segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Mary Wollstonecraft merecia mais

 Olá,

Eu confesso que tentei entender, mas não gostei da estátua em homenagem à 'mãe' do feminismo, Mary Wollstonecraft.

the independent

Engraçado que ela hoje é mais conhecida pela maternidade, por ser mãe de Mary Shelley, esta autora de Frankenstein; justo ela que faleceu logo depois do parto aos 38 anos e foi pioneríssima na reinvindicação de direitos femininos. Mas também, maternidade é fundamentalmente uma característica  da mulher.

trecho de uma carta dela para o companheiro, pai do bebê que ela esperava: 'Começo a amar esta criaturinha e a antecipar seu nascimento como um novo nó que não desejo desatar.'  -  pic de feminist for life


Os retratos de Wollstonecraft (1759 - 1797) a mostram como uma mulher austera, mas até acho que era a norma da época . Wiki diz que 'durante sua breve carreira, ela escreveu romances, tratados, uma narrativa de viagem, uma história da Revolução Francesa, um livro de conduta e um livro infantil; mas é mais conhecida por A Vindication of the Rights of Woman (1792), no qual ela argumenta que as mulheres não são naturalmente inferiores aos homens, mas apenas parecem ser porque não recebem a mesma educação, que homens e mulheres devem ser tratados como seres racionais e imagina uma ordem social fundada na razão.

Após a morte de Wollstonecraft, William Goodwin, seu viúvo, publicou Memoir (1798) ou seja, memórias de sua vida, revelando seu estilo de vida não ortodoxo, que inadvertidamente destruiu sua reputação por quase um século. No entanto, com o surgimento do movimento feminista na virada do século XX, a defesa de Wollstonecraft da igualdade das mulheres e as críticas da feminilidade convencional tornaram-se cada vez mais importantes.'

Bem, nem tanto.

Li bastante sobre a campanha para levantar fundos para fazer a homenagem, sobre como na Inglaterra existem poucos monumentos para mulheres, sobre as críticas que a artista recebeu em suas outras obras. Ainda assim, não gostei mesmo.

youtube

Em sua famosa obra revolucionária de 1792, formadora de opinião, influenciadora, vanguardista, ela diz no capítulo 5 que 'a mulher é ensinada desde a infância que a beleza é seu poder, por isso a mente dela se molda ao corpo e, vagando em sua gaiola dourada apenas busca adornar sua prisão.' (Taught from infancy that beauty is woman's sceptre, the mind shapes itself to the body, and roaming round its gilt cage, only seeks to adorn its prison.) A Vindication of the Rights of Woman. Lá se vão 2 séculos e tal, e ainda pensamos o mesmo, agimos da mesma forma.

Estaria Mary W equivocada ou nós é que não aprendemos ainda?

A julgar por este monumento, acredito que ainda temos muito a evoluir...

Conto o que aprendi sobre. Depois da campanha 'Mary on the Green' que levou 10 anos para levantar fundos, vários artistas foram convidados a apresentar ideias para a estátua. Um comitê de curadores de arte e pessoas da comunidade votou unanimemente na proposta de Maggi Hambling. A autora explica a estátua - caso você, como eu, não tenha entendido nada depois de admirar boquiaberta essas fotos. 'A escultura mostra uma figura prateada nua de todas as mulheres sustentada por um turbilhão de formas femininas. Não é uma imagem heróica ou fantasiosa convencional de Mary Wollstonecraft. É uma escultura sobre agora, em seu espírito.' 

Então, eu só vejo peitos e pelos pubianos.

tes


Juro que tentei achar as formas femininas sustentando a bonequinha mínima no topo. Li que essa massa prateada reflete o parque e a Igreja Não-Conformista que Mary W. frequentava. Mas me distraio sempre na bonequinhazinha. Peitos, mamilos, cabelo... curto? Afro? Mas as feições são europeias. Magra, mais magra do que as mulheres eram no século 18, mas se é para ser do século 21, também me parece magra-modelo-e-manequim, não todas as mulheres, ou a mulher comum traduzindo melhor. Nem mudei esse termo 'everywoman' porque é muito repetido na defesa da escolha artística e ele me parece... trivial.

Uma das defensoras da campanha de fundos e do monumento pronto diz: 'Maggie Hambling é uma artista pioneira e queríamos fazer algo diferente de colocar pessoas em pedestais. Poderíamos ter feito algo realmente chato e comum, e muito vitoriano e antiquado.' Essa artista, Hambling, é bem controversa. Já li até críticas dizendo que a rejeição a este monumento é machismo contra ela, a artista. tsk, tsk. E continuei pesquisando para aprender a ver... 

“Não é convidativa (a nudez da peça) . É um desafio. 

É uma obra de arte desafiadora e é para ser assim.”

Ah, tá. 

Ainda assim, não gostei. Por que ela está nua com atributos tão perfeitinhos? Precisava?

essa foi a opção rejeitada, ficou em 2º lugar. pic de financial times


As primeiras ROUPAS que se tem notícia vêm dos neandertais (40.000 anos atrás) que em algum momento aprenderam a usar as peles dos animais para se manter aquecidos e secos. Também se fala da possibilidade dessas primeiras roupas terem tido funções sociais antes de práticas, algo como rituais de magia, decoração, culto ou prestígio. A semiótica (estudo de símbolos) aplicada ao vestuário leva a imagens que sustentam a estrutura da interação social como o sistema de status e papéis. A maneira como alguém se veste pode ser analisada como um mecanismo simbólico para comunicar ideias e valores a outros membros de uma sociedade.

A roupa é um significante visual que pode ser interpretado de forma diferente com base especialmente no contexto e na cultura.

E a mulher que defendeu a igualdade é representada nua.

Como disse uma outra mulher muito eloquente (tsk,tsk) em um reality show: 'Não gosto de você. Não sinto verdade em você. Acho que você, sim, incoerente, você está onde te convém. em todos os seus jeitos, falas, posicionamento e etc '

outro monumento recente de Londres, da sufragista Millicent G Fawcet. A crítica aqui foi para o pano de prato que ela segura. tsk, tsk. Mas está vestida. pic de secret London


Acho que é indiferente falar da fonte escolhida para gravar o nome de Mary na base, disso ou daquilo. O blob de bronze prateado elevando a mocinha frágil, desnuda, sem o apoio da sociedade e mesmo assim, olhando corajosamente para o futuro, me causa frustração. 

Chocante? É. 

Impactante? Também. 

Atende ao que se propõe, que é mostrar o quão fora dos padrões Wollstonecraft era? Sim. 

Mas conta a alguém que nunca ouviu falar nela quem foi essa mulher? Não.

outra obra controversa da mesma artista, esta em homenagem a Oscar Wilde que sai de um caixão fumando um cigarrinho. Tô doida ou ele tem até gravata? pic de timeout


No meu ponto de vista, Mary W. merecia mais que uma controvérsia por sua nudez (mesmo que não seja uma representação do corpo físico dela). Uma gaiola vazia faria o mesmo sentido, né?

Até.



serviço: 

Mary Wollstonecraft está em Newington Green.

Oscar Wilde está em Spreading gossip, na Adelaide Street com Charing Cross. Você pode sentar no peito dele para descansar do footing, se quiser.


pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e em outros sites que já nem me lembro porque li bastante sobre isso desde a inauguração.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

SOVINICE é imperfeição nossa de cada Natal

 olá, tudo bem?

Trago novidades muito bacanas!

Sim, o ano de 2020 finalmente está acabando e com ele, as festas e um livro novo! Yay!



A série LORDES IMPERFEITOS que componho com minha querida amiga LUCY DIB começa com o vício da SOVINICE, o apego ao material, sujeito muquirana, mão-de-vaca, pão-duro, sangue ruim. O CONDE SOVINA é dupla com o DUQUE MUQUIRANA.



Ainda não sabe que os Lordes serão sempre lançados de dois em dois? 

Aqui conto as fofocas todas.


Tá felizinha, né? 

charles dickens/ J Leech, F Barnard, 1843 - catawiki

Aposto que tá pensando em alguém olha grande. 

Ou é tu mesmo...

Particularmente, no meu caso, sovinice é um momento, não uma qualidade que me define, digamos assim. Por exemplo: 

com chocolate: sovina, sai pra lá. 

Com cerveja: generosa, divido, pega um copo aê, miga. 

Com Livro de papel: sovina, não empresto, vai que você não me devolve. 

Com Filme: generosa, claro, de boa, bora ver junto.

Existe na literatura um zilhão de bons personagens sovinas, quando criança eu amava o 'Seu Nonô Correia' da novela 'Amor com amor se paga' de Ivani Ribeiro, 1984. Ele era de matar, mão-de-vaca de irritar, era xingamento popular na época chamar os outros de Nonô. E quando acharam o tesouro dele! Nossa, foi lindo!

Ah, que saudades de quando as novelas tinham enredo, começo/meio/fim... Foi até difícil escolher o trechinho pra colocar aqui, se o do tesouro ou da geladeira fechada a cadeado, haha. Muito engraçado!

Pesquisando o tema para compor o Conde, descobri quase sem querer que a grande autora Ivanir inspirou o Nonô no Harpagão de Molière e aí, como esse já estava nos meus alfarrábios, as coisas se encaixaram. Assim, no meu romance dos LORDES IMPERFEITOS, o CONDE SOVINA, Ruby - a mocinha - provoca o Conde com essa peça de Molière - O avarento. Famosa desde o sec 17 quando foi lançada, encenada trocentas vezes, até pela turma da Mônica, ainda é bastante atual. Achei um resumo interessante (talvez um pouco truncado) no vestibular1 que diz: 'ciclicamente as civilizações fazem suas adorações ao Bezerro de Ouro'. Ouch! O enredo fala de um sujeito tão olho grande, mas tão olho grande, que decide casar o filho com uma viúva rica filha de cara rico, o problema é que ela é apaixonada por um pobretão. Eita!

E como os Lordes se passam na Inglaterra, pelo menos essa primeira dupla, e estamos chegando nas festas de final de ano, graças ao bom Deus, quero falar de...

UM CONTO DE NATAL

 ~ Charles Dickens ~

Mickey's Christmas carol, 1983. we heart it

Quantas vocês você já viu esse filme/desenho/meme na vida? É como a música de John Lennon e show de Roberto Carlos: se saiu do baú, chegou o Natal.

Um conto de Natal (A Christmas Carol. In prose. Being a Ghost Story of Christmas) foi lançado no *meu aniversário* do ano de 1843 (19 de dezembro) quando Dickens já era famoso, e desde o início foi um sucesso. Muito bem recebido, na véspera de Natal, 5 dias depois, já estava esgotado - 6k cópias- , em janeiro já tinha cópia pirata sendo vendida no mercado negro, e ele precisou começar uma campanha por direitos autorais. Um dia posso postar sobre isso, é bem bacana essa história da pirataria de livros na era vitoriana.

Para ele foi um alívio vender tão bem, estava em maus bocados financeiros depois de sua longa viagem para os EUA no ano anterior. Teria ele costurado uma obra comercial? Bad Moira, bad... Se foi, deu quase certo, pois no final de 1844 já tinha vendido mais de 15k cópias. Pena que ele não ficou com a grana toda, tinha que dividir com o editor, etc, etc. 

O homem que inventou o Natal, 2017 - pic de filmes dublados e legendados


Apesar do filminho fofo contar diferente, até existem evidências (não canta!) que ele construiu Scrooge se baseando em dois homens reais. 'De acordo com a BBC Arts, Dickens teve a ideia para o personagem depois que entendeu mal a lápide do comerciante chamado Scroggie durante um passeio ao redor de Canongate Kirkyard de Edimburgo, que é mencionado em seus rascunhos como um indivíduo triste e mau. Outra fonte potencial para o personagem é o famoso avarento John Elwes. De acordo com o Telegraph, apesar de ser extremamente rico, Elwes gostava de viver aquela vida insensível - racionando aquecimento, velas e até mesmo comia comida que estava estragando.' Éca!

Enfim, a saga de Ebenezer Scrooge e os Fantasmas do Natal nunca deixou de ser publicado até hoje, 377 anos nas paradas de sucesso, todo dezembro. 

Para quem não lembra, não viu encenado pelos Muppets, Trapalhões, Mickey Mouse, Barbie, Disney, A feiticeira, Esqueceram de mim, leu (como eu, assumo), aqui vai um resumo muito resumido do que é o enredo que fala de ganância, perdão, viagem no tempo, generosidade e compaixão: 'Scrooge é um velho mesquinho e egoísta que odeia o Natal. Num frio 24.12, ele toca o terror: é cruel com as pessoas que trabalham para ele, se recusa a doar para instituições de caridade e é rude com o sobrinho que o convida a passar o Natal com ele. De noite, Scrooge é visitado pelo fantasma de seu antigo sócio, Jacob Marley - e depois por três fantasmas do tempo: os fantasmas do Natal passado, do presente e do futuro. 

O Fantasma do Natal Passado leva Scrooge em uma viagem pelos Natais de seu passado, onde ele se vê como uma criança infeliz e um jovem mais apaixonado por dinheiro do que sua noiva. O Fantasma do Natal Presente mostra a família de seu funcionário Bob Cratchit, bem pobre e com o filho Tiny Tim, que está muito doente, mas cheio de ânimo; depois para ver as celebrações de Natal de seu sobrinho Fred - para o qual ele havia sido convidado, mas rejeitou ir. Finalmente, o Fantasma do Natal Futuro aterroriza Scrooge, mostrando-lhe visões de sua própria morte, sozinho. É mudo, pois o futuro é mutável, Scrooge é quem o fará por suas escolhas.

A jornada dos fantasmas no tempo ensina a Scrooge o erro de seus atos. Quando ele acorda no dia de Natal, emocionado e arrependido, compra muita comida e leva para a família Cratchit antes de passar o dia com o sobrinho, cheio das alegrias do Natal.'

tumblr
Pessoalmente, não sou muito ligada nesses contos de arrependimento profundo, let bygones be bygones. Sou rancorosa, perdoo, mas tenho dificuldade de esquecer. Tenho cá minhas desconfianças se Scrooge muda pelo medo do que o fantasma do Natal futuro lhe mostra, que claramente tem o maior impacto nele, porque ele vê que vai deixar tudo para outros gastarem ou porque se arrepende de verdade. Não obstante, reconheço o valor da obra de Dickens.

Veja bem, não sou estudiosa de Dickens, curto sua obra. Goshto meshmo de Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Se você já veio aqui antes, já leu meus livros e romances gratuitos, sabe disso. Avalio O Conto de Natal como curiosa apaixonada da era Vitoriana. 

Muitas fontes teorizam o porquê de Dickens ter mirado e acertado direto no alvo, ele já falava desse tema em outras obras: a injustiça social na era Vitoriana, ele mesmo que teve origens pobres. Em Oliver Twist (1837-39) ele já tinha esmiuçado a vida dura da infância pobre nos cortiços e workhouses de Londres que (parece) comoveu até a rainha Victoria e o príncipe Albert (que desconheciam a situações de seus súditos, tsk, tsk). 'De certa forma, é uma história muito vitoriana de circunstâncias urbanas: extremos de riqueza e pobreza, indústria e incapacidade. Mas também ajudou a mudar a sociedade vitoriana, escreve a historiadora Catherine Golden para o blog do National Postal Museum. E é por isso que Dickens o escreveu.' Diz o Smithsonian Institute.

No Conto de Natal ele fala também de redenção e Natal, Então, digamos, são 3 os temas centrais da novella.

Humbug not to be spoken here, 1967 de A Feiticeira - christmas tv history

Injustiça social: Dickens tinha críticas severas sobre como a sociedade Vitoriana ignorava a pobreza de sua classe baixa. De um lado, estavam os ricos que gozavam de conforto e festejos de Natal e, do outro, as crianças forçadas a viver em condições terríveis em abrigos. Para nós hoje no século 21, amantes de 'romances de época', é muito difícil nos ligar nesta vertente da vida Vitoriana. Queremos ver ladies e lordes, bailes e chás das cinco, né? Mas a vida era muito mais dura do que ter que usar o bourdaloue entre as pernas para fazer xixi sem molhar as anáguas.

A forma que Dickens escolheu para destacar a injustiça da distribuição de riqueza foi fazer Scrooge se recusar a dar dinheiro para a caridade, mostrando assim o egoísmo dos mais ricos da sociedade vitoriana. As crianças que se escondem sob as vestes do Fantasma do Natal Presente são 'beliscadas' em vez de estarem felizes e alegres como gostaríamos que as crianças fossem. O Fantasma diz a Scrooge que os filhos são responsabilidade de toda a humanidade. Tiny Tim usava muletas, imagino que seja uma analogia à falta de condições normais de comparação entre as crianças ricas e pobres. Aqui temos que lembrar que, neste momento, as crianças começavam a deixar ser vistas como mini adultos. A criação começava a mudar, havia quem advogava a favor do direito de toda criança brincar e estudar, contra o trabalho infantil; era o início do raciocínio que temos hoje.

Depois, na hora do Fantasma do Natal Futuro, enquanto os ladrões vasculham os pertences de Scrooge, eles comentam sobre como ele tinha sido avarento na vida. Isso faz com que ele e o leitor apreciem as falhas de apenas pensar em si mesmo sem dividir com quem precisa e quando a gente morre, fica tudo para trás.

Barbie em A canção de Natal, 2008. IMDB

Redenção: É uma ideia sedutora, a de ser salvo do pecado ou do mal. Cristo é a Aliança, afinal de contas. Em Scrooge, vemos um homem que se transforma de um avarento ganancioso e egoísta em um personagem generoso e bem-humorado no final. Isso é o que queremos ver em todos os livros de romances, certo? Um arco de personagem que faça os 180º certinho. 

Scrooge vê (do verbo ver, enxergar; é levado pela mão para visitar o passado, o presente em outros lugares físicos, o futuro) ele vê o erro de seus atos com os fantasmas e é redimido por sua própria vontade de mudar. A mensagem moral da novela é que todos os seres humanos têm a oportunidade de se comportar de maneira mais gentil uns com os outros. 

Perceba que apesar do empurrãozinho dos fantasmas apontando o erro, a força de mudança vem de dentro, da vontade própria de Scrooge de mudar. Ele poderia ter perdido todo o dinheiro, então teria que mudar por força externa. Mas Dickens escolheu fazer com que ele tomasse a decisão de mudar.

The Muppets Christmas Carrol, 1992. smithsonian

Natal: O sobrinho Fred é sempre entusiasta do Natal, convida o tio, festeja e tal. Tiny Tim, o filho doentinho do empregado, é uma criança doente que acredita no espírito no Natal, que todos serão felizes na Noite mágica e tals. Dois personagens diferentes, um adulto e uma criança, um remediado e um pobre. Ambos homens, ok. Mas e aí?

Especialmente na era Vitoriana, o culto aos festejos de Natal começava a ser ampliado por conta de Victoria e Albert. Há anos já havia em Buckingham a tradição de montar árvores de Natal, a aristocracia também já fazia desde a rainha Charlotte, mas foram eles, Vic e Bert, com sua vontade de estabelecer a moralidade da vida familiar feliz, que popularizaram a coisa toda.

first christmas tree in Britain, 1946. Illustrated London news. wiki commons

Acredito que Dickens estivesse mirando neste abismo entre as crianças felizes em volta da árvore recheada e o menino doentinho no frio sem dinheiro para lenha na lareira ou comida farta.

Ao menos conseguiu estimular as doações à obras de caridade. Não sei (porque não pesquisei a fundo) se foram doações para limpar a consciência no momento do frenesi do lançamento do livro, mas sei de fonte confiável que Dickens era insatisfeito com o resultado da obra, ele esperava ter mudado a sociedade e juntado mais grana. 

Dickens pode não ter ficado rico $$ com a obra, 

mas tornou o mundo um pouco mais rico <3  de caridade.

Home alone, 1990. the new york times

No caso do filme Esqueceram de mim, que eu amei quando vi pela primeira vez, e amei muito assistindo o documentário sobre a produção Movies that made us, as teorias de quem e quais personagens são Dickenianos são lokas! Sugiro que você leia aqui. Eu sempre achei que era o vizinho idoso.

A história de Scrooge traz grande sabedoria, é fato. 

Durante as inevitáveis ​​épocas difíceis da vida, como esse incrível ano de 2020 que começou com água podre aqui no Rio e sabe-se-lá onde vamos parar, Deus nos proteja, as conexões humanas que temos com a família e amigos nos ajudam a superar. Eu contei e conto com azamigas, a família, a literatura, o século 19 e meus grupos de oração. Quando refletimos sobre quais valores de caráter são certos e errados, conseguimos perspectiva firme para seguir em frente. Os temas da obra são muito relevantes ainda hoje, talvez ainda mais agora em meio às mazelas trazidas à tona por conta deste distanciamento social

A Christmas carol, 2009 . tumblr

Com famílias e pessoas em geral separadas pela geografia e relacionamentos em perigo, distraídas pelo stress, sobrecarregadas de informações, mídia enlouquecida, redes sociais tóxicas e menor participação de comunidades espirituais e organizações cívicas, a conexão humana diminuiu. Vida louca, mano. Este declínio correspondeu a um declínio na alegria e aumento da ansiedade e depressão. 

A boa notícia é que não precisa ser assim. Podemos tirar um tempinho para refletir sobre a mensagem mais bacana de Dickens no Conto de Natal, talvez nem tenha sido a que ele considerou principal:

A VONTADE DE MUDAR POR CONTA-PRÓPRIA

design you trust

auto limpeza que fala, né?

Fazer um defrag, se livrar do lixo, renovar

Sovinice, só com chocolate. Com licença. Nisso eu posso!

E um livro novo para distrair a mente

e alimentar o coração!

Vai na Pitangus Editora ver datas e links.





bj

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domingo, 18 de outubro de 2020

Maquiagens, perfumes e outras coisas adoráveis

 Olá, 

o título deste post poderia ser um romance, não é mesmo?

devaneio meu, obra de J Caraud - La toilette, 1858

.

Adoro o assunto, tenho pesquisado bastante sobre cosméticos, o acesso que as mulheres tinham aos produtos e até receitas. Havia muita coisa perigosa, chumbo e arsênico eram ingredientes comuns. Também a cultura de que quanto mais pálida, mais bonita a moça. Tinha quem recomendasse banhos de imersão em solução de arsênico, cobrir o corpo de pó branqueador e até pintar veias nos braços para parecer translúcida.

Moda que fala, né? Nem sempre é bacana, mas sempre é seguida por muitas.

cartoon famoso do sec 18 mostrando o passo-a-passo de maquiagem feminina, pinterest

Note que, para a dama de sociedade, a moda era parecer PÁLIDA; já para as damas mudernas, do teatro ou da vida fácil (tsk, tsk), a moda era colorir a face, parecer saudável, bochechas rosadas.


Quero falar de marcas famosas que ainda existem, ainda são famosas e respeitadas, que evoluíram os métodos segundo a ciência.

BULY, 1803

art recherche industrie

Francesa, linda, maravilhosa, vintage, dá-vontade-de-ter-tudo, a Buly mantém o visual antiguinho e produtos prá lá de charmosos como Poudre de fleurs de lavande (pós de flores de lavanda, para exfoliação no banho) e Gomme de chios (o mais antigo chiclete do mundo). Fundada no início do século 19 na Rue Saint-Honoré, ela continua firme e forte até hoje. O site oficial conta: 'Conhecido por seus talentos como destilador, perfumista e cosmético, Jean-Vincent Bully em 1837 inspirou Honoré de Balzac no personagem de César Birotteau, um dos romances de Scènes de la vie Parisienne em A comédia humana. Ao longo da época de ouro da beleza que viu a invenção das primeiras fórmulas na cosmética e na perfumaria moderna, a farmácia consolidou-se como referência.'

PEARS, 1807

art prints on demand

O sabão transparente Pears é uma marca de sabonete produzida e vendida pela primeira vez em 1807 por Andrew Pears, em uma fábrica perto da Oxford Street em Londres, Inglaterra. Foi o primeiro sabonete translúcido do mercado de massa do mundo, eventualmente distribuído mundo afora. A marca adquirida pela Lever Brothers, agora Unilever, em 1917, e os produtos sob a marca Pears são atualmente fabricados na Índia. 

Ainda disponíveis fora do Brasil.

BOURJOIS, 1863

bourjois . com
Começou na França fazendo 'batons' - barras de maquiagem - para o teatro e a 'little round pot blusher' ou latinha de blush que foi marca registrada da empresa. Em 1879 já atingia o grande público. Daí para frente, a marca ganhou força.

E o little round pot ainda está disponível hoje em dia! aqui

GRANADO, 1870

propagandas históricas

Brazuca, bacana e vintage, a Granado é carioca da gema. O site oficial conta a história do fundador. 'Quando adquiriu a botica de Barros Franco, em 1870, José Coxito Granado buscou incrementar o comércio farmacêutico nacional trazendo representações de várias empresas da Europa e cercando-se dos melhores profissionais da área. Em 1899, uma farmácia da rua Primeiro de Março (no centro do Rio de Janeiro) já era uma das mais respeitados da cidade, e José Coxito viu a necessidade de montar um laboratório para atender a pedido de pedidos. Com 15 anos de funcionamento, tornou-se insuficiente novamente. Em 1912, então, Faith adquirido um “grande” predio na rua do Senado, nº 48, para que ali fosse montado um laboratório modelo. O “Laboratorio Chimico-Pharmaceutico de Granado” fé equipado com uma tecnologia mas avançada de sua época, sendo considerado um dos maiores e melhores da América do Sul.' Granado Antisséptica foi a primeira linha de Granado, hoje tem desodorante, talcos para os pés e sabonete facial. 

Disponível até hoje, ainda bem! Aqui.

SHISHEIDO, 1872

site oficial

Começou com a fundação da primeira farmácia ao estilo ocidental em Ginza, região de Tóquio. O site oficial nos conta assim: 'A origem do nome Shiseido vem de um texto chinês clássico, o“ Yi Jing ”(“ Livro das Mutações ”), que diz:“ Elogie as virtudes da grande mãe Terra, que nutre uma nova vida e traz novos valores ”. O nome da empresa expressa uma forma de pensar de “estilo oriental, aprendizado ocidental” que inclui a determinação de criar uma nova cultura, construir um novo negócio baseado na medicina ocidental e um nome inspirado na filosofia oriental. Reunir medicamentos de alta qualidade com essa forma inteiramente nova de administrar uma farmácia foi difícil no início. No entanto, a ideia de produtos de alta qualidade, avançados e autênticos veio a ser entendida, e o nome da Shiseido tornou-se conhecido entre as pessoas e confiável como uma farmácia.' A grande inovação foi o lançamento de pasta dental, fina e delicada que não estragava os dentes como os pós dentifrícios que eram mais ásperos. Até a marinha japonesa gostou porque fazia menos sujeira. 

'A Shiseido entrou no mundo dos cosméticos em 1897 com o lançamento da Eudermine. Embora outros cosméticos no mercado na época usassem nomes japoneses, Eudermine foi feito do grego eu, que significa bom, e derma, que significa pele. Veio em uma bela garrafa de vidro e foi carinhosamente apelidado de “Água Vermelha da Shiseido” por causa da cor viva da loção que lembra o vinho tinto. Embora a fórmula do Eudermine tenha sido aprimorada com avanços científicos e sua embalagem reprojetada inúmeras vezes, é um produto de longa data que ainda é o favorito entre muitas pessoas desde seu lançamento, há mais de cem anos.'

Olha ela aqui.

NIVEA, 1911

daily vanity

Neste ano, dois médicos se uniram para criar o primeiro creme estável à base de óleo em água do mundo que pudesse ser replicado para produção em massa. Sua fórmula foi ajustada minimamente para acompanhar os avanços científicos e permanece praticamente a mesma desde seu início. Ele vinha originalmente em uma lata bege com design floral, mas em 1925, foi alterada para uma lata azul com letras brancas simples - o mesmo design que ainda é uma visão familiar em nossas farmácias hoje!

Sempre bom e sempre útil, ele está aqui.


PHEBO, 1930

cariri das antigas

Brazuca e Paraense, a Phebo ainda é uma referência para nós. O famoso e cheiroso sabonete preto Odor de Rosas de pau-de-rosa, sândalo, cravo da Índia, canela e mais um monte de ingredientes foi o primeiro produto e o mais famoso até hoje. O site oficial diz que ele fez muito sucesso porque o comum na época era o retangular sabonete de coco e o deles foi revolucionário. O Cariri das antigas explica bem, diz que a fábrica se dedicava a produtos de limpeza da pele, dentes, higiene pessoal  e que o 'otto de rosas' foi baseado no famoso PEARS SOAP.  Já 'em 1946, em um passeio pelos Alpes Suíços, Mario Santiago ficou admirado com a beleza local e particularmente atraído pelo perfume de uma florzinha roxa, a Alfazema. A Perfumaria voltaria a inovar com o lançamento da Colônia Seiva de Alfazema. Apesar da flor não ser cultivada no Brasil, devido às condições climáticas, a fragrância tornou-se uma das preferidas entre os brasileiros.'

Deu saudade, o sabonete preto delicioso está aqui.

pinterest

Bacana, né? 

As Vitorianas eram modernas, cuidavam da beleza, faziam depilação e banhos de hidratação. Sempre que entro nesse assunto, me perco descobrindo que elas eram como nós, tão avançadas e vaidosas como podiam ser.

Acho essa pesquisa muito legal!

Até mais,

M.

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quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Quantos Duques e Condes existiam de verdade?

 Olá, td blz?

Aqui ando na hype do lançamento de um novo projeto, 'LORDS IMPERFEITOS'. Eu e minha bestie Lucy Dib criamos uma série de romances sobre homens nobres perfeitamente estragadinhos.

Historical Hottie: Nathaniel Hawthorne, autor de 'A letra escarlate', 1841 - pic do wiki

Os homens de título são os queridinhos do romance de época, vamos assumir logo. Todo mundo quer ler & sonhar com um Duque, um Conde, até um Baronete quebra o galho. 

Austen gostava muito de Baronetes, tinha em O&P (De Bourg) e Persuasão (Elliot). Até fiz um quadrinho inspirado naqueles lindos-de-morrer do The Guardian - Austen em números



Nas obras, Austen menciona poucos nobres, menos ainda como possíveis maridos, talvez porque não convivesse com a nobreza. Tem o anônimo que casa com a irmã de Mr Tilney em Northanger Abbey, e o primo escroque herdeiro do pai de Anne Elliot de Persuasão.

Mas uma rápida pesquisa no Google ou na Amazon, vemos que herói de romance de época quase sempre é um nobre. De preferência Duque. Eu mesma tenho um romance recheado de Duques, um monte!

ebook e brochura


Em All those Dukes, por conta de uma fofoca antiga de família, a heroina - uma cientista dos primórdios da antropometria - precisa listar e visitar todos os duques do reino. O ano era 1855, e eu pesquisei um monte para saber quem e quais eram esses.

No livro entraram com outros nomes, eu sempre faço mudanças porque não faço biografias.

Wellesley, o Duque de Wellington, que empresta o nome a Kin de CUPIDOS EM DEVON era um historical hottie. Huba, huba! pic do wiki

Quando menciono personalidades, como no 'DILEMAS EM LEILÃO' da série CUPIDOS EM DEVON, escrevo e reescrevo mil vezes. Imagina dar falas à Rainha Victoria?!

chezzburger


Kin, o mocinho de Dilemas em Leilão tem títulos de nobreza, recebidos de forma extraordinária, que me levou a meses e meses de pesquisas, infinitas discussões com amigas sapientes da nobreza do século 19.

Mas vamos aqui ao que interessa.

QUANTOS DUQUES EXISITAM NA ERA REGENCIAL?

&

QUANTOS CONDES EXISTIAM NA ERA VITORIANA?

Por que Condes e Duques, e porque nessas datas?

É a nossa série LORDS IMPERFEITOS! Em cada romance há um nobre (cheio de defeitos) e Lucy gosta de ficar na era de Jane Austen - a Regencial (primeiras décadas do século 19), já eu sou vidrada (por enquanto) no ano de 1855.

A maravilhinda Geri Walton já fez uma pesquisa de responsa sobre os duques na era Regencial, listados por idade casamenteira, quantos eram solteiros, quantos eram amigados, estavam em ménage e etc. Um mimo de post!

Pessoalmente, adoro saber quem & quantos poderiam estar disponíveis no ano que eu loco minhas histórias, mas para o que eu quero comentar, basta o número geral: 

31 DUQUES em 1815

Bastante, não é mesmo? 

Esses guapos tinham filhos, herdeiros, primos olho-grande, etc, etc. Três dezenas de possibilidades. O 'Duque de Shropshire' do 'O DUQUE MUQUIRANA' se passa na era Regencial e por isso, ele é um piteuzinho mal-humorado, solteiro e órfão, que faria 32. Falei que ele é gato?

169 CONDES em 1853

Uma galera!

Nesse grupo enorme, certo que tinham vários em idade casadoira, portadores de grande fortuna em busca de uma esposa. E falidos também... 'O CONDE SOVINA' se passa em 1855, o que faz do 'Conde de Itsdale' o nobre nº 170  - solteiro, avesso a casamento, mão fechada, bem-humorado e guapo.

Você imaginava que havia tantos?

Imagina todas essas famílias endinheiradas, cheias de poder, frequentando a corte, ditando ordens... Seria mais ou menos como ter centenas e centenas de deputados e senadores? Devia ser brabo viver nesses dias...

Interessa saber certinho quais eram solteiros? De certo que não eram os 612 duques que achei na Amazon... 



O que nos interessa mesmo é ler esses homens maravilhosos e suas agruras conquistando a mocinha acanhada, né?

Termino com a primeira imagem do Duque e do Visconde da nova série da Netflix baseada na série de Julia Quinn que sai no dia de Natal.

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Ho, ho, ho!


Até mais,

M.

outras curiosidades & pesquisas históricas, aqui

pesquisei aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui e meus arquivos pessoais.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Preto, inspiração no século 19

 olá!

Hoje falo de uma cor que adoro, uso todos os dias, é um must:

O preto que representa poder, sexualidade, sofisticação, formalidade, riqueza, mistério, profundidade e, o melhor de tudo, estilo puro. 

PRETO

Rainha Victoria no Jubileu de Diamante - pic de Museum of New Zealand

Quando penso no século 19, sempre imagino logo que preto era cor somente para o luto - o que não era verdade! 

Olha esse vestido de corte em veludo preto leiloado pela Christie's:

gogsmite net
A descrição diz: vestido de corte, 1810-1820, veludo preto adornado com renda prata e dourada, cauda curta, decote reto, cintura alta (empire). Lindo de morrer!

O assunto 'luto' no século 19, especialmente na era Vitoriana, foi muito complexo especialmente porque ela, a rainha Victoria, carregou luto por seu amado Príncipe Albert de 1861 (quando ele faleceu aos 42 anos) até sua morte aos 81 anos em 1901. Então, ao invés dos 3 ou 4 anos de luto, ela manteve-se de preto por 40 anos.

Analisando as fotos dela com Albert, eu imagino que ela já usava preto antes do falecimento dele. 

Rainha Victoria e seus nove filhos (9!!!) circa 1860. pic de wttw

São fotos preto-e-branco dos primórdios da arte da fotografia, ela poderia estar usando vermelho, azul, verde. Mas comparando com as casacas do marido Príncipe Albert e do filho Albert Edward, parece que ela veste preto também.

HOMENS

Autoridades na arte do bem vestir, revistas e manuais, diziam que para os homens, preto era mesmo o certo. Routledge's Manual of Etiquette (for gentlemen) diz que 'Pela manhã, (cavalheiro) use sobrecasacas, coletes trespassados ​​e calças de cores escuras ou claras, de acordo com a estação. 

À noite, embora apenas no seio de sua própria família, vista apenas preto e seja tão escrupuloso ao colocar um paletó como se estivesse esperando visitas. Se você tem filhos, ensine-os para fazer o mesmo. É a observância dessas ninharias menores na etiqueta doméstica que marca o verdadeiro cavalheiro.

Para festas à noite, jantares e bailes, use paletó preto, calça preta, colete de seda ou tecido preto, cravat branca, luvas de pelica brancas ou cinza e botas finas de couro envernizado. Uma cravat preta pode ser usada em ocasiões de gala, mas não é tão elegante quanto uma branca. Um colete de veludo preto só deve ser usado em um jantar.'

pinterest

O LUTO

Vamos ao assunto que domina a cor.

Estudei bastante o luto vitoriano para escrever um dos romances da série CUPIDOS EM DEVON e menciono na série LORDS IMPERFEITOS, mas confesso que é tanto detalhe & ordem & regra que só tendo uma colinha para seguir sem errar.

lady in mourning, H Thorell 1896 - pic de gallerix org

Para os homens, tudo era simples. Antes da metade do século, usavam uma casaca de luto. Depois, já vestiam bastante preto e quando não usavam a cor, bastava uma banda preta no braço, no chapéu e luvas pretas - o que devia ser bom porque sujava menos. E, claro, tinham a benesse de não precisar se isolar do mundo, podiam seguir com seus afazeres, visitando clubes, teatros, negócios.

Crianças não precisavam usar luto, meninas às vezes usavam branco.

Para as mulheres, luto era uma dureza. Em notas gerais, mostrar luto era feito em fases - LUTO PROFUNDO a LUTO LEVE. 

Dependia da relação do (a) falecido (a) com a mulher. Fontes variam muito, manuais específicos tinham mais regras, mas não é errado seguir que para:

- marido, o luto era de 2 anos (todo o processo, do negro ao branco)

- pais ou filhos, 1 ano

- avó, irmãos e primos, 6 meses


Havia moda para o luto como para vestidos de passear, ficar em casa, casar. E lojas especializadas em roupas de luto, joias (as poucas permitidas), mementos morris, chapéus, luvas, etc. 

burials and beyond

Jay's merece um posto só para ela, é uma referência no assunto.

E os tecidos também variavam, do bombazine e crepe pesados à seda fina e delicada. Parece-me claro que simbolizava a dureza da perda (lembre que a mulher dependia totalmente do seu homem - pai, irmão, marido, filho) até a volta à vida normal. Mas imagina que foi pega de surpresa, não tinha roupa de luto preparada e precisou TINGIR?

Tingimento era o assunto desse post, mas preto dá tanto pano pra manga, que virou um detalhe. Na Encyclopedia of practical receipts, aprendemos várias formas: 

Preto comum: Mergulhe os itens em um preparo de sumagre quente e deixe descansar de um dia para o outro. Torça e mergulhe em água de cal, e por fim uma solução de cobre. Daí os itens podem tanto ser lavados, ou trabalhado novamente em água com cal por 10 minutos; então trabalhe-os em um preparo quente de eucalipto (corymbia opca), adicionando lixívia de câmara e por fim cobre em solução. Depois lave e seque.

Preto profundo (Jet Black): Os itens são tingidos da mesma forma que o última receita; objetivo junto com eucalipto adicione tatajuba. Ao invés do cobre, use licor de ferro para um tom mais rico de preto. Ao menos uma mistura de  metade de cada um.

Preto azulado:  Tinja primeiro os itens em um bom tom de azul e então proceda como para o preto comum. E se o azul é muito profundo, então metade da quantidade de tingimento preto é suficiente.

Imagine-se em choque por uma morte inesperada e precisando consultar um manual para juntar ingredientes e tingir metros e metros e metros de tecido de um vestido. Ainda bem que haviam os criados, não é mesmo?

retrato de criada sentada descancando fruta - 19th century. pic de mutulart

Tentei achar um tweet bacana de Mrs. Finnegan, governanta de 1830 falando como o preto tingido descoloria miseravelmente, mas não consegui. Se achar, incluo depois. 

Menciono isso no 'O Conde Sovina', como era difícil manter roupas, lavar, guardar, etc.

Noivas de preto na Espanha e Alemanha

Vestido de noiva branco foi uma 'invenção' de Victoria na ocasião de seu casamento com Albert em 1840, antes disso a moça usava vestidos bonitos, mas nada tão específico. Muitas usavam o vestido da apresentação na corte, que era caro, elegante, rebuscado. Falo disso em dois livros da série CUPIDOS EM DEVON: uma noiva é simples e a outra é apressada, casamento forçado que mal deu tempo para fazer um bolo!

Mas aqui quero falar dos vestidos de noiva pretos!

vintag es


Preto é uma cor de elegância, classuda. Em alguns países como China, Espanha e Alemanha, preto nas noivas era tradição. Na Espanha se dizia que o negro significava a dedicação da mulher ao marido a partir do casamento.

vestido de casamento seda preta com bordados em renda - 1885, Rijkmuseum, Holanda


Em Baden-Wurttemberg, na Alemanha, a convenção ditava que todas as mulheres deveriam usar vestidos pretos para ir à igreja, mesmo em um dos dias mais memoráveis ​​de suas vidas. No entanto, puderam iluminar o vestido preto com acessórios brancos, como véu, luvas e buquê.

E havia o caso das viúvas que recasavam antes do final do luto. Ou por simpatia ao momento em que viviam.

the met

Este de seda, franjas de algodão e couro é da coleção do Met, veja: 'De acordo com a história da família, Amelia Jane Carley (1844-1892) usou este vestido em seu casamento com William Edward Chess (1842-1926) em 1868 na Virgínia Ocidental, as cores de meio luto escolhidas em homenagem aos que morreram durante a Guerra Civil. A noiva e o noivo tiveram a sorte de não ter perdido nenhum parente próximo durante a guerra, embora o irmão da Sra. Carley e o Sr. Chess tenham servido no Exército da União. Essa narrativa familiar sugere que a noiva escolheu tons de luto em resposta às perdas generalizadas sofridas durante a guerra, em vez de homenagear um indivíduo. Uma paleta suave de cinza e preto pode ter parecido mais respeitosa do que um vestido de noiva mais vistoso, enquanto tantas famílias ainda sofriam. 

Manuais de etiqueta e revistas femininas frequentemente ofereciam orientação para noivas cujos casamentos cruzavam com um período de luto, embora a escolha do vestido em tais circunstâncias muitas vezes refletisse o julgamento pessoal de uma mulher, em vez de conselhos prescritivos.'


bolo de noiva negro, que tal?

Tudo tão bacana e interessante...

Dava para ficar falando disso forever!

lisa's history room

Para encerrar, um must dos musts é esse figurino coisa-linda-de-morrer-vou-copiar do filme 'Bonequinha de luxo' de 1961. Obra magnífica de Givenchy (para Holly) e Edith Head (supervisora geral).



e...
 meu novo livro da SÉRIE CUPIDOS EM DEVON, o volume 3
'DILEMAS EM LEILÃO' já está disponível em ebook! 
Aproveite do  guapíssimo Kin!

Não foi à toa que enrolei tanto para postar esta cor!
Até a próxima!
M.

Mais estudos dos antigamentes apaixonantes aqui.

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