segunda-feira, 29 de agosto de 2016

I just called, to say, I'll always like Ted

Oh, my, Gene Wilder is gone...
The other day I talked about Robin Williams and to be honest, Gene was just as dear to me. 
My love affair with him started with Willy Wonka. Who wasn't in love with the chocolate factory? 


When my parents took me to a real chocolate factory here in Brasil, Garoto, I dreamt it'd at least as friendly. 
Maybe I could see the different areas or products? 
An occasional midgeon? 
No? 
Nothing?... 
*sad little me*


And then, there was Ted Pierce. 
*grin* 
Ted is so great!


Woman in red is one of my favorite movies of all times, it's all so funny... The lady who worked with him, his wife, the punk kid in love with her, the gay friend... Love it.

Can't say how many times I watched WiR, thousands. All the times I cracked.
RIP, Mr. Wilder.
And today I'll watch Ted again, one more time.



sexta-feira, 26 de agosto de 2016

O silêncio de Maria Antonia Marisguia

Se seu livro 'Preconceito, orgulho & CAFÉ' tem um silêncio muito pesado de Toni entre as páginas 187 e 192, peço que desculpe a gráfica e a editora.

Sendo assim...


14 Agosto

‘Cancelei uma viagem a Miami por isso, porque acho que não posso sair de perto de você quando está assim.’

Sentiu o peito arder. ‘Deveria ir.’

‘Quer que eu vá? Duas semanas fora?’

‘Não sou sua responsabilidade, você não é minha esposa, nem vai ser.’ Disse olhando diretamente nos olhos cor de mel, se sentindo um idiota por falar e por ter que repetir tal coisa. ‘Aqui não é sua casa.’

A cabeça girou momentaneamente e apertou os olhos com raiva, como sempre se enchendo de coragem quando era atacada, ameaçada. ‘Já sou. Já é.’ Ele sacudiu a cabeça e na intenção de sentar, se jogou no sofá em frente a ela. O braço imobilizado ainda o deixava com o equilíbrio prejudicado. ‘Você sempre fez questão que eu dormisse aqui, que trouxesse minhas roupas, me deu a chave e pediu uma reserva do meu carro. Se isso não é um tipo de casamento, não sei o que é. Eu nunca te escondi que quero isso, não pode negar.’

Sacudiu a cabeça. ‘E eu sempre disse que não quero me casar. Nunca.’

‘Está aborrecido.’ Prendeu os olhos nele que não resistiu à pressão e desviou primeiro. ‘Insistiu muito até me convencer a ficar aqui com você, Mau. Mesmo quando eu resisti, você me pediu, antes do assalto até. Pensei que-’

‘Não pense.’

Silêncio pesado.

‘Você me chamou aqui.’

‘Chamei, mas não te dei minha mão em casamento.’ Era uma batalha de egos fortes, de mentes confusas e apaixonadas que infelizmente não falavam a mesma língua. ‘Não quero casar com você.’ Disse cruelmente. ‘Nem com ninguém.’ Completou por covardia.

‘Nunca pensei que casaria com alguém estranho aos meus círculos de amizade, que não viesse de onde venho, mas você me conquistou aos poucos, venceu minhas barreiras. Se esforçou nisso.’ Disse sinceramente, seus olhos o implorando para alcançá-la. ‘Claro, haveria muito mais esforço, a epopeia de unir sua tia e irmã com minha mãe e irmãs, quando você fica contrariado é quase insuportável. Tudo acho que é contornável; como eu, você gosta disso que temos, fez força para construirmos isso, esse casamento informal. Tudo bem, até poderia abrir mão de oficializar a união por um tempo, se você quisesse. Mas sabe que eu não poderia ter uma união estável sem garantir a separação total de bens.’

‘Não temos um casamento. Isso- ’ Apontou dele para ela. ‘Não vai ser um casamento.’ Falou ofendido, magoado.

‘Está terminando comigo?’ Desafiou vendo que não havia mais o que ser dito, tudo estava claro. ‘De maneira tão grosseira?’ Encostou as duas mãos fechadas em punho na boca, cotovelos nos joelhos, olhos fixos nele.

Sempre foi suscetível ao poder dos olhos de mel e vê-los assim magoados, cheios de ressentimento e desespero – sabendo que era sua culpa e que era necessário esclarecer mais uma vez o que na cabeça dele era verdade inabalável – o quebrou, mas sob dura pena manteve-se firme. ‘Não foi grosseria me insultar dizendo que decidiu querer casar comigo apesar da minha inferioridade, da necessidade de se proteger caso eu quisesse roubar seus bens como o outro cara quase fez, que minha tia e irmã são mal-educadas?’

‘Acha que tenho que agradecer pelos comentários maldosos e intrometidos?’ Apertou os olhos. ‘Sua tia está criando sua irmã tão... Fora da realidade-’

Estava muito aborrecido, o estômago fraco e em jejum fez a cabeça rodar e se recostou no braço do sofá. ‘Ela não teve a vida fácil da sua mãe, sofreu muito. Abriu mão de tudo por minha irmã e por mim!’

‘E se ressente por isso. É maliciosa, rancorosa, está estragando sua irmã!’

‘Chega, Antonia!’

Ficou de pé indignada com a voz elevada para ela mais uma vez. ‘Tem razão. Chega.’ Fosse outra a situação, teria corrido para acudi-lo, beijar a testa, a boca, deitar com ele. Agora o olhava e via um homem preconceituoso e cabeça dura. Estar ali naquele apartamento lhe fez mal.

Irritado, aborrecido, magoado viu sua Lindona sair da sala e sumir no quarto, mas não ouviu barulho. Pensou em juntar as forças e a paciência, ir atrás dela, conversar abraçados na cama, esclarecer que a adorava, mas que não seria ele a dar-lhe um sobrenome e uma aliança. Não que ‘Noronha’ parecesse ser um sobrenome que ela achava digno de adicionar a Maria Antonia Marisguia Froes. Sentiu o sangue ferver, a mente conturbada achou novas ofensas no que ela havia dito com sinceridade, com o coração dolorido – ao menos isso era claro para ele. Era uma tola, uma garotinha mimada cismada com a ideia infantil de casamento.

Mas enquanto pensava sem chegar a nenhuma conclusão de como e quando levantar para falar com ela, Maria Antonia voltou para a sala, apoiou sua bolsa de viagem na mesa da sala para calçar os sapatos e vestir o casaqueto acinturado.

A cabeça rodava a ponto de grunhir e precisou sentar para recostar no sofá.

‘Deveria estar em Miami, atrasei negócios sérios por você. Fiz força para não me meter no seu trabalho, apesar de deixar você se intrometer no meu. Inacreditável como tive mais consideração por você do que por mim mesma.’

‘Seu pai não é Deus, ele não tem poder sobre a advocacia, muito menos sobre mim.’ Rugiu indignado. ‘Nunca tive um relacionamento importante o suficiente para influir no meu trabalho, você não seria a primeira.’

Balançou a cabeça. ‘A repetição é sempre mais eloquente, aprendi minha lição.’ Pegou o chaveiro preso na bolsa e tirou a chave dele, mostrou e colocou sobre a mesa. Sem mais uma palavra, pegou as bolsas e saiu.

Maurício pensou na dramaticidade feminina, em como sua Lindona era ainda mais bonita irada e só então se lembrou da jaguatirica. Fazia semanas que não a via, achava que ela estava se retraindo porque ele estava adoentado e isso fez uma nova onda de irritação o atacar. Levantou com calma e tomou o resto do café frio, passou pela cozinha e pegou o pão que ela tinha lhe preparado e a caminho da cama, por costume, desviou os olhos para o closet e banheiro. Parou e olhou com atenção, chegou perto para ver melhor. Vestidos, camisetas, jeans, perfumes, maquiagem, lingerie e as fotos que ele tinha admirado há pouco: tudo havia sumido.

14 a 18 Agosto

Saiu tremendo de raiva, de ódio.

“Que bostinha! Para que insistiu se não me queria?”

Dirigiu sem rumo, pegou a Lagoa-Barra que incrivelmente estava desobstruída e de repente estava em Grumari. Manhã fria, praia vazia, pensou em parar o carro, enxugar as lágrimas de raiva e escrever uma carta. Um e-mail longo. E mandar do telefone mesmo explicando tudo que ele tinha entendido de errado, o bosta. Mas se decidiu contra. Não tinha que se explicar, ele não merecia saber de nada. Não merecia nada mais dela. Tinha consciência de um defeito que possuía, talvez o mais proeminente em sua personalidade: a habilidade de cortar laços sem titubear quando uma pessoa provava não merecer sua boa opinião. Sua boa vontade uma vez perdida estava perdida para sempre.

Tinha um bom pinto, mas era um merda. Havia pintos bons em pencas e homens merda a cada esquina. Para sua surpresa, pegou-se rindo da imagem de uma penca de pintos bons, grandes, rijos, poderia dar essa ideia para aquela artista plástica que colocava pênis de madeira em tudo. Até poderia fazer uma encomenda.

Deu meia volta e dirigiu em direção à Zona Sul, no caminho parou no shopping de decoração para comprar uma penca de bananas de madeira que tinha visto na grande loja de móveis quando compraram a poltrona do quarto do gravatinha pingado de merda.

Tirou os sapatos no elevador e preparou a chave para entrar em casa o mais rápido possível. Já era meio da tarde do dia nublado, não bateu na porta do pai, não acendeu as luzes nem fez barulho para não chamar atenção de Don, mas foi ao abajur de pé caríssimo e pendurou o cacho de bananas nanicas, bem à vista. Assim, cada vez que acendesse o foco de luz veria a sombra de vários pintos bons e se lembraria de que existem vários à disposição. Achou um vinho, abriu, escolheu uma taça bonita de cristal e sentou no chão perto da janela vendo o Cristo.

Não chorou, não se permitiu. Terminar com o gravatinha pingado de merda não era nada se comparado com desfazer o noivado com Saulo um mês antes do casamento. Apartamento montado, festa pronta, já dormiam juntos na casa nova ensaiando a vidinha conjugal no apartamento da Vieira Souto. Ele era o homem certo para ela, aceitava ir a São Paulo provar um novo fornecedor de macarons quando já tinham escolhido os que serviriam no casamento; na verdade, ria dos seus devaneios casamenteiros, chorou quando ela terminou com ele. Pediu que ela não fizesse, que lhe desse uma chance de acertar as coisas nos negócios, disse que a amava.

Maurício nunca disse que a amava.

O gravatinha não era nada. Foi só um veículo onde ela mais uma vez depositou suas esperanças vazias de uma vidinha conjugal medíocre, suas frustrações emocionais, seus sonhos infantis de felizes para sempre. Tudo ilusório. Claramente forçou uma situação com um cara que não era dos seus círculos, que não se encaixava, era um cubo sendo enfiado em um tubo. O gravatinha não era nada. Foi só um delírio.

Tentou imaginar se o vô Marisguia aprovaria o gravatinha e achou várias razões para acreditar que não, a principal era a dor no seu peito. Enganou-se repetindo para si mesma que como Saulo era do seu nível, do Clube de Vela, da escola, dos amigos, ele é que era para ela; aquele é que foi um golpe duro, difícil de lidar. Ainda era.

Louca de dor, meio bêbada, triste, pegou o telefone sem pensar e ligou sem se importar que já era mais de meia noite. Escolheu o rosto dele tão bonito, tão viril e ligou. Uma mulher atendeu rindo e Antonia ficou muda. A garganta fechou, o coração ardeu e em seguida, os olhos vazaram.

“Me dá isso aqui!” Ouviu a voz alterada. “Princesa?” Saulo disse feliz que ela finalmente tinha ligado de volta, esperava ansiosamente por ela. “Princesa, fala comigo...”

Cortou a ligação, desligou o telefone e chorou muito. Quando secou o estoque de tristeza que certamente estaria cheio novamente pela manhã, lavou o rosto, tomou um remédio para a ressaca de uma garrafa inteira de vinho no estômago vazio e deitou. Incrivelmente dormiu um sono pesado, sonhos confusos, inquietos.

Por volta do meio dia, o pai preocupado usou sua chave como não fazia nunca e a viu na cama, recolheu a garrafa vazia, a roupa jogada no chão e saiu em silêncio para cruzar o corredor e tranquilizar a mãe.

Acordou, tomou um banho quente e demorado, comeu uma fruta e um iogurte, olhou em volta e vendo tudo vazio exceto pelas bananas que a convidaram a continuar fugindo, foi para Duc Mare, para os braços da lembrança afetuosa do avô.

Ficou de pijamas e meias de tricô daquelas que machucam os pés quando se anda vendo o rio correr ao longe. Até comeu bananas, mas não chorou mais. Considerou que deveria mesmo mudar de ares, talvez outra temporada fora do país cuidando das importações. Seria bom.

Quando voltou ao Rio depois do final de semana prolongado, decidiu ir para o escritório de São Paulo. Tinha amigos lá, não tinha namorados lá, faria novos conhecimentos lá. São Paulo era seguro.


Arrumou a vida e a mala e foi na mesma semana sem olhar para trás.


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Regency love fairy tale - part 10

After such an emotional chapter, let's have some... LOVE. In capitals, please. We deserve it!

Bring on the luv!



Love in acts

2nd act

ECLIPSE OF THE HEART

angst, rated M, short, P&P, Alternate Universe
Part 9


It rained the next day and Elizabeth couldn’t take her morning walk. At breakfast, when she commiserated her bad luck with her sister and the housekeeper, Darcy entered the room for a cup of tea.

‘Seat and have a proper meal, sir.’ She smiled at him.

‘I had two hours ago.’ He smiled back. ‘Bennett and I have taken a ride across the park.’

‘In the rain! Lizzy, Lesley will catch his death!’

‘Nonsense! Trifle rain is not enough to kill a man.’ Darcy mumbled bringing the cup to his lips.

Mrs. Reynolds, the old housekeeper chuckled. ‘He learned that, ma’am, when he was a lad. Because he always loved his horses and at Pemberley, rain often comes in thrice.’

He nodded sadly.

‘At least we can visit the mansions Lord Brakenbury pointed out, I’ll talk to Ben.’ Elizabeth mused. ‘Possibly antique rugs.’ She added for Jane.

‘I’d like to accompany you two.’ Jane’s eyes tinkled with the chance of snooping around titled gentry properties.

---

Predicting the weather as a sorceress, Mrs. Reynolds proved to be right for it rained on and off for the next two days, never clearing enough for a brisk walk, much less for an encounter near the creek.

Georgiana kept talking very little although she seemed to always be close to approach Elizabeth who felt her disquietude grow with each drop that felt from the sky. At one side, the sister seeming to lurk around her but never being able to speak her mind; at the other, the brother looking ever so handsome but unfortunately out of her reach.

Darcy noticed her impatience and loved it. For him, having a woman as fetching as her craving his company as he craved hers made his skin crawl. Soon, very soon he wouldn’t be able to concentrate on anything other than her figure, the sashay of her dress as she walked in front of him, the rising and falling of her cleavage as she breathed… He blinked and looked the other way.

‘…And so, the candle holders were massive, heavy horrendous things sporting one fat cherub grabbing the other who tried to escape the monstrosity with his little arm up waiting for a candle-’ Ben stood to mimic the pose he described, one knee bend looking towards to floor in agony while one hand pointed to the ceiling. ‘And the women fought for it like harpies over a dead hyena!’

Bingley guffawed, Georgiana giggled, Darcy chuckled amused at how the lad’s disposition brought him memories of his happy youth rested against the large chair his father used to occupy, and Jane held her middle laughing while Elizabeth shook her head from the other side of the library.

‘It wasn’t that ugly or the fight that vicious.’ She said not distracting her eyes from the spines of the books while searching what she wanted. ‘The pieces were heavy monstrosities but had great value, so the ladies of Bath confirmed.’

‘They were absolute indignities, ma- Lizzy!’

‘The winning bidder thought it not.’

Ben sneered pointing his thumb at her. ‘She was the one to find it lost in Clarence’s old great-aunt’s attic and convinced the woman to let us sell it. The lady was pretty pleased with the money we sent her.’

‘See? It was a gem!’

As Ben continued to tell his auction anecdotes, Darcy watched Elizabeth peruse the book shelves searching his own mind. Had he witnessed her son almost call her ‘mama’ before? He was a handsome lad, shorter than Darcy but lean and elegant like his mother, her eyes and good humor, and also so much from his sire. The man who had the gall to fool this lovely lady when she was a debutante… The man he considered trustworthy and honorable, his favorite cousin, but who parted without acknowledging an understanding with her father. Her smile brought him back, he answered with another smile seeing her satisfaction with a book she took from the shelf and walked to him.

‘Any of these?’ She asked handing him three small thin books of sermons.

He laughed, she sipped her forgotten tea with smiling eyes and the others noticed the communication. ‘I’m not sure anymore, perhaps I can try to find it if I can remember where it was usually kept.’

‘Oh, dear!’ Jane’s hand shot to her bosom. ‘If Lizzy is trying this hard to find a book, I’d better retire before she finds.’

Ben grimaced. ‘Me too.’

‘Why?’ Bingley asked twisting his head from his wife to his brother. ‘She always reads it aloud for us when she finds a book she likes. Remember the last one about China, with all the drawings and- Wait!’ He said as his wife stood.

‘Let’s go Charles.’

‘Miss Georgiana, I wouldn’t advise you to stay. Good night, ma’am.’ Ben walked towards Elizabeth, leaned in and kissed her cheek. ‘I bid you good night, Lizzy.’

‘Good night, Lesley. Maybe I can take the book to you later.’

Ben gritted his teeth looking nervously at Darcy.

‘I shall not call you ‘Lesley’, Bennett.’ Darcy said holding his laughter.

‘See?’ He balled his hands. ‘I begged you not to say it anymore.’

‘Oh, such a dear little babe Lesley was!...’ Jane hugged his arm. ‘He used to giggle when our sister sang  ‘Janey and Lizzy and Mary and Kitty and Lydy and Lesley’…’

‘Seriously, sister.’ He shook his arm free. ‘Good night, sir.’ He bowed stiffly at Darcy and left.

As they teased after Ben, Darcy stood to close the door. ‘No one will bother us here.’

‘Good.’ She smiled saucily. ‘Find me the books, sir. Both of them.’

He smiled back, took her hand to place a kiss on her palm and wrist and walked to the far end of the library. There, he made a show of searching the higher shelves for a moment until he turned and fingered the cushioned seat bellow the window.

‘I knew it would be low!’ She gasped. ‘You were but a little boy!’

He chuckled and handed her a worn-out book a little bigger than the ones she had selected. Her eyes twinkled with amusement and to appreciate it; he sat at a large sofa facing the big windows, tugged on her arm to bring her to his side. The book of sermons was a regular volume, old and weathered, smelled of dust and mold even but inside it hid a prohibited French book of anatomy.

As she perused the pictures spending little time reading the explanations, his lips found the back of her neck, her ear, the spot behind that caught fire whenever he was close. ‘You are warm here, my lady.’ He whispered giving her goosebumps.

His fingers traced her evening dress’ low neckline, the perfumed valley between her breasts and she sighed leaning her back against his chest. He groaned in her ear, buried his nose in her neck and undid the crimson delicate lace bow so his fingertips could caress a nipple from inside the undergarments exactly as she found the drawings of a naked woman.

‘Is this where you first learned?’ She whispered.

Reluctantly he moved his eyes from her nipple between his fingers to the book in her hands. ‘How can this drawing compare to you?’ He ran his nose from her shoulder to her ear. ‘You are exquisite, my lady.’ Her breathing was quickened for he held one nipple inside the neckline and the other from outside. ‘Please grant me access to you chambers, my lady.’

‘Can you enter without being seen, Fitzwilliam?’ She had spent countless years hiding secrets and now that she was offered a clean start, how could she jeopardize everything for lust again? As if for cruelty, the page she turned revealed a naked man.

‘There is a side passage from the morning parlor to the private drawing room you are using, my nymph.’ As he squeezed her breast, instinctively she squeezed her legs together and shut the book. ‘I can be there in twenty minutes.’

‘I’ll be waiting.’


The drawing room or the bedchamber? She paced from one to another, her night and dressing gowns swishing around her legs and she tried to decide.

The drawing room seemed more appropriate, they were not married. The bedchamber could be more comfortable for her to lay down and let him- well, wait for him to… do what he said he thought about and hoped she dreamt about.

There was no denial he was a handsome man. Tall and strong and brooding, dark hair and marvelous lips. His kisses were nothing like she remembered or was stolen over the years by a more brazen gentleman offering to court her. His were different, heartfelt, the intensity put her in turmoil; she believed the difference was his intentions behind the kiss – at least she wanted her naïve romantic imaginings not to be misguiding her judgment once again.

Distracted against the window between the drawing room and bedchamber, she yelped when his strong arms encircled her shoulders. ‘I apologize for being a few minutes late.’ She shook her head unable to speak when he hugged her from behind and glued his lips to her ear. ‘My valet was exceedingly careful today and I waited until he left. I could have sent him away, but I wanted to be careful.’

‘Thank you.’ She whispered.

‘I locked the door I came in, will lock the others to the corridor and servants’ quarters.’

‘I already did.’

‘My lady…’ He breathed trying to calm his breathing and taking care not to let her feel his arousal on her buttocks. ‘I was going crazy waiting for the moment you would allow me in here.’ He opened the sash and pushed her dressing gown from her shoulder until it fell on the floor.

Her eyes downcast, she soon saw the shadow of his pooling around his feet too. She turned to hug his neck and he quickly took half a step behind so only his torso met hers. ‘I’m afraid I have little to offer, sir-’

‘Fitzwilliam.’

‘Fitzwilliam. Your book is basically the best reference I have.’

He chuckled both happy and saddened. She was naïve and unpracticed in spite of having bred one child already; her body inside the nightgown put him in sweet agony, he craved to see all of it, all she had to offer but that wouldn’t happen that night, their first night. She needed patience to forget the traumatic experience, needed to be courted and treated like a genteel well-bred man could, like he would.

Taking her by surprise, he ducked and easily swept her up into his arms. ‘Finally.’ He grinned and without breaking the hot kiss she gave him, he deposited her in her bed. His big hand caressed her ankle to take off her slippers, first one then the other. ‘I managed to give you swans, but the slippers still haven’t arrived.’

‘Slippers?’

‘I ordered you new ones, because of the grass and punch from the masquerade.’

‘Oh, you didn’t have to, Fitzwilliam.’

He merely smiled because the light coming from the candles and the low fire keeping her bedchamber protected from the north wind played on her face and white nightgown making his mouth water with the small lumps her tiny nipples produced against the fabric. Slowly he climbed to lie beside her as she scooted further up until her head bumped against the headboard.

‘Oof!’ She complained and gasped a second later when his hand grabbed a breast over her nightgown. ‘Oh, pray, do you think we-’

‘All you have to do is tell me to stop.’ He offered half lying on top of her, his mouth on her neck doing wonders against her skin, licking and kissing and nibbling. So overwhelmed she didn’t notice him opening the buttons until his hand easily crawled inside and pushed the fabric aside so his mouth could capture a nipple. She arched her back and clamped her tights shut letting the bolt run through her, not sure if her body would let her tell him stop if she wanted.

Powerful sensations ran through her as she saw his big figure rise on his knees, felt his hands on her legs pushing the hem of her nightgown up, the heated air reached her skin and finally he rested one knee between her tights. His mouth never left her breast, sucking and kissing and pressing her nipple between his lips.

Only when his hand glided upward from her knee to inner thigh she raised on her hands behind her.

‘What?’ He asked feeling his heart stop in frustration. ‘What, my love?’ Words failed her when she noticed his organ tenting his nightgown, impressive in size even if covered, seemed hungry too for the drop it let out was caught by the fabric. He followed her gaze and ducked his head to capture her lips in his for a tender kiss. ‘I won’t hurt you.’ He promised in a whisper as his hand glided the rest of the way up until it reached the tuft of soft hair between her legs and only stopped when his fingers reached her womanhood.

He rested both knees between her outstretched legs, arranged pillows behind her back using only one hand as the other continued to caress her gingerly. His fingers outlined her folds mesmerizing his touch with the softness and delicateness, from her mound to where she rested over the mattress several times allowing her to get used to the caress. He could lower her nightgown to give her privacy, but he craved to see and fell her, as much as he could in their first night together.

‘Do you like it?’ He asked adding a nipple to his caresses, touching her over the nightgown as his fingertips carefully probed between her folds and groaned when he found her damp. ‘Does it please you?’

‘Does it please you?’

‘So very much, my love.’ He whispered and let go of her for a moment to lift his nightgown to his waist and rest fully over her. Very carefully, he let his fingertips open her delicate folds enough for the head of his member probe her entrance.

She had her eyes shut, lower lip between her teeth, mouth dry, all the different smells overwhelming her nostrils: expensive wax, roses, strawberries, soap perfumed linens, man, sex. When he pushed inside slowly, she gasped feeling everything so different from what she remembered, bigger, slower, private, intense.

Having had time to prepare for this night, even though he heard her surprised gasp, he didn’t stop and kept pushing in with care. Loving that woman so much, knowing she had not been touched for the last two decades and before, touched only once - even if she asked him, he wouldn’t be able to stop at that point. Impossibly snug, as if she was sucking him in, wet and warm, perfumed of rose water and woman and sex, he buried himself in her treasure to the brim. ‘My love...’ He breathed and her eyelids fluttered opened. He wanted to ask if she was well, brazenly if she liked that too, but her eyes glowed alive with the flickering candles on the tall dresser by the window. ‘You are free to explore.’ There was surprise in her fine eyes, he wanted lust. He wanted her to be addicted to this, to any bed he laid, to the moment he would visit her chamber; Darcy knew he would be and wanted her to reciprocate. ‘Explore everything.’ He took one of her dainty hands clawing the mattress and balancing on his other elbow, pressed her palm to his hip inside his nightgown. She sucked in her breath; he smiled and slowly moved her hand up his side until his nipple graced her palm. ‘Everything belongs to you.’ He breathed in her opened mouth, her tongue waiting for his and as he gave her the kiss she anticipated, he pressed her hand to claw his chest and started a slow pumping.

Her breathing quickened, her head spun, she shot the other hand to this neck inside his nightgown collar feeling his course beard against her fingertips and moaned like a cat desperate to escape. He leaned back amused by her sound, almost in trance from the sensation her delicate sex produced in him, and decided to be brazen, much more than he had planned. Putting his weigh on his knees, he raised enough to unglue their bodies and took off his nightgown. Her hand never left his chest, the other returned to his neck, he smiled.

His expression, boudoir satisfaction she thought, fueled her courage and when he took her hand and guided it over his body; she was ready to enjoy it. Strong chest from an accomplished horseman and fencer, ribs covered by strong skin, dark tangled hair descending from his stomach to his small belly of a man who ate what he liked when he liked. Her fingernails hid in his hair until they moved to hers, and it surprised her how her skin seemed different from his, soft while his was firm and to compare, her other hand moved from his neck to his ribs.

‘Fold your legs, my lady.’ He asked, and groaned in pleasure, his lips stretching in a smile when she did cradling him between them. She would have complied even if he had ordered because the sensation that took her over when he withdrew to his head rendered her breathless. He saw and felt her reaction and still smiling, guided her fingertips to her folds wet and warm and delicate and the most fetching tone of pink. She gasped, tried to jerk her hand but he held her by the wrist. ‘Explore everything.’

There was no defense when his eyes were that deep and a wicked desire burned low inside her, so when he moved her hand by her wrist, her fingers gained life. She touched herself feeling how he stretched her entrance, imagined it might cause her injury but it felt too positively marvelous to be bad in any way; moved from her warm meaty silk skin to his paper thin pulsing member and heard him gasp. She waited to see if he would take her hand away or tell her to stop, but he closed his eyes and let go of her wrist to let his arms fall on his sides. Understanding he gave her leave, she explored him from the base covered by coarse dark hair to the tip still inside her feeling powerful and brave to let her index fingertip surround his mushroom slightly inside her.

‘Pray, take off your nightgown.’ He whispered spooking her. She had been keeping her eyes on his chest, seeing how his skin rose on prickles when he had goosebumps from her exploration, so distracted she didn’t notice he had his eyes opened seeing what she was exploring.

As soon as she was naked, his mouth closed around a small nipple, the other was covered by his hand and he pushed fully inside. She yelped and then giggled and moaned melting under him when his lips rested behind her ear as he pumped.

She didn’t remember much from that afternoon with Colonel Fitzwilliam aside from what her remorse sieved: pain, sweat, fear of getting caught, his groan. Now, everything seemed new and delicious, intimate, private, accepted, invited, luxurious and lustful.

His weight over her, his grunt of pleasure, his lips moving from behind to her ear, the almost regrettable feeling of him leaving her immediately replaced by the pleasure of his return, the smell of his skin exhaling sex, his hand on her hips to her buttock to her knee to her inner thigh to her knee over the crook of his arm built up a fire pit scorching her delicate parts, taking over her stomach, her chest, her neck, behind her eyes that flew opened and burst out of her in a powerful meow she never believed herself capable of uttering.

He stopped very still, thighs trembling from the effort of waiting the absurd pleasure of one thousand infinitesimal ants prickling his member at the same time, delicate and scorching hot. He had had mistresses, countless, from the Ton even, who had had pleasure with him, liked his visits but never ever had he received an attack such as that. He waited; she didn’t even suck in air until her pleasure slowly ebbed away. Once she breathed again, he still on fire, clamped her mouth in his for as long as he needed to pump before tossing his head back and grunting very ungentlemanly like a wounded wolf and ended up falling over her.

Several moments of complete silence.

‘Pray, what was that?’ A whisper.

‘A wolf being bitten by an angry pussycat, I reckon.’ He panted.

She giggled. ‘Dear Lord. Is it supposed to be like this?’

‘If you don’t give me this every night, I shall be heartbroken.’ She widened her eyes. ‘It’ll be even better with time, my Lizzy.’

‘Not ‘my Lizzy’.’

He frowned leaning his head away from her neck. ‘You are mine. Forever.’

‘I want to be.’ She caressed his hair. ‘Lesley learned to correct his impetus of calling me ‘mama’ with ‘my Lizzy’.’

‘Ah.’ He blinked slowly. ‘My lady, my nymph, my love, my woman, my lust.’ She giggled but he was still serious and still inside her. ‘My wife.’ She bit her lip. ‘If you think I’ll let you refuse me again, you are mistaken.’

She shook her head. ‘Pray, won’t you leave?’

‘Will you?’

‘No...’

‘Me neither.’

She laughed, he chuckled kissing her neck.

---

Perhaps it was magic that operated Pemberley after all because the next morning there was  sun and when Darcy wandered inside the woods at their spot, he found her seated a few twists of the creek ahead with her feet in the water. Mesmerized, he once again repented from leaving her chambers well before the day dawned, still felt very sorry for abandoning such a handsome lady alone in her bed. Her cheeks were flushed, her body loved, her eyes hooded and lips stretched in a lazy catlike smile that could have convinced him to return to the sweet confinement of her legs. He did try but she sent him away afraid a maid might climb up to check the fireplace and as much as he wanted, there was little he could deny her – even if it was against him.

Slowly he opened his coat, rested his crop and gloves on the grass and seated behind her. She yelped surprised by two long legs straddling her from behind and giggled when he wrapped his arms around her shoulders. ‘You could kill me, sir!’

‘By kissing you senseless?’

‘Scaring me senseless!’ She leaned against his chest as if he were a cushioned chair. ‘Did you sleep well?’

‘No.’ He sighed deeply. ‘I’m afraid only in your arms I will be able to sleep well.’

She thought about sharing a bed with him, the big bed Georgiana showed her in the mistress bedchamber. Her parents always used separate chambers, never slept together. ‘Do the master chambers open to the mistress?’

‘There is a private seating room between the dressing chambers. I have been using it as a den for business I want to keep even from my secretary.’ He kissed her neck and her ear. ‘Don’t worry, I’ll only use the desk by the window, you can have the rest of the room.’

She twisted to look him in the eye. ‘That’s not what I meant.’

‘Whatever you meant, you can have the seating room to yourself, where you can rest as you are now, barefoot, smiling.’ With a lingering kiss on her cheek, he pushed her cape behind her shoulder to bare it for another kiss but stopped. ‘What is this here?’

She blushed. ‘All the care was of no use, my maid can well suspect what happened last night.’

‘Did I hurt you anywhere else?’ He closed his eyes when her delicate fingers touched his lips.

‘You didn’t hurt me.’ She shook her head. ‘You didn’t.’

He sighed touching the rosy bruise on her shoulder gingerly and inspected her neck, her other shoulder and opened the buttons from her morning dress’ décolletage, pulled the string from her shift glad for the cutout bust of her stays and arranged her over his shoulder to look closely. ‘Ah, my love…’ He sighed covering the purple bruise near her left breast’s aureole. ‘I shall be more careful in the future, I promise.’

‘Last night you asked me if your caresses pleased me…’ She looked at him and he nodded. ‘I was very pleased, and slept like an angel, woke up to the delicious memories of you in my bed… pray, would you return tonight?’

‘I almost didn’t leave it.’ He lowered his head to kiss her, she raised a hand to the nape of his neck and he closed his hand around her breast. ‘My wood nymph seducing me here, her feet in the water… I’m a defenseless fool.’

She smiled resting against his bent leg to face him fully, her garments opened and both her breasts exposed to him. ‘The seducteur is you, sir.’

He lowered his head more and kissed each nipple in turn and as she moaned sweetly, he sucked one before licking. ‘If I hadn’t promised to court you properly, I would make a little less effort to hold myself now.’ He caressed the wet nipple torturing her with delicate kneading and pulling. ‘The perfume of your secrets lingered on my fingers.’ He whispered in her ear, eyes on her dress bunched around her knees. How easy he could snake a hand inside her skirt and reach heaven. ‘Once you accept me, you’ll spend days naked.’

‘I shall enjoy that.’ She hid her hand inside his waistcoat to palm his chest. ‘When that happened before-’ She whispered and he stopped the nibbling on her ear and the torturing of her nipple to look at her. ‘It wasn’t like it was yesterday. I remember pain and insecurity but yesterday… tell me it will always be that way.’

He nodded. ‘You will be loved as you deserve, my lady.’ He kissed her lips lovingly. ‘Do you love me? Can you?’

She shook her head. ‘You overwhelm me, your kindness, your love, your care for me and Lesley.’ Her eyes searched his to read his emotions. ‘I am well in the way of loving you to madness.’ She sat up to attack his mouth, her tongue searching his with hunger and urgency, he hugged her waist and let her find what she needed in him, any reassurance she deemed necessary. Breathless, her chest moving quickly, her eyes on his lips she lowered her hand and touched his breeches; surprised, he sucked in air and held her wrist. ‘Allow me.’ She asked. ‘Open the flap.’

How could he deny her? But he had to, she needed care before she could be loved anywhere – that spot he was sure to love her many times through the years but then, at the beginning of their love, he wanted her to feel safe in a comfortable bed. Closing his eyes with force, he pressed her hand on his turgid member over his breeches and glued his lips to her ear. ‘Wait for me tonight. In your chambers I’ll belong completely to you.’



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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Orgulho e Preconceito - Jane Asuten parte 6 (final)

Orgulho e Preconceito
Jane Austen

parte 6 de 6
final

51

Afinal o dia do casamento chegou. Jane e Elizabeth ficaram mais comovidas do que a própria Lydia. A carruagem foi enviada ao encontro do casal, que era esperado à hora do jantar. Jane e Elizabeth viam com crescente apreensão se aproximar a hora da chegada. Jane especialmente, que atribuía a Lydia os sentimentos que sentiria se estivesse no seu lugar, se entristecia com a ideia do que a irmã iria sofrer.
 Chegaram. A família estava reunida na sala de almoço para recebê-los. Mrs. Bennet se desmanchou em sorrisos assim que a carruagem parou à porta; Mr. Bennet tinha um olhar grave e impenetrável, e suas filhas estavam alarmadas, ansiosas e inquietas.
 Ouviram a voz de Lydia no vestíbulo. A porta foi aberta com força e ela entrou correndo na sala. Sua mãe adiantou-se, abraçou-a, com grandes demonstrações de alegria. Sorrindo afetuosamente ela estendeu a mão para Wickham, desejando felicidade a ambos com uma alacridade que demonstrava bem que não duvidara nem um minuto da realização do seu desejo.
 Mr. Bennet os recebeu muito menos cordialmente. Seu rosto se tornou ainda mais grave e mal abriu a boca. A atitude despreocupada do jovem casal era realmente uma provocação. Elizabeth ficou irritada e mesmo Jane ficou consternada. Lydia continuava a mesma. Imprudente, indomável, louca, ruidosa, temerária. Cumprimentou cada uma das suas irmãs exigindo os seus parabéns, e depois que todos se sentaram começou a olhar em torno de si com curiosidade, notando as pequenas alterações que tinha havido na sala; depois observou com uma risada que há muito tempo ela não via aquele lugar. Wickham ficou mais perturbado do que ela. Mas as suas maneiras eram sempre agradáveis e se o seu caráter fosse perfeito e o casamento tivesse se realizado segundo as regras, seus sorrisos e suas palavras teriam conquistado toda a família. Elizabeth nunca o supusera capaz de um tal cinismo. Mas ela sentou-se, resolvendo consigo mesma que para o futuro nunca mais traçaria limites à imprudência de um homem sem escrúpulos. Ela corou e Jane também, mas os rostos que lhes causavam essa perturbação não se alteraram.
 A conversação era incessante. A noiva e a mãe competiam em exuberância. E Wickham, que estava sentado perto de Elizabeth, começou a perguntar pelos seus conhecidos nas redondezas, com uma tranquilidade bem-humorada, que ela sentiu jamais poder imitar nas suas respostas. Tanto Wickham como a esposa só pareciam ter apenas lembranças agradáveis na sua vida. Nenhum fato do passado era lembrado com amargura. Ela própria mencionava assuntos a que as suas irmãs por coisa alguma no mundo aludiriam.
 — Imagina, já faz três meses que eu fui embora — exclamou Lydia. — Não me parecem mais do que 15 dias. E no entanto, aconteceram tantas coisas... Quando fui embora, nem sequer imaginava que um dia voltaria casada! Mas pensei que seria engraçado se o fizesse...
 Mr. Bennet levantou os olhos. Jane ficou aflita e Elizabeth olhou significativamente para Lydia; esta, porém, continuou, como se nada tivesse visto:
 — Oh, mamãe, o pessoal daqui das redondezas sabe que eu me casei hoje? Tive receio de que eles não soubessem. No caminho encontramos William Goulding na sua charrete. E para que ficasse sabendo, abaixei a vidraça, tirei a minha luva e apoiei a mão no rebordo da janela para que ele visse a minha aliança. Depois, então, eu o cumprimentei e me desmanchei em sorrisos.
 Elizabeth achou que aquilo passava dos limites. Levantou-se, saiu, e só voltou quando os ouviu passar através do hall para ir à sala de jantar. Ao entrar, viu Lydia com sinais de ansiedade no rosto aproximar-se do lugar à direita da mãe, dizendo para a irmã mais velha:
 — Ah, Jane, eu fico agora no seu lugar, você fica mais para baixo, pois agora sou uma mulher casada…
 Não era crível que a solenidade do jantar desse a Lydia o constrangimento que até aquele instante não demonstrara. Ao contrário, o seu desembaraço e a sua alegria aumentaram. Estava louca de vontade de ver Mrs. Philips, os Lucas e todos os outros vizinhos, e ouvi-los chamá-la de Mrs. Wickham. Enquanto essas pessoas não apareciam, logo depois ela foi mostrar a aliança para Mrs. Hill e as duas criadas.
 — Bem, mamãe — disse ela, quando voltou para a sala —, que é que você acha do meu marido? Não é mesmo um homem encantador? Estou certa de que todas as minhas irmãs me invejam. Desejo só é que elas tenham metade da minha sorte. Precisam todas de ir a Brighton. Lá é que é bom lugar para se arranjar marido. Que pena, mamãe, não termos ido todas!
 — É verdade, se me tivessem escutado, teríamos ido. Mas minha querida Lydia, não gosto nada dessa ideia de você ir para tão longe. Será mesmo necessário?
 — Oh, sim, não vejo nenhum mal nisto. Tenho muita vontade de ir. A senhora, papai e minhas irmãs precisam ir nos visitar. Estaremos em Newcastle todo o inverno. E vai haver muitos bailes e eu arranjarei bons pares para todas as que forem.
 — Eu bem que gostaria de ir — disse Mrs. Bennet.
 — E depois, quando regressar, poderão deixar comigo uma ou duas das minhas irmãs. Garanto que arranjarei maridos para elas antes do fim do inverno.
 — Agradeço pela parte que me toca — disse Elizabeth. — Mas eu não aprecio muito a sua maneira de arranjar maridos.
 Os visitantes não poderiam demorar mais de dez dias. Mr. Wickham tinha sido nomeado antes de sair de Londres e haviam lhe concedido apenas 15 dias para se reunir ao seu regimento.
 A não ser Mrs. Bennet, ninguém mais lamentou que eles demorassem tão pouco. Mrs. Bennet aproveitou o tempo da melhor forma possível, fazendo visitas com sua filha e recebendo frequentemente. Essas reuniões foram agradáveis para todos. Escapar ao círculo da família era mais agradável para os que pensavam do que para aqueles que não o faziam. A afeição de Wickham por Lydia era exatamente como Elizabeth tinha esperado: inferior à que Lydia tinha por ele. Mesmo se não tivesse tido oportunidade de observá-los, chegaria à conclusão lógica de que a fuga tinha sido devido mais à paixão dela do que ao interesse dele. E se não fosse a certeza de que ele tinha fugido porque a sua situação no lugar era insuportável, Elizabeth se surpreenderia pelo fato de Wickham ter raptado a sua irmã, sem possuir uma paixão violenta. Sendo este o caso, ele não resistira à oportunidade de ter uma companheira para a sua viagem.
 Lydia gostava imensamente de Wickham. Ele continuava a ser o seu querido Wickham. Ninguém podia competir com ele no seu coração. Fazia as coisas, segundo ela, melhor do que todo o mundo. Certa manhã, pouco depois da sua chegada, estando sentada com as suas duas irmãs mais velhas, Lydia disse para Elizabeth:
 — Lizzy, creio que nunca lhe contei como foi o meu casamento. Você não estava presente quando descrevi tudo para mamãe e as outras. Não está curiosa por saber como tudo isto se passou?
 — Não, para falar a verdade — replicou Elizabeth —, penso que quanto menos se falar neste assunto, melhor.
 — Ora, você é tão esquisita! Mas vou contar como aconteceu tudo... Nós nos casamos na igreja de São Clemente, porque a residência de Wickham era naquela paróquia. Combinamos nos encontrar lá às onze horas. Meus tios e eu devíamos ir juntos. E os outros nos encontrariam na igreja. Bem, chegou segunda-feira de manhã, e eu estava numa aflição que você nem imagina! Tinha medo que acontecesse qualquer coisa e que a gente tivesse de adiar o casamento. Eu teria ficado desesperada! Enquanto me vestia, minha tia continuou falando todo o tempo, tal qual se estivesse fazendo um sermão. Mal entendi uma palavra, pois como você deve supor estava pensando no meu querido Wickham. Estava doida para saber se ele ia se casar com seu casaco azul. Bem, almoçamos às dez, como de costume. Pensei que o almoço nunca mais ia acabar. Entre parênteses, meu tio e minha tia foram horrivelmente severos comigo durante todo o tempo que estive lá. Imagina que não me deixaram botar os pés fora de casa nem uma só vez, durante os 15 dias que passei em casa deles. Nem uma festa, nem uma reunião, nada. Naturalmente Londres estava bastante deserta. Mas o Pequeno Teatro estava aberto. Bem, na hora em que a carruagem parou à porta, meu tio foi chamado a negócios por um sujeito horrível chamado Mr. Stone. E você sabe que, quando ele começa a falar de negócios, não acaba mais. Eu estava tão assustada que não sabia o que fazer, pois era meu tio quem me serviria de padrinho. E se a gente perdesse a hora, teria que deixar o casamento para o dia seguinte. Mas, felizmente, ele voltou dentro de dez minutos, e então saímos todos. Mas depois eu me lembrei que mesmo se ele fosse impedido de ir, o casamento poderia ter se realizado, porque Mr. Darcy o poderia ter substituído.
 — Mr. Darcy? — repetiu Elizabeth, com imenso espanto.
 — Sim, ele tinha ficado de vir com Wickham. Mas que é que eu estou dizendo! Eu me esqueci! Não devia ter dito nada! Prometi que não diria! Que é que Wickham vai dizer? Era segredo!
 — Se era segredo — disse Jane —, então não diga mais nada. Pode ficar certa de que não faremos outras indagações.
 — Decerto — disse Elizabeth, ardendo de curiosidade. — Nada perguntaremos a você.
 — Obrigada — disse Lydia —, pois se vocês perguntassem, eu certamente diria tudo. E depois Wickham ficaria muito zangado comigo.
 Para resistir àquele encorajamento, Elizabeth foi obrigada a fugir.
 Mas era impossível viver na ignorância daquele detalhe. Ou pelo menos era impossível não tentar se informar. Mr. Darcy assistira ao casamento da sua irmã. Não poderia haver no mundo cena mais capaz de atrair o seu interesse. As conjeturas mais loucas atravessaram o seu espírito, sem que nenhuma o satisfizesse. As explicações que mais lhe agradavam, justamente as que colocavam a conduta dele sob uma luz mais nobre, pareciam as menos prováveis. Ela não poderia suportar essa incerteza. E tomando uma folha de papel escreveu apressadamente uma curta missiva para a sua tia, pedindo-lhe a explicação do fato a que Lydia aludira, caso não fosse segredo.
A senhora bem pode compreender que estou curiosa para saber como uma pessoa que não tem relações com qualquer uma de nós e é comparativamente um estranho para a nossa família pudesse estar presente ao casamento. Peço que escreva imediatamente e me explique tudo, a não ser que haja motivos muito fortes para guardar o segredo que Lydia parece achar necessário. Neste caso, terei de me resignar à minha ignorância.
“Não, jamais me resignarei a isto”, disse Elizabeth para si mesma. Em seguida terminou a carta: “Minha querida tia, se a senhora não me disser isto por bem, serei obrigada a lançar mão de estratagemas para descobri-lo.”
 A delicadeza de Jane não lhe permitia que falasse em particular com Elizabeth sobre o que Lydia tinha dito. Aliás, isto era agradável para Elizabeth. Ela preferia não ter uma confidente até saber se a sua curiosidade seria satisfeita.

52

Elizabeth teve a satisfação de receber uma resposta da sua carta e verificou que não era possível obtê-la mais prontamente. Assim que a carta chegou, correu para o pequeno bosque e, sentando-se num banco, preparou-se para ler tranquilamente, sentindo-se feliz porque, pelo número de folhas, era fácil verificar que não continha uma simples negativa.
Gracechurch Street, 6 de setembro.
 Minha querida sobrinha: Acabo de receber a sua carta e devotarei toda esta manhã a lhe escrever a minha resposta, pois prevejo que em poucas linhas não poderei transmitir tudo o que tenho a dizer. Devo confessar que o seu interesse me surpreende. Não o esperava da sua parte. Não pense que eu esteja zangada, no entanto, pois o que desejo exprimir é que não esperava que estas informações lhe fossem necessárias. Se prefere não compreender o que digo, perdoe a minha impertinência. Seu tio ficou tão espantado como eu. E nada, a não ser que você seja uma parte interessada, o teria levado a agir da maneira que fez. Mas se você é realmente inocente e ignorante, preciso ser mais explícita. No mesmo dia em que cheguei aqui de Longbourn, seu tio recebeu uma visita inesperada. Mr. Darcy veio à nossa casa e ficou em conferência com ele durante várias horas. Quando cheguei, tudo isso já tinha acabado e portanto a minha curiosidade não foi tão intensamente despertada como a sua parece ter sido. Ele veio para dizer a seu tio que tinha descoberto o paradeiro de Mr. Wickham e da sua irmã e que já os tinha visto e conversado com ambos, com Wickham várias vezes e com Lydia apenas uma. Ao que parece, ele saiu do Derbyshire um dia depois da nossa partida. E veio a Londres resolvido a procurar os fugitivos. O motivo alegado era sua convicção de que fora por sua causa que o caráter de Wickham não tinha sido bem conhecido, de maneira que tornasse impossível que uma moça decente o amasse e confiasse nele. Generosamente atribuiu tudo isto ao seu orgulho mal-entendido, pois julgava estar acima da necessidade de expor aos outros os seus atos particulares. O seu caráter falava por si mesmo. Ele achava portanto que era o seu dever vir a público e tentar reparar o mal que julgava ter causado. Se tinha outro motivo, estou certa que não era um motivo inconfessado. Passara alguns dias em Londres antes de descobrir os fugitivos. Mas ele possui um elemento para dirigir a sua busca que nós não possuímos: e este era o outro motivo para justificar a sua vinda. Existe uma senhora, ao que parece uma certa Mrs. Younge, que foi durante algum tempo a governanta de Miss Darcy, tendo sido despedida por motivos que ele não nos contou. Depois disto ela alugou uma grande casa em Edward Street e aí abriu uma pensão. Mr. Darcy sabia que esta Mrs. Younge era intimamente ligada a Wickham. E se dirigiu a ela em busca de informações, assim que chegou em Londres. Mas, levou dois dias para obter dela o que desejava. Suponho que essa mulher não queria trair o segredo que lhe fora confiado sem receber um suborno, pois de fato ela conhecia o paradeiro do seu amigo. Wickham realmente a tinha procurado, logo depois de chegar a Londres, e se tivesse tido cômodos disponíveis, seria na sua casa que teria se instalado. Afinal o nosso bom amigo conseguiu obter o endereço desejado. Estavam na rua X. Mr. Darcy esteve com Wickham e posteriormente insistiu para ver Lydia. O seu primeiro objetivo para com ela, reconheceu ele, fora persuadi-la a abandonar a sua desonrosa situação atual e voltar para os seus amigos assim que consentissem em recebê-la, oferecendo o seu auxílio nesse sentido. Mas encontrou Lydia absolutamente resolvida a permanecer onde estava. Ela não queria saber dos amigos, não queria o seu auxílio e por coisa alguma deste mundo deixaria Wickham. Estava certa de que eles se casariam mais cedo ou mais tarde e que a data não tinha importância. Já que os seus sentimentos eram estes, pensou ele, restava apenas fazer com que se casassem o mais rapidamente possível. Logo na primeira conversação que teve com Wickham, ele compreendeu imediatamente que tal coisa nunca fora sua intenção. Aquele confessou que tinha deixado o regimento devido a algumas dívidas de honra muito urgentes. E não hesitava em atribuir unicamente à sua própria leviandade todas as más consequências da fuga de Lydia. Tinha também a intenção de resignar o seu posto imediatamente. E quanto à sua futura situação, não sabia absolutamente o que fazer. Ele precisava ir para algum lugar mas não sabia para onde. Sabia apenas que não tinha nenhum dinheiro para viver. Darcy perguntou por que ele não se tinha casado com Lydia imediatamente. Embora não constasse que Mr. Bennet fosse muito rico, ainda assim poderia fazer alguma coisa por ele e a sua situação melhoraria com o casamento. Mas em resposta a esta pergunta, Mr. Darcy descobriu que Wickham ainda alimentava esperanças de fazer a sua fortuna pelo casamento, nalgum outro país. Assim sendo, não seria prudente oferecer-lhe um auxílio imediato. Eles se encontraram várias vezes, pois havia muito que discutir. Wickham, naturalmente, queria mais do que poderia obter. Mas afinal, rendeu-se à evidência e tudo foi combinado entre eles. Mr. Darcy em seguida procurou o seu tio para lhe comunicar o que tinha feito. E ele esteve em Gracechurch Street na noite anterior à minha chegada. Mas não conseguiu encontrar Mr. Gardiner e descobriu então que seu pai ainda estava com ele, pois que somente sairia de Londres na manhã seguinte. Julgou então que era melhor entender-se com o seu tio do que com o seu pai. Resolveu, assim, adiar a entrevista que teria com Mr. Gardiner para depois da partida daquele. Ele não deixou o nome e até voltar no dia seguinte sabia-se apenas que um cavalheiro tinha procurado Mr. Gardiner a negócios. No sábado reapareceu. Seu pai tinha partido, seu tio estava em casa e, como eu disse antes, tiveram uma longa entrevista. Tornaram a se encontrar no domingo, e nesse dia eu o vi também. Só na segunda-feira ficou tudo combinado. E imediatamente um expresso foi despachado para Longbourn. Mas o nosso visitante se mostrou muito obstinado: creio, Lizzy, que afinal de contas a obstinação é o defeito real do seu caráter. Ele já foi acusado de muitas faltas, mas esta é a única verdadeira. Queria fazer tudo pessoalmente; embora eu esteja certa (e não falo nisto para receber agradecimentos e portanto não diga para ninguém) de que seu tio arranjaria tudo rapidamente. Discutiram juntos durante muito tempo. Mais do que as duas pessoas em questão mereciam. Mas, afinal, seu tio foi forçado a ceder. Em vez de ser útil realmente à sua sobrinha, teve de se contentar com a fama, coisa que não lhe agradou de maneira alguma. E eu creio que a sua carta de hoje de manhã lhe deu um grande prazer, porque exigia uma explicação que o despojaria das suas falsas plumagens, restituindo a glória a quem de direito. Mas, Lizzy, isto não deve passar de você e de Jane no máximo. Suponho que você deve saber muito bem o que foi feito para o jovem casal. As dívidas de Wickham, que sobem, creio eu, a muito mais de mil libras, precisam ser pagas. Outras mil são necessárias para o dote de Lydia. E a sua fiança ao posto que pretende tem de ser paga também. O motivo alegado para fazer tudo isto foi o que eu citei acima. Fora devido a ele, aos seus escrúpulos excessivos, que os outros se tinham enganado a respeito do caráter de Wickham. E daí a confiança que tinham depositado nele. Talvez haja uma certa verdade nisto, mas eu duvido que o seu silêncio ou o silêncio de qualquer outra pessoa possa ter sido a causa deste acontecimento. Mas apesar de todas essas belas palavras, minha querida Lizzy, você pode ficar inteiramente certa de que o seu tio nunca teria cedido se não tivesse julgado que Mr. Darcy tinha um outro interesse no assunto. Quando tudo isto ficou resolvido, ele voltou novamente para a companhia dos seus amigos que ainda estavam em Pemberley, mas ficou combinado que voltaria a Londres novamente, no dia do casamento, para dar a última demão aos negócios de dinheiro. Creio que agora já lhe contei tudo. É um relato que, segundo vejo pela sua carta, lhe dará uma grande surpresa. Espero pelo menos que não lhe causará nenhum descontentamento. Lydia ficou morando conosco e Wickham esteve constantemente lá em casa. Achei que ele era exatamente o mesmo rapaz que eu conheci no Hertfordshire. Mas eu não lhe contaria como me desagradou a conduta de Lydia, enquanto esteve conosco, se eu não tivesse percebido, pela carta de Jane que recebi na segunda-feira passada, que o seu procedimento em Longbourn foi exatamente equivalente. E portanto o que eu lhe confesso agora não pode lhe causar novo desgosto. Conversei com ela várias vezes da maneira mais séria, mostrando-lhe o mal que tinha feito e toda a infelicidade que causara à sua família. Se ela me ouviu foi por acaso. Estou certa de que não me prestou a menor atenção. Várias vezes fiquei muito irritada. Nestes momentos eu me lembrava das minhas queridas Elizabeth e Jane e por causa de vocês me armei da maior paciência possível. Mr. Darcy voltou pontualmente e, como Lydia já lhe contou, assistiu ao casamento. Jantou conosco no dia seguinte e tencionava partir na quarta ou na quinta-feira. Espero que não se zangará comigo, minha querida Lizzy, por eu me aproveitar desta oportunidade para lhe dizer uma coisa que antes nunca tinha ousado dizer: é que eu gosto muito dele. Seu procedimento para conosco foi sob todos os aspectos tão agradável como quando estivemos no Derbyshire. Sua maneira de ver as coisas, suas opiniões, tudo me agrada muito. Só lhe falta um pouco mais de vivacidade. E isto, se se casar acertadamente, a sua mulher lhe poderá ensinar. Achei-o muito astuto. Quase nunca mencionou o seu nome. Mas a astúcia parece que está em moda. Peço-lhe que me perdoe se fui muito ousada ou pelo menos não me castigue a ponto de me excluir de P. Nunca me sentirei inteiramente feliz enquanto não tiver percorrido todo o parque. Com um faéton baixo e uma boa parelha de pôneis, seria o ideal. Não posso escrever mais, as crianças já me esperam há meia hora. Sua tia muito afetuosa.
 M. Gardiner.
O conteúdo desta carta lançou o espírito de Elizabeth numa agitação em que era difícil determinar se o prazer ou a dor predominavam.
 As vagas suspeitas acerca do que Mr. Darcy poderia ter feito para auxiliar o casamento da sua irmã, suspeitas que tivera receios de encorajar, pois demonstravam uma grandeza de alma que dificilmente encontraria em alguém, suspeitas cuja confirmação ao mesmo tempo temia por causa da obrigação que acarretariam, se tinham convertido em realidade além das suas expectativas. Ele os seguira deliberadamente a Londres. Assumira todos os incômodos e mortificações inerentes a uma tal pesquisa. Tivera que suplicar a uma mulher que devia abominar e desprezar. Fora obrigado a se encontrar frequentemente, discutir, persuadir e finalmente subornar o homem que sempre mais desejaria evitar e cujo simples nome lhe era detestável. Tudo isso tinha feito por uma moça que ele não podia nem admirar nem estimar. Seu coração lhe dizia que fora unicamente por sua causa. Mas esta esperança era logo sufocada por outras reflexões e ela sentiu que não era vaidosa a ponto de julgar que Darcy tinha afeição por uma mulher que já o rejeitara, e que ele seria capaz de vencer um sentimento tão natural quanto a repugnância em se relacionar novamente com Wickham. Cunhado de Wickham! O orgulho mais elementar se revoltaria contra isto. Decerto ele já tinha feito muito. Elizabeth até se envergonhava de pensar em tudo o que lhe devia. Mas Darcy tinha apresentado um motivo para a sua interferência, um motivo que não exigia sutilezas de interpretação. Não era natural que ele sentisse que agira erradamente. Era generoso e tinha meios de exercer a sua generosidade. E embora não se considerasse como a causa principal dessa conduta, poderia talvez supor que um resto de afeição por ela tivesse contribuído para os seus esforços numa causa de que dependia diretamente a sua paz de espírito. Era doloroso, muito doloroso, saber que deviam uma tal obrigação a uma pessoa a quem nunca poderiam pagar. Eles deviam a reabilitação de Lydia, sua restituição ao seio da família exclusivamente a Mr. Darcy. Elizabeth se arrependeu amargamente de todos os desprazeres que lhe causara, de todas as palavras duras que lhe havia dirigido. Sentia-se humilhada consigo mesma mas estava orgulhosa dele. E isto porque numa causa de honra, movido pela compaixão, ele conseguira se dominar. E ao pensar na certeza que tanto ela como seu tio sentiam de que a afeição de Mr. Darcy por ela continuava a subsistir, sentia até um certo prazer, embora de mistura a mágoa.
 Elizabeth foi arrancada das suas reflexões pela aproximação de uma pessoa. Levantou-se, mas antes de fugir pelo outro caminho foi abordada por Wickham.
 — Acha que estou interrompendo o seu passeio solitário, minha cara irmã? — indagou ele, aproximando-se.
 — Sentiria multo se o fosse. Sempre fomos bons amigos. E agora mais do que nunca.
 — É verdade. Os outros não vêm passear?
 — Não sei. Mrs. Bennet e Lydia vão de carro a Meryton.
 — Então, minha cara irmã, soube pelos meus tios que você já esteve em Pemberley.
 Elizabeth respondeu afirmativamente.
 — Eu quase lhe invejo o prazer. No entanto acho que seria demasiado para mim. Sem o quê, iria até lá a caminho de Newcastle. Naturalmente esteve com a velha caseira... Pobre Mrs. Reynolds, ela gostava muito de mim! Mas suponho que ela não tenha falado em meu nome...
 — Falou sim.
 — E o que foi que disse?
 — Que tinha entrado no exército e parecia que não tinha dado boa coisa. Mas compreende, a uma tal distância as coisas chegam bem deformadas…
 — Certamente — replicou ele, mordendo os lábios.
 Elizabeth supôs que o silenciara, mas pouco depois ele disse:
 — Fiquei espantado de ver Darcy em Londres, da vez anterior. Eu o avistei várias vezes na rua. Que será que ele anda fazendo lá?
 — Talvez preparando o seu casamento com Miss de Bourgh — disse Elizabeth. — Ele deve ter um motivo muito especial para vir a Londres nesta época do ano.
 — Sem dúvida. Viu Mr. Darcy alguma vez quando esteve em Lambton? Se não me engano, os Gardiner disseram-me isto.
 — Sim, ele me apresentou à irmã.
 — E que achou dela?
 — Gostei imensamente.
 — É verdade, ouvi dizer que ela melhorou extraordinariamente nesses últimos dois anos. Da última vez que a vi não prometia muito. Espero que ela acabe bem.
 — Tenho certeza disto, pois já passou a idade mais perigosa.
 — Passaram pela aldeia de Kympton?
 — Não me lembro.
 — Falo nisto porque é a sede da reitoria que devia ter sido minha. Um lugar encantador. A casa é excelente. Teria sido extremamente conveniente para mim.
 — Você teria gostado de fazer sermões lá?
 — Muito. Eu teria considerado isto parte do meu dever e o esforço, afinal, não seria tão grande assim. A gente não deve se queixar. Teria sido um lugar esplêndido para mim. A tranquilidade daquela vida teria correspondido a todas as minhas ideias de felicidade. Mas não tinha que ser. Darcy lhe falou alguma coisa sobre o caso, enquanto esteve no Kent?
 — Ouvi de uma pessoa, que considero tão bem-informada quanto ele, que a reitoria lhe foi deixada apenas condicionalmente, ao arbítrio do atual proprietário.
 — Ah, sim? Realmente, existe alguma verdade nisto. Aliás, foi o que eu lhe disse desde o princípio, não se lembra?
 — Ouvi dizer também que numa certa época da sua vida, a necessidade de fazer sermões não lhe era tão agradável quanto atualmente. Ouvi dizer mesmo que tinha resolvido não se ordenar. E que neste sentido chegou a haver um acordo.
 — Ah, ouviu dizer isto? E não foi sem fundamento. Deve se lembrar do que eu lhe falei a este respeito, quando falamos pela primeira vez neste assunto.
 Estavam quase à porta da casa, pois Elizabeth tinha andado depressa para se ver livre dele.
 Não querendo mais provocá-lo, por causa da sua irmã, ela respondeu apenas com um sorriso cordial:
 — Vamos acabar com isto, Mr. Wickham, somos agora irmãos. Não devemos brigar por causa do passado. Para o futuro, espero que estejamos sempre de acordo.
 Elizabeth estendeu a mão e ele a beijou com galante cordialidade, embora não soubesse que expressão tomar ao entrar em casa.

53

Mr. Wickham ficou tão satisfeito com a conversação que nunca mais mencionou aquele assunto em presença de Elizabeth. Esta, por sua vez, ficou satisfeita de ter dito o suficiente para silenciá-lo.
 Breve chegou o dia da partida de Lydia. E Mrs. Bennet foi obrigada a se submeter à separação, que provavelmente duraria pelo menos um ano, pois Mr. Bennet se recusou terminantemente a aderir ao plano de irem todos a Newcastle.
 — Oh, minha querida Lydia — exclamou ela —, quando nos tornaremos a ver?
 — Não sei. Daqui a dois ou três anos talvez.
 — Não deixe de me escrever sempre, meu bem.
 — Escreverei sempre que puder. Mas a senhora deve saber que as mulheres casadas não têm muito tempo para escrever. Minhas irmãs podem, pois não têm nada que fazer.
 As despedidas de Mr. Wickham foram muito mais afetuosas do que as de sua mulher. Ele sorriu, fez pose, disse muitas coisas bonitas.
 — É um ótimo rapaz — disse Mr. Bennet assim que o viu fora de casa. — Distribui sorrisinhos, gatimonhas e faz a corte a todo mundo. Estou muito orgulhoso dele. Desafio o próprio Sir William Lucas a apresentar um genro melhor do que o meu.
 A perda da sua filha fez Mrs. Bennet ficar triste vários dias.
 — Muitas vezes penso — disse ela — que não há nada mais doloroso do que o fato de se separar dos amigos. A gente se sente tão abandonada...
 — A senhora deve compreender, mamãe, que isto é a consequência de casar uma filha — disse Elizabeth. — Deve ficar contente, já que as suas outras quatro filhas continuam solteiras.
 — Não é nada disto. Eu tenho de me separar de Lydia não porque ela esteja casada, mas porque o regimento do marido dela fica tão longe. Se estivesse mais próximo, não seria obrigada a partir tão cedo.
 Mas o desânimo em que este acontecimento precipitou Mrs. Bennet foi em breve atenuado por uma notícia que começou a circular. A caseira de Netherfield tinha recebido ordem de preparar a casa para a chegada do patrão que viria daí a um ou dois dias, e se demoraria lá várias semanas para caçar. Mrs. Bennet ficou muito agitada. Olhava para Jane, sorria e movia a cabeça de vez em quando. Fora Mrs. Philips quem trouxera a notícia.
 — Bem, bem, então Mr. Bingley está para chegar? Melhor. Não que eu faça muito caso disto, nós o conhecemos muito pouco, como sabe, e eu por mim não quero mais vê-lo. No entanto, acho que faz muito bem de vir para Netherfield. Quem sabe o que pode acontecer? Mas você bem sabe que há muito tempo resolvemos não falar mais nisto. Então é mesmo certa a chegada dele?
 — Pode contar com isto — replicou a outra. — Pois Mrs. Nichols esteve em Meryton ontem à noite. Eu a vi passando e saí de propósito para perguntar o que estava fazendo. E ela me disse que era verdade. Deve chegar na quinta-feira o mais tardar ou talvez mesmo na quarta. Ela estava a caminho do açougue, disse-me, justamente para encomendar carne para quarta-feira. E ela tem três casais de patos prontos para serem mortos.
 Jane, ao ouvir a notícia, não pôde deixar de empalidecer. Havia muitos meses que ela não mencionava o nome de Bingley a Elizabeth. Agora, estando as duas juntas, ela disse:
 — Reparei que você olhou hoje para mim, Lizzy, quando minha tia nos trouxe essa notícia. E eu sei que fiquei perturbada. Mas não creio que tenha sido por uma causa à toa. Só me senti assim porque vi que iam olhar para mim. Juro a você que essa notícia não me causa alegria nem sentimento algum. Só me alegro de uma coisa, é que ele não vem acompanhado; assim o veremos menos. Não que eu sinta medo de mim mesma, mas tenho horror às observações das outras pessoas.
 Elizabeth não sabia o que pensar. Se ela não o tivesse visto no Derbyshire, podia aceitar o motivo que alegavam para a sua vinda. Mas achava que Bingley ainda gostava de Jane. E hesitava diante de duas outras explicações, que achava muito mais prováveis: se ele vinha porque o seu amigo o permitira ou se ousara espontaneamente tomar esta resolução.
 Mas às vezes Elizabeth pensava: “não vejo porque este pobre rapaz não possa vir à casa que alugou e é dele sem despertar tamanha curiosidade. Não pensarei mais nele, vou abandoná-lo à sua sorte.”
 Apesar do que a sua irmã lhe tinha declarado, e acreditava que ela tivesse falado sinceramente, Elizabeth percebia facilmente que a perspectiva da chegada de Bingley a tinha afetado profundamente. Jane estava perturbada, agitada como poucas vezes a vira.
 O assunto, que fora discutido tão calorosamente pelos seus pais, há um ano aproximadamente, tornava agora a apresentar-se.
 — Mr. Bingley está para vir, meu caro — disse Mrs. Bennet. — Você, naturalmente, irá visitá-lo...
 — Não, não, você me forçou a visitá-lo no ano passado e disse que, se eu o fosse ver, ele se casaria com uma das minhas filhas. Mas isto deu em nada e não vou tornar a fazer papel de tolo.
 Sua mulher procurou convencê-lo de que isto era uma obrigação que incumbia a todos os cavalheiros que residiam na região.
 — É uma etiqueta que eu desprezo — disse Mr. Bennet. — Se ele deseja a nossa companhia, que a procure. Sabe onde nós moramos. Não vou perder o tempo correndo atrás dos meus vizinhos cada vez que eles vão embora e tornam a voltar.
 — Bem, tudo o que eu sei é que será uma abominável grosseria se você não for visitá-lo. No entanto, isto não impedirá que eu o convide a vir jantar conosco. Precisamos convidar Mrs. Long e os Goulding em breve. Contando conosco, seremos treze à mesa. E portanto haverá justamente um lugar para Mr. Bingley.
 Consolada com esta resolução, Mrs. Bennet se sentiu com maior força para suportar a falta de cortesia do seu marido, embora fosse muito mortificante saber que por causa disto todos os vizinhos poderiam ver Mr. Bingley antes dos Bennet. Poucos dias antes da sua chegada, Jane disse para a irmã:
 — Estou começando a preferir que ele não venha. Não que eu dê importância ao fato, sou capaz de vê-lo com perfeita indiferença. Mas não suporto ouvir falar constantemente nesse assunto. A intenção da minha mãe é boa. Porém ela não sabe, ninguém sabe quanto eu sofro com o que dizem. Vou dar graças a Deus quando Mr. Bingley for embora de novo.
 — Eu poderia dizer alguma coisa que consolasse você — replicou Elizabeth. — Mas nada tenho realmente a dizer. Você deve saber disto. E a satisfação usual de recomendar paciência aos sofredores lhe seria negada porque você já a tem de sobra.
 Mr. Bingley chegou. Mrs. Bennet, por intermédio dos criados, arranjou um meio de saber do fato o mais cedo possível, o que aumentava o período de ansiedade e agitação, prolongando a expectativa do jantar. Ela contou os dias que deviam decorrer antes do convite ser enviado, pois durante esse tempo não havia esperança de vê-lo. Mas de manhã, três dias depois da sua chegada no Hertfordshire, Mrs. Bennet, que estava à janela do seu quarto de vestir, viu Mr. Bingley entrar a cavalo pelo portão e se aproximar da casa.
 Contentíssima, ela chamou as filhas para participarem da sua alegria. Jane continuou sentada no seu lugar, resolutamente. Mas Elizabeth, para contentar a sua mãe, foi até a janela, olhou, e vendo que Mr. Darcy vinha em companhia de Bingley, voltou a sentar-se ao lado da sua irmã.
 — Vem outro cavalheiro com ele, mamãe — disse Kitty. — Quem será?
 — Deve ser um conhecido dele, meu bem, mas não sei quem é.
 — Ora, parece aquele homem que já esteve aqui com ele uma vez. Mr...., como é que ele se chama? Aquele homem alto, orgulhoso...
 — Quem, Mr. Darcy? E é mesmo... Bem, qualquer amigo de Mr. Bingley será sempre bem-recebido. Mas devo confessar que odeio aquele homem.
 Jane olhou para Elizabeth com surpresa e inquietação. Jane pouco sabia a respeito dos encontros que a sua irmã tivera com Mr. Darcy no Derbyshire. Supunha portanto que sua irmã se sentiria muito embaraçada ao vê-lo depois da carta explicativa que recebera da sua parte. As duas irmãs se sentiam bastante embaraçadas. Cada uma delas sentia pela outra e naturalmente por si própria. Mrs. Bennet continuou a falar sobre a antipatia que tinha por Mr. Darcy. E repetiu que estava disposta a tratá-lo amavelmente apenas porque era um amigo de Mr. Bingley. Mas as suas palavras não foram ouvidas por nenhuma das suas filhas. Elizabeth tinha motivos de inquietação de que a sua irmã não suspeitava, pois nunca tivera a coragem de mostrar a Jane a carta de Mrs. Gardiner nem de lhe revelar a mudança dos seus sentimentos para com Mr. Darcy. Para Jane ele continuava a ser o homem cujas propostas ela tinha recusado, e cujas qualidades ela subestimara. Mas para Elizabeth, que possuía outras informações, ele era a pessoa a quem toda a família devia o maior dos benefícios, e a quem ela própria votava uma afeição, se não tão terna quanto a que Jane dedicava a Bingley, pelo menos tão razoável e tão justa. A surpresa que a vinda dele a Netherfield e a sua visita a Longbourn, aonde vinha espontaneamente para vê-la, era quase tão forte quanto a que sentira ao perceber a transformação que se tinha operado nele no Derbyshire.
 As cores que tinham desaparecido do seu rosto tornaram a voltar com maior intensidade e um sorriso de prazer deu maior fulgor ao brilho dos seus olhos, durante alguns minutos; e disse a si mesma que provavelmente os sentimentos de Darcy continuavam inalterados. No entanto não queria se precipitar.
 “Vamos ver primeiro como ele me trata”, disse ela para si mesma. “Antes disso não convém ter esperanças.”
 Continuou atenta ao seu trabalho, procurando se acalmar, e sem ousar levantar os olhos, até que uma curiosidade ansiosa a levou a fitar o rosto da sua irmã, enquanto o criado se aproximava da porta. Jane parecia um pouco mais pálida do que de costume, porém mais calma do que Elizabeth esperava. Quando os cavalheiros entraram, ela enrubesceu ligeiramente. No entanto recebeu-os com tranquilidade e maneiras igualmente livres de qualquer sintoma de ressentimento, como de qualquer desejo exagerado de agradar.
 Sem ser descortês, Elizabeth falou o menos possível. E voltou ao seu trabalho com um afinco que poucas vezes lhe dedicava. Ela arriscara apenas um olhar para Darcy. A expressão dele era tão grave como de costume. Mais talvez do que no Hertfordshire e em Pemberley. Talvez ele não se sentisse tão à vontade na presença da sua mãe quanto na dos seus tios. Era uma história dolorosa, porém não de todo improvável.
 Bingley, também, ela só vira de relance. E naquele instante a sua expressão era ao mesmo tempo alegre e embaraçada. Mrs. Bennet o recebeu com uma tal cortesia, uma tão grande amabilidade, que as suas filhas se sentiram envergonhadas. Especialmente quando viram a fria polidez com que ela cumprimentou o seu amigo.
 Elizabeth, sobretudo, que sabia quanto a sua mãe devia a este último, cuja iniciativa salvara a sua filha favorita de uma irremediável desonra, sentiu-se ferida e aflita com aquela distinção tão mal-aplicada.
 Darcy, depois de perguntar por Mr. e Mrs. Gardiner, pergunta que Elizabeth não pôde responder sem um certo embaraço, quase mais nada falou. Ele não estava sentado perto de Elizabeth; talvez fosse este o motivo do seu silêncio. Porém no Derbyshire ele não procedera daquele modo. Lá, ele tinha palestrado com os amigos de Elizabeth, quando não podia fazer com ela própria. Agora decorriam vários minutos sem que se ouvisse o som da sua voz. E quando, às vezes, incapaz de resistir a um impulso de curiosidade, Elizabeth levantava os olhos e procurava o seu rosto, via que ele olhava tanto para Jane como para ela própria, e frequentemente olhava apenas para o chão. Aquela atitude exprimia evidentemente maior despreocupação, menos ansiedade de agradar do que da última vez que tinham estado juntos. Ela ficou desapontada e depois zangada consigo mesma por ter cedido àquele sentimento.
 “Podia eu esperar que fosse de outro modo?”, exclamou para si própria. “Mas se é assim, para que então ele veio?”
 Ela não se sentia disposta a conversar com ninguém, a não ser consigo mesma. Faltava-lhe quase completamente a coragem para falar com Mr. Darcy. Perguntou pela irmã dele. Foi o máximo que conseguiu de si mesma.
 — Faz muito tempo, Mr. Bingley, que o senhor foi embora — disse Mrs. Bennet.
 Ele concordou prontamente.
 — Eu tinha medo que o senhor não viesse mais — continuou ela. — Andaram dizendo que tencionava abandonar Netherfield completamente, por ocasião da festa de São Miguel. Espero que não seja verdade. Tem acontecido muitas coisas aqui nas imediações desde que o senhor partiu. Miss Lucas está casada e uma das minhas filhas também.
 “Acho que já deve ter ouvido falar nisto. Aliás o senhor deve ter lido nos jornais. Saiu no Times e no Courier. Não saiu como devia, mas enfim... Dizia apenas: ‘Casamentos: Jorge Wickham, Esquire, com Miss Lydia Bennet’, sem acrescentar nem uma sílaba a respeito do pai dela, do lugar onde vivia, nada. O contrato foi feito por meu irmão Gardiner e a notícia também foi dada por ele. Não sei como fez uma coisa tão sem graça assim. O senhor leu?”
 Bingley respondeu que tinha lido e lhe deu os parabéns. Elizabeth não ousou levantar os olhos. Não sabia portanto qual a expressão do rosto de Mr. Darcy.
 — É uma coisa muito agradável ter uma filha bem-casada — continuou Mrs. Bennet —, mas ao mesmo tempo, Mr. Bingley, é muito duro a gente se separar de uma filha. Eles foram para Newcastle. Um lugar situado muito para o norte, ao que parece. E eles têm que permanecer lá durante não sei quanto tempo. E lá que é a sede do regimento. O senhor deve ter ouvido dizer que ele saiu da milícia e entrou no exército regular. Graças a Deus ele tem alguns amigos, embora talvez não tantos quanto mereça.
 Elizabeth, que sabia que isto era dirigido a Mr. Darcy, sentiu uma tal vergonha e confusão que por pouco não se levantou e fugiu. Estas palavras, no entanto, conseguiram arrancá-la ao seu silêncio. E ela perguntou a Bingley se tencionava ficar algum tempo na região. Ele disse que ficaria algumas semanas.
 — Depois que tiver matado todos os seus pássaros, Mr. Bingley — continuou Mrs. Bennet —, venha caçar aqui, matar tantos quanto queira. Estou certa que Mr. Bennet se sentirá muito feliz com isto. E guardaremos todas as melhores caças para o senhor.
 Essas atenções desnecessárias e exageradas faziam crescer o mal-estar de Elizabeth. Se agora surgissem para Jane as mesmas possibilidades que no ano anterior, tudo se precipitaria para a mesma desastrosa confusão. Naquele instante ela sentiu que muitos anos de felicidade não poderiam compensar os momentos desagradáveis que ela e Jane estavam passando.
 “O maior desejo do meu coração”, disse ela a si mesma, “é nunca mais estar em companhia de nenhum desses dois, por mais agradáveis que sejam; nada pode compensar esta miséria. Que eu nunca mais os veja, nem a um nem a outro.” No entanto a miséria, que anos de felicidade não poderiam compensar, pouco depois se atenuou de maneira muito sensível. Elizabeth observou que a beleza da sua irmã tornava a inflamar rapidamente a admiração do seu antigo namorado. A princípio ele lhe falara pouco, mas cada minuto que passava parecia aumentar a admiração que lhe dedicava. Ele a achava tão bela quanto no ano passado, tão simples e natural, embora menos comunicativa. Jane se esforçava por não deixar perceber nenhuma diferença na sua atitude, e estava realmente convencida que conversara tão animadamente como sempre. Seus pensamentos a absorviam tanto que não reparava nos momentos em que ficava calada.
 Quando os cavalheiros se levantaram para partir, Mrs. Bennet se lembrou do convite que tencionava fazer, e eles ficaram comprometidos para jantar em Longbourn daí a poucos dias.
 — O senhor me deve uma visita, Mr. Bingley — acrescentou ela —, pois quando partiu para Londres no inverno passado prometeu que tomaria parte num jantar de família assim que regressasse. Como o senhor está vendo, eu não me esqueci. Eu lhe asseguro que fiquei muito desapontada porque o senhor não voltou como tinha prometido.
 Bingley pareceu um pouco embaraçado e falou vagamente que negócios urgentes o tinham impedido de vir e que sentia muito. Em seguida partiram.
 Mrs. Bennet estivera fortemente inclinada a convidar os dois para jantar naquele mesmo dia. No entanto, embora tivesse sempre uma mesa muito boa, julgou que um jantar de menos de dois serviços não seria digno de um homem no qual tinha tantas esperanças, nem suficiente para satisfazer o apetite e o orgulho do outro que possuía dez mil libras de renda por ano.

54

Assim que as visitas partiram, Elizabeth saiu para readquirir a sua tranquilidade. Ou, em outras palavras, para refletir sem interrupção nesses assuntos, que na realidade só a perturbariam ainda mais. A atitude de Mr. Darcy a surpreendia e penalizava.
 Para que teria ele vindo, perguntava a si mesma, se era para permanecer silencioso, grave e indiferente? Ela não encontrava uma resposta que a satisfizesse.
 Ele continuou a se mostrar amável para com os meus tios, quando esteve em Londres. Por que não o é para comigo? Se tem medo de mim, por que veio aqui? Se ele não gosta mais de mim, por que é que fica silencioso? Que homem misterioso! Não pensarei mais nele.
 Sua resolução foi cumprida involuntariamente por pouco tempo, devido à aproximação da sua irmã, que se juntara a ela com um ar alegre, que mostrava ter ficado muito mais satisfeita com a visita do que Elizabeth.
 — Agora que o primeiro encontro está passado — disse ela —, eu me sinto perfeitamente à vontade. Conheço as minhas forças e nunca mais me sentirei embaraçada quando ele vier. Estou contente que ele venha jantar aqui na terça-feira. Todos terão ocasião de ver que nos encontramos apenas como conhecidos comuns e indiferentes.
 — Oh, realmente muito indiferentes — disse Elizabeth, sorrindo. — Tome cuidado, Jane.
 — Minha querida Lizzy, você não há de pensar que eu seja tão fraca que esteja agora em perigo.
 — Acho que mais do que nunca você está em perigo de fazer com que ele se apaixone por você.
* * *
Não tornaram a ver Mr. Bingley e o seu amigo senão na terça-feira. E durante esse tempo Mrs. Bennet se entregara a todos os planos felizes que o bom humor e a polidez habitual de Bingley em meia hora de visita haviam reavivado.
 Na terça-feira reuniu-se um grupo numeroso em Longbourn. E as duas pessoas mais ansiosamente esperadas chegaram pontualmente. No momento de entrar na sala de jantar, Elizabeth observou Bingley avidamente, para ver se ele tomava lugar como antigamente, ao lado da sua irmã. Sua mãe, que era uma pessoa prudente e ocupada com as mesmas ideias, não o convidou para sentar-se ao seu lado. Ao entrar na sala ele pareceu hesitar. Mas por acaso Jane olhou em torno de si e, igualmente por acaso, sorriu. Foi suficiente para que ele se decidisse e fosse sentar ao lado dela.
 Elizabeth, triunfante, olhou para Mr. Darcy. Ele recebeu o fato com nobre indiferença e Elizabeth teria imaginado que Bingley tinha recebido afinal licença para ser feliz se não tivesse visto que este olhava, também, para Mr. Darcy com um ar entre sorridente e alarmado.
 Durante o jantar a atitude de Bingley para com a sua irmã persuadiu Elizabeth que a sua admiração por Jane, embora mais reservada, levaria o caso rapidamente a uma solução feliz, caso não houvesse interferências alheias. E embora não pudesse confiar no resultado de olhos fechados, no entanto aquilo lhe dava um grande prazer, despertando nela toda a animação que era possível sentir, pois não estava de humor muito alegre. Mr. Darcy estava sentado quase na outra extremidade da mesa. Estava ao lado da sua mãe. Ela sabia que essa situação daria muito pouco prazer a qualquer um dos dois. Com a distância a que se encontrava, não podia ouvir o que eles diziam, mas via que raramente falavam um com o outro e que o faziam cerimoniosa e friamente. A hostilidade de sua mãe lembrava dolorosamente a Elizabeth tudo o que deviam a Mr. Darcy. E às vezes ela sentia que teria feito qualquer sacrifício para poder lhe dizer que sua bondade não era nem ignorada nem desdenhada pela totalidade da família.
 Elizabeth tinha esperanças de que, à noite, eles tivessem oportunidade de ficar juntos. E que a visita toda não se passaria sem lhes dar ocasião de trocar palavras mais significativas do que as simples saudações de cortesia. Ansiosa e inquieta, o período que decorreu na sala, antes da entrada dos cavalheiros, foi aborrecido a um ponto que quase a tornou impolida. Ela concentrara todas as suas esperanças no momento em que eles entrassem na sala.
 “Se não se dirigir a mim”, pensou ela, “renunciarei a esse homem para sempre.”
 Os cavalheiros entraram. Por um momento Elizabeth pensou que as suas esperanças se iam realizar, mas infelizmente as senhoras se tinham reunido todas em volta da mesa, onde Jane estava fazendo chá e Elizabeth servindo café e não havia lugar ao seu lado nem para uma cadeira. E quando os cavalheiros se aproximaram, uma das moças acercou-se ainda mais dela e lhe disse ao ouvido:
 — Nós não queremos um homem aqui entre nós, não é?
 Darcy se tinha dirigido para o outro lado da sala. Elizabeth o acompanhou com os olhos, invejando todas as pessoas com quem ele falava. Serviu o café com impaciência e depois ficou irritada consigo mesma por ser tão idiota.
 Um homem que foi recusado uma vez! Como podia ter esperanças de que ele tornasse a se declarar? Existiria uma só pessoa do seu sexo que não se revoltasse contra uma tão grande fraqueza? Não existe nada tão incompatível com o sentimento dos homens.
 Elizabeth ficou mais animada, no entanto, quando ele veio pessoalmente trazer a sua xícara de café. E aproveitou a oportunidade para dizer:
 — A sua irmã está ainda em Pemberley?
 — Sim, ficará lá até o Natal.
 — E ela está sozinha? Todos os seus amigos já partiram?
 — Miss Annesley está com ela. Os outros foram para Scarborough para passar três semanas.
 Elizabeth não encontrou mais nada para dizer; mas se ele quisesse conversar, talvez fosse mais bem-sucedido. No entanto, ficou ao seu lado, em silêncio, durante alguns minutos. E afinal, quando as moças vieram sussurrar novamente ao ouvido de Elizabeth, ele tornou a se afastar.
 Quando o serviço de chá foi retirado e as mesas de jogo colocadas, todas as senhoras se levantaram. E Elizabeth teve outra vez esperança de vê-lo se aproximar. Todos os seus planos, porém, foram novamente destruídos; viu sua mãe se apoderar dele, para parceiro de whist. Todo o prazer estava agora acabado para ela. Seriam obrigados a passar a noite sentados em mesas diferentes e a única esperança que lhe restava era de que Darcy voltasse frequentemente os olhos na sua direção e jogasse portanto tão mal quanto ela.
 Mrs. Bennet tinha resolvido convidar os dois cavalheiros de Netherfield para cear, mas infelizmente a carruagem deles foi chamada antes de qualquer uma das outras. E ela não teve outra oportunidade de vê-los.
 — Então, meninas — disse Mrs. Bennet, assim que ficaram sós —, que é que vocês acharam da festa? Penso que tudo correu da melhor forma possível. O jantar estava excelente. O assado de cabrito estava realmente bom. Todos disseram que nunca viram uma perna tão gorda. A sopa estava incomparavelmente melhor do que a que serviram em casa dos Lucas na semana passada. E até Mr. Darcy reconheceu que as perdizes estavam notavelmente bem-feitas. E eu calculo que ele tenha dois cozinheiros franceses, pelo menos. Você, minha querida Jane, estava tão bonita como nunca vi. Mrs. Long foi da mesma opinião. E sabe o que ela disse também? “Ah, Mrs. Bennet, acho que afinal a veremos instalada em Netherfield.” Disse isto realmente. Acho Mrs. Long uma esplêndida criatura. E as sobrinhas dela são muito comportadas. E não são nada bonitas. Gosto delas imensamente.
 Mrs. Bennet, em suma, estava de excelente humor. O que observava, na atitude de Bingley para com Jane, fora suficiente para convencê-la de que ele estava mesmo conquistado. E quando Mrs. Bennet estava de bom humor, as suas esperanças matrimoniais eram tão ilimitadas, que no dia seguinte ficava desapontada de não ver o rapaz aparecer para fazer o pedido.
 — Foi um dia muito agradável — disse Jane para Elizabeth. — Os convidados foram bem-escolhidos e pareciam se dar todos admiravelmente. Espero que tornemos a nos reunir frequentemente.
 Elizabeth sorriu.
 — Lizzy, não faça isso. Você não deve suspeitar de mim. Isto me mortifica. Eu lhe asseguro que aprendi a gostar da conversa dele; trata-se de um rapaz agradável e sensato. Garanto a você que não tenho outras intenções. Vejo perfeitamente, pela maneira como ele me trata, que nunca desejou realmente a minha afeição. Só que é dotado de maneiras muito mais agradáveis, e de um desejo de agradar muito mais forte do que qualquer outro homem.
 — Você está sendo cruel — disse Elizabeth. — Você me provoca e depois não quer que eu sorria.
 — Como é difícil às vezes fazer com que os outros acreditem em nós!
 — E como é impossível às vezes, para os outros, acreditar!
 — Mas, então, por que é que você quer me persuadir que os meus sentimentos são mais complexos do que eu confessei?
 — Isto é uma pergunta a que eu não sei como responder. Todos gostamos de instruir os outros, embora só possamos transmitir o que não é digno de ser ensinado. Perdoe, se você insistir na sua indiferença, não me tome por confidente.

55

Poucos dias depois daquela visita, Mr. Bingley tornou a aparecer e desta vez veio sozinho. Seu amigo tinha partido naquela manhã para Londres, ficando de voltar, porém, daí a dez dias. Mr. Bingley se demorou mais de uma hora. Estava de excelente humor. Mrs. Bennet o convidou para jantar. Ele respondeu que sentia imensamente, declarando que estava comprometido.
 — Da próxima vez que vier — disse Mrs. Bennet —, espero que tenhamos mais sorte.
 Ele teria imenso prazer em vir em qualquer outra ocasião, etc. etc. E se Mrs. Bennet lhe desse permissão, viria muito breve.
 — Pode vir amanhã?
 — Sim.
 Ele não tinha compromisso para o dia seguinte. E o convite foi aceito com entusiasmo.
 Mr. Bingley veio — e tão pontualmente que as moças ainda não estavam vestidas quando chegou. Mrs. Bennet correu para o quarto das meninas, enrolada num robe de chambre, o cabelo ainda por fazer, e exclamou:
 — Jane, anda depressa! Corra lá para baixo! Ele chegou! Mr. Bingley chegou, chegou mesmo! Vá ligeiro, depressa! Sarah, venha ajudar Miss Bennet imediatamente a pôr o vestido. Deixe o cabelo de Miss Lizzy para depois.
 — Nós desceremos assim que pudermos — disse Jane. — Mas, entre nós, Kitty é mais ligeira do que todas. Já desceu há meia hora.
 — Oh, não se importe com Kitty, que tem ela a ver com isto? Vamos, vá ligeiro. Depressa! Onde está a sua écharpe?
 Mas depois que a sua mãe saiu, Jane se recusou a descer sem uma das suas irmãs.
 Durante a visita Mrs. Bennet mostrou a mesma ansiedade que de costume para deixar Mr. Bingley e Jane a sós. Depois do chá, Mr. Bennet se retirou para a biblioteca, como sempre o fazia. E Mary subiu para estudar piano. Dos cinco obstáculos dois estavam suprimidos. Mrs. Bennet ficou olhando e piscando para Kitty e para Elizabeth durante um espaço de tempo considerável, sem que nenhuma das duas se impressionasse com isto. Elizabeth fez que não via e Kitty disse inocentemente:
 — Que é, mamãe? Por que é que a senhora está piscando para mim? O que é que a senhora quer que eu faça?
 — Nada, meu bem, nada, eu não pisquei para você!
 Ela então continuou sentada durante mais cinco minutos. Mas, incapaz de perder uma ocasião tão preciosa, levantou-se e disse para Kitty:
 — Meu bem, quero falar com você!
 E levou-a para fora da sala. Jane imediatamente lançou um olhar para Elizabeth em que exprimia a contrariedade que aquela premeditação lhe causava e o seu desejo de que pelo menos sua irmã não se prestasse àquela comédia. Poucos minutos depois, Mrs. Bennet entreabriu a porta e chamou:
 — Lizzy, meu bem, eu quero falar com você.
 Elizabeth foi forçada a ir.
 — É melhor deixá-los a sós — disse Mrs. Bennet, assim que ela entrou no hall. — Kitty e eu vamos lá para cima a fim de conversarmos no meu quarto de vestir.
 Elizabeth resolveu não discutir com a sua mãe, porém permaneceu tranquilamente no hall e assim que sua mãe e Kitty tinham partido, voltou para a sala.
 Naquele dia os planos de Mrs. Bennet foram inúteis. Bingley se mostrou encantador como sempre, mas a sua atitude não foi a de um pretendente. Seu bom humor e a sua simplicidade o tornaram um companheiro dos mais agradáveis. E ele suportou as inoportunas cortesias com que o cumulava Mrs. Bennet, e ouviu todas as suas observações disparatadas com uma paciência e uma seriedade que encantaram a Jane.
 Ele ficou para cear sem que fosse preciso insistir. E antes de ir embora, graças à intervenção de Mrs. Bennet, ele assumiu o compromisso de vir na manhã seguinte para caçar com Mr. Bennet.
 Depois daquele dia Jane não falou mais na sua indiferença. Nem uma palavra foi trocada pelas irmãs acerca de Bingley. Mas Elizabeth foi para a cama contente com a certeza de que tudo chegaria breve a uma conclusão feliz, a não ser que Mr. Darcy voltasse tão breve quanto havia prometido. No entanto, ela estava até certo ponto persuadida de que tudo isto acontecia com a aquiescência dele.
 No dia seguinte Bingley chegou pontualmente. Mr. Bennet e ele passaram a manhã juntos, conforme tinham combinado. Mr. Bennet encontrou no outro um companheiro muito mais agradável do que esperava; não havia em Bingley nenhuma pretensão que o tornasse ridículo nem nenhuma insensatez que fizesse Mr. Bennet se refugiar irritadamente no silêncio. Naquele dia ele estava mais comunicativo e menos excêntrico do que nunca. Bingley, naturalmente, voltou com ele para jantar, e à noite Mrs. Bennet lançou mão de todos os seus recursos para deixá-lo a sós com a sua filha. Elizabeth, que tinha uma carta para escrever, se retirou para a sala de almoço pouco depois do chá. Pois já que os outros iam jogar cartas, a sua presença não seria necessária para contrabalançar os planos da sua mãe.
 Mas ao voltar para a sala, depois de acabar a carta, viu com infinita surpresa que havia vários motivos para temer que sua mãe tivesse sido mais engenhosa do que ela. Ao abrir a porta, viu que sua irmã e Bingley estavam juntos, ao pé da lareira, como se conversassem sobre um assunto de extrema gravidade. E se este fato não bastasse para despertar suspeitas, a expressão de ambos, ao se virarem rapidamente e se afastarem, teria revelado tudo. A situação deles era bastante embaraçosa. Mas a sua própria, pensou Elizabeth, era pior ainda. Ninguém disse uma só palavra. E Elizabeth estava a ponto de se retirar novamente, quando Bingley, que imitando o exemplo de Jane se tinha sentado, de súbito se levantou novamente, e sussurrando algumas palavras para Jane, saiu apressadamente da sala.
 Jane não teria reserva para com a sua irmã. O assunto da confidência era agradável demais para que Jane se mostrasse reservada. E, abraçando a sua irmã, imediatamente confessou com a mais viva emoção que ela era a criatura mais feliz do mundo.
 — É demasiado para mim — acrescentou ela. — Eu não o mereço. Por que é que todos não estão felizes como eu?
 Elizabeth deu os parabéns com uma sinceridade, um calor, um entusiasmo que as palavras não poderiam exprimir. Cada uma das suas palavras era uma nova fonte de felicidade para Jane. Porém, esta não poderia se demorar mais junto da sua irmã, nem tinha tempo para lhe dizer metade do que ainda lhe restava para contar.
 — Preciso imediatamente ir ver mamãe — exclamou ela. — Não quero deixá-la por mais tempo em suspense; sua solicitude por mim é tão carinhosa! Nem quero que ela saiba de tudo senão por meu intermédio. Ele já foi falar com papai. Oh, Lizzy, que prazer vai dar a toda a família o que eu tenho para dizer! Como poderei suportar tamanha felicidade?
 Jane correu então para junto da sua mãe, que tinha interrompido o jogo de cartas propositadamente, e estava no alto da escada com Kitty.
 Elizabeth, que tinha ficado sozinha, sorriu da rapidez e da facilidade com que se tinha resolvido um caso que lhes causara ansiedade e incerteza durante tantos meses.
 — E este — disse ela para si mesma — é o fim de todos os cuidados e precauções do seu amigo, das mentiras e ardis da sua irmã, o fim mais feliz, mais justo e mais razoável!
 Poucos minutos depois, Bingley, cuja conferência com Mr. Bennet fora curta e decisiva, veio se reunir a Elizabeth.
 — Onde está Jane? — disse ele, ao abrir a porta.
 — Lá em cima com minha mãe. Ela descerá já.
 Bingley então fechou a porta e, aproximando-se, reclamou os seus parabéns e a sua afeição de irmã. Elizabeth, sincera e cordialmente, exprimiu a sua alegria. Eles se apertaram a mão com grande cordialidade. Em seguida, até a sua irmã voltar, ela teve que ouvir tudo o que ele dizia sobre a sua própria felicidade e sobre as perfeições de Jane.
 E apesar de serem, aquelas, expressões de namorados, Elizabeth acreditava realmente no bem-fundado de suas esperanças, porque elas tinham como base a excelente compreensão, o gênio esplêndido de Jane e uma semelhança geral de sentimentos e gostos.
 Aquela foi uma noite de grande alegria para todos. A felicidade de Jane dava ao seu rosto um brilho e uma doçura que o tornava mais belo do que nunca. Kitty dava risinhos e sorria, com a esperança de que a sua vez chegaria breve. Mrs. Bennet não encontrava termos bastante calorosos para exprimir o seu consentimento e a sua aprovação. E falou só nisto, durante meia hora. E quando Mr. Bennet apareceu, à hora da ceia, sua voz e suas maneiras mostravam claramente o contentamento que o possuía.
 Nem uma só vez, no entanto, ele aludiu ao fato enquanto o visitante estava presente. Mas assim que ele partiu, Mr. Bennet se virou para a sua filha e disse:
 — Jane, eu lhe dou os meus parabéns. Você será muito feliz.
 Jane se aproximou dele imediatamente, beijou-o e agradeceu a sua bondade.
 — Você é uma boa menina — respondeu ele. — E tenho prazer em vê-la bem-casada. Não tenho a menor dúvida de que vocês se darão muito bem. Seus gênios são bastante semelhantes. Ambos são tão tolerantes que nunca tomarão resoluções definitivas. Tão fáceis de levar, que todos os criados os enganarão. E tão generosos que sempre hão de gastar mais do que têm.
 — Espero que não. Imprudência ou imprevidência em matéria de dinheiro seriam imperdoáveis da minha parte.
 — Gastar mais do que têm! Meu caro Mr. Bennet! — exclamou a sua mulher. — Que é que você está dizendo? Ora, ele tem quatro ou cinco mil libras por ano e provavelmente ainda mais...
 Em seguida, virando-se para a sua filha:
 — Oh, minha querida Jane! Estou tão feliz! Estou certa de que não dormirei nem um só instante esta noite! Eu sabia que tudo ia acabar assim, eu sempre disse que isto se realizaria finalmente! Tinha certeza de que a sua beleza acabaria triunfante! Eu me lembro que quando ele chegou aqui no Hertfordshire, no ano passado, logo vi que era provável que vocês se dessem bem. Ele é o mais belo rapaz que jamais vi.
 Wickham, Lydia, tudo o mais estava esquecido. Jane era, sem competição, a sua filha favorita. Naquele instante ela não pensava em nenhuma outra. Suas irmãs mais moças começaram logo a imaginar os proveitos e os prazeres que retirariam do casamento da sua irmã.
 Mary pediu para usar a biblioteca de Netherfield e Kitty insistiu muito para que Jane desse alguns bailes lá durante o inverno.
 De então em diante, naturalmente Bingley veio todos os dias a Longbourn. E muitas vezes chegava antes da primeira refeição e ficava até depois do jantar, a não ser quando algum cruel vizinho lhe tinha enviado um convite para jantar, convite este a que ele não se podia furtar.
 Elizabeth dispunha agora de muito pouco tempo para conversar com a sua irmã, pois enquanto Bingley estava presente Jane não podia dar atenção a mais ninguém. No entanto Elizabeth verificou que era de utilidade considerável para ambos, durante aquelas separações que necessariamente ocorriam às vezes. Na ausência de Jane ele sempre se aproximava de Elizabeth para conversar. E depois que Bingley tinha partido, Jane procurava idêntico alívio na conversa com sua irmã.
 — Ele me deu um grande prazer — disse Jane, certa noite. — Ele me disse que ignorava totalmente que eu estivesse em Londres na primavera passada. Eu não acreditava que isto fosse possível.
 — Eu já suspeitava disso — replicou Elizabeth. — Mas como é que ele explicou o fato?
 — Deve ter sido coisa feita pelas suas irmãs. Decerto não viam com bons olhos as suas relações comigo, coisa aliás que eu acho muito natural, pois ele poderia ter feito uma escolha muito mais vantajosa sob todos os pontos de vista. Mas quando virem que o irmão é feliz comigo, espero que se resignarão e voltaremos a ficar de bem novamente, embora nunca mais possamos ter a mesma intimidade de antes.
 — Essas são as palavras mais severas que jamais ouvi você dizer — exclamou Elizabeth. — Ainda bem, eu ficaria realmente penalizada se a visse tornar a ser enganada pela falsa amizade de Miss Bingley.
 — Imagina, Lizzy, quando ele foi para Londres em novembro já gostava de mim. E só não voltou porque o convenceram de que eu lhe era totalmente indiferente.
 — Ele cometeu um pequeno engano, decerto. Isto mostra pelo menos que é modesto.
 Isto conduziu Jane naturalmente a fazer um panegírico da discrição de Bingley e do pouco valor que ele atribuía às suas boas qualidades.
 Elizabeth ficou satisfeita por descobrir que ele não tinha revelado a interferência do seu amigo, pois embora Jane tivesse o coração mais generoso do mundo, ela sabia que aquilo dificilmente seria perdoável.
 — Sou decerto a criatura mais feliz que jamais existiu — exclamou Jane. — Oh, Lizzy, por que é que fui eu a escolhida na minha família para receber tão grande graça? Se ao menos eu pudesse vê-la tão feliz quanto eu... Se existisse outro homem igual àquele para você!
 — Mesmo se você me desse quarenta homens iguais para escolher, eu nunca seria tão feliz quanto você! Seria preciso que eu possuísse o seu gênio e a sua bondade. Não, não, deixe-me entregue ao meu próprio destino; talvez, se tiver muita sorte, eu encontre um dia um outro Mr. Collins.
 A nova situação na família de Longbourn não podia permanecer muito tempo em segredo. Mrs. Bennet sussurrou a novidade ao ouvido de Mrs. Philips e esta, embora sem nenhuma autorização, fez outro tanto para todos os vizinhos de Meryton.
 Todos declararam que os Bennet eram a família mais afortunada do mundo, embora poucas semanas antes, quando Lydia tinha fugido, fossem considerados como pessoas marcadas pelo infortúnio.

56

Certa manhã, uma semana depois do noivado de Jane, Mr. Bingley e o resto da família estavam sentados na sala de jantar, quando a sua atenção foi despertada de súbito pelo ruído de um carruagem. E chegando à janela, viram que era um coche puxado por quatro cavalos que se aproximava da casa. Era demasiado cedo para uma visita e além disso aquela equipagem não era de nenhum dos vizinhos. A carruagem era puxada por cavalos de posta; tanto a carruagem como a libré do criado que a precedia lhes eram desconhecidas. Como fosse certo no entanto que alguém estava chegando, Bingley propôs a Miss Bennet, imediatamente, que evitassem o intruso e fossem dar uma volta pelo bosque.
 Eles saíram e as pessoas restantes continuaram a fazer as suas conjeturas, até que a porta se abriu e a visita entrou. Era Lady Catherine de Bourgh.
 Todos estavam naturalmente preparados para uma surpresa. Mas o espanto foi muito maior do que esperavam. E o de Elizabeth foi ainda maior do que o de Mrs. Bennet e o de Kitty, embora Lady Catherine lhes fosse completamente desconhecida.
 Ela entrou na sala com um ar ainda menos gracioso do que de costume. Limitou-se a responder à saudação de Elizabeth com uma ligeira inclinação da cabeça e sentou-se sem dizer uma palavra. Elizabeth mencionara o nome da visitante à sua mãe, embora Lady Catherine não tivesse solicitado uma apresentação.
 Mrs. Bennet ficou espantadíssima e ao mesmo tempo envaidecida por receber uma visita tão importante, e acolheu-a com a maior polidez. Depois de permanecerem sentadas durante algum tempo em silêncio, Lady Catherine disse, muito secamente, para Elizabeth:
 — Espero que esteja passando bem, Miss Bennet. Suponho que aquela senhora seja sua mãe.
 Elizabeth replicou de maneira concisa pela afirmativa.
 — E aquela deve ser uma das suas irmãs.
 — Sim, minha senhora — disse Mrs. Bennet, deliciada de poder falar com Lady Catherine em pessoa. — É a minha penúltima filha. A mais moça se casou ultimamente. E a mais velha está passeando aí pelo parque com um rapaz que em breve se tornará membro da família.
 — A senhora tem um parque muito pequeno aqui — disse Lady Catherine, depois de um curto silêncio.
 — Não é nada em comparação com Rosings, mas é muito maior do que o de Sir William Lucas.
 — Esta sala deve ser muito inconveniente de tarde, no verão. As janelas dão todas para o oeste.
 Mrs. Bennet acrescentou que nunca ficava ali depois do jantar, e em seguida disse:
 — Vossa Senhoria me permite a liberdade de perguntar se deixou Mr. e Mrs. Collins bem?
 — Sim, muito bem. Estive com eles a noite atrasada.
 Naquele momento Elizabeth supôs que Lady Catherine ia tirar da bolsa uma carta de Charlotte, pois tal lhe parecia o motivo mais provável da sua visita. No entanto a carta não apareceu e Elizabeth ficou ainda mais intrigada.
 Mrs. Bennet, com grande amabilidade, perguntou se Lady Catherine desejava tomar alguma coisa. Mas Lady Catherine, com grande resolução e pouca polidez, recusou. Em seguida, levantando-se, disse para Elizabeth:
 — Miss Bennet, parece que há um pequeno bosque bastante agradável atrás da sua casa. Eu gostaria de dar uma volta por lá, se quiser me conceder o favor da sua companhia.
 — Vá, meu bem — exclamou Mrs. Bennet. — E mostre a Lady Catherine os vários caminhos. Acho que ela gostará de ver o caramanchão.
 Elizabeth obedeceu e foi correndo para o seu quarto buscar a sombrinha, e em seguida acompanhou a ilustre visitante. Ao atravessarem o hall, Lady Catherine abriu as portas que davam para a sala de jantar e para a sala de estar. Achou que eram salas bastante agradáveis e em seguida continuou o seu caminho.
 A carruagem permanecia parada à porta e Elizabeth viu que a dama de companhia estava lá dentro. Caminharam em silêncio pela ala ensaibrada até o bosque. Elizabeth estava resolvida a não fazer nenhum esforço para entrar em conversação com uma mulher que naquele momento ainda se mostrava mais insolente e desagradável do que de costume.
 “Não sei como achei jamais que ela se parecesse com seu sobrinho”, disse Elizabeth para si mesma, depois de olhar para o rosto de Lady Catherine. Logo que entraram no bosque, Lady Catherine começou a falar da seguinte maneira:
 — Sei que compreende, Miss Bennet, a razão da minha viagem até aqui. Seu coração, sua consciência, devem lhe revelar por que foi que eu vim!
 Elizabeth olhou para ela com sincero espanto.
 — Realmente, está enganada, minha senhora. Não consigo absolutamente adivinhar o motivo da sua presença aqui.
 — Miss Bennet — replicou Lady Catherine num tom irritado —, deve compreender que eu não sou de brincadeiras. Se preferir ser pouco sincera, fique certa de que eu não farei o mesmo. Meu caráter é célebre pela sua sinceridade e franqueza. E num assunto de tamanha importância, como o presente, eu não me mostrarei diferente do que sou. Uma notícia da natureza mais alarmante chegou aos meus ouvidos, há dois dias. Disseram-me não somente que a sua irmã estava às vésperas de realizar um casamento dos mais vantajosos, mas também que a senhora, Miss Elizabeth, estaria provavelmente muito em breve unida ao meu sobrinho, ao meu próprio sobrinho, Mr. Darcy! E embora eu esteja certa de que isto é uma escandalosa falsidade, embora eu nunca fizesse ao meu sobrinho a injúria de supor que esta notícia seja verdadeira, resolvi imediatamente vir a este lugar a fim de lhe revelar claramente o que eu penso disto.
 — Se a senhora acha impossível que a notícia seja verdadeira — disse Elizabeth, corando de espanto e desdém —, não compreendo por que se deu ao trabalho de vir tão longe. Que pretende Lady Catherine com isto?
 — Insistir exatamente para que tal notícia seja universalmente desmentida.
 — Se esta notícia realmente existe — respondeu Elizabeth —, friamente, o fato da senhora vir a Longbourn para me visitar, e à minha família, constituiria antes uma confirmação.
 — Sim! Pretende então ignorar a notícia? Não foi ela posta astutamente em circulação pela sua própria família? Não sabe que este boato corre por aí?
 — Nunca ouvi falar em tal coisa.
 — E pode declarar igualmente que não existe fundamento para ele?
 — Não tenho a pretensão de ter a mesma franqueza, Lady Catherine. A senhora pode fazer perguntas que eu prefiro não responder.
 — Isto é insuportável. Miss Bennet, eu exijo que me responda. Meu sobrinho lhe fez alguma proposta de casamento?
 — Vossa Senhoria mesma declarou que isto era impossível.
 — Deve ser. É evidente, a menos que ele não esteja no uso da sua razão. Mas os seus artifícios e astúcias o podem ter levado a esquecer, num momento de fraqueza, o que ele deve a si próprio e a toda a sua família. É possível que o tenha seduzido.
 — Se o fiz, serei a última pessoa a confessá-lo.
 — Miss Bennet, sabe quem eu sou? Não estou acostumada a que me falem nesse tom. Sou quase o parente mais próximo que Mr. Darcy tem no mundo. E tenho direito de estar a par dos seus negócios mais íntimos.
 — Mas não tem esse direito quanto aos meus. E com a sua atitude jamais conseguirá que me torne mais explícita.
 — Permita que eu fale mais claramente: esse casamento que tem a pretensão de ambicionar nunca se realizará. Mr. Darcy está noivo da minha filha. E agora, que tem a dizer?
 — Apenas isto: que sendo este o caso, não precisa temer que ele me venha fazer uma proposta.
 Lady Catherine hesitou por um momento, e depois respondeu:
 — O noivado deles é de natureza especial. Desde a infância foram destinados um para o outro. Era o maior desejo da mãe dele, bem como o meu. Planejamos esta união enquanto ainda estavam no berço.
 “E agora, quando o desejo de ambas as irmãs poderia ser realizado, uma moça de classe inferior, sem nenhuma importância na sociedade e totalmente estranha à família, ousaria se interpor entre eles, sem nenhuma consideração para com os amigos dele e o seu compromisso tácito para com Miss de Bourgh. Terá perdido todos os sentimentos de delicadeza e de equilíbrio? Não ouviu dizer que desde o seu nascimento ele foi destinado à sua prima?”
 — Sim, eu já ouvi dizer isto antes. Mas que tenho a ver com isto? Se não existe outra objeção ao meu casamento com o seu sobrinho, o simples fato de saber que sua mãe e a sua tia queriam que ele se casasse com Miss de Bourgh não me faria renunciar a ele. Planejando o seu casamento, fizeram tudo o que lhes era dado fazer. A sua realização depende de outras pessoas. Se Mr. Darcy não está ligado a esse casamento nem pela honra nem pela inclinação, por que motivo não poderá ele escolher outra pessoa? E se esta escolha recair sobre mim, por que não hei de aceitá-la?
 — Porque a honra, a decência, a prudência e até o interesse o impedem. Sim, Miss Bennet, o interesse. Pois não espere ser recebida pela família dele e pelos seus amigos se agir propositadamente contra a vontade de todos. Será censurada, humilhada e desprezada por todos os parentes de Mr. Darcy. Seu casamento será a sua infelicidade. Seu nome nunca será mencionado por qualquer uma de nós.
 — Estes são graves infortúnios — replicou Elizabeth. — Mas a mulher de Mr. Darcy ficará numa posição tão privilegiada e terá tantos motivos de felicidade que, em última análise, ela não terá motivo de se arrepender.
 — Menina teimosa e obstinada! Envergonho-me de você! E esta é a gratidão com que me paga as atenções com que a cumulei quando esteve em casa de Mr. Collins? Acha que não me deve nada por isto? Vamos nos sentar. Deve compreender, Miss Bennet, que eu vim decidida a resolver tudo isto. Nada me poderá dissuadir da minha resolução. Não fui habituada a me submeter aos caprichos dos outros. Não estou habituada a que resistam aos meus desejos.
 — Isto apenas tornará a sua situação presente mais lamentável, mais desagradável. Mas não terá nenhum efeito sobre a minha pessoa.
 — Não me interrompa. Ouça-me em silêncio. Minha filha e meu sobrinho são feitos um para o outro. Ambos descendem pelo lado materno de uma nobre linhagem. E do lado paterno, de famílias respeitáveis, honradas e antigas, embora sem título. As fortunas de ambos são excelentes. É voz unânime nas respectivas famílias que eles estão destinados um para o outro. E quem pretende separá-los? Uma moça ambiciosa, que não possui nem família, nem relações ou fortuna. Isto pode ser tolerado? Não deve ser e não o será. Se pesasse os seus próprios interesses, não desejaria sair da esfera em que foi criada.
 — Não acho que se me casar com seu sobrinho, sairei da minha esfera. Ele é um gentleman. Eu sou a filha de um gentleman. Portanto, somos iguais.
 — De fato é a filha de um gentleman. Mas quem era a sua mãe? Quem são seus tios e tias? Não pense que eu ignoro a situação deles.
 — Qualquer que seja a situação deles — respondeu Elizabeth —, se o seu sobrinho não faz objeção a isto, não sei em que isto lhe pode interessar.
 — Diga-me francamente: está noiva dele?
 Embora Elizabeth não quisesse responder a esta pergunta, com o único fito de fazer a vontade de Lady Catherine, ela não pôde se impedir de dizer, depois de pensar alguns instantes:
 — Não estou.
 Lady Catherine pareceu ficar satisfeita.
 — E promete nunca aceitar um tal compromisso?
 — Não farei nenhuma promessa dessa espécie.
 — Miss Bennet, estou ofendida e atônita. Esperava encontrar uma moça mais razoável. Mas não se iluda pensando que eu jamais recuarei. Não irei embora antes de receber a garantia que exijo.
 — E pode estar certa de que nunca a darei. A senhora não poderá me intimidar nem me obrigar a fazer uma coisa tão pouco razoável. A senhora quer que Mr. Darcy se case com a sua filha. Mas se eu lhe fizesse a promessa que deseja, isto tornaria o casamento deles mais provável? Suponha que ele tenha afeição por mim. Seria a minha recusa suficiente para que ele transferisse essa afeição para a sua filha? Permita-me dizer-lhe, Lady Catherine, que os argumentos com que procurou justificar este extraordinário pedido foram tão frívolos quanto o pedido, ele mesmo, foi insensato. A senhora se engana redondamente acerca do meu caráter se pensa que possa ser influída por persuasões desta natureza. Não sei até que ponto o seu sobrinho permite que a senhora se imiscua nos negócios dele, mas a senhora não tem o menor direito de interferir nos meus. Peço-lhe portanto que não me importune mais a respeito deste assunto.
 — Mais devagar, faça o favor. Eu ainda não acabei. A todas as objeções que já apresentei, acrescentarei ainda uma outra: sei tudo a respeito da infame conduta da sua irmã mais moça. Sei todos os detalhes. Sei que o casamento foi uma coisa arranjada, às pressas, a expensas do seu pai e do seu tio. E é possível que essa moça se torne a irmã do meu sobrinho? E que o marido dela, que é o filho do intendente do seu pai, se torne também um parente dele? Deus do céu, em que está pensando? Serão as sombras de Pemberley poluídas desse modo?
 — Agora já nada mais terá a dizer — replicou Elizabeth, ressentida. — Já me insultou de todas as maneiras. Com sua licença vou voltar para casa.
 E dizendo isto ela se levantou. Lady Catherine se levantou também, e elas regressaram. Sua Senhoria estava furiosa.
 — Então não tem a menor consideração pela honra e bom nome do meu sobrinho? Menina egoísta, não vê que o casamento dele com você o desonrará aos olhos de todo o mundo?
 — Lady Catherine, nada mais tenho a dizer! Já conhece a minha opinião.
 — Então está resolvida a obtê-lo?
 — Eu não disse tal coisa. Mas estou resolvida a agir de maneira a conquistar o que eu considero a felicidade, sem pedir os seus conselhos e nem os de qualquer outra pessoa estranha à minha família.
 — Está bem. Então recusa atender ao meu pedido? Recusa-se a reconhecer os direitos do dever, da honra e da gratidão? Está decidida a destruir o bom nome do meu sobrinho na opinião de todos os seus amigos? E torná-lo assim um objeto de desprezo para todo o mundo?
 — No presente caso, nem o dever, nem a honra, nem a gratidão têm quaisquer direitos sobre mim. Nenhum desses princípios será violado pelo meu casamento com Mr. Darcy. E quanto à consideração ou ressentimento da sua família, ou a indignação do mundo, admitindo que eu a merecesse por este casamento, nada disto me daria a menor preocupação. E além disso as pessoas em geral têm bastante bom senso para desprezar os outros por motivo tão fútil.
 — Então esta é a sua verdadeira opinião. Esta é a sua decisão final. Muito bem, saberei agora como agir. Não imagine, Miss Bennet, que a sua ambição jamais será satisfeita. Eu vim aqui para experimentá-la. Esperei encontrar uma moça razoável. Pode ficar certa, entretanto, que farei valer a minha vontade.
 E Lady Catherine continuou falando deste modo até que chegaram à porta da carruagem. Aí ela se virou de súbito e acrescentou:
 — Não me despeço de você, Miss Bennet. Nem envio cumprimentos à sua mãe. Não merecem uma tal atenção. Estou seriamente ofendida.
 Elizabeth nada respondeu. E sem procurar persuadir a Lady Catherine que entrasse novamente, virou as costas e se dirigiu calmamente para casa. Enquanto subia as escadas, ouviu a carruagem partir. Sua mãe, que estava impaciente, veio encontrá-la à porta da sala para indagar se Lady Catherine não tornaria a entrar a fim de descansar um pouco.
 — Ela não quis — respondeu Elizabeth. — Preferiu partir.
 — É uma senhora muito elegante. E a sua visita foi uma grande amabilidade, pois suponho que ela tenha vindo apenas para dizer que os Collins vão passando bem. Ela passou casualmente e se lembrou que podia fazer uma visita. Suponho que ela não tivesse nada de particular para lhe dizer, Lizzy?
 Elizabeth foi obrigada a inventar uma pequena história. Mas era impossível revelar o que se tinha passado.

57

A agitação que essa extraordinária visita provocou no espírito de Elizabeth durou muito tempo. E durante várias horas ela não pôde deixar de pensar incessantemente naquilo. Lady Catherine, ao que parecia, tinha se dado ao trabalho de sair de Rosings com o único fito de desmantelar o seu suposto noivado com Mr. Darcy. O plano não era mau. Mas de onde se originava a notícia do noivado? Isto é que Elizabeth não podia determinar. Mas afinal ela refletiu que o fato de Mr. Darcy ser um amigo íntimo de Bingley e ela ser a irmã de Jane era suficiente para sugerir a ideia de outro casamento. Elizabeth já compreendera naturalmente que o casamento da sua irmã deveria aproximá-la mais de Darcy. Provavelmente, os seus vizinhos de Lucas Lodge (e por seu intermédio, através dos Collins a notícia chegara aos ouvidos de Lady Catherine) tinham apresentado como coisa quase certa e imediata aquilo que ela mesma encarava como uma remota possibilidade.
 Refletindo sobre as expressões de Lady Catherine, Elizabeth não podia deixar entretanto de sentir uma certa inquietude quanto às possíveis consequências da sua interferência. Pelo que dissera da sua resolução de impedir o casamento, Elizabeth concluía que ela devia ter em mente uma entrevista com o seu sobrinho. E como receberia ele a descrição que Lady Catherine lhe faria das funestas consequências de um tal casamento? Elizabeth não sabia até que ponto ia a afeição de Mr. Darcy por sua tia, nem a confiança que ele depositava nos seus julgamentos. Porém era natural supor que ele tivesse maior consideração por Lady Catherine do que ela, Elizabeth. Por outro lado, enumerando as más consequências de um casamento com uma pessoa cujos parentes eram tão inferiores aos seus, sua tia o atacaria pelo lado mais fraco. Com os seus preconceitos de classe, ele sentiria provavelmente que os argumentos que a Elizabeth tinham parecido fracos e ridículos continham bom senso e um raciocínio sólido.
 Se antes ele hesitara algumas vezes quanto ao que devia fazer, os conselhos e as exortações de uma pessoa que era sua parente próxima poderiam destruir todas as suas dúvidas e convencê-lo de uma vez para sempre a procurar a sua felicidade sem ofender os seus brasões de família. Neste caso ele não voltaria mais. Lady Catherine o encontraria em Londres e a promessa que fizera a Bingley de voltar para Netherfield seria esquecida.
 “Se portanto ele enviar qualquer desculpa ao seu amigo dentro desses próximos dias, dizendo que está impossibilitado de vir, eu saberei o que pensar”, disse Elizabeth para si mesma. “Então desistirei de tudo. E se ele se limitar a lamentar a minha perda, quando está nas suas mãos obter a minha afeição, renunciarei a ele, sem mágoa.”
* * *
A surpresa das demais pessoas da família quando souberam quem tinha sido a visitante foi muito grande. Contentaram-se no entanto com as mesmas suposições que haviam aplacado a curiosidade de Mrs. Bennet. E Elizabeth não foi incomodada por causa disso.
 No dia seguinte, de manhã, Elizabeth estava descendo as escadas quando seu pai, saindo da biblioteca, veio ao seu encontro com uma carta na mão.
 — Lizzy — disse ele —, eu ia à sua procura. Venha à biblioteca. Elizabeth acompanhou-o. E a suposição de que o assunto que seu pai queria lhe comunicar se relacionava com a carta que ele tinha na mão aumentava a sua curiosidade. Ocorreu-lhe de súbito que a carta pudesse ser de Lady Catherine. Já se sentia desanimada, diante de todas as explicações que teria que dar.
 Sentaram-se diante da lareira. Então Mr. Bennet falou:
 — Recebi esta manhã uma carta que me surpreendeu extraordinariamente. Como o assunto mais importante da carta se refere a você, é preciso que seja informada do seu conteúdo. Eu não sabia que tinha duas filhas próximas do casamento. Deixe que eu lhe cumprimente pela sua conquista. É muito importante.
 O sangue afluiu ao rosto de Elizabeth e ela por um momento supôs que a carta viesse do sobrinho e não da tia. E hesitava se devia se sentir contente porque ele se tinha explicado afinal, ou ofendida porque a carta não lhe fora dirigida, quando seu pai prosseguiu:
 — Você parece que compreendeu. As moças mostram grande penetração em assuntos desta natureza. No entanto, acho que posso desafiar mesmo a sua sagacidade. Não imagina quem seja o seu admirador. Esta carta é de Mr. Collins.
 — De Mr. Collins! E que é que ele tem a dizer?
 — O que ele tem a dizer vem muito a propósito, naturalmente. Começa congratulando-se pelo próximo casamento da minha filha mais velha. Coisa naturalmente que uma daquelas espevitadas da família Lucas lhe comunicou. Não vou ler o que ele diz sobre isto, para não provocar a sua impaciência. A parte que se refere à sua pessoa diz o seguinte:
Tendo desse modo oferecido as sinceras congratulações de Mrs. Collins, bem como as minhas, pelo feliz acontecimento, permita que eu me refira agora sumariamente a outro assunto que chegou ao nosso conhecimento através da mesma fonte. Sua filha Elizabeth, ao que parece, não usará por mais muito tempo o nome de Bennet, depois que a sua irmã mais velha tiver renunciado ao mesmo. E o seu escolhido pode razoavelmente ser considerado uma das pessoas mais ilustres deste país.
— Pode imaginar, Lizzy, quem seja esta pessoa?
Este rapaz foi aquinhoado com tudo o que um coração mortal pode desejar: esplêndidas propriedades, nobres parentes, considerável influência. No entanto, apesar de todas estas vantagens, permita que eu previna a minha prima Elizabeth e ao senhor mesmo acerca dos males que poderão advir de um consentimento precipitado às propostas daquele cavalheiro; propostas de que naturalmente se sentirão inclinados a tirar imediato proveito.
— Você tem alguma ideia, Lizzy, de quem seja este cavalheiro? Mas agora surge a revelação: “O motivo que tenho para preveni-la é o seguinte: temos razões para acreditar que sua tia, Lady Catherine de Bourgh, não olha com bons olhos este casamento.” — Está vendo, portanto, que se trata de Mr. Darcy. Está aí, Lizzy, creio que lhe dei uma grande surpresa. Poderia Mr. Collins ou os Lucas terem feito uma suposição mais absurda? Mr. Darcy, que nunca olha para uma mulher senão para criticar, e que provavelmente nunca olhou para você em toda a sua vida! E espantoso!
 Elizabeth tentou achar graça, mas pôde apenas sorrir com relutância. Nunca o espírito de seu pai lhe parecera menos agradável.
 — Você não está achando graça?
 — Estou, sim, continue a ler.
Tendo eu mencionado a possibilidade deste casamento a Lady Catherine ontem à noite, ela imediatamente exprimiu o que sentia acerca desse assunto, com a sua usual condescendência. Ela então proclamou que devido a certas objeções de família, jamais daria o seu consentimento para o que, segundo a sua expressão, era um péssimo casamento. Achei que era do meu dever comunicar isto à minha prima para que ela e seu nobre admirador saibam o que estão fazendo e não se precipitem num casamento que não foi convenientemente sancionado.
“E Mr. Collins acrescenta o seguinte:”
Causa-me muita alegria saber que o triste caso da minha prima Lydia conseguiu ser abafado tão depressa! E o que me preocupa apenas é que outros tenham ficado sabendo que eles tenham vivido juntos antes de se casarem. Não posso, entretanto, esquecer os deveres do meu estado, nem deixar de manifestar o espanto que senti ao ouvir dizer que o senhor recebeu o jovem casal na sua casa logo após o matrimônio. Considero isto um encorajamento ao vício e se fosse o reitor de Longbourn ter-me-ia oposto a isto terminantemente. É certo que como cristão os devia ter perdoado, porém jamais devia admiti-los em sua presença nem permitir que os seus nomes lhe fossem mencionados.
— Esta é a noção que ele tem do perdão cristão das ofensas. O resto da carta trata apenas da situação da sua querida Charlotte e das esperanças que ele tem de um herdeiro. Mas, Lizzy, você parece que não está gostando. Espero que não leve a sério e nem vá ficar ofendida por causa deste boato tolo. Não vejo por que não possamos rir, de nosso lado, com o ridículo dos nossos vizinhos...
 — Oh — exclamou Elizabeth —, estou achando muita graça. Mas tudo isto é tão estranho!
 — Sim, mas aí é que está a graça. Se eles tivessem escolhido outro homem qualquer, não haveria nada de estranho. Mas a perfeita indiferença de Mr. Darcy e a sua manifesta antipatia tornam essa suposição tão absurda! Abomino escrever, mas por coisa alguma deste mundo desistiria da minha correspondência com Mr. Collins! Quando me chega uma carta dele, não posso deixar até de preferi-lo a Wickham. E eu prezo imensamente a impudência e a hipocrisia do meu genro... Conte-me, Lizzy, que disse Lady Catherine acerca deste boato? Ela veio vê-la para recusar o seu consentimento?
 A esta pergunta, sua filha respondeu apenas com uma risada. E como ele de nada suspeitasse, Elizabeth não ficou embaraçada, mesmo quando ele repetiu a pergunta. Jamais ela sentira tamanha dificuldade em esconder os seus sentimentos. Era necessário rir e ela teria preferido chorar. Seu pai a tinha mortificado cruelmente pelo que dissera a respeito da indiferença de Mr. Darcy. Aquela falta de penetração e espantava. Por outro lado ela temia que em vez do seu pai ter visto pouco, ela é que tivesse esperado demasiadamente.

58

Mr. Bingley não recebeu nenhuma carta de escusas do seu amigo, como Elizabeth receava. Em vez disso, trouxe o seu amigo Darcy em visita a Longbourn, poucos dias depois do aparecimento de Lady Catherine. Os cavalheiros chegaram cedo. Elizabeth, por um momento, teve medo de que Mrs. Bennet lhes contasse que tinham recebido a visita da sua tia. No entanto, antes que Mrs. Bennet pudesse falar, Bingley, que queria ficar a sós com Jane, propôs que todos saíssem a passear. Assim foi combinado. Mrs. Bennet não tinha o hábito de caminhar. Mary não podia perder tempo. E os cinco restantes partiram. Bingley e Jane, entretanto, deixaram os outros se distanciarem. Elizabeth, Kitty e Darcy foram na frente. Os três conversaram muito pouco. Kitty tinha medo de Darcy. Elizabeth tomava em segredo uma resolução desesperada. E ele talvez fizesse o mesmo.
 Caminharam em direção à casa dos Lucas, pois Kitty queria fazer uma visita a Maria. E depois que Kitty os deixou, Elizabeth continuou resolutamente com Darcy. Chegara agora o momento de executar o seu plano. E antes que a sua coragem fraquejasse, ela falou:
 — Mr. Darcy, sou uma criatura muito egoísta. E a fim de aliviar as incertezas dos meus sentimentos vou talvez ferir os seus. Não posso adiar por mais tempo a obrigação de lhe agradecer a sua inestimável intervenção a favor de minha irmã. Desde que soube o que o senhor tinha feito, fiquei ansiosa por uma ocasião de lhe manifestar a minha gratidão. E se as outras pessoas da minha família o soubessem, não lhe falaria apenas em meu nome.
 — Sinto imensamente — replicou Darcy, num tom de surpresa e emoção — que tenha sido informada de um fato que, mal-interpretado, poderia causar-lhe contrariedade. Julguei que podia confiar na discrição de Mrs. Gardiner.
 — Não deve culpar a minha tia. Foi por uma leviandade de Lydia que eu soube que o senhor se tinha envolvido no caso; e naturalmente não descansei até conhecer todos os detalhes. Deixe-me agradecer novamente, em meu nome e no da minha família, pela generosidade com que agiu, sofrendo toda a sorte de incômodos e mortificações.
 — Se quiser me agradecer — respondeu ele —, faça-o apenas em seu próprio nome. Não nego que o desejo de lhe causar prazer tenha contribuído também para o que fiz. Mas a sua família não me deve nada. Respeito-a muito, mas creio que foi só em você que pensei.
 Elizabeth ficou tão embaraçada que não soube o que responder. Depois de uma curta pausa, seu companheiro acrescentou:
 — Tenho certeza de que é generosa demais para fazer pouco caso dos meus sentimentos. Se os seus são ainda os mesmos que manifestou em abril passado, diga-o imediatamente. Minha afeição permanece inalterada; basta porém uma única palavra sua para fazer com que me cale para sempre.
 Elizabeth, sentindo a difícil e aflitiva situação em que Darcy se encontrava, se esforçou para falar. E embora de forma hesitante, deu-lhe a entender imediatamente que os seus sentimentos tinham passado por tão grande transformação, desde o período a que ele aludira, que agora podia aceitar as suas declarações com prazer e gratidão. A felicidade que essa resposta causou a Darcy foi a maior que até então conhecera. E ele a exprimiu nos termos mais calorosos que o seu coração de apaixonado pôde encontrar. Se Elizabeth tivesse podido levantar os olhos, teria visto que a felicidade de Darcy se refletia no seu rosto, infundindo-lhe uma animação que o tornava belo. Se não podia ver, Elizabeth, no entanto, podia ouvir. E Darcy lhe revelou a importância que o afeto de Elizabeth tinha para ele. E a cada momento o seu amor crescia de importância aos olhos de Elizabeth.
 Continuaram a caminhar sem uma direção precisa. Seus pensamentos os absorviam, e além disso tinham muito a sentir e a dizer. Elizabeth ficou sabendo que deviam o seu atual entendimento aos esforços da tia de Darcy. Lady Catherine, com efeito, de passagem por Londres fora visitar o sobrinho e lhe relatara a sua viagem a Longbourn, suas causas e a conversa que tivera com Elizabeth, repetindo enfaticamente cada uma das expressões desta última, expressões que aos olhos de Lady Catherine denotavam a perversidade e o cinismo da moça, com o intuito de desacreditá-la perante o seu sobrinho. Infelizmente para Sua Senhoria o efeito tinha sido exatamente o oposto.
 — Eu, que não tinha mais esperanças, voltei a tê-las — acrescentou Darcy. — Conhecendo seu caráter, sabia que, se estivesse absoluta e irrevogavelmente decidida a me recusar, tê-lo-ia dito a Lady Catherine com toda a franqueza.
 Elizabeth enrubesceu e sorriu.
 — Sim, conhecia suficientemente a minha franqueza para saber que se eu tinha sido capaz de tratá-lo de maneira tão abominável pessoalmente, não hesitaria em fazê-lo perante toda a sua família.
 — Não acho que me tenha tratado mal. Não disse nada que eu não merecesse. Embora suas acusações repousassem sobre premissas falsas, minha atitude naquele tempo merecia as mais severas censuras. Era imperdoável. Não posso lembrar dela sem horror.
 — Não discutiremos a quem cabe a maior culpa na desavença daquela noite — disse Elizabeth. — A conduta de nenhuma das partes foi irrepreensível. Mas desde então creio que progredimos em cortesia. Pelo menos espero.
 — Não posso me reconciliar tão facilmente comigo mesmo. A recordação de tudo o que eu disse, da minha conduta, das minhas maneiras e expressões tem sido durante muitos meses e continua a ser indizivelmente dolorosa. Nunca me esqueci da sua admoestação, que considero tão justa: “se tivesse agido de forma mais cavalheiresca...” Foram estas as suas palavras. Não sabe, não pode nem de longe imaginar como essas suas palavras me torturaram. Custei a lhes reconhecer a justiça.
 — E eu estava muito longe de supor que elas lhe produziriam uma impressão tão forte.
 — Acredito. Naquele tempo pensava que eu era destituído de todos os sentimentos humanos. Disso tenho certeza. Nunca me esquecerei da expressão do seu rosto quando me disse que nada a poderia ter persuadido a aceitar a minha mão.
 — Oh, não repita o que eu disse. Essas coisas não devem ser lembradas. Juro-lhe que há muito tempo que penso nelas com imensa vergonha.
 Darcy mencionou a sua carta.
 — Queria saber — perguntou ele — se a carta me justificou aos seus olhos. Acreditou no que eu dizia?
 Elizabeth lhe explicou os efeitos que a sua carta tinham produzido e como, aos poucos, a sua má vontade se dissipara.
 — Eu sabia — continuou ele — que o que estava lhe escrevendo ia magoá-la, mas era necessário. Espero que tenha destruído a carta. Não descansarei enquanto não tiver a certeza de que não a pode mais ler, especialmente o começo da carta. Lembro-me de certas expressões que provocariam o seu ódio contra mim.
 — A carta será queimada se acredita que isto seja essencial para a preservação da minha estima. Mas embora tenhamos ambos razões para pensar que as minhas opiniões não são inteiramente inalteráveis, não creio por outro lado que sejam tão facilmente influenciáveis como parece supor.
 — Quando escrevi aquela carta — replicou Darcy — pensava que me encontrava num estado de espírito perfeitamente calmo e frio. Mas depois vi que estava extremamente amargurado e triste.
 — Talvez no princípio a carta fosse amarga, mas o final era uma caridosa despedida. Mas não pense mais na carta. Os sentimentos da pessoa que a recebeu e da pessoa que a escreveu são agora tão diferentes do que eram, que todas as circunstâncias dolorosas relativas a ela devem ser esquecidas. E é preciso que aprenda um pouco da minha filosofia. Lembre-se apenas daquilo que lhe causa prazer.
 — Não creio que encontre dificuldade em aplicar esta filosofia à sua própria vida. As suas lembranças devem ser tão desprovidas de toda a mácula que não é preciso nenhuma filosofia para sentir o contentamento que se origina delas. Mas comigo não é assim: quando penso no passado intervêm muitas recordações dolorosas que não podem e não devem ser repelidas. Toda a minha vida fui um ser egoísta, se não na prática, pelo menos nos meus princípios. Em criança me ensinaram o que era direito, mas não me ensinaram a corrigir o meu gênio. Deram-me bons princípios. Mas deixaram-me praticá-los orgulhosamente. Infelizmente, sendo durante muito tempo único filho, e mais tarde único filho homem, fui mimado pelos meus pais e, embora eles fossem bons, meu pai sobretudo, que era a benevolência em pessoa, permitiram, encorajaram e quase me ensinaram a ser egoísta e tirânico, a pensar apenas nas pessoas da minha família e desprezar todos os outros e a pensar com desprezo no bom senso e valor das outras pessoas, comparados com os meus. Assim fui eu dos oito aos vinte anos. E se não fosse a minha querida e adorável Elizabeth, talvez ainda não me tivesse mudado. Que é que não lhe devo? A lição que me deu foi certamente a princípio muito dura, mas muito vantajosa. Por suas mãos recebi a humilhação que devia. Aproximei-me de você sem duvidar de que seria aceito. Revelou-me como eram insuficientes as minhas pretensões de agradar uma mulher digna de ser amada.
 — Estava mesmo persuadido de que realmente me sentiria lisonjeada?
 — Confesso que estava. Que acha da minha vaidade? Eu acreditava que estava mesmo desejando e esperando as minhas propostas.
 — A culpa talvez caiba às minhas maneiras, mas não agi intencionalmente. Posso lhe jurar, jamais tencionei enganá-lo. Como deve ter me odiado depois daquela noite!
 — Odiá-la? Talvez a princípio eu estivesse encolerizado. Mas logo dirigi esta cólera contra quem a merecia.
 — Tenho quase medo de lhe perguntar o que pensou de mim quando nos encontramos em Pemberley. Achou que eu tinha feito mal em vir?
 — Não, de modo algum, senti apenas surpresa.
 — A sua surpresa não foi menor do que a minha ao verificar que ainda se interessava por mim. Minha consciência me dizia que eu não merecia grandes cortesias e confesso que não contava receber mais do que me era devido.
 — Meu fito naquela ocasião — replicou Darcy — era lhe mostrar, por todos os meios, que não guardava um rancor mesquinho do passado. Eu esperava obter o seu perdão e apagar o mau conceito que tinha de mim, dando-lhe a perceber que eu tinha levado em conta as suas censuras. Não posso lhe dizer exatamente em que momento outros desejos nasceram em mim, mas creio que foi meia hora depois de tê-la visto.
 Darcy contou-lhe então o prazer que Georgiana tivera em conhecê-la e o desapontamento que sentira com a súbita interrupção da sua visita. Isto o levou naturalmente a falar nas causas desta interrupção. E Elizabeth ficou sabendo que ele tomara a resolução de segui-la e de partir em busca da sua irmã, antes mesmo de sair da hospedaria.
 E que se naquela ocasião se mostrava grave e pensativo, era porque debatia consigo mesmo a respeito desta ideia. Ela tornou a exprimir a sua gratidão, mas o assunto era demasiado penoso para ambos para que insistissem nele.
 Depois de caminharem várias milhas sem destino, sem repararem para onde se dirigiam, viram nos seus relógios que era hora de ir para casa.
 — Que teria sido feito de Mr. Bingley e Jane?
 Esta observação os levou naturalmente a discutir este caso. Darcy estava encantado com o noivado. Seu amigo lhe dissera tudo imediatamente.
 — Ficou surpreendido? — perguntou Elizabeth.
 — De modo algum. Quando parti, já sabia que isto devia acontecer.
 — Quer dizer que deu o seu consentimento? Desconfiava disto também.
 Embora ele protestasse contra a expressão, Elizabeth compreendeu que a sua suposição não estava muito longe da verdade.
 — Na noite anterior à minha partida para Londres — disse Darcy —, eu fiz a Bingley uma confissão que, acredito, já devia ter feito há muito tempo. Contei-lhe tudo o que tinha ocorrido e disse que esses fatos me tinham feito compreender que a minha interferência no caso dele e de Jane tinha sido desastrosa. A sua surpresa foi grande. Ele não suspeitava de nada. Disse, ainda mais, que tinha razões para acreditar que me tinha enganado quando dissera que a sua irmã lhe era indiferente. E como vi imediatamente que a sua afeição por ela continuava inalterada, não tinha dúvida de que viessem a ser muito felizes juntos.
 Elizabeth não pôde deixar de sorrir da facilidade com que ele conduzia o seu amigo.
 — Foi a sua própria observação que lhe convenceu que a minha irmã amava Bingley ou se baseou apenas na minha informação?
 — Foi a minha observação. Durante as duas últimas visitas que fiz aqui ultimamente, observei-a com atenção. Fiquei convencido de que ela o amava sinceramente.
 — E Bingley acreditou de imediato na sua afirmação?
 — Acreditou. Bingley é de uma extraordinária modéstia. Foi o que o impediu de confiar no seu próprio julgamento, mas a confiança que ele tem em mim tornou tudo fácil. Fui obrigado a confessar uma coisa que o fez ficar ofendido comigo durante alguns dias. Não pude deixar de dizer que eu sabia que a sua irmã tinha estado em Londres durante três meses no inverno passado e que eu propositadamente escondera este fato dele. Ficou zangado, mas estou persuadido de que a sua cólera durou apenas enquanto tinha dúvidas acerca dos sentimentos da sua irmã. Ele agora me perdoou de todo o coração.
 Elizabeth teve vontade de observar que Mr. Bingley tinha sido um amigo encantador. Sendo ele, como era, tão fácil de conduzir, possuía como amigo um valor inestimável. No entanto ela se conteve porque lembrou que Darcy ainda não aprendera a ser menos susceptível. Era ainda cedo para começar. Darcy continuou a falar sobre a felicidade que antecipava para Bingley, e que seria apenas menor do que a sua, até que chegaram em casa. No hall eles se separaram.

59

— Querida Lizzy, onde é que você tem andado? — Tal foi a pergunta que Elizabeth recebeu de Jane, assim que entrou na sala. E a mesma pergunta lhe foi dirigida por todas as pessoas, antes de se sentarem à mesa. Ela disse apenas que tinha se distraído e caminhado mais longe do que esperava. E embora ela corasse ao dizer estas palavras, ninguém suspeitou da verdade.
 A tarde passou calmamente sem que nada de extraordinário ocorresse. Os noivos oficiais falaram e riram. Os não oficiais ficaram calados. Darcy não era dessas pessoas em que a felicidade transborda em alegria; Elizabeth, agitada e confusa, tinha consciência da sua felicidade mas não a sentia propriamente. Além dos obstáculos imediatos ainda existiam outros à sua frente. Ela antecipava as reações da sua família quando soubesse da sua decisão. Temia mesmo que a antipatia dos outros fosse de tal ordem que nem toda a fortuna e importância de Darcy a poderiam dissipar.
 À noite ela abriu o seu coração para Jane. Embora Jane fosse uma pessoa muito pouco desconfiada, dessa vez Elizabeth esbarrou com a sua incredulidade.
 — Você está brincando, Lizzy. Não pode ser! Noiva de Mr. Darcy! Não, não, você não me engana! Eu sei que é impossível!
 — Este começo não é de fato muito animador. A única pessoa com quem eu contava era você. E se você não acreditar, sei que ninguém mais o fará! Sim, de fato eu falo seriamente. Digo apenas a verdade. Ele ainda me ama e estamos noivos.
 Jane olhou para ela, incredulamente.
 — Oh, Lizzy, não pode ser! Bem sei como você o detesta...
 — Você não sabe coisa alguma. Aquilo está tudo esquecido. Talvez eu não o amasse antigamente tanto como agora, mas em casos como este a boa memória é um fato imperdoável. Esta é a última vez que recordo estas coisas.
 Jane continuava atônita. Elizabeth tornou a lhe assegurar com a maior seriedade que estava falando a verdade.
 — Será possível?! Mas agora tenho de acreditar no que diz! — exclamou Jane. — Minha querida, querida Lizzy! Eu a felicito. Mas você tem certeza? Perdoe a minha pergunta, você tem certeza de que pode ser feliz com ele?
 — Quanto a isto não pode haver a menor dúvida. Ficou decidido entre nós que seremos o casal mais feliz do mundo. Mas você está contente, Jane? Você gostará de tê-lo como irmão?
 — Muito mesmo. Nada poderia causar mais prazer a Bingley e a mim. Nós até já conversamos sobre isto e achamos que era impossível. E você realmente gosta dele? Oh, Lizzy, prefira tudo a se casar sem afeição. Você tem certeza de que o ama como deve?
 — Oh, sim. Quando eu lhe contar tudo você até achará que a minha afeição excede os limites.
 — Que é que você quer dizer?
 — Ora, eu tenho que confessar que o amo mais do que a Bingley. Você vai ficar zangada?
 — Minha querida irmã, fale seriamente: quero conversar com você muito a sério. Conte-me imediatamente tudo o que você acha que eu devo saber. Há quanto tempo você gosta dele?
 — Isto aconteceu tão gradualmente que eu nem sei como começou. Mas acredito que a minha afeição data da primeira vez em que vi o belo parque de Pemberley.
 Seguiu-se outra súplica para que ela falasse seriamente. Desta vez o pedido obteve o efeito desejado. E Elizabeth deu à sua irmã as mais solenes garantias da sua afeição por Darcy. Tranquilizada quanto a este ponto, Jane ficou satisfeita.
 — Agora sinto-me contente — disse ela. — Pois você será tão feliz quanto eu. Sempre o apreciei muito. Bastava aliás o amor dele por você para fazer com que eu o estimasse para sempre, mas agora, como amigo de Bingley e seu marido, só Bingley e você mesma terão precedência na minha afeição. Mas Lizzy, você foi muito sonsa, muito reservada comigo. Você não me contou quase nada do que aconteceu em Pemberley e em Lambton. Devo tudo o que sei a outra pessoa.
 Elizabeth lhe explicou por que tinha guardado segredo. Não quisera falar no nome de Bingley. E a incerteza dos seus próprios sentimentos fazia com que ela evitasse falar no nome de Darcy. Mas agora Elizabeth não podia esconder por mais tempo da sua irmã a participação de Darcy no caso de Lydia. Contou tudo. Passaram metade da noite em conversa.
* * *
— Arre — exclamou Mrs. Bennet ao se aproximar da janela na manhã seguinte. — Não é que aquele homem desagradável já vem aí com o nosso querido Bingley? Que deseja ele, com essas visitas contínuas? Não vê que nos importuna? Por que não vai caçar ou fazer outra coisa em vez de nos impingir a sua companhia? Que faremos com ele? Lizzy, é melhor você ir passear novamente com ele, para que não se meta no caminho de Bingley.
 Elizabeth não pôde deixar de rir diante de proposta tão conveniente. No entanto ela estava realmente contrariada com aquelas manifestações de sua mãe.
 Assim que entrou, Bingley olhou para Elizabeth tão significativamente e lhe apertou as mãos com tanto calor que não podia haver dúvida de que estivesse bem-informado. E pouco depois ele disse, em voz alta:
 — Mrs. Bennet, a senhora não tem no seu parque outros caminhos em que Lizzy possa se perder?
 — Aconselho Mr. Darcy, Lizzy e Kitty — disse Mrs. Bennet — a darem um passeio até Oakham Mount. É um belo e longo passeio e Mr. Darcy nunca apreciou a vista.
 — Está muito bem para os outros — replicou Mr. Bingley —, mas estou certo que é longe demais para Kitty. Não é, Kitty?
 Kitty confessou que preferia ficar em casa. Darcy declarou que estava muito curioso para ver o lugar, e Elizabeth consentiu, em silêncio. Enquanto subia as escadas para ir se aprontar, Mrs. Bennet a acompanhou, dizendo:
 — Sinto muito, Lizzy, que você tenha de fazer companhia àquele homem tão desagradável. Mas espero que você não faça caso. É para o bem de Jane, você sabe... E depois, não precisa conversar muito com ele. Só de vez em quando. Portanto, não se dê muito trabalho.
 Durante o passeio ficou resolvido que o consentimento de Mr. Bennet seria solicitado naquela mesma noite. Elizabeth se encarregou de falar com a sua mãe. Não sabia como Mrs. Bennet receberia aquela comunicação. E às vezes ela duvidava de que toda a fortuna e importância de Darcy fossem suficientes para vencer a antipatia que sua mãe tinha por ele. Mas quer Mrs. Bennet se declarasse violentamente contra o casamento, ou violentamente a favor, Elizabeth estava certa de que a sua atitude seria pouco conveniente e sensata. E Elizabeth não poderia tolerar que Mr. Darcy ouvisse as primeiras manifestações da sua alegria ou a primeira veemência da sua desaprovação.
* * *
À noite, pouco depois de Mr. Bennet se levantar da mesa e entrar na sua biblioteca, Elizabeth viu Mr. Darcy se levantar igualmente e acompanhá-lo. Naquele momento a sua agitação foi extrema. Ela não receava a oposição de seu pai. Mas tinha certeza de que isto ia desgostá-lo. E a ideia de que ela, a sua filha favorita, lhe causaria uma grande decepção com a sua escolha, enchendo-o de preocupação quanto ao seu futuro, fez com que ela ficasse angustiada e aflita até que Mr. Darcy tornou a aparecer. O sorriso que ele teve, ao vê-la, aliviou-a um pouco. Poucos minutos depois ele se aproximou da mesa onde Elizabeth estava sentada com Kitty e, fingindo admirar o trabalho que ela fazia, sussurrou ao seu ouvido:
 — Vá à biblioteca. Seu pai quer falar com você.
 Elizabeth partiu imediatamente.
 Mr. Bennet caminhava de um lado para outro na biblioteca, e sua expressão era grave e ansiosa.
 — Lizzy — disse ele —, que é que você está fazendo? Você está no seu juízo perfeito aceitando este homem? Você não o odiava?
 Naquele momento Elizabeth desejou ardentemente que seu pai tivesse exprimido as suas opiniões mais moderadamente. Isto lhe teria poupado explicações embaraçosas. Mas agora era preciso falar. E Elizabeth lhe assegurou, um tanto confusa, que tinha afeição por Mr. Darcy.
 — Ou, em outras palavras, você está decidida a se casar com ele. Ele é rico, certamente, e você pode ter roupas e carruagens ainda mais belas do que as de Jane. Mas você será feliz?
 — O senhor tem outra objeção a não ser a sua suposição de que eu lhe seja indiferente?
 — Nenhuma. Todos sabemos que ele é um homem orgulhoso e desagradável. Mas isto não teria importância se você realmente o amasse.
 — Eu o amo — replicou Elizabeth, com lágrimas nos olhos —, eu o amo sinceramente. Asseguro-lhe que ele não tem nenhum orgulho injustificado. É um homem muito bom. O senhor, na realidade, não o conhece. Portanto, não me magoe falando nestes termos a seu respeito.
 — Lizzy — respondeu Mr. Bennet —, eu já dei o meu consentimento. Ele é realmente um desses homens a quem eu nunca recusaria alguma coisa que ele condescendesse em pedir. E agora torno a lhe dar o meu consentimento, se a isto está decidida. Mas eu a aconselho a pensar melhor. Conheço o seu gênio, Lizzy, penso que jamais você seria feliz e equilibrada a não ser que estime realmente o seu marido, a não ser que possa considerá-lo como o seu superior. Sua vivacidade e inteligência a colocariam numa situação de grande perigo num casamento desigual. Ser-lhe-ia difícil salvar a sua reputação e a sua felicidade. Minha filha, não me dê o desgosto de vê-la impossibilitada de respeitar o seu companheiro de vida. Você não sabe a seriedade do passo que está dando.
 Elizabeth, ainda mais emocionada, respondeu solene e gravemente. E afinal, afirmando repetidamente que Mr. Darcy era realmente o homem que ela tinha escolhido, explicando-lhe a mudança gradual por que tinha passado a sua estima por ele, relatando a absoluta certeza que tinha da sua afeição, que não era uma coisa de momento, mas tinha resistido à experiência de muitos meses de incerteza, enumerando com energia todas as qualidades do seu futuro marido, ela acabou convencendo o pai e reconciliando-o com a ideia do casamento.
 — Bem, minha querida — disse ele quando Elizabeth acabou de falar. — Nada mais tenho a dizer. Se este é o caso, ele a merece. Eu não me poderia separar de você, minha querida Lizzy, entregando-a a alguém que fosse menos digno da sua estima.
 Para completar a impressão favorável do seu pai, ela então lhe relatou o que Mr. Darcy tinha feito voluntariamente por Lydia. Ele a ouviu com grande espanto.
 — Realmente, esta é uma noite de surpresas. Então Darcy fez tudo! arranjou o casamento, deu dinheiro, pagou as dívidas do rapaz e lhe arranjou um posto? Tanto melhor. Poupa-me inúmeros incômodos e grande soma de dinheiro. Se tudo tivesse sido feito por seu tio, ficaria na obrigação de lhe pagar e de fato lhe pagaria. Mas estes jovens violentamente apaixonados fazem tudo de acordo com a sua vontade. Amanhã lhe proporei pagamento. Ele protestará furiosamente, alegando o seu amor por você e assim acabará a história.
 Mr. Bennet se lembrou então do embaraço com que Elizabeth ouvira poucos dias antes a leitura da carta de Mr. Collins; e depois de caçoar com ela durante algum tempo, deixou-a partir, dizendo, ao vê-la sair da sala:
 — Se chegarem rapazes para Mary ou Kitty, pode mandar entrar, pois não tenho nada que fazer.
 Elizabeth se sentiu aliviada de um grande peso. E depois de refletir calmamente no seu quarto durante meia hora, voltou para junto dos outros com o rosto tranquilo. Tudo aquilo ainda era muito recente para que a sua alegria transbordasse. A noite passou tranquilamente. Não havia mais nada a temer e a calma voltaria aos poucos.
 Quando a sua mãe subiu para o quarto, Elizabeth a acompanhou e fez a importante comunicação. O efeito foi extraordinário, pois ao ouvi-la Mrs. Bennet permaneceu completamente imóvel, incapaz de dizer uma só palavra. Só depois de muitos e muitos minutos ela pôde compreender o que tinha ouvido, embora estivesse sempre atenta a tudo o que redundasse em proveito para a família, ou que se apresentasse sob o aspecto de um noivo para qualquer uma das suas filhas. Finalmente ela começou a voltar a si, a se mexer na cadeira; levantou-se, tornou a sentar, abriu a boca, persignou-se:
 — Meu Deus do céu! Deus me abençoe! Imagine! Ora essa! Mr. Darcy! Quem poderia supor? É verdade mesmo? Oh, minha querida Lizzy! Como você será rica e importante! Que mesadas, que joias, que carruagens você terá! O casamento de Jane não é nada em comparação com o seu! Estou tão feliz, tão contente! Um homem tão encantador! Tão bonito! Tão alto! Oh, minha querida Lizzy! Perdoe-me por ter antipatizado com ele no princípio! Espero que ele me perdoará. Minha querida Lizzy... Uma casa em Londres! Tudo o que há de melhor! Três filhas casadas! Dez mil libras por ano! Meu Deus do céu, que será de mim? Vou ficar louca...
 Essas exclamações eram suficientes para mostrar a Elizabeth que não precisava duvidar da aprovação de sua mãe. E congratulando-se por ser a única testemunha daquela efusão, Elizabeth se retirou para o seu próprio quarto. Três minutos depois Mrs. Bennet apareceu.
 — Minha querida filha — exclamou ela —, não posso pensar noutra coisa. Dez mil libras por ano e provavelmente mais! É como se fosse um lord! E vocês se casarão com uma licença especial. Faço questão de uma licença especial. Mas, meu bem, diga-me qual é o prato que Mr. Darcy prefere. Eu o farei amanhã.
 Isto era um triste prenúncio do que poderia ser o comportamento da sua mãe para com o seu noivo. E Elizabeth descobriu que, embora de posse do mais caloroso dos afetos e tranquila quanto ao consentimento dos pais, havia ainda alguma coisa a desejar. Mas o dia seguinte passou muito melhor do que tinha esperado. Mrs. Bennet, por sorte, tinha tanto respeito por seu futuro genro, que só se atreveu a lhe dirigir a palavra para lhe dizer alguma amabilidade ou manifestar a deferência que sentia pelas suas opiniões.
 Elizabeth teve a satisfação de ver seu pai fazer esforços para entrar em comunicação com Darcy. Mr. Bennet lhe assegurou que a sua estima por ele crescia a cada momento.
 — Admiro altamente todos os meus três genros. Wickham, talvez, seja o meu favorito, mas acho que acabarei gostando do seu marido tanto quanto do de Jane.

60

Sentindo-se tranquila, Elizabeth começou logo a gracejar. Pediu a Mr. Darcy que explicasse como se tinha apaixonado por ela.
 — Como pôde começar? — perguntou ela. — Posso compreender perfeitamente que tenha continuado uma vez feito o primeiro passo, mas que foi que o impulsionou?
 — Não posso fixar a hora ou o lugar. Isto já foi há muito tempo. Eu já estava no meio e ainda não sabia que tinha começado.
 — Minha beleza você a tinha negado desde o princípio. E quanto às minhas maneiras, meu comportamento para com você sempre beirou a falta de educação. E quase sempre, quando me dirigia a você, era com o intuito de feri-lo. Agora seja sincero: foi por causa da minha impertinência que me admirou?
 — Pela vivacidade da sua inteligência, sim.
 — É melhor chamar logo de impertinência. Era pouco menos. O fato é que estava farto de amabilidades, deferências e atenções. Sentia-se enojado com as mulheres que falavam, agiam e pensavam com o único fito de conquistá-lo. Despertei a sua atenção porque era tão diferente delas. Se você não fosse realmente bom, teria me odiado. Mas apesar do trabalho que teve para disfarçar os seus sentimentos, estes sempre foram nobres e justos. E no seu coração sempre desprezou as pessoas que o cortejavam tão assiduamente. Aí está: já lhe poupei o trabalho de uma explicação; e realmente, pensando bem, acho a minha hipótese muito razoável. Para falar a verdade, não conhecia nenhuma boa qualidade em mim. Mas ninguém pensa nisto quando se apaixona.
 — Então não havia bondade no que fez por Jane quando ela esteve doente em Netherfield?
 — Jane é uma pessoa querida. Quem não teria feito outro tanto por ela? Mas faça disso uma virtude, se quiser; minhas boas qualidades estão sob a sua proteção. Pode exagerá-las quando quiser. Em troca cabe-me o direito de provocá-lo e discutir com você todas as vezes que me apetecer. E eu começarei imediatamente, perguntando por que é que à última hora se mostrou tão indeciso. Por que se mostrou tão tímido comigo por ocasião da sua primeira visita e depois quando jantou aqui? E especialmente, por que a sua atitude era tão distante e fria?
 — Porque você estava grave, silenciosa e não me deu nenhum encorajamento.
 — Mas eu estava embaraçada.
 — E eu também.
 — Podia ter conversado comigo quando veio jantar.
 — Um homem menos apaixonado o teria feito.
 — É pena que encontre para tudo uma resposta razoável e que eu tenha o bom senso de aceitá-la. Mas eu pergunto a mim mesma quanto tempo teria levado para se declarar se eu nada lhe tivesse perguntado. Minha resolução de lhe agradecer a sua bondade para com Lydia teve certamente um grande efeito. Receio que até mesmo demasiado. Que será da moral se o nosso entendimento for devido a uma quebra de promessa? Já que eu não deveria ter mencionado o assunto. Isto assim não está bem.
 — Não precisa ficar preocupada. A moral está salva. As injustificáveis tentativas de Lady Catherine para nos separar foram um meio de remover todas as minhas dúvidas. Não é ao seu ávido desejo de exprimir a sua gratidão que devo a minha atual felicidade. Eu não teria esperado. A comunicação de minha tia renovara as minhas esperanças. Eu estava decidido a saber de tudo imediatamente.
 — Lady Catherine nos foi de imensa utilidade. E isto devia torná-la feliz, pois ela gosta de ser útil. Mas diga-me, por que veio a Netherfield? Foi apenas para passear em Longbourn e ficar embaraçado? Ou tinha intenções mais sérias?
 — Meu fito real foi vê-la e verificar se eu poderia um dia ter a esperança de fazer com que me amasse. O motivo declarado ou pelo menos aquele que confessei a mim mesmo foi verificar se a sua irmã ainda gostava de Bingley e, caso ainda gostasse, fazer ao meu amigo a confissão que mais tarde eu realmente lhe fiz.
 — Você jamais terá coragem de anunciar a Lady Catherine o que nos espera?
 — É mais fácil faltar-me o tempo do que a coragem. Mas já que tem de ser feito, dê-me uma folha de papel e escreverei imediatamente.
 — E se eu não tivesse também uma carta a escrever, sentaria ao seu lado e admiraria a regularidade da sua caligrafia como certa moça, um dia, já fez. Mas eu tenho também uma tia e estou em falta com ela.
 Para não responder que seus tios tinham exagerado o seu interesse por Mr. Darcy, Elizabeth ainda não respondera a carta de Mrs. Gardiner. Agora, porém, sabendo que ela receberia da melhor maneira possível a comunicação que tinha a fazer, Elizabeth se sentia quase envergonhada ao refletir que seu tio e sua tia já tinham perdido três dias de felicidade, e imediatamente respondeu o seguinte:
Eu já teria escrito antes, minha querida tia, para lhe agradecer, como devia, a sua longa e boa carta, cheia de detalhes satisfatórios, se, para falar a verdade, não estivesse aborrecida demais para escrever. A senhora supôs mais do que realmente existia, mas agora suponha tanto quanto quiser. Solte as rédeas da sua fantasia e entregue-se à sua imaginação, para os voos mais arrojados. E a não ser que suponha que já estou realmente casada, não poderá errar muito. Escreva-me novamente muito breve e faça a ele muito mais elogios do que na sua última carta. Não me canso de lhe agradecer por não me ter levado aos Lagos. Não sei como pude ter a tolice de desejar esse passeio. A sua ideia dos pôneis é encantadora. Faremos a volta do parque todos os dias. Sou a criatura mais feliz do mundo. Talvez outras pessoas já o tenham dito antes mas não com tanta justiça. Sou mais feliz até do que Jane. Ela apenas sorri e eu rio. Mr. Darcy lhe envia todo o amor que ainda lhe resta. Estão todos convidados para vir a Pemberley pelo Natal. Sua, etc.
A carta de Mr. Darcy para Lady Catherine foi escrita em estilo diferente. Diferente também de ambas foi a carta que Mr. Bennet escreveu para Mr. Collins, em resposta à última daquele cavalheiro.
 Caro senhor:
 Venho incomodá-lo mais uma vez com participações. Elizabeth será em breve a esposa de Mr. Darcy. Console Lady Catherine como puder. Mas se estivesse em seu lugar, ficaria do lado do sobrinho. Ele tem mais a dar. Seu, sinceramente, etc.
Os parabéns que Miss Bingley mandou para o seu irmão pelo seu próximo casamento foram tudo o que havia de mais afetuoso e insincero. Ela escreveu até para Jane, nesta ocasião, a fim de exprimir o seu contentamento e repetir todas as suas anteriores declarações de estima. Jane não se iludiu, mas ficou tocada. E embora não tendo confiança nela, não pôde deixar de lhe escrever uma carta muito mais amável e carinhosa do que ela sabia que a outra merecia.
 A alegria que Miss Darcy exprimiu ao receber uma informação semelhante foi tão sincera quanto a do seu irmão ao enviá-la. Quatro páginas de papel foram insuficientes para conter toda a alegria que ela queria exprimir e o seu sincero desejo de ser estimada pela sua futura irmã.
 Antes de chegar qualquer resposta de Mr. Collins, ou parabéns de Charlotte para Elizabeth, a família de Longbourn soube que os Collins em pessoa tinham chegado a Lucas Lodge. O motivo dessa súbita viagem tornou-se logo evidente. Lady Catherine se tinha enfurecido de tal modo com a carta do seu sobrinho, que Charlotte, que na realidade se alegrava com o casamento, ficou ansiosa para ir embora até que a tempestade passasse. Naquele momento a chegada da sua amiga causou um sincero prazer a Elizabeth, muito embora, todas as vezes que estivessem juntas, esse prazer tivesse de ser pago a alto preço, quando veria Mr. Darcy exposto a todas as cortesias obsequiosas e pomposas de Mr. Collins. Darcy no entanto suportou tudo aquilo com uma calma admirável. Ouviu até com serenidade as palavras de Sir William Lucas, que o cumprimentou por ter conquistado a mais bela joia do país e exprimiu a esperança de que se encontrassem todos frequentemente em St. James. Se ele chegou a erguer os ombros, foi só depois que Sir William Lucas lhe tinha voltado as costas.
 A vulgaridade de Mrs. Philips foi outra sobrecarga para a sua paciência, talvez ainda maior do que as outras. Embora Mrs. Philips, como a sua irmã, Mrs. Bennet, se sentisse atemorizada diante de Darcy, que não tinha o bom humor de Bingley, todas as vezes que abria a boca, era só para dizer coisas vulgares. Elizabeth fez tudo o que pôde para protegê-lo das frequentes atenções de ambas, procurando guardá-lo para si mesma e para as pessoas da sua família com quem ele podia conversar sem se sentir mortificado. E embora as contrariedades resultantes de tudo isso estragassem muito o prazer do seu noivado, faziam Elizabeth pensar com maior satisfação no futuro, antecipando a vida confortável que teriam em Pemberley, longe daquela sociedade tão pouco agradável para ambos.

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Grato para os seus sentimentos maternais foi o dia em que Mrs. Bennet se viu livre de duas das suas mais queridas filhas. É fácil imaginar com que orgulho ela visitava, mais tarde, Mrs. Bingley, e conversava com Mrs. Darcy. Eu desejaria poder acrescentar, para bem da família, que a realização dos seus mais caros desejos tivera o feliz efeito de torná-la uma mulher sensata, discreta e interessante para o resto da sua vida. No entanto foi bom para o seu marido que assim não acontecesse, pois talvez ele não tivesse apreciado uma felicidade doméstica tão excepcional. Mrs. Bennet continuou invariavelmente nervosa e ocasionalmente tola.
 Mr. Bennet sentiu grandemente a falta da sua segunda filha. A sua afeição por ela foi um dos motivos que daí por diante mais o obrigaram a sair de casa. Ele gostava muito de ir a Pemberley, principalmente quando não era esperado. Mr. Bingley e Jane ficaram em Netherfield apenas mais um ano. Tamanha proximidade da sua mãe e dos seus conhecidos de Meryton não era desejável, mesmo levando em conta o gênio fácil de Bingley e o coração afetuoso de Jane. O grande desejo das irmãs de Bingley foi satisfeito: ele comprou uma propriedade nas proximidades do Derbyshire. E em acréscimo a todas as suas outras felicidades, Jane e Elizabeth tiveram a de residir a trinta milhas uma da outra.
 Kitty passava a maior parte do seu tempo com as duas irmãs mais velhas. E isto foi de grande vantagem para ela. Numa sociedade tão superior à que ela tinha conhecido, fez grandes progressos. Kitty não tinha um gênio tão rebelde quanto Lydia. E longe da influência e do exemplo da irmã, graças a certos cuidados e atenções, ela se tornou menos irritável, menos ignorante e menos insípida. A sua família julgou dever preservá-la de qualquer nova influência da parte de Lydia. E embora Mrs. Wickham frequentemente a convidasse para vir passar tempos em sua casa, com promessas de bailes e de rapazes, seu pai jamais consentia que ela fosse.
 Mary foi a única filha que permaneceu em casa. E como Mrs. Bennet não suportasse a solidão, ela foi de qualquer modo impedida de prosseguir no aperfeiçoamento dos seus talentos. Obrigada a frequentar mais assiduamente a sociedade, continuou no entanto a tirar conclusões morais de cada visita que fazia. E como Mary não se mortificasse mais com as comparações entre a beleza das suas irmãs e a sua própria, seu pai desconfiou que ela aceitava sem muita relutância essa alteração dos seus hábitos.
 Quanto a Wickham e Lydia, o casamento pouco os alterou. Wickham se resignou filosoficamente à convicção de que Elizabeth sabia agora de todas as suas ingratidões e mentiras. E, apesar de tudo isto, continuava a alimentar a esperança de que ela um dia pudesse convencer Darcy a fazer a sua fortuna. A carta que Elizabeth recebeu de Lydia por ocasião do seu casamento, lhe revelou que tal esperança era acalentada pela mulher, senão pelo próprio marido. A carta dizia o seguinte:
Minha querida Lizzy: desejo-lhe todas as felicidades possíveis. Se o seu amor por Mr. Darcy é apenas metade do que o que eu sinto pelo meu marido Wickham, você deve ser muito feliz. É um grande consolo saber que você é tão rica. E quando não tiver mais nada a fazer, espero que pensará em nós. Wickham gostaria muito de ter uma situação na Justiça. Não creio que tenhamos bastante dinheiro para viver sem algum auxílio. Qualquer lugar de trezentas ou quatrocentas libras por ano serviria. No entanto não fale sobre isto a Mr. Darcy, se prefere ficar calada. Sua, etc.

Como Elizabeth preferia muito ficar calada, procurou, na sua resposta, pôr um termo a todos os pedidos desta natureza. No entanto ela lhes enviava tudo o que podia economizar das suas despesas particulares. Sempre lhe parecera evidente que a renda que eles tinham, dirigida por pessoas tão extravagantes nos seus desejos e tão descuidadas do futuro, seria insuficiente para o seu sustento. E quando o casal mudava de residência, Jane ou Elizabeth podiam estar certas de receber um pedido de auxílio, pois havia sempre contas a pagar. Sua maneira de viver, mesmo quando possuíam uma casa, era a mais irregular possível. Estavam continuamente de mudança, de lugar para lugar, em busca de uma situação barata e gastavam sempre mais do que possuíam. A afeição de Wickham por Lydia em breve se transformou em indiferença. A de Lydia resistiu por mais algum tempo. Apesar da sua mocidade e das suas maneiras ela conservou intacta a reputação que o casamento lhe havia assegurado.
 Embora Darcy nunca se pudesse resignar com a ideia de receber Wickham em Pemberley, no entanto, graças à interferência de Elizabeth, ele o ajudou na sua carreira. Lydia os visitava, ocasionalmente, quando o seu marido tinha ido a Londres ou a Bath, para se divertir.
 Em casa dos Bingley, no entanto, eles se demoravam muito mais tempo, a ponto de esgotar o bom humor de Bingley. Uma vez ele chegou a dizer que ia lançar uma indireta para que eles fossem embora.
 Miss Bingley ficou profundamente mortificada com o casamento de Darcy; mas como julgava aconselhável conservar o direito de frequentar Pemberley, sufocou todos os seus ressentimentos. Continuou a gostar de Georgiana, como antes, mostrou-se quase tão atenciosa para com Darcy como antigamente, e pagou com juros todas as cortesias que devia a Elizabeth.
 Georgiana foi residir em Pemberley. A afeição das duas novas irmãs correspondeu a todas as expectativas de Darcy, e até mesmo às intenções das duas moças. Georgiana tinha uma grande admiração por Elizabeth. A princípio ouvira com assombro e um pouco de terror os gracejos e brincadeiras de Elizabeth. O irmão sempre lhe inspirara um respeito que quase sufocava a sua afeição. Começou a saber de coisas que ignorava. Elizabeth lhe explicou que uma esposa pode se permitir liberdades com o marido que um irmão nem sempre poderia tolerar na sua irmã dez anos mais moça do que ele.
 Lady Catherine ficou extremamente indignada com o casamento do seu sobrinho. Dando largas à franqueza que a caracterizava, ela enviou uma resposta em termos tão violentos, especialmente contra Elizabeth, à carta de participação do seu sobrinho, que durante algum tempo todas as relações foram cortadas. Mas afinal, Elizabeth conseguiu que o marido perdoasse a ofensa e procurasse uma reconciliação. Depois de alguma resistência, o ressentimento de Lady Catherine cedeu, talvez diante da afeição que tinha pelo seu sobrinho ou da curiosidade de ver como a sua esposa se conduzia; e ela consentiu em ir visitá-los em Pemberley, apesar da ofensa que seus ilustres antepassados tinham recebido, não somente pela presença de uma esposa de tão baixa extração, como pelas visitas dos seus tios de Londres.
 Com os Gardiner eles ficaram sempre em termos muito íntimos. Darcy, a exemplo de Elizabeth, tinha a maior afeição por eles. E além disso nunca se esqueceram da gratidão que deviam às pessoas por cujo intermédio eles tinham reatado as suas relações, durante aquele passeio pelo Derbyshire.

fim
e daí me vem toda a inspiração....