& Moira Bianchi

sábado, 19 de novembro de 2022

Lady Susan de Jane Austen, quem é essa mulher?

 olá, blz?

Estive mergulhada no estudo da natureza profunda de mulheres complicadas. Não, não estive defronte do espelho, haha. Eu fiz maratona de 'Minha amiga genial', podcast sobre Ângela Diniz e...

Confesso que dei umas piradas básicas e, eventualmente, farei um post no blog sobre a relação complexa que eu fiz sobre a vida das personagens literárias e a socialite dos anos 70. Altamente indico que você ouça o podcast e veja a série ou leia os livros.

Por isso, eu achei bom fazer um post dedicado a Lady Susan, a personagem principal do romance de Jane Austen.

Susan é uma mulher complexa, cheia de motivações e tramóias. Para mim, é uma das melhores criações de Austen.

Aviso: esse post contém SPOILERS HORROROSOS.


A PERSONAGEM PRINCIPAL
para os demais personagens, veja aqui

✧ Resumo ✧

- filha de um nobre

- quando começa a história, ela é viúva de Mr. Vernon há quatro meses

- amante de Mainwaring, homem casado

- tem aproximadamente 35 anos 

- tem uma filha, Frederica Susanna. 

- anteriormente morava em Vernon Castle, Staffordshire 

- locais de residência em Londres são Upper Seymour Street, e mais tarde de 10 Wigmore Street, ambos em Mayfair, o bairro elegante de Londres. 

- tem fama de ser 'a coquete mais talentosa da Inglaterra', manipuladora e fabulosamente perversa. 

- riqueza por si só não a satisfaz, ela é uma conquistadora. 

- termina o romance casada com Sir James Martin, inicialmente escolhido por ela para casar com sua filha Frederica.

Portrait of a beautiful lady by George Papperitz

✧ Saiba mais 

Viúva falida depois da morte do marido e mãe de uma única filha, Frederica Vernon, Lady Susan instiga os acontecimentos da história ao se convidar para passar uma temporada na casa de seu cunhado (irmão do falecido marido), Charles Vernon, e sua esposa, Catherine. 

✧ Intenção

O real motivo para esta visita revela sua natureza egoísta: ela precisava fugir da casa dos Mainwaring onde esteve anteriormente hospedada, por ter seduzido o dono da casa (Sr. Mainwaring, marido dependente da esposa rica) e encantado seu amigo rico Sir James Martin (que era noivo da irmã de Mainwaring)  quem Susan decidiu forçar a se casar com sua filha Frederica. 

‘No momento, nada corre bem; as mulheres da família estão unidas contra mim. Você previu como seria quando cheguei a Langford, e Mainwaring é tão extraordinariamente agradável que não deixei de ter apreensões por mim mesma. Lembro-me de me dizer: "Gosto muito deste homem, tomara que nenhum mal venha disso!" 

LS – carta 2

✧ Características✧ 

Lady Susan é uma manipuladora habilidosa. Bonita, inteligente e educada, ela é capaz de convencer os outros de sua inocência, embora seu verdadeiro caráter seja prontamente revelado aos leitores em suas cartas para sua amiga e conspiradora Alicia Johnson. Ao contrário dos personagens, os leitores tem acesso total ao andamento dos planos e interesses reais de Susan – bem como a reação de suas vítimas.

‘Pretendo conquistar o coração de minha cunhada por meio de seus filhos; Já sei todos os seus nomes e vou me apegar com a maior sensibilidade a um em particular, um jovem Frederic, a quem pego no colo e suspiro por causa de seu querido tio.’ 

LS – carta 5

A duplicidade de Lady Susan é particularmente clara em seu relacionamento com o irmão de sua cunhada Catherine, Reginald De Courcy: ele inicialmente desconfia de Lady Susan, mas logo se apaixona por ela e começa a acreditar e defender suas mentiras. Os dois acabam ficando noivos, mas depois que Reginald descobre seu caso com o Sr. Mainwaring, ele rompe o noivado, e no final da história Lady Susan se casa com Sir James sem que o leitor tenha certeza se o apaixonado caso com Mainwaring acabou. 

✧ Motivações 

Ao longo da novela, as motivações de Lady Susan giram entre segurança financeira e poder (na sociedade imediatamente próxima dela). 

Seu falecido marido, por quem ela não era apaixonada, estava falido, o que significa que ela precisava de dinheiro - mas suas ações nunca indicam que ela é mercenária. Por exemplo, sua insistência para que Frederica se case com Sir James não parece motivada apenas por dinheiro - ela insiste no casamento de Frederica principalmente para punir a garota forçando-a a aturar uma união infeliz.

‘Não quero dizer, portanto, que as instruções de Frederica devam ser mais do que superficiais, e eu me gabo de que ela não permanecerá tempo suficiente na escola para entender qualquer coisa profundamente. Espero vê-la como esposa de Sir James dentro de um ano. Você sabe em que baseio minha esperança, e certamente é uma boa base, pois a escola deve ser muito humilhante para uma garota da idade de Frederica. (...) desejo que ela ache sua situação o mais desagradável possível. (...) Algumas mães teriam insistido para que suas filhas aceitassem uma oferta de casamento tão boa na primeira proposta; mas não consegui me convencer a forçar Frederica a um casamento para o qual seu coração se revoltou e, em vez de adotar uma medida tão dura, apenas propus que fosse sua própria escolha, deixando-a totalmente desconfortável até que ela o aceitasse.’ 

LS – carta 7

a bela Emma Hamilton. minha gatinha tem o nome dela

Talvez por querer garantir um futuro seguro para a filha e para si própria (motivação comum na época que vemos também nos esforços da Sra. Bennet em Orgulho e Preconceito) ou para punir Frederica por tê-la desafiado ao recusar a proposta do rico Sir James, Lady Susan exerce seu poder sobre a garota com mão de ferro.

Ela parece simplesmente gostar de controlar os outros, especialmente porque sua influência como viúva pobre na sociedade do século 19 era limitado. Por exemplo, ela diz a Alicia que flerta com Reginald não porque ela gosta dele, mas porque ela gosta de como ela conseguiu mudar completamente a opinião dele. 

‘...irmão da Sra. Vernon, um jovem bonito, que promete ser de alguma diversão. Há algo nele que me interessa bastante, uma espécie de atrevimento e familiaridade que devo ensiná-lo a corrigir. Ele é animado e parece inteligente, e quando eu o inspirar com mais respeito por mim do que os bons ofícios de sua irmã implantaram, ele pode ser um flerte agradável. Há um prazer requintado em subjugar um espírito insolente, em fazer uma pessoa predeterminada a não gostar de mim reconhecer minha superioridade. Eu já o desconcertei com minha calma reservada, e será meu esforço humilhar ainda mais o orgulho desses auto-importantes De Courcys. Este projeto servirá pelo menos para me divertir ...’ 

LS – carta 7

No final da novela, Lady Susan não mudou significativamente - embora ela se  case com Sir James, ele é facilmente manipulado, o que significa que os esquemas de Lady Susan provavelmente continuarão. 

✧ Mensagem oculta

Durante a trama, Frederica desenvolve uma queda por Reginald e o manipula a defendê-la contra os desmandos da mãe, mostrando que Lady Susan está errada, sua filha é sim parecida com ela. O leitor então tem a chance de ver o herói Reginald ser joguete de mãe e filha provando sua fraqueza de caráter. A ironia de Austen neste personagem é deliciosa de ler.

Esse é um dos assuntos recorrentes na história: o poder de persuasão e controle que as mulheres exerciam no lar. Homens da virada dos séculos 17 para 18 podiam ter todo poder fora de casa, mas quem controlava dentro eram as mulheres. Neste romance curto, Jane Austen nos dá a oportunidade de avaliar como Reginald (jovem herdeiro de boa fortuna) é manipulado Susan (amante mais velha), Frederica (noiva ideal por ser jovem e casta), Catherine (irmã dele) e Lady De Courcy (mãe dele). Ele tenta seguir os próprios instintos escolhendo Susan sob os protestos da mãe e irmã, mas no final, por desilusão total, humilhado e de coração partido, ele aos poucos aceita Frederica quase como prêmio de consolação.

‘Frederica foi, portanto, fixada na família de seu tio e tia até o momento em que Reginald De Courcy pudesse ser persuadido, lisonjeado e induzido a ter uma afeição por ela que, permitindo tempo para a conquista do sentimento que nutriu pela mãe dela, desistir qualquer contato futuro e aversão ao sexo poderia ser razoavelmente trocados no decorrer de um ano.’ 

LS - conclusão

Austen usaria esse recurso logo depois em Razão e Sensibilidade, escrita logo após Lady Susan. Em R&S, Marianne é a heroína de coração aberto que acredita nas mentiras do belo cavalheiro e quando descobre a verdade sobre ele, chora e sofre muito até que aceita casar com seu admirador muito mais velho.

✧ Finalmente

Independente do valor dos casamentos consumados – tanto Reginald com Frederica quanto Marianne com Coronel Brandon – vemos corações partidos emendados pela dor e curados por um amor substituto.

Quanto a Susan, ela casa com a melhor opção possível: o rico, bobo e incoveniente Sr. James que certamente seria presa fácil na mão dela. 

Pode ser acridoce, mas Lady Susan tem final feliz para todos.


para os demais personagens, veja aqui

fontes: Austenprose, litcharts, bookrags, supersummary, jasna, the guardian, meus arquivos pessoais


Está gostando de saber dos detalhes desta obra de Jane Austen?
Tenho muito mais guardado para te contar!

Se você ainda não viu, aqui estão minhas pesquisas de Austen Nation e pesquisas históricas aqui.

LINKS para Lady Susan

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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Lady Susan, de Jane Austen, explicada

Olá! Continuo com o estudo de

Como eu já disse anteriormente, quem não conhece a Juvenília acha que Lady Susan é um dos romances mais surpreendentes de Jane Austen. Além de bem mais curto que os outros, é picante, desconcertante, atrevido e perverso. 

Provavelmente por ser (erroneamente) considerado um ponto fora da curva, LS recebe muito pouca atenção ou elogios – há quem chame de aberração! Os estudiosos de Austen desprezando-o como um trabalho menor; um experimento inicial de uma autora em formação que nunca retornaria ao formato epistolar, nem perseguiria sua publicação durante sua vida.

Não há nada sutil ou gentilmente reprovador sobre o enredo ou personagens pelos quais ela é famosa – mas é Austen – uma versão mais jovem e menos polida; crua, enérgica, ultrajante.

Após a morte de Austen em 1817, o manuscrito passou para sua família e mais tarde foi vendido para a Biblioteca Morgan em Nova York. Uma vez que todos os manuscritos originais de seus seis principais romances não existem mais, Lady Susan é o único exemplo existente de um romance completo escrito por sua própria mão hoje.

Em posts seguintes, trarei Temas, Símbolos, Personagens, Resumos. Vamos aos detalhes, uma ficha cadastral da adorável Lady Susan.

Título

Lady Susan

Em 1805, Jane Austen transcreveu uma cópia fiel de um manuscrito sem título que mais tarde seria nomeado Lady Susan por seu sobrinho James Edward Austen-Leigh que publicou o romance pela primeira vez em 1871 em sua biografia de sua tia, A Memoir of Jane Austen. Veja este manuscrito aqui.

Tecnicamente, Lady Susan pode ser chamado de ‘novella’, termo dado a contos de 17 a 40K palavras e é escrita no formato epistolar popular na juventude de Austen. Tem 41 letras entre os personagens e uma conclusão do narrador, e estima-se (por estudiosos) ter sido escrito quando Austen estava no final da adolescência entre 1793-94.

Susan era um nome que Jane Austen adorava, ela usou em várias obras. A primeira versão de Abadia de Northanger era ‘Susan’, foi escrita de 1798 a 1803 quando foi vendido para um editor que nunca publicou. 

Na Juvenília, várias obras são intituladas pelo nome dos protagonistas, mas na maturidade, ela sempre renomeou. Assim foi ‘Elinor e Marianne’ trocado para ‘Razão e Sensibilidade’.

Frances Burney, autora de Evelina – livro que certamento influenciou Austen, tinha uma irmã chamada Susanna, também famosa autora de cartas e documentos sobre música.

Enredo

As tramas giram em torno de uma viúva inescrupulosa e intrigante, Susan Vernon, que “sem o charme da juventude”, consegue seduzir qualquer homem. A fim de garantir sua segurança financeira, ela planeja se casar com sua filha adolescente contra a vontade da garota.

“Ela é inteligente e agradável, tem todo aquele conhecimento do mundo que torna a conversa fácil e fala muito bem, com um bom domínio da linguagem, que é muito usada, acredito, para fazer o preto parecer branco.” – carta VI

Ao visitar o cunhado (irmão de seu falecido marido), Susan conhece um jovem herdeiro (irmão de sua cunhada) e decide casar-se com ele. Seus planos vão de vento em popa até que sua filha foge da escola e precisa ser levada para perto dela. 

Como aliada, Susan tem Alicia Jonhson, esposa do guardião da esposa do homem com quem Susan tem um caso amoroso.

Muito sagaz, Susan consegue se desvencilhar de quase todos os problemas que lhe acometem. E são muitos.

Autor

Jane Austen, aos 24 anos

Gênero 

Romance epistolar (em cartas) – uma novella

Língua

Inglês

Tamanho

23K palavras

42 capítulos: 41 cartas + conclusão

Data de criação

1794 – escrito sem uma conclusão

1805 – concluído  

Data da primeira publicação

1871 – post morten

Data da trama

Não especificada

Local da trama

Lugarejo de Churchill, Londres

Narrador

cartas:

Lady Susan
Sra. Vernon
Lady De Courcy
Alicia Johnson
Reginald De Courcy

conclusão:

Narrador 

Protagonista

Lady Susan 

Antagonista

Sra. Vernon

Sr. Johnson 

CJ Soulacroix - Flirtation


Ponto de vista

Discurso direto (cartas com narrativa em 1ª pessoa)

Discurso indireto livre (conclusão)

Tempo verbal

passado

Promessas escondidas

A infidelidade nos relacionamentos onde Susan se envolve contrasta com o bom casamento dos Vernon

Tom 

Satírico

Subversivo

Petulante

Especulativo e pernicioso

Estilo da escrita

Altamente sarcástico, intenção de confundir o leitor com várias versões dos acontecimentos, cômico e cruel em alguns momentos

Temas

. relacionamentos amorosos;

. lealdade;

. maternidade;

. situação feminina na sociedade;

. poder de persuasão;

. perigo do preconceito;

. importância do casamento.

Motivos

Casamento, sobrevivência.

Ações marcantes

. chegada de Lady Susan a Churchill

. esforços de Lady Susan para encantar Reginald 

. chegada de Frederica a Churchill contraria os planos da mãe

. ida de Susan e Reginald a Londres

CS Soulacroix - The conversation

Clímax

Apesar das diversas reviravoltas da trama, o clímax acontece quando Reginal encontra Sra. Mainwaring justamente no momento em que ela contava ao seu guardião – Sr. Johnson - sobre o relacionamento adúltero que Lady Susan nutria com seu marido. O leitor sabe deste encontro bombástico pela narrativa de Alicia Johnson:

“Minha querida criatura, estou em agonia e não sei o que fazer. O Sr. De Courcy chegou exatamente quando não deveria. A Sra. Mainwaring entrou naquele instante e se forçou à presença de seu tutor, embora eu não soubesse nada disso, pois eu estava fora quando ela e Reginald chegaram, ou o teria mandado embora. Mas ela estava com o Sr. Johnson, enquanto Reginald esperava por mim na sala de visitas e ouviu tudo. (...) O que eu poderia fazer! Fatos são coisas tão horríveis!”

Final

Apesar do bem ser recompensado e os sofredores acharem amor, a maquiavélica Lady Susan também alcança seu objetivo em um perverso troca-troca de pretendentes. A viúva casa com o rico cavalheiro que ela havia escolhido para sua filha Frederica, enquanto esta acaba por conquistar o amor de Reginald, herdeiro de larga fortuna que passou boa parte do romance apaixonado por sua mãe.


fontes: Austenprose, litcharts, bookrags, supersummary, jasna, the guardian, meus arquivos pessoais


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Se você ainda não viu, aqui estão minhas pesquisas de Austen Nation e pesquisas históricas aqui.

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M.


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quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Lady Susan de Jane Austen - um romance petulante e audacioso

 Olá!

Hoje começo uma série de posts sobre LADY SUSAN.

.

Esse romance epistolar é o meu segundo romance favorito na obra de Jane Austen. Eu gosto do ritmo, da sensação de ouvir segredos, descobrir coisas escondidas de mim. É excitante!

Sem dúvida, Lady Susan é um ponto fora da curva na obra de Austen para quem não conhece a Juvenília. Mas, na verdade, LS encaixa perfeitamente no refinamento do estilo da autora.

Como eu tive a oportunidade de trabalhar na Juvenília, eu pude pesquisar easter eggs e referências que a então Jovenzinha Jane embutiu na produção literária que ela começava a criar, e principalmente, li na íntegra e na ordem que ela deixou seus cadernos numerados. Sugiro que você leia também, no original ou na minha tradução. Por que?

⭐ Primeiro: 

Porque é mimo para fãs de Austen

⭐ Segundo: 

Porque tem várias pistas e esboços de Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade e Emma

⭐ Terceiro: 

Porque vai te ajudar a entender melhor os romances de Jane Austen


Te mostro aqui uma linha do tempo das criações de Austen para localização da evolução dela como contadora de histórias. LS está em amarelo.


Então, analisando pela vertente de QUANDO LS foi criada, vemos que Austen usou muito da narrativa exagerada da Juvenília, mas agora refinada - mesmo que ainda muito longe da delícia de "Você é muito generosa para brincar comigo. Se seus sentimentos ainda são os mesmos de abril passado, diga-me imediatamente. Minhas afeições e desejos não mudaram, mas uma palavra sua me silenciará sobre esse assunto para sempre." O&P, cap 16

Uma idéia clara da evolução do estilo de Austen pode ser vista, por exemplo, na leitura dessas 4 obras (seleção minha):

Se lidas em sequência, essas obras mostram que com a maturidade, ela refinou seu estilo. Ela fala de morte em Jack & Alice de maneira jocosa e de forma melancólica em Persuasão.

Mas aqui neste post quero falar de como Lady Susan é uma continuação perfeita da Juvenília. Te explico meu raciocínio:

 4 mulheres para falar da situação feminina 

Em Catherine ou o caramanchão, Austen conta a história de 4 mulheres: Catherine, Sra. Percival (a tia), Sra. Stanley (parente) e Camilla Stanley (parente). Conhecemos Catherine como um garota profunda, leitora voraz e muito preocupada com a situação de vizinhas amigas que tiveram a vida alterada com o falecimento do pai. A tia é mostrada como uma senhora preocupada e rancorosa com a situação da sobrinha solteira e reputação. Sra. Stanley é uma mulher casada e confortável com sua situação social. Camilla é uma garota da mesma idade de Catherine, mas como tem uma família estruturada e rica, é leve e despreocupada.

De início, Catherine nos faz crer que Camilla é fútil, mas depois aprendemos que a visão de Catherine nem sempre reflete a verdade - assim como Elizabeth Bennet e Emma, por exemplo. Depois, com o andamento da trama, Catherine muda conforme ela reage às pessoas à sua volta.

'Catherine' fala de possibilidades na vida social feminina

Em Lady Susan, de novo Austen nos dá 4 mulheres: Lady Susan (a viúva), Frederica (filha da viúva), Sra. Vernon (a cunhada) e Sra. Alicia Johnson (amiga e comparsa de Susan). Aqui somos apresentados a uma viúva impiedosa em suas tentativas de garantir uma vida segura e confortável. Nesta batalha, a filha é um meio - assim como Elizabeth é para Mrs. Bennet. Apesar de querer segurança para a filha, essas mães querem estender esse cobertor sobre elas mesmas.

Frederica então é um peão movida de lado para lado no tabuleiro de interesses. Sra. Vernon é uma mulher segura na vida porque tem pais de fortuna e marido vivo (este é o herdeiro do marido falecido de Susan, o que nos faz entender porque ela acha que tem o direito de tirar vantagem do cunhado). Alicia Johnson já conseguiu assegurar um marido velho e rico e por isso está segura socialmente, mas precisa eventualmente responder ao marido que tem certa aversão ao poder perverso de Susan.

⭐ Lady Susan fala da luta feminina pela sobrevivência  

Não sabemos na verdade se Catherine foi o último conto escrito na juventude dela, apenas que é o último que ela incluiu nos cadernos da Juvenília. Mas se acreditarmos que a ordem em que Austen passou a limpo seus escritos juvenis foi a mesma em que ela os criou, a transição de narrativas e assuntos é natural, suave.

A garota Jane tinha todas as possibilidades abertas a ela, observava os destinos de suas parentes e amigas se descortinando à sua volta. A jovem mulher Jane tem noção da corda bamba que era a situação social da mulher nos séculos 18-19.  Já falei disso aqui no blog, leia aqui e aqui entre outros.

Enfim, eu gosto tanto de Lady Susan porque vejo nesta obra pequena e petulante uma audácia em crítica social que Austen parece manter sob controle no restante de sua obra.

Laetitia, Lady Lade, on horseback de G. Stubbs - 1793
.

Veja uma análise curtíssima que achei em Jane Austen, her life in letters - a family record de William Austen-Leigh. Ele era sobrinho-neto de Jane e organizou (muitos anos depois do falecimento dela) um carinhoso livro que detalha sua vida com minúcias cotidianas de sua vida, circunstâncias em que ela escreveu seus romances, e sua morte prematura. Usando as próprias cartas de Jane, este livro ajuda a construir a reputação literária e pessoal de um ícone literário pela visão de seus familiares.

Cito aqui o cap 5:

"Em Memórias, o autor cedeu com relutância às muitas solicitações de incluir Lady Susan em sua segunda edição como uma etapa no desenvolvimento da autora (Jane). Estritamente falando, não é uma história, mas um estudo. Quase não há tentativa de enredo ou agrupamento de personagens; as que existem são mantidas em segundo plano e servem principalmente para realçar a figura completa, altamente acabada e totalmente sinistra que ela (a personagem principal) ocupa na trama, mas que parece, com a conclusão do estudo, desaparece inteiramente da mente de sua criadora. É igualmente notável que uma menina inexperiente tenha tido independência e ousadia suficientes para compor em detalhes uma mulher do tipo de Lady Susan, e que, depois de fazê-lo, a pureza de sua imaginação e a delicadeza de seu gosto a impediram que repetisse o experimento."

Está certo, não é?


Apesar de ter escrito Razão e Sensibilidade em cartas, Austen reescreveu depois e ficamos sem saber o quanto ela mudou já que as irmãs Marianne e Elinor não ficam afastadas e portanto, as cartas deveriam ser de outras pessoas falando delas...

Pela Nossa Senhora do Print, quem resiste à exposição de uma conversa de Whatsapp? Imagino que cartas eram igualmente comprometedoras e por isso Lady Susan seja tão suculenta.

goodreads


Com estes posts eu quero aprender mais da obra e de Jane, te convido a vir comigo nesta jornada que, se tudo der certo, é um embrião para um novo projeto bacana em Austen Nation.

Se você ainda não viu, aqui estão minhas pesquisas de Austen Nation e pesquisas históricas aqui.

Agora me fala, você já leu LS

Gostou da obra ou detestou tanto a personagem que o romance todo é impossível de engolir?

Bjs, e até mais!

M.


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quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Persuasão da Netflix: haters gonna hate

 olá,

com este, pelo menos por enquanto, eu encerro os estudos de Persuasão. Quando comecei, não achei que renderia tanto!

tenor
Como foi por conta do lançamento do filme da Netflix, é justo terminar com ele.

Já te falei o que achei dele aqui, até gravamos podcast exclusivo, mas o que quero falar aqui neste post é sobre o HATE que ele levantou. Me surpreendeu, fiquei mexida mesmo. Foram discussões acaloradas, brigas e xingamentos em Austen Nation. Credo!

Para montar esse post, eu usei as respostas que me deram nas redes sociais e 14 artigos que achei em uma simples pesquisa no Google. Digitei 'Persuasion Netflix' e peguei os hits das duas primeiras páginas. Foram eles: Vox, Glamour, The Independent, Cinema Blend, The NY Times, The Daily Utah Chronicle, Mammamia, NPR, Cosmopolitan, Harper's Bazaar, O Globo, Le Monde, CNN e The Conversation

Vou dividir em tópicos porque as críticas e avaliações se repetem. Acho que assim vai ser mais fácil para você ler e para minha organização.

Aviso que é CHUVA DE SPOILERS. Siga por sua conta e risco.

Vamos lá!

PERSUASÃO NETFLIX & SEU HATE

FIRST THINGS FIRST

O ponto básico é entender a diferença entre OBRA e PRODUTO.




Por que isso?
Porque Netflix é uma empresa que quer agradar seus clientes e tem uma agenda a cumprir. Por isso ela força a barra com 'elenco daltônico', mensagens progressistas e produções mastigadas para distrair mais que educar.
backstageol

Veja Bridgerton, 365 dias, Emily em Paris, The crown, Enola Holmes, You e Narcos, por exemplo. Todas essas produções são bonitas de ver, entretêm, mas têm erros históricos ou de narrativa que você até percebe, mas não liga porque está 'só se divertindo'.
Neste raciocínio fica fácil entender o croquete que fizeram com o filé mignon que é Persuasão.

PRODÍGIO DE MARKETING
Esse filme é um pastiche americanizado da Inglaterra Regencial perfeitamente feito para atrair espectadores da Grã-Bretanha (país que viveu essa era) e fãs de Austen de qualquer lugar do mundo, até aqui no Brasil. 
É um trabalho de gênio do marketing e, em muitos aspectos, também é a conclusão natural de uma visão caricaturizada da Inglaterra Real que vem sendo construída há décadas.
Depois de Bridgerton, cujo golpe de mestre foi entregar uma versão da Regência para Instagram que fez de suas inconsistências históricas uma virtude (tsk,tsk), a plataforma decidiu repetir essa fórmula com um clássico em domínio público acreditando que o apetite aparentemente inesgotável para essa época nos livros de romances ia dar audiência depois do boost inicial garantido por Austen Nation. Janeites são conhecidas por consumir de um tudo, desde bandaid até vela perfumada - por que não uma nova adaptação?
Muita gente que tem intimidade com um romance de Jane Austen estava decidido a odiar o filme. No entanto, todos assistiram nas primeiras 12 horas de lançamento. Um sucesso estrondoso!
Foi dito que era inovador, empoderador para mulheres, feminista, empático e outros gatilhos de marketing que são marca e qualidade da plataforma. 
Antes dessa, Persuasão foi tema de duas séries e dois filmes de TV entre 1960 e 2007 – muito pouco. Assim, a Netflix preencheu um relativo vazio, oferecendo uma versão cinematográfica para toda a família.
Em um nível puramente superficial, “Persuasão” é capaz de fornecer alguns dos prazeres estéticos de uma época passada, o que cumpre com o padrão Netflix.

MODERNIZAÇÃO
Uma adaptação não precisa ser uma cópia do original, mas deve ao menos reproduzir a 'alma' da obra. No caso de Persuasão, tem 12 posts aqui no blog para você se esbaldar nessa análise.
Nisso, o filme age como uma fanfic OoC - out of character - ou seja, é o mesmo enredo com os mesmos personagens, mas esses têm personalidades diferentes dos originais. 
Para criar rapport, Anne Elliot foi moldada como Bridget Jones e Fleabag, uma desbocada, quase alcóolatra, desastrada e ainda assim, adorável por ser quase como uma criança. Essa Anne poderia ser Emily (em Paris), Bella (Crepúsculo), Eloise (Bridgerton), tanto faz, é uma fórmula que tem variações, que nem macarons.
jornal plural

O problema é que Anne Elliot é muito diferente disso. A dor dela é aguda, misturada com o medo de estar em um ponto na vida onde perdeu todas as oportunidades, principalmente por amor. No filme ela suspira de forma teatral depois que derruba um pote de molho na cabeça e se gaba de dançar ao som de Beethoven sozinha em seu quarto com uma garrafa de vinho.
tungir

No romance, a tensão entre o Sr. Elliott e o capitão Wentworth se resume ao fato de Anne ainda ser persuadida a valorizar a posição de sua família acima de seu próprio caráter e julgamento. No filme Elliott e Wentworth são dois galãs em duelo e nós mal sabemos porquê.
Para os leitores que desconhecem Austen, há uma impressão de frivolidade, melodrama e falta de seriedade – como Bridgerton ou Sanditon: as coisas quase fazem sentido, sóque não. A razão pela qual a Persuasão na Netflix parece tão insultante é que ela se encaixa diretamente nesse estereótipo da mocinha moderna feminista infeliz romanticamente. 
A Anne do filme é arrastada até que sua decisão seja tomada por ela depois que é revelado que Wentworth a ama, ao invés do desenvolvimento sofrido do arco original.
Persuasão é geralmente considerado o romance mais maduro de Austen, e Anne sua heroína mais complicada. A fleuma e o humor característicos da narrativa compensam a desolação da protagonista. 
Ao fazer Anne soar mais como a imitação amarga de Fleabag, o filme trai sua própria leitura superficial da personagem, que na verdade é mesmo um pouco solitária, insatisfeita e fora de sincronia com a sociedade. 

PREGUIÇA DE PENSAR
Mas a questão é que o roteiro desta versão de Persuasão de Austen faz pouco sentido no século 21 porque as mudanças descaracterizaram muito as personalidades e as razões para as ações deles na tentativa de fazer Austen mais modernizada. 
Clueless, por exemplo, não estava explicando Emma para um público burro demais para entender, estava se divertindo. Parece que o filme pensa que o expectador é estúpido demais para entender Austen por conta própria, então, em vez de tentar dar vida ao trabalho dela, decidiu dar-lhe um resumo bem mastigadinho.
Como temos visto na dificuldade que as novas gerações de bookstans e booktoks têm de entender a sutileza da caneta de Austen, talvez essa regurgitação seja mesmo necessária...
istock

O filme aparentemente trata os fãs de Austen com desdém enquanto tenta agradá-los. Não é o elenco daltônico, o enredo abreviado ou os anacronismos que incomodam as pessoas - elas vêem isso, mas em face de coisa mais aguda, mal notam isso. 
O filme atrai os jovens porque é liberalmente temperado com expressões contemporâneas. 
A implicação é que esse público – presumivelmente em sua maioria mulheres jovens – estaria desinteressado ou incapaz de compreender um diálogo de época mais fiel. Este pressuposto é mais do que evidente.
O filme parece não confiar que seu público vai entender fatos mais básicos da vida do início do século 19, então explica, por meio de diálogos desajeitados, que as mulheres nesta época não tinham meios de se sustentar fora do casamento, nem tenta explorar os vários tons de hierarquia e mobilidade dentro da sociedade de classe alta da era Regencial. 
Os roteiristas, na melhor das hipóteses, mostram um desinteresse. Na pior das hipóteses, eles mostram um desprezo ardente pelo romance e pelas discussões que Austen fez tão pungentes.
Uma crítica disse que 'nunca antes uma adaptação de Austen me deixou tão vazia emocionalmente. Ao insistir que cada aspecto da vida moderna tem um corolário do século 19, o filme descentraliza o que torna os filmes de época tão confiáveis: não importa a década, as emoções humanas não evoluem e o amor não fica mais fácil.' É verdade...
O filme então despoja o trabalho de Austen de tudo o que era rico e maravilhoso no cânon e apresenta, em vez disso, um romance fraco da Regência. Porque isso é o que é popular, certo? Como um romance de banca de jornal.
Em nenhum mundo faz sentido que essa Anne não diga a esse Wentworth que ela gosta dele. Não há literalmente nada que os mantenha separados. No entanto, é disso que trata o filme inteiro. Mas também, por que eles gostam um do outro, já que não parecem ter nenhuma química ou qualquer coisa em comum?
Os criadores parecem ter notado seu buraco gigante na trama, e então tentam preenchê-lo deixando NADA para a imaginação. Sim, este enredo pode não fazer sentido, mas se continuarmos a explicá-lo, teremos um longa-metragem. Definitivamente, o roteiro é literalmente... paternalista

ANACRONISMO
dicionário online português

O filme parece totalmente inconsciente por supor que todos os seus anacronismos trarão vida ao velho e mofado Austen - o que na verdade é desnecessário porque quem procura uma adaptação está esperando... bem, um Austen.
Neste ponto, o filme é uma pálida imitação do sucesso de Bridgerton (que satisfaz em seus anacronismos atrevidos porque vem de uma série de livros sobre o século 19 escritos no século 21 por uma mulher do século 21 para ser lido por mulheres do século 21. Diferença ENORME das obras de Austen que era uma mulher do século 18, escrevendo no século 19 e que AINDA é lida no século 21.).
Persuasão faz piadas fracas, é uma decepcionante vitrine para Dakota Johnson (que salvou muitos filmes ruins antes deste) flertando com a câmera imitando Jim de The Office, e Fleabag.
Ao menos os anacronismos de Bridgerton parecem cuidadosamente escolhidos (eu discordo), aqui, é puro caos e despertam um ar de absurdo. 
- Anne bebe vinho sozinha, 
- chora na banheira 
- se joga de bruços na cama. 
Não que as pessoas em 1800 não fizessem essas coisas, mas é o jeito Bridget Jones que ela faz, como se ela estivesse representando suas emoções para o Instagram. Tudo o que está faltando são lenços amassados e Sleepless in Seattle tocando em uma TV ao fundo. 
Na tentativa de criar rapport tornando Anne moderna e relacionável, ela foi deixada delicada e irreverente. Seria uma boa Lydia Bennet ou Frederica Vernon, mas não Anne Elliot.
buzzfeed

Os diálogos anacrônicos são constrangedores e sarcásticos: 
- discutem “autocuidado”,
- dizem que “muitas vezes se diz que se você é um '5' em Londres, você é um '10' em Bath”,
- fala que tem um ex,
- faz 'um grande upgrade' na companhia para o jantar,
- Mary é 'empática'
É sempre decididamente sem graça e constrangedor. O desejo de modernizar e atualizar Jane Austen é fácil de entender, mas é tão equivocado.... 

DAKOTA JOHNSON
Parece ser unanimidade que o talento e a beleza dela é capaz de salvar tudo, até o aquecimento global, no entanto falhou nesse filme.
Reclamaram da franja, mas já estava em O&P 1995.
Falam do sotaque, mas é bonitinho.
Não há como negar que ela sorri demais para ser Anne, é bela demais para quem 'murchou sua beleza' e, para minha surpresa, fez o pecado de ler a carta para o expectador. Isso é considerado hediondo.
Eu entendi que ela lia para si própria, que eu estava na cabeça dela, mas, bem, toda Janeite é excessivamente mordaz nas críticas do que considera digno de Austen Nation.

NINGUÉM...

Nas minhas pesquisas, ninguém falou do coelho, presença que eu achei bizarra. Talvez porque já havia tanto para comentar, então o animalzinho feito fiel e domado como um labrador, passou desapercebido.

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Ninguém também comparou com as outras adaptações de Persuasão, será que seria covardia? 

Tivemos atores muito mais velhos que os personagens do cânon, muito mais bonitos, decididamente mais competentes, mas ninguém se ligou em comparar. Achei curioso.

RESUMINDO

O hate veio de

1. descaracterização do enredo que trata de arrependimento, amadurecimento e amor duradouro. Sabendo quando e em que estado de saúde Austen escreveu Persuasão, dá mesmo um dó de perder isso;

2. modernização desastrada e diálogos destemperados (apesar de alguns serem bem bons);

3. desrespeito com a inteligência do consumidor que nem sempre tem 12 anos e é viciado em A barraca do beijo.

Encerro com esse trecho da crítica da Cosmopolitan:

'Os livros não vão para a cama à noite sonhando em virar filmes quando crescerem. 

Eles já estão crescidos. Se você é uma Janeite purista e não consegue passar por cima de tudo isso, então não veja. Escolha outra adaptação  Releia o livro. '

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Concorda?

Me fala aqui nos comentários.


fontes: meus arquivos pessoais, study.com, schmoop, reddit, spark notes, post anteriores, wikipedia e artigos listados acima (todos em links clicáveis).


E também solta o verbo sobre o que achou desta maratona de Persuasão.

Aqui você acha minhas PESQUISAS SOBRE JANE AUSTEN , 

inclusive os outros posts de Persuasão

Ebook

Livro físico

Leia no original gratuitamente (domínio público, vários formatos)

Veja o filme de 1995

Veja o filme de 2007

Veja o filme de 2022

Leia a JUVENÍLIA para uma boa dose de Jane Austen raiz!