& Moira Bianchi

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Persuasão: 4 símbolos

olá,

Persusão é uma obra tão rica que eu juntei pesquisa demais para resolver em poucos posts. Ainda tenho muito para postar e ontem, do nada, descubro um segredinho sujo que Jane Austen escondeu de nós!

Young woman with letter - Lionel Baes . Wikicommons

capítulo 12 - logo depois do acidente de Louisa

"A essa altura, a notícia do acidente já havia se espalhado entre os operários e barqueiros ao redor do Cobb, e muitos se aproximaram para serem úteis se pudessem, e pelo menos, apreciar a visão de uma jovem inerte, ou melhor, duas mocinhas inertes, pois isso provou ser duas vezes melhor do que o primeiro relatório. 

Foi decidido que Henrietta era a mais bonita, pois, embora parcialmente recomposta, ela estava bastante indefesa."

pinterest

Percebe o erotismo vindo da submissão feminina?

Eu nunca tinha reparado antes...

Enfim, vamos continuar investigando e aprendendo sobre a última obra que Austen concluiu.

4 Símbolos em Persuasão

~ uma interpretação ~

Woman at piano with cockatoo - Gustave Léonard - 1870

Música

No jantar na Great House em Upercross, enquanto todos dançam, Anne fica em segundo plano. Ocupada e útil, ela toca para dar fundo à diversão dos outros ao invés de dançar e socializar. A música, portanto, representa a solidão de Anne Elliot e reflete seu relacionamento com o capitão Wentworth. 

Veja: capítulo 8. "Anne sofre silenciosamente vendo Wentworth ser banhado na atenção das moças mais jovens “... enquanto seus dedos trabalhavam mecanicamente, tocando por meia hora, igualmente sem erro e sem consciência. Uma vez ela sentiu que ele estava olhando na sua direção, observando suas feições alteradas, talvez, tentando traçar nelas as ruínas do rosto que outrora o encantara; e uma vez ela soube que ele devia ter falado dela; ela mal se deu conta disso, até que ouviu a resposta; então ela teve certeza de que ele havia perguntado à sua parceira se a srta. Elliot nunca dançava? A resposta foi: 

―Oh, não; nunca; ela desistiu de dançar. Ela prefere tocar. Ela nunca se cansa de tocar.”

Assim, ela criou para si um mundo à parte da vida social dos outros, observando os prazeres deles e negando os seus, relegada no canto e sentindo-se diminuída na presença de seu antigo amor que fazia questão de se divertir sendo o centro das atenções das meninas jovens na flor da beleza feminina. O capítulo termina assim:

“Anne não desejava mais desses olhares e discursos (meticulosamente polidos vindos do Capt Wentworth). Sua fria polidez, sua graça cerimoniosa, eram piores que tudo.”

buzzfeed

Ao mesmo tempo, a música representa sua devoção por Wentworth, quase como uma viúva de guerra. Ao se isolar, ela reserva seu coração para ele, e a música, uma alegria comum deles, é uma forma de ela se lembrar do amor que compartilharam uma vez.

Mais tarde no romance, no entanto, a música os une novamente, mesmo que ainda não permanentemente. O encontro deles no concerto no Capítulo 20 é um ponto de virada na história, pois é a música que encoraja Anne a participar do evento e conversar com o Capitão Wentworth. Veja:

“Sir Walter, suas duas filhas e a sra. Clay foram os primeiros de todo o grupo no salão à noite; e como Lady Dalrymple devia ser esperada, eles se posicionaram perto de uma das lareiras na Sala Octogonal. Mas mal eles se acomodaram, a porta se abriu novamente, e o Capitão Wentworth entrou sozinho. Anne era a mais próxima dele e, avançando um pouco, ela imediatamente cumprimentá-lo. Ele estava se preparando para fazer a reverência apenas e seguir em frente, mas o gentil ‘―Como tem passado?’ o fez parar perto dela e conversar educadamente, apesar de seu pai e irmã estarem logo atrás.”

Eles conversam por mais de 3 páginas e comentam da união de Louisa com o Capt Benwick deixando claro que ele nunca teve nenhum (real) interesse na mocinha (apesar de fazer ciúme em Anne por capítulos e capítulos).

Woman in the boat with Parasol (the white parasol) - Edward Cucuel

Navios

CARREIRA & FORTUNA

Navios simbolizam as vidas e destino de vários personagens do romance. 

Para o capitão Wentworth e o almirante Croft, os navios representam seu sustento na forma de carreira na Marinha Real, cercados de riscos e recompensas cercadas de aventuras viris. Ambos falam de navios romanticamente — e com reverência. Quando Wentworth se lembra do Asp, seu diálogo se torna intenso e emocional no Capítulo 8: "Ela fez tudo o que eu queria. Eu sabia que ela faria." 

Como na língua Inglesa, navios são tratados no feminino, essa declaração dele é como se falasse de uma mulher, uma amante. Parece que a tentativa de provocar ciúmes em Anne que ouve o relato que ele faz de suas aventuras no velho navio Asp em silêncio e apavorada pelos riscos que ele passou.

MOBILIDADE SOCIAL

Os navios e a carreira no mar indicam mobilidade ascendente e heroísmo

O capitão Wentworth comandou um navio e liderou seus homens durante a guerra, o que lhe trouxe status e fortuna, tornando-o um partido melhor aos olhos de seus conhecidos mais ricos (Lady Russel e os Elliots, por exemplo). 

A carreira militar era uma ótima opção de ascenção social para homens, especialmente em tempos de guerra. Observando seus irmãos, Austen teria tido plena consciência de que o avanço na marinha não era apenas uma questão de mérito

No caso de Wentworth, ele ganha sua fortuna capturando navios. Uma vez sob sua posse, ele (como qualquer outro oficial graduado) poderia se apropriar da embarcação, sua tripulação e bens. Além claro, do valor dos seguros. A marinha aproveitava das leis de pirataria e da companhia de privateers (corsários) na sua frota. No jantar em Upercross ele fala disso:

“...e depois de pegar corsários o suficiente para ser muito divertido, tive a sorte de, na minha vinda para casa no outono seguinte, encontrar na fragata francesa que eu queria. Eu a trouxe para Plymouth; e aqui tive outro exemplo de sorte.”

INSEGURANÇA & MEDO

Da associação de Anne com o capitão Wentworth, ela tem conhecimento da marinha, e seu interesse contínuo reflete seu amor por ele apesar de ter consciência de que a vida no mar é incerta e cheia de perigos. Para ela, os navios representam arrependimento e medo pela segurança dele – tanto quando o ouve contar das conquistas como depois de casarem.

FELICIDADE MARITAL

Os navios servem como símbolo do casamento feliz dos Croft, pois a Sra. Croft acompanha o marido em longas viagens. Essa possiblidade faz Anne sonhar com uma vida assim colorida bem distante da mesmice triste que ela vive como moça solteira na casa do pai.

A summer beauty - English School - século 19

Baronetage

O romance começa com Sir Walter com o nariz em um livro: o Baronetage é o único livro que ele lê, basicamente um livro de referência que cataloga essas estranhas criaturas, a nobreza britânica. Veja aqui.

A obsessão de Sir Walter com seu próprio verbete no Baronetage é o equivalente a uma subcelebridade que escreve para si mesma na Wikipédia. O Baronetage simboliza a posição na sociedade que Sir Walter detém e que sua opinião sobre sua importância é maior do que o registro oficial faz.

Seu gosto pelo livro já foi compartilhado por Elizabeth, que também compartilha sua obsessão com a posição, mas não mais porque o livro coloca seu status de solteira em preto e branco e a lembra que falha no que a sociedade dita ser seu principal objetivo na vida: casar com alguém que também está no Baronetage. Elizabeth vê o livro como símbolo de sua própria inadequação mesmo que seja prova de seu status social. 

Interior of drawing room at Wavedon - British school, 1840

Kellynch Hall

Kellynch Hall é mais do que apenas uma casa realmente grande: é a casa mais grandiosa da região, porque pertence à família mais importante da região, os Elliots. A única outra pessoa titulada da vizinhança, Lady Russell, mora em Kellynch Lodge, mostrando a hierarquia social e o tamanho da propriedade

E posição social significa mais do que apenas quem entra em uma sala primeiro: significa poder, e Kellynch Hall é um símbolo desse poder. 

De acordo com os velhos costumes feudais, Kellynch é o centro e seus proprietários devem ser responsáveis pelo bem-estar de seu entorno e formar um exemplo moral para todos os outros. Austen já tinha falado disso em Orgulho e Preconceito quando a governanta de Pemberley conta como Mr. Darcy é um senhor piedoso e justo; e ao apresentar Lady Catherine como um tipo de juíza da região de Rosings.

O fracasso dos Elliots em viver de acordo com esses padrões é mais do que decadência individual: eles estão falhando com todos que deveriam ser capazes de seguir sua liderança – sabemos disso porque a humilde Anne que fica presa ao dever de "ir a quase todas as casas da paróquia, como uma espécie de despedida" cap 5. E o fato de serem forçados a sair de Kellynch Hall, e ter que arrendar para os Crofts que não são nobres, simboliza uma mudança social maior em quem está ganhando poder e quem está perdendo. Se essa mudança está destruindo tradições ou trazendo algo novo e melhor é, no entanto, uma questão que Austen em aberto. 


fonte: meus arquivos pessoais, study.com, schmoop, reddit, spark notes, Jane Austen and Animals, wikipedia


O que você acha?

Ainda tem mais nesta maratona de Persuasão?

Tenho um monte mais para te contar, acredite!

Me fala aqui nos comentários o que você está achando.

Aqui você acha minhas PESQUISAS SOBRE JANE AUSTEN , 

inclusive os outros posts de Persuasão


e espera o novo filme lendo a JUVENÍLIA de Jane Austen!

    


 

domingo, 14 de agosto de 2022

Você está sendo enganado. Mas você se importa?

 olá,

eu venho querendo fazer esse post e ao mesmo tempo adiando na minha cabeça. O assunto é espinhoso, não quero falar de política aqui no meu blog que é voltado para a literatura e ainda assim, todo dia parece que o problema ganha fermento.

Estão te enganando. Você percebe? Você se importa?

O passado foi apagado, essa limpeza foi esquecida, a mentira virou verdade.
pic de azquotes

Um dos livros que mais me pirou foi 1984 de onde vem esse quote. 

Se você ainda não sacou do que estou falando neste post, olha esse outro.

"Todos os registros foram destruídos ou falsificados, todos os livros reescritos, todos os quadros foram repintados, todas as estátuas e edifícios foram renomeados, todas as datas foram alteradas. E o processo continua dia a dia e minuto a minuto."

Nem vou entrar na explicação das origens desse livro, você já deve saber suficiente de Orwell para saber como e porque ele mudou de idéia horrorizado pela ideologia que ele seguia. Se não sabe, tá aqui: Why I write.

Mas, mesmo se você simpatiza com ideologias ou não, com certeza você está sentindo na pele essa realidade acontecendo nesse nosso admirável mundo novo

Tem que estar percebendo.

Você deve achar estranho a rainha consorte da Inglaterra ser negra (desculpe se essa não é a palavra certa, uso o que acho que é respeitoso), mas você foi pesquisar quem foi a rainha Charlotte?

Deve ter achado que o figurino dela é maravilhoso, mas reparou que não encaixa com as outras damas do seriado? Pensou nisso?

uma rainha nunca se exporia ao rídiculo de não estar na moda.
Essa roupa dela era para um evento oficial na corte, fora disso, ela estaria en mode.
pic de the tab

Aposto que leu sobre a única personagem 'mulatto' que Jane Austen criou em Sanditon, sua última criação que infelizmente ficou incompleta porque ela já estava bem doente. Não sabemos o que ela pensava em fazer com Georgiana Lamb, mas pelo nome que ela escolheu, a gente pode imaginar...

No entanto, quando a Persuasão da Netflix usa muitos atores de etnias diferentes, é proibido apontar essa a principal razão para não levar esse filme a sério. Achou isso esquisito?

Persuasão em uma mão... e razão na outra.
gif de get yarn

Como eu, você pode ter adorado Maria Antonieta de 2006, mas ficou atordoada com a trilha sonora moderna? Eu levei bastante tempo para fazer as pazes com o que via de bacana nesse filme, parece que não casa... Especialmente porque as músicas são um personagem a mais nesse filme.

Da mesma forma, a música moderna em arranjo clássico (sei lá é se assim que se diz) que Bridgerton usa - para mim o maior acerto do seriado. Ouvir uma música que eu gosto do Marroon 5 tocada por um quarteto de cordas me deixou intrigada, despertou minha memória afetiva, me fez gostar da cena antes que ela terminasse.

 Gatilho do bem!

Essa distração quase me fez deixar de reparar que um Duque NUNCA USARIA botas de montaria em um baile. Mas olha, super entendo a opção do figurino que errou propositalmente, aposto. As sapatilhas que eles usavam eram bem estranhas mesmo...

Neste ponto, por estética, eu aceitei ser enganada.

Percebe o problema?

veja esse outro quote de 1984, cap 11.

"O'Brien olhava para ele (Winston) especulativamente. Mais do que nunca, ele tinha o ar de um professor que se preocupa com uma criança rebelde, mas promissora.

 Há um slogan do Partido que trata do controle do passado —  disse ele. — Repita, por favor.

— Quem controla o passado controla o futuro: quem controla o presente controla o passado  repetiu Winston obedientemente.

— Quem controla o presente controla o passado  disse O'Brien, acenando com a cabeça com lenta aprovação. — É sua opinião, Winston, que o passado tem existência real?"

Essa cena é parte de uma sequência tão opressiva que eu parei de ler esse capítulo várias vezes. Confesso, levei dias para terminar. O livro todo foi bem complicado para mim porque me vi ali, sendo enganada, manipulada, iludida e reprimida.

Winston é quase afagado, veja que Orwell diz que o torturador age como se achasse a sua vítima promissora e no entanto, espreme como laranja de suco. Ele cede, claro. Coitado.

E então, hoje em dia, 70+ anos depois que 1984 foi escrito e 220+ anos depois da criação de Razão e Sensilidade, veja essa resenha que uma leitora jovem (julgo isso por sua foto de perfil, onde ela usa como única definição 'Sou metade agonia, metade esperança. - Jane Austen') sobre ele (o romance Razão e Sensibilidade):

Essa mesma leitora tem no seu feed quotes de Austen, avaliação positiva de Persuasão para o livro e o filme da Netflix e diz que Lady Susan é tipo "uma novela mexicana com briga de família, casal que não pode ficar junto, protagonista terrivelmente cínica e uma dose excelente de romance de época." Sim, você leu isso. 

Jane Austen nos dá uma BOA DOSE DE ROMANCE DE ÉPOCA.

Pronto, serviço feito. O passado foi apagado. A luta ferrenha de Lady Susan Vernon por sua sobrevivência - seja por um novo casamento para ela ou um para sua única filha - ficou perdida no tempo e no espaço. Não tem importância a relação que a adolescente Austen tinha com essa agonia da qual ela se aproximava ao entrar no 'mercado casamenteiro como adulta'. A situação feminina de dependência quase absoluta da proteção social e/ou financeira de um homem ficou dissolvida e foi... apagada da história.

Do mesmo jeito, a 'racionalidade na escrita longa' é avaliada como ruim e o protagonista que 'não toma nenhuma atitude' é desprezado por desconhecer que Ferrars respeita a honra acima do hedonismo. Olha que eu nem gosto de R&S, mas ver que as razões de Austen ficaram no século 19 e hoje sua obra é vista como um relato do namorico de Elinor e os devaneios de Marianne dá até tristeza, sabe?

Você também ficou triste com isso?

Guerra é paz.
Liberdade é subserviência.
Ignorância é fortaleza.

Essa tristeza me ataca faz tempo, venho tentando entender o que sinto desde que uma grande amiga me contou que viu Bridgerton com sua irmã que é médica e muito, muito fodona. Esperta, educada, tem sucesso profissional, é mãe, esposa, filha, empreendedora. Fodona, acredite em mim.

Eu perguntei: — Ela achou estranho a rainha da Inglaterra, um duque e uma lady serem negras?

Nem reparou. Só achou o seriado divertido, ela gostou.

— E todas as outras etnias na aristocracia Inglesa?

— Nada. Ela viu os figurinos e o romance. Minha irmã trabalha pra burro, ela queria só se distrair e relaxar.

Tá certa ela. O seriado foi feito para isso mesmo.

Distrair, divertir e... enganar.

gifer

Mas ela nem se importou.

E você, se importa?

os mandamentos dos animais de 'A revolução dos bichos' também de Orwell
entendedores entenderão...
pic de howard chai

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


quarta-feira, 27 de julho de 2022

Persuasão: todos os personagens

 olá!

Estive meio sumida e admito a causa: o hate gerado pelo filme de Persuasão do Netflix me afetou.

ign
Juro que não sei a razão da reação tão sanguínea para mais uma adaptação como se fosse MUITO PIOR do que muitas das anteriores. Acho até que cabe um post tentando entender isso...


O fato é que me afetou bastante. Vânia queria gravar um episódio do nosso podcast Sincericídio Literário sobre o filme, eu pedi para fazermos logo e depois preferi me afastar por uns dias.

Continuando com as análises e detalhamento do último romance completo que Jane Austen nos deixou, vamos aos demais personagens.

Você sabe que eu já postei Anne Elliot e Capitão Wentworth antes. (basta clicar nos nomes). Agora te trago todos os outros.

Aviso que vou usar as imagens do filme da Netflix principalmente por praticidade. Falam mal, mas falam pra caramba e as imagens estão super fáceis de achar online. E faço a ressalva que, em toda a obra de Austen, há somente um personagem 'mulato' que é Miss Lambe de Sanditon assim como ela nunca disse que algum era malaio, hindu ou de qualquer outra etnia o que nos leva a entender que eram anglo-saxões como ela (perdão pela falta de intimidade com jargões politicamente corretos neste aspecto). Então, é necessário cuidado ao associar as imagens desses atores aos personagens originais.

Sir Walter Elliot

Pai de Anne Elliot, baronete e proprietário do Kellynch Hall, Sir Walter é uma caricatura da aristocracia e nobreza – um dos poucos que Jane Austen criou em suas obras. 

Extraordinariamente vaidoso, Sir Walter reveste sua casa com espelhos e se deixa ser visto em público apenas com pessoas atraentes ou bem-nascidas. Determinado a manter aparências, Sir Walter gasta generosamente e endivida sua família. Um mau juiz de caráter, ele é facilmente enganado por aqueles que se aproveitam dele. Anne não o perdoa facilmente.

Atuando como um contraponto tanto para o capitão Wentworth quanto para Anne Elliot, Sir Walter tem personalidade abominável nos protagonistas de Austen: é vaidoso, pretensioso e teimoso, egoísta e absorto em si mesmo, e preocupado somente consigo mesmo e de seus próprios desejos imediatos. 

No entanto, Sir Walter não é ruim; em vez disso, ele é comicamente ridículo, uma caricatura da velha classe titulada. Sir Walter permite que Austen zombe da aristocracia. Com o surgimento da indústria na Grã-Bretanha a partir do final do século XVIII, famílias antigas e tituladas foram forçadas a considerar aceitar os novos ricos em seu círculo. Esses magnatas industriais e comerciantes ricos que fizeram fortuna negociando com as colônias tinham grandes quantias de dinheiro e podiam se dar ao luxo de desafiar a importância do nascimento na interação social. O forte apego de Sir Walter a seu ‘pedigree’ parece antiquado no novo século de progresso.

O caráter ridículo de Sir Walter destaca o fato da mudança no modelo de masculinidade. Hoje em dia ele seria um homem metrossexual por sua preocupação excessiva com sua aparência que evita o sol por medo do efeito negativo de sua pele. Em forte contraste está o galante e corajoso oficial da marinha, Capitão Wentworth, com sua vida de aventuras viris sob o sol e sofrendo os estragos do mar, um ideal muito diferente e mais moderno do cavalheiro britânico.

Embora ser forçado a sair de Kellynch é um golpe que desperta Sir Walter para a possibilidade de fazer algo de si mesmo, em vez disso, ele simplesmente remodela sua vaidade para se adequar ao novo cenário de Bath. Anne fica desapontada porque a vaidade de seu pai não parece abalada pela redução de sua situação. 

“Ela pode não se admirar, mas deve suspirar que seu pai não sentisse nenhuma degradação em sua mudança, não visse nada a lamentar nos deveres e dignidade do proprietário de terras residente, encontrasse tanto para ser vaidoso na pequenez de uma cidade.“ (cap 15)

A vaidade de Sir Walter está tão bem ancorada que mesmo arrancá-lo do ambiente grandioso de Kellynch Hall e depositá-lo no luxo de menor escala de uma casa de Bath não a muda. Ao contrastar "vão" com "pequenez", a passagem sugere outro significado de vaidade: inutilidade. A obsessão de Sir Walter com sua posição pode ter significado no país onde, como "proprietário de terra residente", ele tem "deveres e dignidade" para dar propósito à sua posição. Em Bath, no entanto, onde seus únicos "deveres" são se exibir nos lugares certos e fazer amizade com as pessoas certas, sua vaidade parece (para Anne, pelo menos) ainda mais inútil do que no interior.

No final, no entanto, a vaidade de Sir Walter ajuda Anne na medida em que alimenta sua eventual aquiescência ao casamento dela com Wentworth. 

“Quando viu mais do capitão Wentworth, viu-o repetidamente à luz do dia e olhou-o bem, ficou muito impressionado com sua figura e sentiu que sua superioridade de aparência não poderia ser injustamente equilibrada com a superioridade de posição dela; e tudo isso, auxiliado por seu nome bem sonoro, permitiu que Sir Walter finalmente preparasse sua pena, com muita graça, para a inserção do casamento no volume de honra.” (cap 24)

Podemos pensar que Sir Walter aprova Wentworth por todas as razões erradas, mas pelo menos ele consegue ver algo bom em seu novo genro. 

abebooks - a venda aqui

Baronetage 

O tradicional dicionário da nobreza ocupa um grande lugar no início do romance porque explica em poucas palavras toda a personalidade de Sir Elliot e a importância da família de Anne.

The Baronetage of England, (ainda publicado hoje sob o título Debrett's Peerage and Baronetage, em homenagem ao seu editor original, John Debrett) é basicamente um livro de referência que cataloga a nobreza britânica.

Os verbetes são grandes e muitos detalhados. O texto era enviado pelo próprio citado e revisado pelo editor. Essa prática era comum tanto para os catálogos da nobreza quanto da landed gentry – como Mr. Darcy e Mr. Knightley. Por exemplo, no filme de 2022, Elizabeth diz a Anne que teve dificuldade de saber o que escrever sobre ela (já que Anne é tão blergh).

Além do Debrett, existem outras opções: 

Complete Baronetage editado por G.E.C. – Volume V 1707-1800

The new Baronetage of England editado por William Miller – 1804

Austen nos diz que o Baronetage é o único livro que Sir Elliot lê e que o verbete Elliot é assim:

“Sir Walter Elliot, de Kellynch Hall, em Somersetshire, era um homem que, para seu próprio divertimento, nunca pegou nenhum livro além do Baronetage. Ali encontrava ocupação para as horas ociosas e consolo para as horas aflitas; lá eram despertadas sua admiração e respeito (...), lá ele poderia ler sua própria história com um interesse que nunca falhava. Esta era a página em que o volume favorito sempre abria:

ELLIOT DE KELLYNCH HALL.

Walter Elliot, nascido em 1 de março de 1760, casado em 15 de julho de 1784 com Elizabeth, filha de James Stevenson, Esq of South Park, na região de Gloucester, e com esta lady (falecida em 1800) ele teve filhos: Elizabeth1 de junho de 1785; Anne, nascida em 9 de agosto de 1787; um filho natimorto, 5 de novembro de 1789; Mary, nascida em 20 de novembro de 1791."  (cap 1)

Compare com os originais e veja que Austen fez uma grande edição para contar somente o que era interessante para sua história – provavelmente este era somente o primeiro parágrafo do verbete.

William Walter Elliot, Esq.

O Sr. Elliot é primo e herdeiro do Sir Walter já que ele não pode deixar título e bens para filhas mulheres. Homem esperto adequa a quaisquer que sejam suas circunstâncias e desejos. Quando, em seus primeiros dias, ele quer dinheiro, ele consegue se juntar aos Elliots e encontrar uma esposa rica. Mais tarde, quando ele decide que quer posição social, além de dinheiro, ele conserta com sucesso as pontes quebradas com seus primos. Ao interpretar de forma convincente o papel de um cavalheiro, ele é tratado como um.

Embora grande parte de seu sucesso se deva a essa adaptabilidade, também pode causar problemas quando as diferentes faces que ele mostra para pessoas diferentes interferem umas nas outras. Um dos sinais de alerta que alimenta as suspeitas de Anne é que ela sabe que o Sr. Elliot pensa que a Sra. Clay é uma alpinista social, e ainda assim em público ele é tão gentil com ela quanto qualquer outra pessoa. O contraste entre o que ele diz a Anne em particular e como ele age em público pode fazer com que ela se pergunte o que ele diz sobre ela quando ela não está por perto.

A mutabilidade do personagem do Sr. Elliot pode tornar difícil dizer o que o motiva a cada momento. Ao perseguir Anne, ele realmente a quer como sua parceira de vida, ou ele está apenas tentando consolidar sua influência na família Elliot? A Sra. Smith, de todas as pessoas, acha que desta vez é pessoal e ele é sincero.

" Ele realmente quer se casar com você. Suas atenções atuais para sua família são muito sinceras: muito do coração." (cap 21)

E, no entanto, parece haver alguns problemas com as garantias da Sra. Smith. Por um lado, ela ouviu fofoca: o Sr. Elliot contou ao Coronel Wallis, que contou à Sra. Wallis, que contou à enfermeira Rooke, que contou à Sra. Smith. E mesmo que a Sra. Smith soubesse exatamente o que ele disse ao coronel Wallis, não há como julgar se ele quis dizer o que disse ou estava apenas dizendo o que ele queria que todos pensassem que ele pretende fazer. Sem mencionar que querer se casar com Anne e realmente amá-la não são a mesma coisa.

Além disso, Anne e sua família são pessoas diferentes. Embora seja uma boa ideia para um potencial pretendente fazer as pazes com os parentes de sua futura noiva, o Sr. Elliot poderia ter outras motivações para estar próximo aos Elliots do que querer se casar com Anne. Na verdade, a sempre informativa Sra. Smith mesma nos diz.

"Em todos os pontos de sangue e conexão, ele é um homem completamente alterado. Tendo há muito tempo tanto dinheiro quanto podia gastar, nada a desejar do lado da avareza ou indulgência, ele gradualmente aprendeu a atribuir sua felicidade às consequências. Ele é ym herdeiro." (cap 21)

É interessante que tenhamos essa informação da Sra. Smith, pois revela que o personagem do Sr. Elliot é o oposto do dela. Enquanto a Sra. Smith consegue ser feliz com o que ela tem (e não é muito), o Sr. Elliot está sempre ansiando pelo que ele não tem. Primeiro foi dinheiro, mas agora que ele tem isso, é o título de Sir William que ele quer. E quem pode dizer que Anne não é um trampolim no caminho para esse objetivo? Como a Sra. Smith bem sabe, não seria a primeira vez que ele explorava outra pessoa para conseguir o que queria. Ou talvez ele realmente queira se casar com Anne por suas próprias atrações, e não como um meio para um fim.

Qualquer que seja a lógica por trás de suas intenções, o final do romance sugere que o esperto pode ser enrolado, e a Sra. Clay é quem consegue capturar a atenção dele.

Elizabeth Elliot

A filha mais velha de Sir Walter e irmã mais velha de Anne, Elizabeth Elliot é a favorita de seu pai. Como ele, ela é vaidosa e preocupada principalmente em manter as aparências e se relacionar com pessoas importantes. 

No final do romance, Elizabeth é a única das filhas de Elliot a permanecer solteira, não havendo ninguém de nascimento adequado para seu gosto.

A posição social que permite esse esnobismo, no entanto, é muito menos estável para Elizabeth do que para Sir Walter. Enquanto a única coisa que poderia derrubar Sir Walter de sua posição é a falência, Elizabeth não tem seu status cimentado até que ela se case com alguém pelo menos no seu nível social – preferencialmente mais imporante. Na verdade, se Sir Walter morresse, o Sr. Elliot se mudaria para Kellynch Hall e Elizabeth ficaria desabrigada.

Com tudo isso em jogo, não é de surpreender que Elizabeth tente casar com o Sr. Elliot. Sua escolha por ele é sugerida pelo comportamento bajulador dela quando confrontada pelos Dalrymples, que estão alguns degraus acima na escada social; diante de alguém que ela reconhece como superior, ela tem que agir como inferior. 

town and country magazine

Mary Elliot Musgrove

A irmã Elliot mais nova, Mary é casada com Charles Musgrove e tem dois filhos pequenos. Ela é tensa, muitas vezes histérica, e sempre ciente dos desrespeitos imaginados que os outros fizeram a ela. Uma mãe bastante desatenta, Mary se concentra na escalada social.

Mary é tão esnobe quanto sua irmã Elizabeth e seu pai Sir Walter, mas ela tem menos oportunidades de mostrar seu esnobismo em público. Enquanto Sir Walter tem pessoas ao seu redor que entendem bem o que significa estar conectado aos Dalrymples, Mary é uma voz solitária de elitismo entre os Musgroves. Quando ela insiste em ter precedência sobre a Sra. Musgrove (o costume dita que as pessoas mais importantes devem entrar primeiro em uma sala, e Mary, como filha de um baronete, supera sua sogra) ou reclama dos Hayters, os Musgrove não se sentem insultados – em vez disso, eles vêem Mary como insistente e excessivamente orgulhosa.

Mary se vê como especial por causa da posição de seu pai e quando os outros a tratam como todo mundo, ela sente que a estão tratando pior do que ela merece. A única que pode distraí-la de sua hipersensibilidade é Anne, sugerindo que Anne pode ser tão persuasiva quanto Lady Russell quando ela se dedica a isso.

radio times

Charles Musgrove

Charles Musgrove Jr. é herdeiro de Uppercross e marido de Mary. Homem relativamente bem-humorado que suporta pacientemente as provações de sua esposa. Ele teria preferido se casar com Anne Elliot a quem pediu em casamento antes de se contentar com a irmã mais nova dela.

Ele não gosta muito de livros ou arte, mas tem bom coração e tenta fazer o que é certo com sua esposa, não importa o quão irritante ela seja. Enquanto Charles teria sido um péssimo partido para Anne, ele poderia ter se saído muito melhor do que Mary; Anne concorda com Lady Russell que "uma união mais equilibrada poderia tê-lo melhorado muito" (cap 6). 

Charles escolheu uma esposa pelo status social da família apesar da incompatibilidade de personalidades, mostrando mais uma vez que nem só posição social é importante.

netflix

Louisa Musgrove

A irmã mais nova de Charles, Louisa, é jovem, talentosa e teimosa. Apaixona-se facilmente e admira excessivamente a Marinha.

Quando a conhecemos pela primeira vez, ela tem “todo o estoque usual de realizações” e é “como milhares de outras jovens” (cap 5). 

À medida que descobrimos mais sobre ela especificamente, e não como metade das Irmãs Musgrove, ela parece ser tudo o que Anne não é: alegre, animada e confiante. Enquanto Anne fica à margem tentando não ser notada, Louisa está feliz em ser o centro das atenções. E é aí que reside o apelo de Louisa para Wentworth, a maneira como seus pontos fortes refletem o que ele considera as fraquezas de Anne, o que é uma pista inicial de quanto Wentworth ainda tem Anne no coração.

O constante elogio de Wentworth a personalidades resolutos tem seu efeito em Louisa, persuadindo-a de que perseguir decisivamente o que ela quer é o caminho para o coração dele. Então descobre-se que apesar de Louisa ser influenciada por Wentworth, o que o incomoda é que Anne ouvia Lady Russell e não ele.

O romance deixa bem explícito que a queda de Louisa em Lyme é resultado de sua recusa em ceder à persuasão.

'[Capitão Wentworth] aconselhou-a a não fazer por achar perigoso; mas não, ele argumentou e falou em vão, ela sorriu e disse: "Estou decidida a fazê-lo": ele estendeu as mãos; ela estava adiantada por meio segundo, e caiu na calçada do Lower Cobb já desfalecida!' (cap 12)

O conselho racional de Wentworth se choca com a determinação intencional de Louisa. A recusa dela em ser persuadida por Wentworth, ou mesmo esperar que ele pare de tentar ser persuasivo e realmente esteja pronto para pegá-la, quase a mata, formando uma evidência bastante forte da virtude de estar aberto à persuasão, ou pelo menos de considerar as consequências.

O salto de Louisa do muro em Lyme também tem todo tipo de outras repercussões no romance. Além de iluminar a personalidade de Anne para Wentworth, também o faz perceber que outros estão levando seus flertes a sério e ele pode ter que se casar com Louisa, querendo ou não. 

Mas e o efeito da queda na própria Louisa? Louisa praticamente desaparece da narrativa depois que Anne a deixa inconsciente nos Harvilles – há um fluxo constante de informações sobre sua recuperação, mas ela nunca mais aparece diretamente. Talvez isso signifique que, uma vez que ela não seja mais rival de Anne, ela realmente não importa para a história, ou talvez sua transformação em uma leitora de livros que cita Byron pareça ainda menos convincente se a víssemos em primeira mão. De qualquer forma, a partida de Louisa permite que Wentworth e Anne finalmente se reúnam e tenham seu final feliz há muito adiado.

thewrap

Henrietta Musgrove

Irmã mais nova de Charles e irmã mais velha de Louisa, Henrietta também é jovem e divertida. Embora ela não seja tão decidida quanto Louisa, Henrietta vê os encantos tanto de seu primo Charles Hayter quanto do arrojado capitão Wentworth.

Henrietta vive principalmente à sombra de sua irmã. Sua divagação sobre se deve ficar com Charles Hayter ou abandoná-lo para ir atrás de Wentworth dá à irmã uma desculpa para mostrar sua determinação a Wentworth e ganhar seu favor. 

No final do romance, ela está feliz com sua posição como a futura Sra. Charles Hayter, e não fala de nada além das preocupações que são significativas para ele. Sua falta de qualquer personalidade também lança uma luz fraca sobre como Wentworth estava confuso sobre as mulheres, já que por um tempo flerta com ela tanto quanto com sua irmã.

Sr. e Sra. Musgrove

Os pais de Charles, Henrietta e Louisa, os Musgrove, proporcionaram um lar equilibrado e feliz para seus filhos em Uppercross. Eles são landed gentry, a segunda família em importância na paróquia, atrás apenas para os Elliots. Eles são práticos e querem apenas felicidade para seus filhos.

Charles Musgrove Sr. 

O patriarca do clã Musgrove e atual ocupante da mansão em Uppercross, e contrasta com Sir Walter como figura paterna. Quando suas filhas desejam se casar, ele reclama um pouco sobre quanto dinheiro isso vai custar, mas não tenta impedi-las ou forçá-las a mudar suas escolhas.

Sra. Musgrove 

Principal pessoa que vemos no modo mãe no livro. Ela até derrama lágrimas por seu filho ovelha negra, Dick, e felizmente faz sua casa parecer um jardim de infância durante as férias de Natal, quando ela traz para casa não apenas seus próprios filhos, mas também os filhos de Harville. Enquanto ela sempre coloca suas próprias filhas em primeiro lugar, ela ainda é gentil com todos (exceto talvez às vezes Mary, mas isso dificilmente é culpa da Sra. Musgrove). Ela fornece um exemplo de boa hospitalidade e mostra a Anne um estilo de vida familiar muito diferente do que ela vê em casa com os Elliots.

diario de canoas

Charles Hayter

Primo dos Musgrove (sua mãe é irmã da Sra. Musgrove), a família Hayter, no entanto, está enredada em um círculo social muito inferior por causa de seu "modo de vida inferior, aposentado e grosseiro" (cap 9). Charles Hayter, o filho mais velho, no entanto, escolheu ser um estudioso e um cavalheiro e, consequentemente, tem maneiras refinadas. Ele um dia herdará as terras de sua família e espera cortejar sua prima Henrietta na intenção de casar.

Ele é quem tem mais chances de subir na vida. Sua profissão é a igreja, o que significa que, para progredir, ele depende de conexões influentes para indicá-lo para bons cargos, e a velhice/falecimento dos ocupantes atuais desses cargos. 

Então, o caminho de ascensão social é lento e chato – diretamente oposto ao do Capitão Wentworth, outro jovem que sobe degraus no status. Henrietta logo percebe isso.

O pouco que vemos de Hayter diretamente. Ele é um coadjuvante no triângulo Louisa-Henrietta-Wentworth e quando Anne está sendo importunada por seu sobrinho, Hayter, que lê o jornal, não se incomoda em ajudá-la. 

Embora isso não seja evidência suficiente para fazer uma declaração definitiva de seu personagem, sugere que Hayter não é o mais atencioso dos homens.

insider

Capitão Benwick

Capitão James Benwick é viúvo de noiva. A falecida era irmã do capitão Harville, Fanny, o capitão Benwick. Ele é um homem tímido e um fervoroso leitor de poesia. Quando Anne o conhece, ele está de licença de seu navio e está morando com o Capitão e a Sra. Harville, sente-se deprimido e chora seu amor perdido. 

O capitão Benwick e Anne têm a dor do amor perdido em comum, por isso se identificam em apatia, fadiga, poemas tristes. Mas ela consegue animá-lo de alguma forma. 

Embora a situação de Benwick seja mais extrema do que a de Anne (sua noiva está morta) e mais recente (há alguns meses, em vez de oito anos), ela ainda se vê inferior: como homem, Benwick ter mais oportunidades de mudar suas circunstâncias e conhecer alguém novo.

Ele procura uma jovem para ajudá-lo a superar Fanny, e suas atenções se voltam, surpreendentemente, para Louisa Musgrove em um dos plot twists de Persuasão. E, incrivelmente, ficam noivos antes do primeiro aniversário de falecimento de Fanny. Sua rápida reviravolta em questões de amor surpreende seus amigos, que pensavam que ele nunca superaria a perda. Ele está realmente recuperado ou esse novo romance é uma maneira de lidar com sua dor? Ele estava realmente preocupado com a morte de Fanny, ou ele estava exagerando porque gostou da atenção

Como só ouvimos boatos sobre Benwick após o episódio de Lyme, é difícil dizer com certeza.

Lady Russell

A ex-melhor amiga da falecida mãe de Anne, Lady Russell é uma mulher de boa família e grande riqueza que serve como conselheira da família Elliot. Uma mulher prática, ela está consciente das interações de classe e das finanças. Anne é sua favorita das filhas Elliot e, embora ela tenha boas intenções, às vezes ela dá maus conselhos.

Enquanto Anne generosamente lhe dá o benefício da dúvida ao relembrar o conselho de desistir do capitão Wentworth, Sir Walter é duro quando ela se oferece para ajudá-lo com as finanças. Ainda assim, ela persevera na tentativa de salvar os Elliots deles mesmos.

Lady Russell não se dedica somente a Anne – a única dos Elliots que realmente gosta dela e ouve seus conselhos – e deixa os outros à sua sorte pela sua forte afeição por Anne que lhe dá interesse em garantir que os outros Elliots não estraguem as coisas. Uma segunda razão é seu "valor de posição e consequência, que a cega um pouco para as faltas daqueles que os possuíam" (cap 2). A amizade contínua de Lady Russell com os Elliots é baseada tanto no mérito pessoal (de Anne e da falecida Lady Elliot) quanto na posição social (o título de Sir Walter).

No final do romance, Lady Russell tem que passar por uma reforma mental completa, percebendo que ela estava totalmente errada sobre o Sr. Elliot e o Capitão Wentworth. O fato de ela conseguir fazer isso com bastante facilidade mostra que ela pensa mais na felicidade de Anne do que em estar certa, embora permaneça incerto se o mesmo aconteceu com seus atos anteriores de persuasão.

Almirante e Sra. Croft

O amável casal que aluga Kellynch Hall, para desespero do Sir Walter. O Almirante é um oficial naval condecorado e sua devotada esposa viaja com ele quando está no mar. 

Os Crofts são um dos poucos exemplos de um casal mais velho e feliz em qualquer um dos romances de Austen. Além deles temos os Gardiner em Orgulho e Preconceito e os Weston de Emma, por exemplo. 

Quando a Sra. Croft menciona um incidente do passado, ela se refere a ele como "era Capitão Croft então" (cap 8), permitindo-nos imaginar que o Almirante e a Sra. Croft são o que Wentworth e Anne podem se tornar.

Sofia Croft

A Sra. Croft é esperta (o Sr. Shepherd diz que ela é melhor negociadora do que o marido), confiante e não aceita insolência de ninguém, muito menos de seu irmão -  o Capitão Wentworth. Quando ele tenta argumentar que as mulheres são flores frágeis que devem ser poupadas de sofrer a dureza da vida a bordo, ela responde que as mulheres são "criaturas racionais" e que "nenhuma de nós espera estar em águas calmas todos os nossos dias" ( cap 8). 

Sua atitude sensata dá a Anne um modelo alternativo de feminilidade adulta ao que ela vê em mulheres como Lady Russell e Sra. Musgrove.

Almirante

O almirante Croft é um exemplo de bom homem tornado melhor por uma grande esposa. Anne vê na maneira como andam de carruagem um símbolo de seu relacionamento: o Almirante tem as rédeas, mas é a Sra. Croft que os impede de bater. 

Sra. Clay

Penélope Clay é filha do Sr. Shepard (conselheiro da família de Sir Walter), e amiga de Elizabeth Elliot. Embora seja de origem muito inferior, sardenta e não muito atraente, a Sra. Clay é uma viúva bem-educada. Ela tem olho para coisas boas. 

Sua associação com os Elliots permite que ela viva em um estilo muito mais grandioso do que ela mesma pode pagar, e tudo o que lhe custa é bajulação. Há também o bônus adicional de estar em uma posição privilegiada para se tornar a próxima Lady Elliot. Isso incomoda Anne que vê perigo na maneira como ela se torna querida por Sir Walter e suspeita que ela possa tentar se casar em uma classe muito superior à sua.

Nesta personagem Austen nos mostra as dificuldades de sobrevivência feminina. Tal qual Lady Susan, a Sra. Clay está tentando conquistar uma vida melhor para si mesma, da única maneira que pode – casamento. 

diario de canoas

Sra. Smith

Amiga de infância de Anne Elliot, que atualmente vive em Bath, a Sra. Smith passou por tempos difíceis. Viúva de um homem endividado que a deixou  sem nada, ela ainda sofre por uma doença. Faladeira e com um gosto pela fofoca, Sra. Smith reacende sua antiga amizade com Anne e fornece a ela informações sobre o Sr. Elliot. 

Na história, a Sra. Smith tem a função de destacar o alto valor do caráter de Anne na maneira como ela lida com amizades, quão pouco valoriza status.

Apesar de todo seu azar, a Sra. Smith ela ainda consegue ser alegre. Anne diz que é simplesmente a natureza da Sra. Smith ser feliz: "aqui estava aquela adaptabilidade da mente, aquela disposição para ser consolada, aquele poder de mudar prontamente do mal para o bem, e de encontrar uma distração que a leve para cima, que era apenas da natureza" (cap 17) 

O que a Sra. Smith tem, no entanto, é informação e experiência. Enquanto Anne está disposta a pensar o melhor das pessoas, a Sra. Smith sabe como as pessoas podem ser más. Mas ela não compartilha suas informações sobre o Sr. Elliot, no entanto, até que quase não importa mais porque acha que Anne realmente vai se casar com ele. Ela acredita que não faria diferença no acordo de casamento, tenta respeitar o suposto noivado não falando mal do futuro marido para Anne, e achava que o ele trataria Anne melhor do que sua primeira esposa. 

Talvez algumas ou todas essas razões sejam verdadeiras, embora também seja possível que a Sra. Smith estivesse esperando que ela pudesse chegar ao Sr. Elliot através de Anne e forçá-lo a restaurar sua fortuna perdida. Eventualmente, no entanto, ela coloca sua amizade em primeiro lugar e ainda acaba recuperando sua fortuna através do real marido de Anne - o capitão Wentworth.

Viúva Viscondessa Dalrymple e Miss Carteret

A viscondessa viúva Dalrymple, apesar de seu nome imponente, é um personagem secundário que funciona mais como uma ferramenta para revelar as camadas de outros. Embora sejam desinteressantes e pouco inteligentes, Sir Walter procura seu conhecimento renovado por causa de sua alta posição social.

Não vemos muito de Lady Dalrymple no livro – seu principal objetivo é destacar como o esnobismo de Sir Walter e Elizabeth se transforma em bajulação quando eles se deparam com alguém que os supera. Ao contrário, também mostra o quão pouco Anne se importa com a status social quando ela recusa um convite de última hora dos Dalrymples para manter um encontro com a Sra. Smith. Note também a conversa sobre "boa companhia" (cap 16) e se a posição é relevante (Anne diz que não, Lady Russell e o Sr. Elliot diz que sim).

Você também deve ter notado que Lady Dalrymple tem um sobrenome diferente de sua filha: isso porque Dalrymple é o nome que acompanha o título (então, se ela não tivesse filhos e seu primo Jones herdasse o título, ele ainda seria o Visconde Dalrymple). Carteret, no entanto, é o nome real da família. Provavelmente, o Visconde falecido herdou o título depois do nascimento da filha ou ela seria Lady.

Então seus nomes mostram que ela está acima dos Elliots, ou qualquer outra pessoa mencionada no romance, e também que sua posição depende dos homens com quem ela está relacionada.

Capitão Harville e Sra. Harville

Harville é um dos amigos mais próximos do Capitão Wentworth. Humilde e sensato, na verdade, é para visitá-lo que todos vão a Lyme Regis. Harville se parece um pouco com a Sra. Smith - ele está com problemas de saúde devido a uma lesão e não é o cara mais rico do quarteirão. Como a Sra. Smith, ele tira o melhor de sua situação através da "utilidade e engenhosidade" (cap 11) de sua mente, mas ao contrário dela, ele tem uma família e seus amigos Wentworth e Capitão Benwick, para fornecer apoio moral.

Quando os Harvilles convidam os Musgroves para jantar sem se preocuparem em como seus pequenos quartos podem não caber a todos, eles mostram como são diferentes dos Elliots, que optam por não convidar os Musgroves para jantar em Bath porque não podem ostentar tanto quanto eles gostariam. Ele e sua esposa acolhem Louisa após seu acidente e cuidam dela por semanas, sem perguntas. A hospitalidade e a gentileza de Harville, apesar de suas limitações, fazem dele um garoto-propaganda da Marinha britânica e de uma boa amizade.

tumblr

fonte: meus arquivos pessoais, study.com, schmoop, reddit, spark notes


O que você acha?

Está gostando desta maratona de Persuasão?

Tenho um monte mais para te contar!

Me fala aqui nos comentários o que você está achando.

Aqui você acha minhas PESQUISAS SOBRE JANE AUSTEN , 

inclusive os outros posts de Persuasão


e espera o novo filme lendo a JUVENÍLIA de Jane Austen!