& Moira Bianchi: 2022

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Persuasão da Netflix: haters gonna hate

 olá,

com este, pelo menos por enquanto, eu encerro os estudos de Persuasão. Quando comecei, não achei que renderia tanto!

tenor
Como foi por conta do lançamento do filme da Netflix, é justo terminar com ele.

Já te falei o que achei dele aqui, até gravamos podcast exclusivo, mas o que quero falar aqui neste post é sobre o HATE que ele levantou. Me surpreendeu, fiquei mexida mesmo. Foram discussões acaloradas, brigas e xingamentos em Austen Nation. Credo!

Para montar esse post, eu usei as respostas que me deram nas redes sociais e 14 artigos que achei em uma simples pesquisa no Google. Digitei 'Persuasion Netflix' e peguei os hits das duas primeiras páginas. Foram eles: Vox, Glamour, The Independent, Cinema Blend, The NY Times, The Daily Utah Chronicle, Mammamia, NPR, Cosmopolitan, Harper's Bazaar, O Globo, Le Monde, CNN e The Conversation

Vou dividir em tópicos porque as críticas e avaliações se repetem. Acho que assim vai ser mais fácil para você ler e para minha organização.

Aviso que é CHUVA DE SPOILERS. Siga por sua conta e risco.

Vamos lá!

PERSUASÃO NETFLIX & SEU HATE

FIRST THINGS FIRST

O ponto básico é entender a diferença entre OBRA e PRODUTO.




Por que isso?
Porque Netflix é uma empresa que quer agradar seus clientes e tem uma agenda a cumprir. Por isso ela força a barra com 'elenco daltônico', mensagens progressistas e produções mastigadas para distrair mais que educar.
backstageol

Veja Bridgerton, 365 dias, Emily em Paris, The crown, Enola Holmes, You e Narcos, por exemplo. Todas essas produções são bonitas de ver, entretêm, mas têm erros históricos ou de narrativa que você até percebe, mas não liga porque está 'só se divertindo'.
Neste raciocínio fica fácil entender o croquete que fizeram com o filé mignon que é Persuasão.

PRODÍGIO DE MARKETING
Esse filme é um pastiche americanizado da Inglaterra Regencial perfeitamente feito para atrair espectadores da Grã-Bretanha (país que viveu essa era) e fãs de Austen de qualquer lugar do mundo, até aqui no Brasil. 
É um trabalho de gênio do marketing e, em muitos aspectos, também é a conclusão natural de uma visão caricaturizada da Inglaterra Real que vem sendo construída há décadas.
Depois de Bridgerton, cujo golpe de mestre foi entregar uma versão da Regência para Instagram que fez de suas inconsistências históricas uma virtude (tsk,tsk), a plataforma decidiu repetir essa fórmula com um clássico em domínio público acreditando que o apetite aparentemente inesgotável para essa época nos livros de romances ia dar audiência depois do boost inicial garantido por Austen Nation. Janeites são conhecidas por consumir de um tudo, desde bandaid até vela perfumada - por que não uma nova adaptação?
Muita gente que tem intimidade com um romance de Jane Austen estava decidido a odiar o filme. No entanto, todos assistiram nas primeiras 12 horas de lançamento. Um sucesso estrondoso!
Foi dito que era inovador, empoderador para mulheres, feminista, empático e outros gatilhos de marketing que são marca e qualidade da plataforma. 
Antes dessa, Persuasão foi tema de duas séries e dois filmes de TV entre 1960 e 2007 – muito pouco. Assim, a Netflix preencheu um relativo vazio, oferecendo uma versão cinematográfica para toda a família.
Em um nível puramente superficial, “Persuasão” é capaz de fornecer alguns dos prazeres estéticos de uma época passada, o que cumpre com o padrão Netflix.

MODERNIZAÇÃO
Uma adaptação não precisa ser uma cópia do original, mas deve ao menos reproduzir a 'alma' da obra. No caso de Persuasão, tem 12 posts aqui no blog para você se esbaldar nessa análise.
Nisso, o filme age como uma fanfic OoC - out of character - ou seja, é o mesmo enredo com os mesmos personagens, mas esses têm personalidades diferentes dos originais. 
Para criar rapport, Anne Elliot foi moldada como Bridget Jones e Fleabag, uma desbocada, quase alcóolatra, desastrada e ainda assim, adorável por ser quase como uma criança. Essa Anne poderia ser Emily (em Paris), Bella (Crepúsculo), Eloise (Bridgerton), tanto faz, é uma fórmula que tem variações, que nem macarons.
jornal plural

O problema é que Anne Elliot é muito diferente disso. A dor dela é aguda, misturada com o medo de estar em um ponto na vida onde perdeu todas as oportunidades, principalmente por amor. No filme ela suspira de forma teatral depois que derruba um pote de molho na cabeça e se gaba de dançar ao som de Beethoven sozinha em seu quarto com uma garrafa de vinho.
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No romance, a tensão entre o Sr. Elliott e o capitão Wentworth se resume ao fato de Anne ainda ser persuadida a valorizar a posição de sua família acima de seu próprio caráter e julgamento. No filme Elliott e Wentworth são dois galãs em duelo e nós mal sabemos porquê.
Para os leitores que desconhecem Austen, há uma impressão de frivolidade, melodrama e falta de seriedade – como Bridgerton ou Sanditon: as coisas quase fazem sentido, sóque não. A razão pela qual a Persuasão na Netflix parece tão insultante é que ela se encaixa diretamente nesse estereótipo da mocinha moderna feminista infeliz romanticamente. 
A Anne do filme é arrastada até que sua decisão seja tomada por ela depois que é revelado que Wentworth a ama, ao invés do desenvolvimento sofrido do arco original.
Persuasão é geralmente considerado o romance mais maduro de Austen, e Anne sua heroína mais complicada. A fleuma e o humor característicos da narrativa compensam a desolação da protagonista. 
Ao fazer Anne soar mais como a imitação amarga de Fleabag, o filme trai sua própria leitura superficial da personagem, que na verdade é mesmo um pouco solitária, insatisfeita e fora de sincronia com a sociedade. 

PREGUIÇA DE PENSAR
Mas a questão é que o roteiro desta versão de Persuasão de Austen faz pouco sentido no século 21 porque as mudanças descaracterizaram muito as personalidades e as razões para as ações deles na tentativa de fazer Austen mais modernizada. 
Clueless, por exemplo, não estava explicando Emma para um público burro demais para entender, estava se divertindo. Parece que o filme pensa que o expectador é estúpido demais para entender Austen por conta própria, então, em vez de tentar dar vida ao trabalho dela, decidiu dar-lhe um resumo bem mastigadinho.
Como temos visto na dificuldade que as novas gerações de bookstans e booktoks têm de entender a sutileza da caneta de Austen, talvez essa regurgitação seja mesmo necessária...
istock

O filme aparentemente trata os fãs de Austen com desdém enquanto tenta agradá-los. Não é o elenco daltônico, o enredo abreviado ou os anacronismos que incomodam as pessoas - elas vêem isso, mas em face de coisa mais aguda, mal notam isso. 
O filme atrai os jovens porque é liberalmente temperado com expressões contemporâneas. 
A implicação é que esse público – presumivelmente em sua maioria mulheres jovens – estaria desinteressado ou incapaz de compreender um diálogo de época mais fiel. Este pressuposto é mais do que evidente.
O filme parece não confiar que seu público vai entender fatos mais básicos da vida do início do século 19, então explica, por meio de diálogos desajeitados, que as mulheres nesta época não tinham meios de se sustentar fora do casamento, nem tenta explorar os vários tons de hierarquia e mobilidade dentro da sociedade de classe alta da era Regencial. 
Os roteiristas, na melhor das hipóteses, mostram um desinteresse. Na pior das hipóteses, eles mostram um desprezo ardente pelo romance e pelas discussões que Austen fez tão pungentes.
Uma crítica disse que 'nunca antes uma adaptação de Austen me deixou tão vazia emocionalmente. Ao insistir que cada aspecto da vida moderna tem um corolário do século 19, o filme descentraliza o que torna os filmes de época tão confiáveis: não importa a década, as emoções humanas não evoluem e o amor não fica mais fácil.' É verdade...
O filme então despoja o trabalho de Austen de tudo o que era rico e maravilhoso no cânon e apresenta, em vez disso, um romance fraco da Regência. Porque isso é o que é popular, certo? Como um romance de banca de jornal.
Em nenhum mundo faz sentido que essa Anne não diga a esse Wentworth que ela gosta dele. Não há literalmente nada que os mantenha separados. No entanto, é disso que trata o filme inteiro. Mas também, por que eles gostam um do outro, já que não parecem ter nenhuma química ou qualquer coisa em comum?
Os criadores parecem ter notado seu buraco gigante na trama, e então tentam preenchê-lo deixando NADA para a imaginação. Sim, este enredo pode não fazer sentido, mas se continuarmos a explicá-lo, teremos um longa-metragem. Definitivamente, o roteiro é literalmente... paternalista

ANACRONISMO
dicionário online português

O filme parece totalmente inconsciente por supor que todos os seus anacronismos trarão vida ao velho e mofado Austen - o que na verdade é desnecessário porque quem procura uma adaptação está esperando... bem, um Austen.
Neste ponto, o filme é uma pálida imitação do sucesso de Bridgerton (que satisfaz em seus anacronismos atrevidos porque vem de uma série de livros sobre o século 19 escritos no século 21 por uma mulher do século 21 para ser lido por mulheres do século 21. Diferença ENORME das obras de Austen que era uma mulher do século 18, escrevendo no século 19 e que AINDA é lida no século 21.).
Persuasão faz piadas fracas, é uma decepcionante vitrine para Dakota Johnson (que salvou muitos filmes ruins antes deste) flertando com a câmera imitando Jim de The Office, e Fleabag.
Ao menos os anacronismos de Bridgerton parecem cuidadosamente escolhidos (eu discordo), aqui, é puro caos e despertam um ar de absurdo. 
- Anne bebe vinho sozinha, 
- chora na banheira 
- se joga de bruços na cama. 
Não que as pessoas em 1800 não fizessem essas coisas, mas é o jeito Bridget Jones que ela faz, como se ela estivesse representando suas emoções para o Instagram. Tudo o que está faltando são lenços amassados e Sleepless in Seattle tocando em uma TV ao fundo. 
Na tentativa de criar rapport tornando Anne moderna e relacionável, ela foi deixada delicada e irreverente. Seria uma boa Lydia Bennet ou Frederica Vernon, mas não Anne Elliot.
buzzfeed

Os diálogos anacrônicos são constrangedores e sarcásticos: 
- discutem “autocuidado”,
- dizem que “muitas vezes se diz que se você é um '5' em Londres, você é um '10' em Bath”,
- fala que tem um ex,
- faz 'um grande upgrade' na companhia para o jantar,
- Mary é 'empática'
É sempre decididamente sem graça e constrangedor. O desejo de modernizar e atualizar Jane Austen é fácil de entender, mas é tão equivocado.... 

DAKOTA JOHNSON
Parece ser unanimidade que o talento e a beleza dela é capaz de salvar tudo, até o aquecimento global, no entanto falhou nesse filme.
Reclamaram da franja, mas já estava em O&P 1995.
Falam do sotaque, mas é bonitinho.
Não há como negar que ela sorri demais para ser Anne, é bela demais para quem 'murchou sua beleza' e, para minha surpresa, fez o pecado de ler a carta para o expectador. Isso é considerado hediondo.
Eu entendi que ela lia para si própria, que eu estava na cabeça dela, mas, bem, toda Janeite é excessivamente mordaz nas críticas do que considera digno de Austen Nation.

NINGUÉM...

Nas minhas pesquisas, ninguém falou do coelho, presença que eu achei bizarra. Talvez porque já havia tanto para comentar, então o animalzinho feito fiel e domado como um labrador, passou desapercebido.

pinterest


Ninguém também comparou com as outras adaptações de Persuasão, será que seria covardia? 

Tivemos atores muito mais velhos que os personagens do cânon, muito mais bonitos, decididamente mais competentes, mas ninguém se ligou em comparar. Achei curioso.

RESUMINDO

O hate veio de

1. descaracterização do enredo que trata de arrependimento, amadurecimento e amor duradouro. Sabendo quando e em que estado de saúde Austen escreveu Persuasão, dá mesmo um dó de perder isso;

2. modernização desastrada e diálogos destemperados (apesar de alguns serem bem bons);

3. desrespeito com a inteligência do consumidor que nem sempre tem 12 anos e é viciado em A barraca do beijo.

Encerro com esse trecho da crítica da Cosmopolitan:

'Os livros não vão para a cama à noite sonhando em virar filmes quando crescerem. 

Eles já estão crescidos. Se você é uma Janeite purista e não consegue passar por cima de tudo isso, então não veja. Escolha outra adaptação  Releia o livro. '

pinterest


Concorda?

Me fala aqui nos comentários.


fontes: meus arquivos pessoais, study.com, schmoop, reddit, spark notes, post anteriores, wikipedia e artigos listados acima (todos em links clicáveis).


E também solta o verbo sobre o que achou desta maratona de Persuasão.

Aqui você acha minhas PESQUISAS SOBRE JANE AUSTEN , 

inclusive os outros posts de Persuasão


Leia a JUVENÍLIA para uma boa dose de Jane Austen raiz!

    


terça-feira, 30 de agosto de 2022

Persuasão detalhada em temas - parte 2

Sim, ainda estou de persuadindo a amar Persuasão!

Este post começa no anterior, mas pode ser lido na ordem que você quiser porque eu continuo estudando Persuasão e um tema puxa o outro, um símbolo está ligado a uma explicação e Jane Austen nunca para de nos surpreender com as camadas que achamos na sua obra.

Então, aqui eu te trago: Juventude x maturidade, Insensatez, Vaidade, Família, Pais tolos, Amizade, Agressividade viril, Doença, Aparências e Caminhadas. 

No anterior, completando os 19 temas, estão: Convencimento, Esferas separadas, Casamento, Cavalheiro perfeito, Rigidez de classes e mobilidade social, Sociedade e classe, Criadagem, Gênero e Memória & passado.

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TEMAS DE PERSUASÃO

2ª parte

Muito além do simples convencimento e aconselhamentos...

Juventude x maturidade

Juventude e maturidade são contrastantes no romance, mostrada em vários ângulos.

Claro que consideramos a briga de ‘namoradinhos’ como o principal pano de fundo do romance. Tanto Wentworth x Elliot quanto Anne x Louisa, a disputa de território nos deixa agoniados e torcendo pelos star crossed lovers. 

Enquanto o primeiro representa honra e esforço para personagens masculinos, o segundo fala da diferença entre impulsividade e raciocínio claro especificamente na figura feminina. Anne é mais centrada por si, ou foram os anos e o sofrimento que a fizeram mais sensata? Louisa poderia vir a ser uma mulher menos esfuziante quando mais velha? E quanto à mudança vinda de sua união com o depressivo Benwick?

Mas se olharmos com mais atenção, vemos mais vertentes. Elizabeth ainda sofre com a primeira rejeição do Sr. Elliot, o que sugere que simplesmente viver frustração e perda não é suficiente para trazer sabedoria madura: é preciso também aprender com as próprias experiências.

Austen nos diz que é coisa da idade mesmo, ela tinha 40 anos quando escreveu Persuasão e devia ter noção da doença aumentado. Vale lembrar que a expectativa de vida na Inglaterra em 1815 (ano que Persuasão começou a ser construída) era de apenas 41 anos e da família Austen girou em torno de 70 anos.

Isso fica mais claro nas reminiscências de Anne e Mrs. Smith. Nestas personagens vemos que a diferença entre a juventude e a idade adulta é uma compreensão pessoal do sofrimento e da perda.

Insensatez

Austen constrói esse tema em Persuasão fazendo com que todos os personagens ajam como tolos uma vez ou outra. 

Depois de seguir o conselho de Lady Russell, Anne Elliot se arrepende e diz que sua tolice "anuviou todos os prazeres da juventude" (cap 4). Em Londres, a Sra. Smith conta ter participado de gastos frívolos com o marido e agora sozinha carrega o peso de suas ações. Apesar de afligir sua família com ruína financeira, Sir Walter Elliot mantém as aparências externas perpetuando seus problemas financeiros. No final do romance, os personagens ou abordam sua insensatez ou a ignoram, e aqueles que entendem e se esforçam para reparar as consequências de seus erros são recompensados com felicidade.

A tolice de Wentworth é ser orgulhoso demais para voltar a se declarar a Anne depois que ela o rejeitou e esse rancor o cego quanto aos dos sentimentos dos outros.

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Vaidade

O romance começa descrevendo o personagem de Sir Walter Elliot: "A vaidade era o começo e o fim da personalidade de Sir Walter Elliot; orgulho de sua pessoa e da situação." Cap 1.  Sua vaidade, sinal de superficialidade e narcisismo, o precede. 

A vaidade de Sir Walter cria uma ruptura entre ele e Anne. Sua vaidade, compartilhada com Elizabeth Elliot, aliena Anne em casa e a força a procurar em outro lugar por amor, que ela encontra em Lady Russell, Capitão Wentworth, Sra. Smith e seus amigos Uppercross e Lyme.

Austen costuma punir a vaidade, mesmo quando não é exagerada. Emma sofreu, Lydia e Caroline Bingley também. E nem vamos entrar na galera de Mansfield Park...

Família

As famílias governam tudo em Persuasão. Os Elliots, os Musgrove, os Crofts, os Hayters, os Harville.

Separar-se da família é um passo necessário para formar uma identidade independente, mas poucos personagens conseguem dar esse passo, já que as conexões familiares são uma grande parte de sua posição no mundo. O fato de a família da protagonista não se importar muito com ela dificulta sua vida em casa, mas também a ajuda a desenvolver suas próprias ideias sobre quem ela é e o que quer. Anne amadurece por viver nesta situação.

Austen fala de devoção, honra e dever várias vezes em suas obras. Em Orgulho e Preconceito, Mr Darcy fica dividido entre ‘duty and desire’; em Razão e Sensibilidade, Sr. Ferrar não age por estar preso por honra. Em Persuasão, vemos Anne ligada à sua família apesar de sofrer com a convivência e por eles, abre mão de seu amor que os envergonharia.

Por que Anne não deixa sua família e vai morar com Lady Russell, a amiga de sua mãe e sua conselheira? O que é preciso para ser um bom membro da família? Até que ponto a identidade de uma pessoa é determinada por sua família?

Austen tinha laço muito firme com sua família, principalmente com o irmão Henry e a irmã Cassandra. Em várias de suas obras, ela valoriza a vida familiar apesar dos sofrimentos – Mansfield Park e Razão e Sensibilidade, por exemplo.

O relacionamento de Anne com sua família determina sua identidade: eles controlam onde ela mora, como ela deve se comportar e quem ela conhece. Apesar da família de Anne controlar sua existência física, sua mente independente a faz criar uma identidade separada deles.

Pais tolos

Pais tolos, mais um tema recorrente em muitos romances de Austen, desempenham um papel importante em Persuasão. As crianças que devem aturar pais irresponsáveis ou ridículos são importantes para Austen. Na Juvenília vemos aquela fofoca sobre ela e sua mãe... talvez seja uma pista disso.

Aqui, a imprudência e a extravagância insensível de Sir Walter causam o conflito inicial que força os Elliots a deixar suas casas e "recuar" em Bath. Sir Walter não é uma fonte de orientação para suas filhas; ele é tão vaidoso e egoísta que é incapaz de tomar boas decisões para a família. Ele transmitiu sua 'bobagem' tanto para Elizabeth quanto para Mary. Elizabeth compartilha sua vaidade e auto importância; Mary está tão cheia de autopiedade que acha tudo um desrespeito pessoal. Seus filhos são incontroláveis porque ela tem pouco interesse em ensiná-los. Alguém lembra de Mrs. Bennet de Orgulho e Preconceito? Ou o Sr. Woodhouse de Emma?

Embora Anne tenha o bom senso e a força de caráter para evitar a tolice, e arcar com os danos que isso provoca. 

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Amizade

Ninguém pode escolher sua família, mas pode escolher seus amigos. 

Esse elemento de escolha torna os amigos tão importantes quanto a família, e faz deles rede de segurança. Em Persuasão, os amigos aparecem quando a família falha, proporcionando outro contraste entre o mérito individual e os laços de sangue.

Lady  Russel é mais cuidadosa com Anne que Sir Walter, o mesmo pode ser dito da Sra. Musgrove. E a viúva Sra. Smith é mais leal a Anne que suas irmãs.

Já o Capitão Wentworth conta com seus amigos de marinha para apoiá-lo. Teria ele levado Anne para ser ‘aprovada’ por eles em Lyme, ou talvez comparada a Louisa?

Sir Walter aprova a amizade de Elizabeth com a Sra. Clay, mas não a amizade de Anne com a Sra. Smith. Veja a diferença de raciocínio entre as viúvas e as filhas solteiras. Uma delas serve de escada e a outra é só uma amiga pobre. Seria isso?

Ao fazer amizades de Anne com o Sr. s. Smith e o Capitão Harville necessários para seu reencontro final com Wentworth, o romance sugere que segregar a amizade por classe limita oportunidades na vida.

O fracasso da amizade de Elizabeth com a Sra. Clay e a amizade do Sr. Smith com o Sr. Elliot sugere que a igualdade de índoles é necessária para uma amizade bem-sucedida.

Agressividade viril

As objeções de Lady Russell a Wentworth como um marido adequado para Anne são muitas vezes atribuídas ao esnobismo de classe, mas havia mais segredos envolvidos que Austen não escreveu porque seriam óbvios ao seu leitor – lembre-se que ela escrevia para pessoas do início do século 19 e não para nós no século 21.

O autor Brian Southam aponta em Jane Austen and the navy que "os traços que fazem Wentworth parecer tão 'perigoso' para Lady Russel são as próprias qualidades de caráter que conquistaram fama para os capitães britânicos no domínio dos mares"

A escolha do almirante Croft da metáfora naval para o namoro é apropriada: "eu gostaria que Frederick fosse mais ousado e nos trouxesse uma dessas jovens moças para Kellynch" (cap 10). Wentworth faz sua "bela fortuna" com "capturas sucessivas" e, uma vez que sua caça em alto mar valeu a pena, ele está pronto para pegar uma esposa: "agora seu era objetivo se casar" (cap 8). Flertando com Louisa, Henrietta e as garotas Hayter, que também 'aparentemente foram admitidas à honra de estar apaixonada por ele' (cap. 8), ele tem uma semelhança nada lisonjeira com Henry Crawford de Mansfield Park. A avaliação de Anne de que ele estava "errado ao aceitar (pois aceitar deve ser a palavra) atenção de duas jovens ao mesmo tempo" é uma estimativa conservadora. Além disso, sua brincadeira com as irmãs Musgrove atrapalha o relacionamento de Charles Hayter com Henrietta (tudo no desastroso jantar do cap 8). Knox-shaw observa a "série de metáforas militares (que) sublinha a infelicidade (de Charles Hayter) neste caso":

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Anne tem o prazer de notar que Wentworth está ciente de que não há lucro em roubar as afeições das mocinhas, e Charles Hayter depois de deixá-la perigosamente 'desprotegida' é forçado 'depois de uma curta luta a sair do campo' e então a encontra necessário 'retirar-se' dessa posição também.

Apesar de ser o herói do romance, Wentworth age com crueldade em relação a Louisa. Movido por rancor e ego ferido, ele alimenta as fantasias da garota como se realmente estivesse inclinado a escolhe-la como esposa. Ela é uma jovem gentile, moça criada para ser boa esposa e inocente quanto às realidades do mundo, então ela cai na rede de flertes dele. Na ocasião do acidente descobrimos que ele nunca foi sério na intenção de casar com ela e só então o capitão se dá conta que estava prestes a ter que desposar a mocinha para evitar sujar sua honra.

Una-se a isso a descrição da animação dos marinheiros em ver as moças inocentes e desprotegidas desmaiadas no Webb depois do acidente de Louisa. "A essa altura, a notícia do acidente já havia se espalhado entre os operários e barqueiros ao redor do Cobb, e muitos se aproximaram para serem úteis se pudessem, e pelo menos, apreciar a visão de uma jovem inerte, ou melhor, duas mocinhas inertes, pois isso provou ser duas vezes melhor do que o primeiro relatório. 

Foi decidido que Henrietta era a mais bonita, pois, embora parcialmente recomposta, ela estava bastante indefesa." Cap 12.

Austen nos fala da agressividade controlada que os homens honrados têm em relação às suas impulsividades viris. Ah, Mr. Darcy que o diga!

‘Permita-me dizer o quão ardentemente eu a amo e admiro.’ (Cap 34) Elizabeth não permitiu, mas ele foi em frente e fez aquele pedido de casamento louco. Mas, bem, O&P é outro assunto...

Doença

Tanto as doenças reais quanto as fingidas revelam a verdadeira natureza dos personagens. Hipocondria é outro assunto recorrente nas obras de Austen (temos Mrs. Bennet de O&P, Sr. Woohouse em Emma, os irmãos Parker em Sanditon, p.e.)

Mary Elliot Musgrove se imagina doente para chamar atenção, mostrando sua superficialidade. 

Louisa Musgrove está animada e pretende se casar com o capitão Wentworth até depois de seu acidente, quando ela se apaixona pelo calmo e intenso capitão Benwick. A Sra. Smith suporta sua doença sem reclamar.

Unindo todos os casos está a dedicação e delicadeza de Anne tratando de todos apesar da impaciência, menosprezo e/ou ridicularização dos outros personagens.

Aparências

As aparências podem enganar – mas também podem ser reveladoras. O que eles revelam, no entanto, pode ser mais sobre o observador do que sobre o observado. A beleza é realmente sobre atratividade, que é sobre desejo – não somente desejo erótico, mas o que uma pessoa quer de outra. 

Os personagens que recebem elogios por sua aparência geralmente são aqueles que têm algo que os outros desejam ter ou compartilhar. Enquanto a mensagem ostensiva do romance é que a aparência física não é um indicador claro de personalidade, o romance muitas vezes liga a aparência de um personagem com quem ele é por dentro. Nos deparamos com a ideia de que a importância da beleza reforça ou enfraquece a percepção de uma pessoa por seus pares.

 Como de resolver essa contradição? Anne fica mais bonita à medida que fica mais feliz, sugerindo que a aparência física é altamente influenciada e muito mais do que apenas superficial.

Talvez Oscar Wilde tenha aprendido isso com Austen e nos deu Dorian Gray como presente.

fashionista

Caminhadas 

Caminhar é um motivo empregado em todos os outros romances de Austen. Quando os personagens saem para passear, geralmente sinaliza um período de desenvolvimento e lá vem uma grande revelação. 

Caminhar implica conversar com os outros, comentar sobre o ambiente e reagir ao mundo exterior. Elas deixam que Austen aumente nossa compreensão sobre um personagem, às vezes mudando perspectivas. 

Em Persuasão, caminhadas são essenciais para a progressão do relacionamento de Anne e Capitão Wentworth. Anne descobre seus sentimentos em relação à constância feminina em uma de suas caminhadas iniciais (cap 10) e, no final, eles revelam seus sentimentos um ao outro em uma caminhada para casa pelo parque (cap 23). Caminhar é um motivo frequente e essencial.

Caminhadas dão aos personagens a oportunidade de falar em particular, bem como de serem ouvidos ou vistos por outros. Quando em uma caminhada em Uppercross, Anne ouve a conversa de Wentworth e Louisa Musgrove e em Lyme, Anne Elliot é "vista" por William Elliot. 

Além disso, nas caminhadas pelo campo os personagens muitas vezes encontram conforto e tempo para reflexão em estar rodeados pela natureza. À medida que os personagens viajam por vários locais, a natureza que encontram varia. No cap 3, descobrimos o prazer que a visão dos "gramados e bosques" de Kellynch trazem a Anne. Em Lyme os personagens procuram o mar por sua beleza. No cap 12, Anne e Henrietta Musgrove acordam cedo e caminham até a praia, onde "elogiam a manhã; gloriaram-se no mar; aproveitam o deleite da brisa fresca".

Caminhadas também dão a Austen o recurso de fazer o cenário inspirar e mudar com os personagens aprofundando nossa percepção da narrativa: na caminhada do cap 10, Anne recita citações sobre o outono para si mesma, "aquela estação que havia extraído de todo poeta, digna de ser lida, alguma tentativa de descrição ou algumas linhas de sentimento". Em contraste com Anne, Louisa Musgrove e o capitão Frederick Wentworth flertam. Depois que Louisa diz "Se eu amasse um homem, como [a Sra. Croft] ama o Almirante, eu sempre estaria com ele", Anne ouve Wentworth elogiar o caráter firme de Louisa, e o humor de Anne muda rapidamente. Como a narração segue principalmente o ponto de vista de Anne, a mudança em suas emoções se reflete em suas observações da natureza: "o ano em declínio, com felicidade em declínio, e as imagens de juventude e esperança e primavera, tudo se foi". Sua tristeza pela juventude perdida e esperança são projetadas em seu entorno para retratar uma atmosfera deprimente. Quando o grupo chega a Winthrop, a fazenda aparece "sem beleza e sem dignidade".


fonte: meus arquivos pessoais, study.com, schmoop, reddit, spark notes, Jane Austen and Animals, wikipedia

veja a primeira parte desse post aqui


O que você acha?

Me fala aqui nos comentários o que achou desta maratona de Persuasão.

Aqui você acha minhas PESQUISAS SOBRE JANE AUSTEN , 

inclusive os outros posts de Persuasão


e espera o novo filme lendo a JUVENÍLIA de Jane Austen!

    


domingo, 28 de agosto de 2022

Persuasão detalhada em temas

Olá! Ainda quer saber de Persuasão?

the envoy web

Eu adoro Jane Austen, adoro estudá-la, mas até eu já estou achando que estou enchendo seu saco! Quanto mais eu mexo, mais acho. Tentei juntar o que era mais explicativo de sua última obra completa - e em muitos aspectos diferente das anteriores.

Até agora já postei:

Separei então 19 temas para te trazer como fechamento desse estudo e te mostro em dois posts. Neste agora trago Convencimento, Esferas separadas, Casamento, Cavalheiro perfeito, Rigidez de classes e mobilidade social, Sociedade e classe, Criadagem, Gênero e Memória & passado.

No próximo vou te contar de: Juventude x maturidade, Insensatez, Vaidade, Família, Pais tolos, Amizade, Agressividade viril, Doença, Aparências e Caminhadas 

Se você leu os outros posts, nem tudo vai ser novidade, mas agora tenho a chance de ir um pouco mais fundo e comparar com outras obras de Austen.

Aqui está...

rolling stones - Um brinde a Persuasão!!

TEMAS DE PERSUASÃO

1ª parte

Claro, Persuasão como convencimento é um dos temas principais do romance e aparece de várias formas em tons pejorativos e elogiosos, mas não é o único. A obra tem vários temas/assuntos importantes, trata de diversas vertentes dos relacionamentos humanos.

Sabemos que ‘Persuasão’ não foi um título escolhido por Jane Austen que faleceu antes de ver a publicação deste que foi seu último romance completo. O manuscrito dela era chamado de “The Elliots” e foi rebatizado por seus irmãos posteriormente. 

A julgar pela quantidade de cores que Persuasão nos mostra, essa escolha de título poderia ter sido bem diferente!

Vamos a eles:

Persuasão

Hoje, a persuasão/convencimento é um grande negócio, o marketing usa de diversas ferramentas para nos convencer de tudo o dia todo. Notícias, fake news, mensagens subliminares nas produções audiovisuais e musicais, propagandas em geral, outdoors, tweets, rótulos de produtos - é praticamente impossível resistir às tentativas de nos persuadir a comprar ou acreditar em algo. Na época de Austen, havia propaganda também (mesmo que os meios de comunicações tivessem menos alcance), e portanto avançava dos limites das relações familiares e amizades pessoais.

O romance retrata a persuasão como uma ferramenta poderosa, mas não a declara certa ou errada – depende de quem a usa e para quais fins. Um conselho útil, por exemplo, pode levar uma pessoa a uma decisão ruim ou a uma crença falsa. Anne Elliot sofre com suas escolhas e ao final, decide por si própria. 

Na época, como agora, precisamos contar com nosso próprio julgamento para encontrar um meio-termo entre acreditar no que ouvimos ou simplesmente ignorar. O romance questiona se é melhor ser firme em suas convicções ou estar aberto às sugestões dos outros. 

Depois de ter o coração partido por Anne que, oito anos antes seguiu conselhos para terminar o noivado, o capitão Wentworth decide que só se casará  com uma mulher de caráter forte e uma mente independente. Anne não discorda que essas são boas qualidades, mas também tem grande senso de obrigação e dever. Ao final do romance, ela conclui que era certo que ela se deixasse persuadir porque "um forte senso de dever não é parte ruim da porção de uma mulher" (cap 23) e Austen deixa para o leitor julgar se a persuasão é uma força positiva ou negativa no romance.

O tema titular do romance, a persuasão é tanto a essência quanto o principal conflito amoroso da história. Depois de quase oito anos de arrependimento, ambos os personagens lutam com sua raiva, dor e remorso e – eventualmente – tentam persuadir o outro a dar outra chance ao seu amor, apesar da decepção e desconfiança. 

Outros personagens também desenvolvem esse tema. Esteja alguém persuadindo, sendo persuadido ou encorajando alguém a persuadir outro, o tema serve como uma fonte constante de tensão. Tem sempre alguém querendo convencer alguém a fazer alguma coisa, não é mesmo?

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Esferas Separadas

A ideia de esferas separadas era uma doutrina do século XIX de que existem dois domínios da vida: o público e o doméstico. Tradicionalmente, o homem estaria encarregado do domínio público (finanças, questões legais, etc.), enquanto a mulher estaria encarregada do domínio privado (administrar a casa, criados, crianças, etc.). 

Navegando na sociedade, as mulheres geralmente se envolvem em decisões românticas por causa de limitações sociais estritas. No capítulo 4, vemos que Lady Russell, que influenciou Anne Elliot a romper seu noivado com o capitão Wentworth, a incentivou a se casar com Charles Musgrove. Lady Russell escolhe para sua afilhada um homem que Anne não ama porque, como filho primogênito do sr. Musgrove, sua "ele só fica atrás de Sir Walter em importância naquele condado ". Na maioria das vezes, os casamentos parecem mais um jogo de estratégia, e o amor é raro. 

Persuasão questiona a ideia de esferas separadas ao apresentar os Crofts. Apresentados como um exemplo de um casamento feliz e ideal, o Almirante e a Sra. Croft compartilham as esferas de suas vidas. A Sra. Croft se junta ao marido em seus navios no mar, e o Almirante Croft fica feliz em ajudar sua esposa nas tarefas domésticas. Eles têm uma parceria tão grande que até dividem a tarefa de dirigir uma carruagem. Austen, neste romance, desafia a noção predominante de esferas separadas.

Casamento

O casamento é outro motivo que desempenha um forte papel nos romances de Austen e muitas vezes é mal compreendido. Apesar do forte apelo romântico, o que está escondido nas camadas mais profundas é a sobrevivência feminina na rigidez das convenções sociais. 

Casamento, portanto, é mais a consumação de um caso de amor; o casamento determina diretamente as posições sociais na sociedade. Indivíduos, classes, títulos e realizações são medidos e pesados na consideração de um casamento. O namoro e noivado que antecedem a cerimônia permitem que amigos e familiares opinem sobre a adequação da união. O casamento serve, assim, como uma espécie de parâmetro social para medir e comparar os personagens do romance.

A fofoca constante em torno da busca do casamento, ou noivado, mostra o quanto a sociedade valorizava o casamento. Pelas conversas frequentes ao longo do romance, torna-se evidente para os leitores que o motivo para se casar é geralmente manter ou melhorar sua posição social. 

No cap 4, o exemplo básico é o noivado do Capitão Wentworth e Anne Elliot. Por causa do título de seu pai e da falta de dinheiro e antecedentes familiares de Wentworth, outros viram o noivado como inapropriado, apesar da adequação do caráter do casal e do profundo que os unia. No cap 21, até a Sra. Smith, que conhece intimamente a crueldade de William Elliot, insiste que seus sentimentos românticos por Anne são genuínos e tenta convencê-la a considerar se casar com ele. Ela insiste: "Sua paz não naufragará como a minha. Você está segura em todos os assuntos mundanos."

Embora Persuasão seja um romance segundo as definições objetivas (veja a wikipedia: Romance é um gênero de ficção com foco principal no relacionamento e no amor romântico entre duas pessoas e geralmente tem um final emocionalmente satisfatório e otimista.), esta obra também apresenta algumas ideias realistas (pouco românticas) sobre o casamento. 

Mostrando vários pares ao longo da trama (p.e. os Mugroves seniors e juniores), Austen nos conta que nem sempre é possível casar e viver feliz para sempre. É provável que depois do casamento, se perceba que o amado não é tudo o que parecia ser. 

Os personagens sortudos conseguem descobrir isso antes de atarem os laços do matrimônio, e os ainda mais sortudos acabam com um casamento feliz de qualquer maneira. Charlotte Lucas já havia nos dito isso em Orgulho e Preconceito: “... desejo sucesso a Jane de todo o coração; e se ela se casasse com ele amanhã, eu penso que ela teria uma chance tão boa de felicidade quanto se ela estivesse estudando o caráter dele (Sr. Bingley) por doze meses. A felicidade no casamento é inteiramente uma questão de sorte. Se as personalidades do casa são tão conhecidas ou tão semelhantes de antemão, isso não assegura em nada a sua felicidade. As pessoas sempre continuam a mudar, o que causa aborrecimento; e é melhor saber o mínimo possível dos defeitos da pessoa com quem você vai passar a vida.” (cap 6)

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E veja que Austen não restringe felicidade matrimonial ao mais idosos. Tanto os Crofts quanto os Harville são bastante felizes. 

A oposição do romance a longos noivados sugere que é impossível ter certeza do caráter do cônjuge antes de se casar com ele e que a escolha de um cônjuge deve ser baseada no instinto, e não no julgamento ponderado. Anne estava certa o tempo todo, pena que ouviu os outros...

“Se prestarmos atenção, todos nós temos um melhor conselheiro em nós mesmos do que qualquer outra pessoa pode ser.” Mansfield Park, cap 42

Cavalheiro perfeito

Persuasão apresenta duas versões muito diferentes do cavalheiro inglês. De um lado está Sir Walter, o homem tradicional, proprietário de terras, titulado, que evita o trabalho e busca conforto. Por outro lado estão o Capitão Wentworth e o Almirante Croft. Ambos os oficiais navais são trabalhadores que fizeram suas próprias fortunas. Embora suas maneiras sejam impecáveis, eles não são do mesmo alto nível social de Sir Walter. 

Nesse período da história inglesa, a definição de 'cavalheiro' estava se tornando cada vez mais flexível; este romance reflete essa mudança.

Há que se lembrar da influência da guerra nas esferas sociais. Um conflito de grande porte altera a economia, as taxas de mortalidade, a sobrevivência das famílias e tantos outros aspectos da vida civil. Era um momento de revolução social para todos.

Rigidez de Classe e Mobilidade Social

As questões de rigidez de classe e mobilidade social são temas importantes em Persuasão. Ela determina onde você mora, o que você come, quem você vê e sobre o que você fala.  Austen é conservadora em seu respeito às tradições de classe, reconhece regras e limites para a ambição social. Solteira com irmãos tanto na carreira militar quanto herdeiros, ela defendia os valores e tradições de respeito pela estrutura social. 

 Ela não era uma revolucionária, no entanto, é sutilmente subversiva, ou inconformada, em como fala da mobilidade social. Mulheres contavam com o casamento para manter sua posição social (Elizabeth) e subir (Sra. Clay). Homens tinham a chance de subir na vida por herança (Primo Elliot) e carreira na marinha (Capt Wentworth). 

Como forma positiva de subir gradualmente e com esforço, ela coloca a Marinha. Já o Sr. Elliot e a Sra. Clay são punidos pelo egoísmo que mostram ao ultrapassar seus limites e quebrar essas regras. 

Todas as alternativas têm altos custos e os personagens mostram o quanto se esforçam para alcançar esses objetivos.

Sociedade e classe

Os personagens de Persuasão estão tentando se adaptar a uma sociedade em que as fronteiras de classe são mais abertas do que costumavam ser – talvez devido às mudanças vindas das guerras Napoleônicas. 

Em muitos casos, personagens se apegam firmemente à estrutura de classe tradicional e rígida. Outros, no entanto, são mais abertos a julgar as pessoas com base em suas personalidades individuais. As fronteiras sociais em mudança não significam que as distinções de classe estão desaparecendo, mas mostra evolução e adaptação.

Vemos a decadência da aristocracia na vaidade do Sir Elliot e vazieira da Viscondessa Dalrimple, o que contrasta com a vida de amor do Capitão Harville e Almirante Croft. É a dicotomia entre riqueza monetária x riqueza familiar x posição social.

E nisso está a redenção de Wentworth que perseguiu a riqueza financeira e privilégios da classe alta, mantendo aparência e maneiras. 

Apesar da cordialidade, existe uma tensão entre os círculos sociais, mesmo aqueles com vínculos matrimoniais, como os Musgrove e os Hayter. Os homens da marinha (Almirante Croft, Capitão Benwick e Capitão Wentworth) são relutantemente aceitos pelos círculos sociais mais elevados, e isso somente quando alcançam posição social impulsionada por fortuna significativa.

Criadagem

Que papel os criados quase invisíveis desempenham em Persuasão? Talvez o mesmo que em Orgulho e Preconceito?

Austen raramente dava voz à criadagem, isso é muito curioso. Em OeP vemos a governanta de Pemberley corroborar a boa índole de Mr. Darcy e alguém misterioso contando do pedido de casamento de Mr. Darcy para Sr. Collins que conta para Lady Catherine que vai importunar Elizabeth. Teria sido uma criada?

Veja essa fala de Mary no cap 6: "A Sra. Musgrove acha que todos os seus criados são tão confiáveis que seria alta traição questioná-los; mas tenho certeza, sem exagero, que sua criada de chambre e sua lavadeira, em vez de trabalhaem, estão fofocando pela vila o dia todo. Eu as encontro onde quer que eu vá; e digo que nunca entro duas vezes no meu berçário sem ver algo delas. Se Jemima não fosse a criatura mais confiável e estável do mundo, bastaria mimá-la; porque ela me diz que elas estão sempre lhe tentando a passear com elas."

Conseguimos perfeitamente imaginar a fofocalhada que devia rolar entre o cottage e a big house de Uppercross e como Mary se beneficiava disso.

Gênero

Embora Persuasão às vezes sugira diferenças fundamentais entre os sexos, também sugere que essas diferenças se devem às diferentes expectativas e oportunidades sociais aplicadas a homens e mulheres na época. 

Enquanto se espera que os homens do romance ‘vivam no mundo’ e façam o melhor de si, as mulheres de uma certa classe social têm que ficar perto de casa, gostem ou não. O final do romance, no entanto, com seus elogios às "virtudes domésticas" da marinha (cap 24), sugere que a vida doméstica é melhor quando homens e mulheres estão em pé de igualdade.

Austen devia ter isso muito claro na mente, talvez porque viu seus irmãos homens ganharem o mundo enquanto ela e Cassandra ficaram em casa com os pais. Ela discute esse tema em Lady Susan de forma enviesada mostrando todas as tramoias que a protagonista precisa fazer para sobreviver enquanto os herdeiros (tanto seu cunhado quanto o cunhado dele) somente precisam... herdar.

As diferenças de gênero no romance rodam em torno da impossibilidade das mulheres ‘gentile’ em ganhar a vida, enquanto aos homens é permitido angariar poder e mobilidade. Elas não podem escapar de suas famílias (são filhas até serem esposas) e isso limita como sua identidade pode se desenvolver.

Em Orgulho e Preconceito, vemos a superioridade que Mr Darcy tem sobre Elizabeth devido ao seu conhecimento do mundo já que ela vive na sua vila e depende dos tios para viajar um pouco. E em Abadia de Northanger, o adorável Mr. Tilney se encanta com a inocência de Catherine em contraponto com a dureza que ele enfrenta em sua vida masculina.

Voltando a Persuasão, vemos os personagens masculinos e femininos pensando em casamento, cada qual querendo algo diferente da união. Mesmo se divididos em núcleos com Anne e Wentworth opostos a Elizabeth e o primo Elliot, cada qual tem suas razões. Veja algumas:


é tudo muito confuso mesmo, igual à vida...

Anne – Wentworth liberdade da família

Wentworth – Anne companheira para vida que ele vive

Elizabeth – manter o status, ao menos

Sr. Elliot – herdar o legado 

No final do romance, Anne e o Capitão Harville têm uma longa discussão sobre diferenças de gênero. O resto do romance reforça ou enfraquece alguma parte dessa discussão?

Há quem defenda que o enredo Persuasão depende das diferenças de gênero, quanto outros preferem olhar a trama pela ótica da importância do amadurecimento pelo qual os personagens passam – cada qual a seu nível.

Memória e passado

O passado não é facilmente esquecido em Persuasão. De fato, aqueles que romperam totalmente com o passado para se reinventar são vistos com desconfiança. E, no entanto, apegar-se demais ao passado também pode ser um problema. No final do romance, os personagens mais bem-sucedidos são aqueles que são capazes de aprender com suas experiências passadas mantendo a perspectiva.

Talvez Persuasão seja um romance sobre ambiguidade.

No final do romance, o capitão Wentworth diz que suas memórias o deixaram cego para o presente, mostrando o quanto suas dores o moldaram. 

Memórias moldam vários personagens além de Anne e Wentworth. Sir Elliot sente falta da esposa, Capitão Benwick sofre pela noiva (como Cassandra deve ter sofrido), Sra. Smith que perdeu o marido (e com isso, sua subsistência).


Veja a segunda parte deste post aqui.

fonte: meus arquivos pessoais, study.com, schmoop, reddit, spark notes, Jane Austen and the navy, wikipedia


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