais consumidoras de suas famílias e as marcas começaram a disputar sua atenção e seus dólares. Depois que as mulheres se tornaram compradores, elas sobrecarregaram o mercado. Hoje, até 80% de todas as decisões de compra do consumidor são tomadas por mulheres - uma ilustração do imenso poder desencadeado pelas lojas de departamentos e pelas gerações de mulheres que seguiram os primeiros compradores das lojas de departamentos.

Ironicamente, porém, as lojas de departamento que ajudaram a transformar as mulheres em potências de compras com um poder de compra de até US $ 20 trilhões em todo o mundo podem estar em seus dias de declínio. A consumidora hoje presa mais por atendimento personalizado e itens exclusivos. Nem vamos falar dessa época estranha de pandemia quando tivemos que comprar remotamente e felizmente ajudamos quem vendia o que produzia.

livraria Messrs, Lackington, Allen & Co. 1809


Gostou disso tudo? Já sabia de um tanto?

Bacana, né?

Outras pesquisas históricas estão aqui.

Minha lojinha no facebook e instagram tem as promoções de livros para minha black friday. 



até mais!

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e em meus arquivos pessoais.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Mary Wollstonecraft merecia mais

 Olá,

Eu confesso que tentei entender, mas não gostei da estátua em homenagem à 'mãe' do feminismo, Mary Wollstonecraft.

the independent

Engraçado que ela hoje é mais conhecida pela maternidade, por ser mãe de Mary Shelley, esta autora de Frankenstein; justo ela que faleceu logo depois do parto aos 38 anos e foi pioneríssima na reinvindicação de direitos femininos. Mas também, maternidade é fundamentalmente uma característica  da mulher.

trecho de uma carta dela para o companheiro, pai do bebê que ela esperava: 'Começo a amar esta criaturinha e a antecipar seu nascimento como um novo nó que não desejo desatar.'  -  pic de feminist for life


Os retratos de Wollstonecraft (1759 - 1797) a mostram como uma mulher austera, mas até acho que era a norma da época . Wiki diz que 'durante sua breve carreira, ela escreveu romances, tratados, uma narrativa de viagem, uma história da Revolução Francesa, um livro de conduta e um livro infantil; mas é mais conhecida por A Vindication of the Rights of Woman (1792), no qual ela argumenta que as mulheres não são naturalmente inferiores aos homens, mas apenas parecem ser porque não recebem a mesma educação, que homens e mulheres devem ser tratados como seres racionais e imagina uma ordem social fundada na razão.

Após a morte de Wollstonecraft, William Goodwin, seu viúvo, publicou Memoir (1798) ou seja, memórias de sua vida, revelando seu estilo de vida não ortodoxo, que inadvertidamente destruiu sua reputação por quase um século. No entanto, com o surgimento do movimento feminista na virada do século XX, a defesa de Wollstonecraft da igualdade das mulheres e as críticas da feminilidade convencional tornaram-se cada vez mais importantes.'

Bem, nem tanto.

Li bastante sobre a campanha para levantar fundos para fazer a homenagem, sobre como na Inglaterra existem poucos monumentos para mulheres, sobre as críticas que a artista recebeu em suas outras obras. Ainda assim, não gostei mesmo.

youtube

Em sua famosa obra revolucionária de 1792, formadora de opinião, influenciadora, vanguardista, ela diz no capítulo 5 que 'a mulher é ensinada desde a infância que a beleza é seu poder, por isso a mente dela se molda ao corpo e, vagando em sua gaiola dourada apenas busca adornar sua prisão.' (Taught from infancy that beauty is woman's sceptre, the mind shapes itself to the body, and roaming round its gilt cage, only seeks to adorn its prison.) A Vindication of the Rights of Woman. Lá se vão 2 séculos e tal, e ainda pensamos o mesmo, agimos da mesma forma.

Estaria Mary W equivocada ou nós é que não aprendemos ainda?

A julgar por este monumento, acredito que ainda temos muito a evoluir...

Conto o que aprendi sobre. Depois da campanha 'Mary on the Green' que levou 10 anos para levantar fundos, vários artistas foram convidados a apresentar ideias para a estátua. Um comitê de curadores de arte e pessoas da comunidade votou unanimemente na proposta de Maggi Hambling. A autora explica a estátua - caso você, como eu, não tenha entendido nada depois de admirar boquiaberta essas fotos. 'A escultura mostra uma figura prateada nua de todas as mulheres sustentada por um turbilhão de formas femininas. Não é uma imagem heróica ou fantasiosa convencional de Mary Wollstonecraft. É uma escultura sobre agora, em seu espírito.' 

Então, eu só vejo peitos e pelos pubianos.

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Juro que tentei achar as formas femininas sustentando a bonequinha mínima no topo. Li que essa massa prateada reflete o parque e a Igreja Não-Conformista que Mary W. frequentava. Mas me distraio sempre na bonequinhazinha. Peitos, mamilos, cabelo... curto? Afro? Mas as feições são europeias. Magra, mais magra do que as mulheres eram no século 18, mas se é para ser do século 21, também me parece magra-modelo-e-manequim, não todas as mulheres, ou a mulher comum traduzindo melhor. Nem mudei esse termo 'everywoman' porque é muito repetido na defesa da escolha artística e ele me parece... trivial.

Uma das defensoras da campanha de fundos e do monumento pronto diz: 'Maggie Hambling é uma artista pioneira e queríamos fazer algo diferente de colocar pessoas em pedestais. Poderíamos ter feito algo realmente chato e comum, e muito vitoriano e antiquado.' Essa artista, Hambling, é bem controversa. Já li até críticas dizendo que a rejeição a este monumento é machismo contra ela, a artista. tsk, tsk. E continuei pesquisando para aprender a ver... 

“Não é convidativa (a nudez da peça) . É um desafio. 

É uma obra de arte desafiadora e é para ser assim.”

Ah, tá. 

Ainda assim, não gostei. Por que ela está nua com atributos tão perfeitinhos? Precisava?

essa foi a opção rejeitada, ficou em 2º lugar. pic de financial times


As primeiras ROUPAS que se tem notícia vêm dos neandertais (40.000 anos atrás) que em algum momento aprenderam a usar as peles dos animais para se manter aquecidos e secos. Também se fala da possibilidade dessas primeiras roupas terem tido funções sociais antes de práticas, algo como rituais de magia, decoração, culto ou prestígio. A semiótica (estudo de símbolos) aplicada ao vestuário leva a imagens que sustentam a estrutura da interação social como o sistema de status e papéis. A maneira como alguém se veste pode ser analisada como um mecanismo simbólico para comunicar ideias e valores a outros membros de uma sociedade.

A roupa é um significante visual que pode ser interpretado de forma diferente com base especialmente no contexto e na cultura.

E a mulher que defendeu a igualdade é representada nua.

Como disse uma outra mulher muito eloquente (tsk,tsk) em um reality show: 'Não gosto de você. Não sinto verdade em você. Acho que você, sim, incoerente, você está onde te convém. em todos os seus jeitos, falas, posicionamento e etc '

outro monumento recente de Londres, da sufragista Millicent G Fawcet. A crítica aqui foi para o pano de prato que ela segura. tsk, tsk. Mas está vestida. pic de secret London


Acho que é indiferente falar da fonte escolhida para gravar o nome de Mary na base, disso ou daquilo. O blob de bronze prateado elevando a mocinha frágil, desnuda, sem o apoio da sociedade e mesmo assim, olhando corajosamente para o futuro, me causa frustração. 

Chocante? É. 

Impactante? Também. 

Atende ao que se propõe, que é mostrar o quão fora dos padrões Wollstonecraft era? Sim. 

Mas conta a alguém que nunca ouviu falar nela quem foi essa mulher? Não.

outra obra controversa da mesma artista, esta em homenagem a Oscar Wilde que sai de um caixão fumando um cigarrinho. Tô doida ou ele tem até gravata? pic de timeout


No meu ponto de vista, Mary W. merecia mais que uma controvérsia por sua nudez (mesmo que não seja uma representação do corpo físico dela). Uma gaiola vazia faria o mesmo sentido, né?

Até.



serviço: 

Mary Wollstonecraft está em Newington Green.

Oscar Wilde está em Spreading gossip, na Adelaide Street com Charing Cross. Você pode sentar no peito dele para descansar do footing, se quiser.


pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e em outros sites que já nem me lembro porque li bastante sobre isso desde a inauguração.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

SOVINICE é imperfeição nossa de cada Natal

 olá, tudo bem?

Trago novidades muito bacanas!

Sim, o ano de 2020 finalmente está acabando e com ele, as festas e um livro novo! Yay!



A série LORDES IMPERFEITOS que componho com minha querida amiga LUCY DIB começa com o vício da SOVINICE, o apego ao material, sujeito muquirana, mão-de-vaca, pão-duro, sangue ruim. O CONDE SOVINA é dupla com o DUQUE MUQUIRANA.



Ainda não sabe que os Lordes serão sempre lançados de dois em dois? 

Aqui conto as fofocas todas.


Tá felizinha, né? 

charles dickens/ J Leech, F Barnard, 1843 - catawiki

Aposto que tá pensando em alguém olha grande. 

Ou é tu mesmo...

Particularmente, no meu caso, sovinice é um momento, não uma qualidade que me define, digamos assim. Por exemplo: 

com chocolate: sovina, sai pra lá. 

Com cerveja: generosa, divido, pega um copo aê, miga. 

Com Livro de papel: sovina, não empresto, vai que você não me devolve. 

Com Filme: generosa, claro, de boa, bora ver junto.

Existe na literatura um zilhão de bons personagens sovinas, quando criança eu amava o 'Seu Nonô Correia' da novela 'Amor com amor se paga' de Ivani Ribeiro, 1984. Ele era de matar, mão-de-vaca de irritar, era xingamento popular na época chamar os outros de Nonô. E quando acharam o tesouro dele! Nossa, foi lindo!

Ah, que saudades de quando as novelas tinham enredo, começo/meio/fim... Foi até difícil escolher o trechinho pra colocar aqui, se o do tesouro ou da geladeira fechada a cadeado, haha. Muito engraçado!

Pesquisando o tema para compor o Conde, descobri quase sem querer que a grande autora Ivanir inspirou o Nonô no Harpagão de Molière e aí, como esse já estava nos meus alfarrábios, as coisas se encaixaram. Assim, no meu romance dos LORDES IMPERFEITOS, o CONDE SOVINA, Ruby - a mocinha - provoca o Conde com essa peça de Molière - O avarento. Famosa desde o sec 17 quando foi lançada, encenada trocentas vezes, até pela turma da Mônica, ainda é bastante atual. Achei um resumo interessante (talvez um pouco truncado) no vestibular1 que diz: 'ciclicamente as civilizações fazem suas adorações ao Bezerro de Ouro'. Ouch! O enredo fala de um sujeito tão olho grande, mas tão olho grande, que decide casar o filho com uma viúva rica filha de cara rico, o problema é que ela é apaixonada por um pobretão. Eita!

E como os Lordes se passam na Inglaterra, pelo menos essa primeira dupla, e estamos chegando nas festas de final de ano, graças ao bom Deus, quero falar de...

UM CONTO DE NATAL

 ~ Charles Dickens ~

Mickey's Christmas carol, 1983. we heart it

Quantas vocês você já viu esse filme/desenho/meme na vida? É como a música de John Lennon e show de Roberto Carlos: se saiu do baú, chegou o Natal.

Um conto de Natal (A Christmas Carol. In prose. Being a Ghost Story of Christmas) foi lançado no *meu aniversário* do ano de 1843 (19 de dezembro) quando Dickens já era famoso, e desde o início foi um sucesso. Muito bem recebido, na véspera de Natal, 5 dias depois, já estava esgotado - 6k cópias- , em janeiro já tinha cópia pirata sendo vendida no mercado negro, e ele precisou começar uma campanha por direitos autorais. Um dia posso postar sobre isso, é bem bacana essa história da pirataria de livros na era vitoriana.

Para ele foi um alívio vender tão bem, estava em maus bocados financeiros depois de sua longa viagem para os EUA no ano anterior. Teria ele costurado uma obra comercial? Bad Moira, bad... Se foi, deu quase certo, pois no final de 1844 já tinha vendido mais de 15k cópias. Pena que ele não ficou com a grana toda, tinha que dividir com o editor, etc, etc. 

O homem que inventou o Natal, 2017 - pic de filmes dublados e legendados


Apesar do filminho fofo contar diferente, até existem evidências (não canta!) que ele construiu Scrooge se baseando em dois homens reais. 'De acordo com a BBC Arts, Dickens teve a ideia para o personagem depois que entendeu mal a lápide do comerciante chamado Scroggie durante um passeio ao redor de Canongate Kirkyard de Edimburgo, que é mencionado em seus rascunhos como um indivíduo triste e mau. Outra fonte potencial para o personagem é o famoso avarento John Elwes. De acordo com o Telegraph, apesar de ser extremamente rico, Elwes gostava de viver aquela vida insensível - racionando aquecimento, velas e até mesmo comia comida que estava estragando.' Éca!

Enfim, a saga de Ebenezer Scrooge e os Fantasmas do Natal nunca deixou de ser publicado até hoje, 377 anos nas paradas de sucesso, todo dezembro. 

Para quem não lembra, não viu encenado pelos Muppets, Trapalhões, Mickey Mouse, Barbie, Disney, A feiticeira, Esqueceram de mim, leu (como eu, assumo), aqui vai um resumo muito resumido do que é o enredo que fala de ganância, perdão, viagem no tempo, generosidade e compaixão: 'Scrooge é um velho mesquinho e egoísta que odeia o Natal. Num frio 24.12, ele toca o terror: é cruel com as pessoas que trabalham para ele, se recusa a doar para instituições de caridade e é rude com o sobrinho que o convida a passar o Natal com ele. De noite, Scrooge é visitado pelo fantasma de seu antigo sócio, Jacob Marley - e depois por três fantasmas do tempo: os fantasmas do Natal passado, do presente e do futuro. 

O Fantasma do Natal Passado leva Scrooge em uma viagem pelos Natais de seu passado, onde ele se vê como uma criança infeliz e um jovem mais apaixonado por dinheiro do que sua noiva. O Fantasma do Natal Presente mostra a família de seu funcionário Bob Cratchit, bem pobre e com o filho Tiny Tim, que está muito doente, mas cheio de ânimo; depois para ver as celebrações de Natal de seu sobrinho Fred - para o qual ele havia sido convidado, mas rejeitou ir. Finalmente, o Fantasma do Natal Futuro aterroriza Scrooge, mostrando-lhe visões de sua própria morte, sozinho. É mudo, pois o futuro é mutável, Scrooge é quem o fará por suas escolhas.

A jornada dos fantasmas no tempo ensina a Scrooge o erro de seus atos. Quando ele acorda no dia de Natal, emocionado e arrependido, compra muita comida e leva para a família Cratchit antes de passar o dia com o sobrinho, cheio das alegrias do Natal.'

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Pessoalmente, não sou muito ligada nesses contos de arrependimento profundo, let bygones be bygones. Sou rancorosa, perdoo, mas tenho dificuldade de esquecer. Tenho cá minhas desconfianças se Scrooge muda pelo medo do que o fantasma do Natal futuro lhe mostra, que claramente tem o maior impacto nele, porque ele vê que vai deixar tudo para outros gastarem ou porque se arrepende de verdade. Não obstante, reconheço o valor da obra de Dickens.

Veja bem, não sou estudiosa de Dickens, curto sua obra. Goshto meshmo de Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Se você já veio aqui antes, já leu meus livros e romances gratuitos, sabe disso. Avalio O Conto de Natal como curiosa apaixonada da era Vitoriana. 

Muitas fontes teorizam o porquê de Dickens ter mirado e acertado direto no alvo, ele já falava desse tema em outras obras: a injustiça social na era Vitoriana, ele mesmo que teve origens pobres. Em Oliver Twist (1837-39) ele já tinha esmiuçado a vida dura da infância pobre nos cortiços e workhouses de Londres que (parece) comoveu até a rainha Victoria e o príncipe Albert (que desconheciam a situações de seus súditos, tsk, tsk). 'De certa forma, é uma história muito vitoriana de circunstâncias urbanas: extremos de riqueza e pobreza, indústria e incapacidade. Mas também ajudou a mudar a sociedade vitoriana, escreve a historiadora Catherine Golden para o blog do National Postal Museum. E é por isso que Dickens o escreveu.' Diz o Smithsonian Institute.

No Conto de Natal ele fala também de redenção e Natal, Então, digamos, são 3 os temas centrais da novella.

Humbug not to be spoken here, 1967 de A Feiticeira - christmas tv history

Injustiça social: Dickens tinha críticas severas sobre como a sociedade Vitoriana ignorava a pobreza de sua classe baixa. De um lado, estavam os ricos que gozavam de conforto e festejos de Natal e, do outro, as crianças forçadas a viver em condições terríveis em abrigos. Para nós hoje no século 21, amantes de 'romances de época', é muito difícil nos ligar nesta vertente da vida Vitoriana. Queremos ver ladies e lordes, bailes e chás das cinco, né? Mas a vida era muito mais dura do que ter que usar o bourdaloue entre as pernas para fazer xixi sem molhar as anáguas.

A forma que Dickens escolheu para destacar a injustiça da distribuição de riqueza foi fazer Scrooge se recusar a dar dinheiro para a caridade, mostrando assim o egoísmo dos mais ricos da sociedade vitoriana. As crianças que se escondem sob as vestes do Fantasma do Natal Presente são 'beliscadas' em vez de estarem felizes e alegres como gostaríamos que as crianças fossem. O Fantasma diz a Scrooge que os filhos são responsabilidade de toda a humanidade. Tiny Tim usava muletas, imagino que seja uma analogia à falta de condições normais de comparação entre as crianças ricas e pobres. Aqui temos que lembrar que, neste momento, as crianças começavam a deixar ser vistas como mini adultos. A criação começava a mudar, havia quem advogava a favor do direito de toda criança brincar e estudar, contra o trabalho infantil; era o início do raciocínio que temos hoje.

Depois, na hora do Fantasma do Natal Futuro, enquanto os ladrões vasculham os pertences de Scrooge, eles comentam sobre como ele tinha sido avarento na vida. Isso faz com que ele e o leitor apreciem as falhas de apenas pensar em si mesmo sem dividir com quem precisa e quando a gente morre, fica tudo para trás.

Barbie em A canção de Natal, 2008. IMDB

Redenção: É uma ideia sedutora, a de ser salvo do pecado ou do mal. Cristo é a Aliança, afinal de contas. Em Scrooge, vemos um homem que se transforma de um avarento ganancioso e egoísta em um personagem generoso e bem-humorado no final. Isso é o que queremos ver em todos os livros de romances, certo? Um arco de personagem que faça os 180º certinho. 

Scrooge vê (do verbo ver, enxergar; é levado pela mão para visitar o passado, o presente em outros lugares físicos, o futuro) ele vê o erro de seus atos com os fantasmas e é redimido por sua própria vontade de mudar. A mensagem moral da novela é que todos os seres humanos têm a oportunidade de se comportar de maneira mais gentil uns com os outros. 

Perceba que apesar do empurrãozinho dos fantasmas apontando o erro, a força de mudança vem de dentro, da vontade própria de Scrooge de mudar. Ele poderia ter perdido todo o dinheiro, então teria que mudar por força externa. Mas Dickens escolheu fazer com que ele tomasse a decisão de mudar.

The Muppets Christmas Carrol, 1992. smithsonian

Natal: O sobrinho Fred é sempre entusiasta do Natal, convida o tio, festeja e tal. Tiny Tim, o filho doentinho do empregado, é uma criança doente que acredita no espírito no Natal, que todos serão felizes na Noite mágica e tals. Dois personagens diferentes, um adulto e uma criança, um remediado e um pobre. Ambos homens, ok. Mas e aí?

Especialmente na era Vitoriana, o culto aos festejos de Natal começava a ser ampliado por conta de Victoria e Albert. Há anos já havia em Buckingham a tradição de montar árvores de Natal, a aristocracia também já fazia desde a rainha Charlotte, mas foram eles, Vic e Bert, com sua vontade de estabelecer a moralidade da vida familiar feliz, que popularizaram a coisa toda.

first christmas tree in Britain, 1946. Illustrated London news. wiki commons

Acredito que Dickens estivesse mirando neste abismo entre as crianças felizes em volta da árvore recheada e o menino doentinho no frio sem dinheiro para lenha na lareira ou comida farta.

Ao menos conseguiu estimular as doações à obras de caridade. Não sei (porque não pesquisei a fundo) se foram doações para limpar a consciência no momento do frenesi do lançamento do livro, mas sei de fonte confiável que Dickens era insatisfeito com o resultado da obra, ele esperava ter mudado a sociedade e juntado mais grana. 

Dickens pode não ter ficado rico $$ com a obra, 

mas tornou o mundo um pouco mais rico <3  de caridade.

Home alone, 1990. the new york times

No caso do filme Esqueceram de mim, que eu amei quando vi pela primeira vez, e amei muito assistindo o documentário sobre a produção Movies that made us, as teorias de quem e quais personagens são Dickenianos são lokas! Sugiro que você leia aqui. Eu sempre achei que era o vizinho idoso.

A história de Scrooge traz grande sabedoria, é fato. 

Durante as inevitáveis ​​épocas difíceis da vida, como esse incrível ano de 2020 que começou com água podre aqui no Rio e sabe-se-lá onde vamos parar, Deus nos proteja, as conexões humanas que temos com a família e amigos nos ajudam a superar. Eu contei e conto com azamigas, a família, a literatura, o século 19 e meus grupos de oração. Quando refletimos sobre quais valores de caráter são certos e errados, conseguimos perspectiva firme para seguir em frente. Os temas da obra são muito relevantes ainda hoje, talvez ainda mais agora em meio às mazelas trazidas à tona por conta deste distanciamento social

A Christmas carol, 2009 . tumblr

Com famílias e pessoas em geral separadas pela geografia e relacionamentos em perigo, distraídas pelo stress, sobrecarregadas de informações, mídia enlouquecida, redes sociais tóxicas e menor participação de comunidades espirituais e organizações cívicas, a conexão humana diminuiu. Vida louca, mano. Este declínio correspondeu a um declínio na alegria e aumento da ansiedade e depressão. 

A boa notícia é que não precisa ser assim. Podemos tirar um tempinho para refletir sobre a mensagem mais bacana de Dickens no Conto de Natal, talvez nem tenha sido a que ele considerou principal:

A VONTADE DE MUDAR POR CONTA-PRÓPRIA

design you trust

auto limpeza que fala, né?

Fazer um defrag, se livrar do lixo, renovar

Sovinice, só com chocolate. Com licença. Nisso eu posso!

E um livro novo para distrair a mente

e alimentar o coração!

Vai na Pitangus Editora ver datas e links.





bj, M.

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