& Moira Bianchi: seculo 19
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domingo, 29 de novembro de 2020

Compras, liberdade feminina e black friday: adoro!

Olá!

Black Friday chegou e passou, mas o Natal bate à nossa porta. Além de uva passa, parente serpente e show do rei RC, essa época significa:

COMPRAS!

Comprando anel de noivado, Bertha ficou famosa por ter dedos extremamente finos' - gravura da metade do século 19 - disponível na Amazon

Sabe qual é a importância desse 'hobby' para o universo feminino?

Ajudou muito o desenvolvimento das empresas de cartão de crédito, sim, mas ir às compras agiu principalmente no tocante da conquista da independência feminina.

Passear livremente

As mulheres eram confinadas às suas casas que não eram apenas confortáveis, mas consideradas o único lugar seguro para elas. Essa proteção era mais figurativa do que literal; na época, apenas ser olhado por uma pessoa “indesejável” era considerado um insulto a mulheres “respeitáveis”. Então, era comum o comércio a domicílio.

Antigamente, mascates visitavam casas vendendo de tudo um pouco: fitas, botões, tecidos, móveis, serviços de cabeleireiro, retratista, etc. Era assim na época de Jane Austen, aqui no Brasil Colonial, nos EUA. Bem me lembro da visita do mascate na minissérie Alias Grace (passado no Canadá de 1843). Já viu?

tumblr


Vale lembrar o que já comentei aqui em outros posts, a situação feminina nos séculos 18 e 19 era muito diferente da nossa no século 21. Naquela época, a mulher era um pacote que devia ser carregado para cá e para lá pelo homem da família - fosse ele pai, irmão, sobrinho, cunhado. Sair de casa sozinha era proibido, elas deviam estar sempre acompanhadas por um parente ou uma chaparone, essa função sim poderia ser ocupada por outra mulher - criada, mãe, preceptora, avó. Liberdade elas tinham dentro de casa - mas nunca na frente de criados. As mais empobrecidas tinham mobilidade porque precisavam trabalhar para sobreviver, iam e vinham cumprindo ordens dos patrões, viviam do sexo ou das artes (ambas funções condenadas) e com isso, estavam mais expostas aos riscos oferecidos pelos homens tarados. 

Parece exagero e bobeira, mas não era. Se tiver saco, leia este artigo que compila arquivos de tribunais do final da era Vitoriana e Eduardiana, a tendência de questionar a respeitabilidade feminina e julgar a vontade delas de adequadamente resistir (ou não) aos avanços sexuais masculinos.

A vendedora de modas Bénard - 1769 - wiki


Mas o assunto aqui não é tão espinhoso. A invenção do ato de fazer compras como experiência, lazer, forma de passar tempo agradavelmente foi muito importante para os direitos das mulheres que empurrou diretamente a ascensão dos centros comerciais de lojas, confeitarias e restaurantes. Os shopping centers de hoje eram os quarteirões de lojas elegantes - que existem ainda.

Esses lugares foram fundamentais, pois abriram as cidades modernas para as mulheres e deram-lhes áreas onde elas, como os homens, poderiam vagar à vontade. 

Para muitas mulheres na era Vitoriana, especialmente na Grã-Bretanha, sair para fazer compras significava um gostinho de liberdade e ponto de partida para entrada na vida pública. A historiadora E. Rappaport em seu livro Shopping For Pleasure explica assim: “A respeitabilidade e a posição social de uma família dependiam da ideia de que a esposa e a filha de classe média permaneciam separadas do mercado, da política e do espaço público, então a mulher compradora era uma figura especialmente perturbadora.”

Foi mesmo um tipo de escândalo social, uma revolução, quando no final do século 18 e no 19, os centros urbanos passaram do domínio masculino que se dedicavam política e negócios para a frequente visita feminina. As mulheres pouco tinham presença pública, podiam ir a galerias, ao parque e exposições nos museus com um acompanhante masculino, e algumas mais ricas faziam compras. Com a industrialização e a revolução manufatureira do século 19, que produziu móveis, talheres, roupas e etc e tal em volumes assombrosos. A explosão na variedade e disponibilidade de bens de consumo significou que a crescente classe média poderia repentinamente comprar coisas apenas pelo prazer. A quem caberia essa árdua tarefa de escolher o que comprar? Às mulheres, claro.

loja de vidro em Londres, Pellatt and Green's. 1809


Se eram elas que ficavam em casa, normalmente seriam elas a saber o que a vida doméstica precisava e com isso, nasceu um passatempo. Logo, as donas de casa começaram a vagar pela cidade sob o pretexto de comprar coisas. Por esta nova definição, “comprar” nem sempre envolveu uma compra real. Tratava-se dos prazeres de admirar, ver os pontos turísticos, as exibições, as pessoas. 

O mundo era dividido em duas esferas durante a era vitoriana, e essas fronteiras eram rígidas: os homens possuíam centros urbanos, as mulheres possuíam salas de estar.

Este desequilíbrio de poder era considerado necessário para manter a ordem social.

Os varejistas urbanos receberam as mulheres com entusiasmo a ponto de inventar lugares como a loja de departamentos, onde as mulheres podiam fazer compras com conforto, cercadas de amenidades e semiparticulares. O seriado Mr. Selfridge conta o passo-a-passo desse raciocínio, como ele percebeu que somente oferecendo segurança ele conseguiria convencer as pessoas - em especial mulheres - a frequentar sua loja.

media player news


“Ao fornecer um motivo - fazer compras - para que as mulheres apareçam sem escolta em público, bem como providenciar espaços seguros como banheiros e salões de chá onde as mulheres possam se reunir ou sentar-se sozinhas sem medo de serem molestadas por homens ... as lojas de departamentos também tornaram isso possível para as mulheres deixar o espaço doméstico da casa e reivindicar o centro da cidade “, escrevem os sociólogos Sharon Zukin e Jennifer Smith Maguire.

Mas muito antes das lojas de departamento, a cidade precisou se reconfigurar para receber essa nova demanda, as mulheres compradoras não tinham onde almoçar ou o banheiro. Mas logo, escreve Rappaport, feministas multiformes pressionaram o governo da cidade a instalar banheiros públicos. Clubes e casas de chá surgiram para as mulheres comerem entre as compras.

O normal era entrar na loja, cumprimentar o dono/vendedor e entregar uma lista do que a mulher precisava, se despedir e sair. O sujeito se ocuparia de separar tudo, embrulhar e mandar entregar na casa da madame e cobrar ao marido. Com o tempo, a mudança social permitiu que elas passassem tempo nas lojas escolhendo, experimentando, apreciando o passeio.

a tentação

the independent


Com essas mudanças surgiram novos males sociais como um surto de furtos em lojas. Autoridades, médicos inclusive, chegaram à conclusão que, por se tratar de ações (contravenções) perpetradas por mulheres, muitas abastadas, se tratava uma condição médica relacionada ao útero e inventaram a doença “cleptomania”. Klepto (roubo) e mania (mania) é um termo pela que descreve ladrões que agem impulsivamente surrupiando itens desnecessários por pura insanidade. É um comportamento caracterizado por irresistíveis e involuntários impulsos involuntários. A pessoa é “forçado a roubar” devido a uma doença mental, não por falta de fortaleza moral. Devido à percepção de que tal comportamento afetava apenas mulheres afetadas (atá!), explicações no final do século 19 ligavam o comportamento a doenças uterinas ou tensão pré-menstrual quanto possível causas. 

Com o aumento da variedade de roupas, alimentos e utensílios domésticos, as compras tornaram-se uma importante atividade cultural no século XVIII. Uma tentação também. Há até quem faça uma conexão da compra e venda durante o período e com os muitos bens de luxo e as plantations de escravos na América do Sul e no Caribe. O maior poder de compra e queda gradual dos preços levaram ao aumento da demanda por novos produtos de consumo como açúcar que na Grã-Bretanha, por exemplo, dobrou entre 1690 e 1740, enquanto o preço do chá caiu pela metade. Mas a maior disponibilidade de tais luxos tinha um lado mais sombrio. As importações de algodão em bruto, açúcar, rum e tabaco originavam das Américas e do Caribe escravocratas, onde africanos escravizados como sua principal fonte de trabalho.

Desde o período georgiano, descrito por historiadores como a "era das manufaturas", homens e mulheres britânicos passaram a ter acesso a uma gama estonteante de coisas materiais. Com as melhorias na tecnologia de transporte e fabricação, as oportunidades de compra e venda tornaram-se mais rápidas e eficientes do que nunca. Mais produtos criaram a necessidade de mais compradores para sustentar uma nova economia de consumo. Em resposta, as lojas decidiram ter como alvo um novo mercado: a mulher próspera. Se as mulheres tivessem um lugar seguro e socialmente aceitável para fazer compras, raciocinaram os varejistas, elas aprenderiam sobre e comprariam novos produtos. E como uma coisa puxa a outra que puxa uma que puxa a outra, vilas e cidades passaram a crescer rápido e as compras se tornaram uma parte importante da vida cotidiana, uma atividade cultural por si só. Para atender às demandas, apareceram nichos, como as muitas lojas refinadas em elegantes distritos, por exemplo Strand e Piccadilly, em Londres, e em balneários como Bath e Harrogate.

Nos bairros mais pobres, dezenas de lojas competiam entre si também representando um importante centro de atividade social na maioria das comunidades. As feiras semanais de produtos agrícolas e pecuários também eram eventos importantes na maioria das cidades (hoje ainda é assim, né?), junto com a agitação diária de vendedores ambulantes de todos os tipos de produtos por alguns centavos: doces, peixes, frutas, vegetais e uma variedade de produtos domésticos. Crianças vendedoras de flores eram comuns, outras também pediam moedas em troca de varrer a rua para damas atravessarem (não esqueça que com cavalos e carruagens, as ruas eram cheias de estrume. Éca!), e outras funções.

The Flower girl - J G Brown, 1877


As fachadas das lojas eram projetadas para atrair a atenção dos passantes e atrair os clientes para dentro. Janelas em arco exibindo mercadorias, placas penduradas, luzes brilhantes, espelhos e anúncios comerciais coloridos se tornaram características padrão do varejo no início do século.

Muitas lojas atendiam especificamente a gostos refinados, e comprar nelas passou a definir o status social de uma pessoa. Milliners, armarinhos, ourives e vendedores de móveis, entre outros, todos apelaram aos gostos mais recentes entre os ricos. Um visitante de Londres no final do século descreveu 'um mundo de placas de ouro e prata, depois pérolas e joias derramando seu brilho deslumbrante, manufaturas caseiras do gosto mais requintado, um oceano de anéis, relógios, correntes, pulseiras, perfumes, vestidos prontos, fitas, rendas, gorros e frutas de todas as zonas do mundo habitável '.

The repository of Arts, Literature, Commerce, Manufactures, FAshions and Politics, 1809


A maioria dos varejistas se especializava em produtos específicos: tecidos, livreiros, fabricantes de perucas, meias, por exemplo. A maioria dos comerciantes emitia cartões convidando pessoas de uma área local para atrair clientes e melhorar sua reputação. Os clientes que entravam em uma loja podiam manusear mercadorias no balcão da loja e eram estimulados a experimentar as mercadorias para sentir os tecidos mais recentes, por exemplo, ou para experimentar relógios ou simplesmente relaxar em móveis novos. Como hoje, a experiência geral de compra era frequentemente tão importante quanto a qualidade dos próprios produtos.

No seriado Sr. Selfridge, o plot da personagem Agnes começa quando ela é vendedora e deixa a cliente manusear luvas em uma lojinha. Apesar do seriado se passar em 1908, é tomado como uma novidade, a liberdade de tocar em mercadorias e acaba por nortear a visão comercial de Selfridge.

Roupas e moda eram muito importantes, um único item de roupa frequentemente representava o item mais caro nas posses de uma pessoa e novos itens menores como golas e punhos geralmente eram muito valorizados. As roupas de lã, pesadas e difíceis de limpar, começaram a desaparecer gradualmente a partir da primeira metade do século. Estes foram substituídos por tecidos de algodão estampados mais baratos que foram primeiro importados da Índia e posteriormente fabricados na expansão do comércio têxtil britânico no norte da Inglaterra. 

uma pausa para Mr. Thornton, please

Norte e Sul minissérie, pic do giphy - Não é neve, é fuligem de algodão da tecelagem dele.


As roupas de algodão permitiam aos homens e mulheres comuns uma escolha maior de roupas leves e coloridas, duráveis, fáceis de lavar e, portanto, mais higiênicas para o usuário. 

Cada vez mais havia opções variadas de itens à escolha para compor a vestimenta. Para homens de todas as classes, terno de três peças: calça, colete e casaco longo, camisa de babados, meias e cravat. Para as mulheres, corpete, anágua e saias, vestidos, luvas, parassol, bonnet, etc, etc. Os tecidos mais baratos eram impressos com desenhos florais ou estampados, embora os itens caros fossem feitos de seda e bordados ou acolchoados. 

Muitos homens perdem a paciência em dias de compras muito extensos, mas as mulheres geralmente adoram. Eu goshto muito e meu Hubs se aproveita disso: desde que casamos, ele nunca mais comprou uma peça de roupa; fica tudo comigo. Assim era desde sempre, acredito. 

Por isso coube às mulheres essa revolução de ir às compras.

Bom gosto e paciência

E não se limitava a vestuário, livros, etc; comida também teve parte nesta evolução. A maioria das cidades desfrutava de produtos frescos como resultado da expansão do comércio interno. Londres - como um porto marítimo movimentado - tinha acesso regular a frutos do mar, frutas e vegetais frescos também chegavam das hortas e pomares dos condados de origem nas proximidades, e outras cidades, outras cidades mantinham mercados agrícolas e pecuários semanais.

Comer e beber continuava na moda entre os ricos, mas mesmo para os membros mais pobres da sociedade, comer fora era possível. A maioria das cidades do século 18 tinha uma variedade de lojas de culinária e tavernas onde as refeições podiam ser compradas a baixo custo e bebidas como café e chocolate podiam ser consumidas. Em meados do século, havia cerca de 50.000 estalagens e tabernas na Grã-Bretanha atendendo a todos os tipos de clientes. Os cafés, em particular, tornaram-se grandes centros de sociabilidade, onde se discutia política e se realizavam transações comerciais. Muitos bancos e seguradoras, como o Lloyd's de Londres, devem suas origens a essa "cultura do café" do século XVIII.

Tal como aconteceu com a comida, ao longo desse período os objetos da vida cotidiana que antes eram caros demais para todos, exceto para os ricos, tornaram-se gradualmente acessíveis às massas. Variedades mais baratas e produzidas em massa de muitos itens domésticos estavam agora ao alcance do homem e da mulher comum.

A prosperidade e a expansão nas indústrias de manufatura, como cerâmica e metais, aumentaram drasticamente a escolha do consumidor. O  trabalhadores que comiam em travessas de metal com instrumentos de madeira, poderiam então jantar na porcelana Wedgwood. Os consumidores passaram a exigir uma série de novos produtos domésticos e móveis: facas e garfos de metal, por exemplo, assim como tapetes, carpetes, espelhos, fogões de cozinha, potes, panelas, relógios, relógios e uma variedade estonteante de móveis. A era do consumo em massa havia chegado.

prato vintage Wedgwood, sec 19 - £245,00 no ebay (R$ 1.750,00)

Para as mulheres, tudo mudou realmente com a invenção das lojas de departamento. Luxuosos palácios de varejo iluminados por milhares de lâmpadas a gás, grandes vitrines de vidro plano, recheadas de peles, luvas e tecidos, e de música tocada ao vivo artistas contratados foram os primeiros espaços urbanos onde as mulheres podiam circular sem a “proteção” dos homens fora de casa. Por mais que as mulheres gostassem de ser atendidas por vendedoras cuidadosamente vestidas ou relaxar nos assentos dispostos para conversar sobre suas compras com as amigas, elas estavam experimentando um novo tipo de liberdade.

Como era esperado que as mulheres de classe média e alta saíssem às ruas apenas acompanhadas, muitas lojas, restaurantes e locais públicos eram fechados ou mesmo proibidos para damas sozinhas. A etiqueta apropriada desencorajava as mulheres de se demorar nas calçadas, uma dama de bom comportamento deveria se vestir de maneira discreta, ter modos discretos, ser quase invisível em público.

O conceito de espaço seguro para mulheres perderem tempo avaliando itens e por conseguinte, comprando, levou à criação de um tipo totalmente diferente de loja, um ambiente mais feminino, por assim dizer.

respeitável, atraente, convidativa e bonita

Loja de departamentos Wanmakers inaugurada em 1876. Philly, USA. pic do pinterest

>> a loja de departamentos, não a mulher <<

Muito diferentes das monótonas lojas onde os homens costumavam se reunir,  as lojas de departamento eram grandes, limpas e atraentes, com muitos tipos diferentes de produtos sob o mesmo teto, organizados em seções. E seus inventores perceberam algo que os varejistas anteriores não perceberam: fazer compras podia ser divertido.

Varejistas experientes como Harry Gordon Selfridge e Rowland Hussey Macy fizeram dessas lojas uma extensão da casa de família, a fim de garantir às mulheres que fazer compras ali não prejudicaria sua reputação. Com uma equipe predominantemente feminina, as lojas apresentavam móveis luxuosos, tapetes, poltronas e confortáveis ​​vestiários privados. Os preços eram fixos, de modo que não se esperava que as mulheres barganhassem ou, em alguns casos, até lidassem com dinheiro - as cobranças eram enviadas depois, geralmente aos maridos (venda a crédito, né?). As lojas contavam com guardas de segurança e se tornaram, nas palavras do dono da loja de departamentos de Boston, Edward Filene, um... 

“Éden sem Adão”

Quanto mais caseira a atmosfera, maior a probabilidade de uma mulher permanecer ali. O Emporium em São Francisco, por exemplo, contava com: 

-berçário, 

-pronto-socorro, 

-correio, 

-salão de beleza 

-biblioteca. 

O Marshall Field's em Chicago tinha um escritório de informações em grande escala e apresentava vários lugares para as mulheres jantarem e tomarem chá. E separar salas para fumantes e até mesmo entradas oferecia aos homens um lugar para se divertir sem perturbar ou colocar em risco as mulheres dentro de si.

perfumaria da Harrods Londres, 19o3 - pinterest


As compras logo se tornaram uma forma popular de as mulheres saírem de casa. De repente, era socialmente aceitável que as mulheres estivessem na rua e tudo mudou. Restaurantes e teatros que antes eram fechados para mulheres sozinhas perceberam que elas também podiam ser clientes e começaram até ofereceram bebidas alcoólicas - uma inovação que acabou com outro tabu social. Mais mulheres começaram a usar o transporte público, frequentar saguões de hotéis e até ir a bancos.

Com essa mobilidade recém-descoberta veio o poder econômico também. Essa nova economia criou empregos para as mulheres e possibilitou que mulheres solteiras vivessem e trabalhassem fora de suas casas, sem colocar em risco sua reputação. 

As ricas compradoras geraram mais empregos para as mais empobrecidas, um círculo virtuoso de feminismo - uma tem liberdade de sair de casa para comprar para outra ter liberdade de sair de casa para vender. 

fashion plate Harrods Londres - wiki


Com o passar dos anos, as mulheres se tornaram as principais consumidoras de suas famílias e as marcas começaram a disputar sua atenção e seus dólares. Depois que as mulheres se tornaram compradores, elas sobrecarregaram o mercado. Hoje, até 80% de todas as decisões de compra do consumidor são tomadas por mulheres - uma ilustração do imenso poder desencadeado pelas lojas de departamentos e pelas gerações de mulheres que seguiram os primeiros compradores das lojas de departamentos.

Ironicamente, porém, as lojas de departamento que ajudaram a transformar as mulheres em potências de compras com um poder de compra de até US $ 20 trilhões em todo o mundo podem estar em seus dias de declínio. A consumidora hoje presa mais por atendimento personalizado e itens exclusivos. Nem vamos falar dessa época estranha de pandemia quando tivemos que comprar remotamente e felizmente ajudamos quem vendia o que produzia.

livraria Messrs, Lackington, Allen & Co. 1809


Gostou disso tudo? Já sabia de um tanto?

Bacana, né?

Outras pesquisas históricas estão aqui.

Minha lojinha no facebook e instagram tem as promoções de livros para minha black friday. 



até mais!

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e em meus arquivos pessoais.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

O piano na preparação de moças casamenteiras da Regência

Olá,
Sigo na perseguição da plena educação para tornar-me uma lady a preparação de moçoilas para o matrimônio, de preferência com cavalheiros de posses ou membros da nobresa.
Nesta caminhada, as amigas são de grande ajuda. Fran, fair lady Janeite, ofereceu este artigo tão bacana sobre a importância do piano na educação feminina nos tempos da Regência, época de Jane Austen. E isso abriu uma caixa de Pandora.
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'a lady playing a spinet' de CVHolsoe
pic do Twitter
Me interessei na hora!
Daí, conversamos sobre, pesquisei e... 
A coisa tomou fermento!

O instrumento gera muita discussão bacana, tem muita fonte de pesquisa e tudo acho interessante. 
Então resolvi dividir em 4 posts.
Esse é o 2º que tem o artigo original
O piano na Era da Regência
com meus comentários abaixo.

Neste, conto e mostro tipos de pianos usados na Regência e era Vitoriana e seus antepassados. 
Falo de alguns virtuosos e faço uma breve introdução ao que será discutido.

Ao final, incluo links para os dois outros
O piano e a música para Jane Austen
aqui localizo o instrumento na vida e nas obras da Diva



Vamos ao artigo.
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spirit, GRoux, 1885



Piano na Era da Regência  

O piano 
 O piano era um símbolo proeminente de classe e prosperidade, entre outras coisas, durante os séculos 18 e 19. Símbolos como esse visto em Orgulho e Preconceito de Jane Austen são um aspecto crucial para um romance poderoso. O período de Austen era drasticamente diferente do nosso, no entanto, e isso é importante para entender como o significado de símbolos culturais mudaram ao longo do tempo. 


Reconhecer como os símbolos mudaram, 
e compreender os significados que costumavam ser associados a eles, 
é crucial para uma interpretação fidedigna do texto. 

É muito importante entender que nos séculos 18 e 19 o comportamento social do piano, como sua importância e significado no presente, diferem grandemente do seu significado simbólico anteriormente. Se forem compreendidos, uma  interpretação do texto não será precisa, e por isso é tão importante pesquisar e descobrir os simbolismos do período da autora, a Era da Regência.  
Piano Classics from the World of Jane Austen
CD disponível na Amazon
Papel de gênero do piano 

 Há uma conexão significativa entre o piano e o sexo feminino. 
Os estudos de piano eram mais comuns para meninas do que meninos naquela época. Como explicado no artigo “Woman in Piano Pedagogy” (em tradução livre Mulheres na pedagogia do piano) por Debra Brubaker Burns, Anita Jackson e Connie Arrau Sturm, o piano era considerado um perfeito passatempo para uma senhora bem-criada no século 19.  
As mulheres eram encorajadas a entreter seus visitantes e familiares com suas performances, mas desencorajadas a procurar carreiras como musicistas, porque isso era considerado “uma profissão muito fatigante para mulheres” como dito pelo editor da revista inglesa de música “World” em 1939. Buscar uma carreira musical não era aprovado, mas uma quantidade crescente de mulheres começou a tocar para ganhar renda e, assim, maior independência. Entre 1852 e 1881, o número de musicistas mulheres triplicou, como explicado em “Woman in Piano Pedagogy”. 
Em O&P, Mary é frequentemente encontrada tocando piano, e ela também é muito independente, assim sua performance é possivelmente uma manifestação social de Austen falando contra os direitos limitados das mulheres. 
Jane Austen Entertains: Music from her own library
mp3 disponíveis na Amazon - dá para ouvir trechinhos

Como dito por Mary Burgan, tocar piano era o indicador de status social assim como um dos feitos da mulher da sociedade refinada. 

Como nós podemos ver, o papel dos pianos mudou drasticamente. Em nossos tempos modernos, o piano não tem correlação com o gênero. Meninos tocam piano, meninas tocam piano; tem o mesmo sentido de um garoto ou garota indo à faculdade. No passado, era algo que só homens faziam. No século 21, é comum para ambos os gêneros frequentar faculdade. 


Esse é outro exemplo de como os sentidos e a implementação 
de diferentes coisas na sociedade mudaram com o tempo. 

Agora o piano não tem nenhuma associação que costumava ter; é simplesmente um instrumento, assim como o violoncelo e/ou trompa. Enquanto muitas famílias de classe alta, com frequência, possuíam um grande piano e um lugar em sua larga sala de visitas, o piano era em si, algo desfrutado e praticado por todas as classes.
  
Relevância e Significado do piano na Era da Regência  
 A maior importância do piano era fazer as jovens damas mais atraentes para o casamento, enquanto simultaneamente atuar como um símbolo das posses da família. O piano se tornou um instrumento onipresente nas casas burguesas. Garotas de posses com frequência começavam a tocar piano desde cedo e continuavam a aperfeiçoar suas habilidades até se tornarem mais velhas e mais maduras. Apesar de fazer a mulher mais atrativa para o casamento ser a razão mais importante para tocar piano, havia também outras razões. O piano provia música para todos os membros da família desfrutarem.  
Mulheres eram encorajadas a tocar para convidados e eram entretenimento para os familiares, mas como dito anteriormente não significava buscar carreira profissional. Se uma mulher buscasse uma carreira profissional, isso significaria que ela estava escapando de sua respectiva esfera de existência, que era a da casa e da família.  
O piano era muito importante na Europa como um símbolo de status. Christopher Wagner explica que, “o preço [do piano] no fim do século 18 caiu, mais ainda assim, apenas família de posses, eram quem podiam pagar por eles. Um piano de cauda custava tanto que poderia equivaler um ano de ganhos de um trabalhador habilidoso. O piano era um instrumento de classe, e classe era muito importante na sociedade do século 18 e 19, e então era muito importante para famílias ricas ostentarem um piano.  
Companion
CD disponível na Amazon
Importância do piano, e outros símbolos em Orgulho e Preconceito.  
 Os símbolos no romance de Austen, tais como o 
- piano, 
- cartas, 
- salões de bailes e 
- propriedades rurais com grandes sedes
refletem as engrenagens da cultura do período. 
As cartas da época de Austen carregam um significado bem diferente dos que elas têm agora. No século 21, as cartas não são muito usadas, foram substituídas por inúmeros tipos de dispositivos eletrônicos de comunicação, como os e-mails e mensagens. Na era de Austen a carta era a única forma de comunicação à distância, além do mensageiro pessoal, é claro (o que a maioria das pessoas não tinham), e isso era uma significativa parte da vida e uma arte a ser aprendida. 
Da mesma forma que o piano que é agora mais ou menos apenas um instrumento musical, na época de Austen era um símbolo de posses, classe, habilidades, entretenimento, e credibilidade para uma mulher no departamento do casamento. 
Do mesmo jeito ser uma boa escritora de cartas refletia a sua educação, sua habilidade ao piano era muito importante. Subentendia-se que uma boa tocadora de piano vinha de família com dinheiro que podia adquirir um instrumento, arcar com o custo de aulas e ter tempo livre para estudar já que ela não precisava trabalhar, ou seja, seria um bom partido, item visado no mercado do casamento.  


O piano e Orgulho e Preconceito 

(Frases explicadas) 
Capítulo 29, Lady Catherine interroga Lizzy Bennet.


“Oh! Então, uma hora ou outra, ficaremos feliz em ouvi-la. 
Nosso instrumento é excepcional, provavelmente superior a... 
Você deveria experimentar um dia. – Suas irmãs tocam ou cantam?” 


Nem Lady Catherine nem sua filha Anne tocam piano, mas mesmo assim elas tem um instrumento de qualidade excepcional - lembre-se que isso é símbolo do riqueza e poder delas. 
Lady Catherine deve ter pianos em sua casa para simbolizar sua própria superioridade social e financeira. Mostrar sua riqueza e poder era muito importante na época, e, portanto, era necessário para ela possuir seu próprio instrumento.  


“Por que nem todas aprenderam? Vocês todas deveriam ter aprendido. 
Todas as senhoritas Webb tocam, e o pai delas não tem uma renda tão boa como o de vocês.
Você desenha? ”


É dado a Lady Catherine o status social, e com isso o direito inerente de perguntar a Elizabeth praticamente qualquer coisa que ela quiser. 
Além disso, Lady Catherine sente como se tivesse o conhecimento final em todos os assuntos, o que nem de longe é verdade. 
Lady Catherine se pergunta por que Elizabeth e suas irmãs não tiveram aulas de piano, especialmente quando famílias com até menos fortuna do que os Bennets investiram em suas filhas. Lady Catherine espera que todas as mulheres de relativa renda devam tocar piano, porque é isso é a expectativa social da época.  
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CD e mp3 disponíveis na Amazon - voz e pianoforte - com amostras

Cap 31, Darcy e Lizzy trocam farpas ao piano na frente de Cel. Fitzwilliam.
“Meus dedos”, disse Elizabeth, “não se movem sobre o instrumento da maneira magistral que vejo os de outras mulheres fazerem. 
Eles não têm a mesma força ou rapidez e não produzem a mesma impressão. 
Mas sempre supus ser culpa minha - porque não me dou ao trabalho de praticar. 
Não é que eu não acredite que meus dedos tão capazes quanto de qualquer outra mulher de talento superior.”

O instrumento é um facilitador ao casamento, um canal para relacionamentos e flerte. Darcy e Elizabeth estão envolvidos em uma conversa de flerte, enquanto ela está sentada no piano. 
Até esse ponto, Darcy e Elizabeth não tinham sido muito amigáveis um com o outro, mas uma vez que estão instalados próximo ao piano, o flerte segue. Dessa forma, vemos que o piano é uma conexão entre homens e mulheres.
Ele não é mais usado dessa maneira, mas sua natureza atrativa anterior não pode ser negligenciada por que isso desempenha um importante papel no texto.

Piano Favorites of Jane Austin
CD disponível na Amazon

Moira comenta...

Saber que o piano - pianoforte - era importantíssimo para a educação das moças nos faz ver Austen nas entrelinhas. Ela escrevia o que vivia, um espelho de sua sociedade em que projetava anseios, algo de bibliográfico, talvez projeções para o futuro e suas ideias sobre a situação feminina.
Como se sabe, Jane Austen nunca se casou, recusou propostas e até quebrou uma promessa de casamento. Se a princípio ela assinava suas obras como 'A lady' para evitar ser reconhecida com escritora por receio do que faria com sua imagem, depois passou a se resguardar de uma união que lhe traria novas responsabilidades como casa e filhos para continuar escrevendo. (alguns dizem que ela era avessa à fama, mas nem ela nem ninguém tem como saber que será um sucesso logo de cara, né? Depois de R&S e O&P ela FICOU famosa, mas mesmo antes se recusava a usar seu nome. Somente após sua morte, seu irmão favorito - o banqueiro - publicou Northanger com o nome dela.)
Mas, mesmo solteirona, Jane tocava bastante e bem. Assim que fez dinheiro com suas obras e parou de se mudar com a mãe viúva e a outra irmã solteirona, comprou um pianoforte. No final da vida, acordava cedo para tocar antes que a casa ficasse barulhenta. Logo, entendemos que era prendada, foi educada para ser uma dama completa na sociedade.
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pinterest
E não é isso que ela faz com as Bennets? Lhes dava a chance de ser bem cotadas no mercado de casamento, mas cada uma decide seu caminho. As meninas más rechaçam ensinamentos, as boas aprendem conforme seu capricho dita. Pouco importa se vão conseguir bons casamentos, a despeito do desespero da mãe.
Continuando o interrogatório do cap 29, Lady Catherine pergunta...
 "Você desenha?"
"Não, não mesmo."
"O que, nenhuma das irmãs?"
"Nenhuma."
“Isso é muito estranho. Mas suponho que você não teve oportunidade. Sua mãe deveria levá-la à cidade toda primavera para o benefício dos tutores."
“Minha mãe não teria objeção, mas meu pai odeia Londres.”
"Sua preceptora deixou você?"
"Nós nunca tivemos nenhuma preceptora."
“Nenhuma preceptora! Como isso foi possível? Cinco filhas criadas em casa sem uma preceptora! Eu nunca ouvi falar de tal coisa. Sua mãe deve ter sido muito escrava da sua educação."
Elizabeth mal podia deixar de sorrir quando ela lhe assegurou que não tinha sido o caso.
“Então, quem te ensinou? Quem atendeu a você? Sem preceptora, você deve ter sido negligenciada."
“Comparado com algumas famílias, acredito que fomos; mas às que desejaram aprender, nunca faltaram os meios. Sempre fomos encorajadas a ler e tivemos todos os mestres que foram necessários. Aquelas que escolheram ficar ociosas certamente puderam."
“Sim, sem dúvida; mas isso é o que uma preceptora evita, e se eu tivesse conhecido sua mãe, eu a teria aconselhado a contratar uma. Eu sempre digo que nada deve ser conseguido na educação sem instrução constante e regular, e ninguém além de uma governanta pode dar..."

Então, quando o texto diz que Mary retratada ao piano em quase todas as suas cenas, era independente, entendi que se referia a essa passagem: independência para se dedicar ao que mais lhe agradava. Do talento da personagem se fala mal, o pai a ridiculariza no baile de Netherfield em público, as irmãs não suportam ouvi-la. 
Seria Austen nos dizendo ali que Mary era uma dama desejosa de casamento, mas mal cotada no mercado?
E quanto a Jane, a mais bela e recatada, o que se fala de seus talentos musicais? Quase nada...
Já Lizzy admite que toca mal porque não se dedica. Seria essa descrição da personagem tradução para isso?

Trocando em miúdos:
boa pianista > moça apta a bom casamento

Termino com Emma 
Capítulo 10, um comprido bate-papo com Harriet
"Eu me pergunto, senhorita Woodhouse (Emma), se você não deveria ser casada ou se casar! Tão encantadora como você é!”
Emma riu e respondeu: “Meu charme, Harriet, não é suficiente para me induzir a casar; preciso encontrar outras pessoas encantadoras - pelo menos uma pessoa. E não só apenas, não vou me casar no momento, mas tenho muito pouca intenção de casar.”
“Ah! mas não posso acreditar."
“Preciso reconhecer alguém muito superior a qualquer um que já tenha visto para ser tentada; o Sr. Elton, você sabe, (recordando-se) está fora de questão: e eu não desejo encontrar tal pessoa. Eu preferiria não ser tentada. Eu não posso realmente mudar para melhor. Se me casar, devo esperar que me arrependa."
"Minha nossa! - é tão estranho ouvir uma mulher falar assim!"
“Não tenho nenhum dos habituais incentivos das mulheres para se casarem. Se eu me apaixonasse, de fato seria uma coisa diferente! Mas nunca me apaixonei; não é meu caminho nem minha natureza; e eu acho que nunca vou. E, sem amor, tenho certeza de que deveria ser uma tola para mudar uma situação como a minha. Fortuna eu não quero; emprego eu não quero; conseqüência eu não quero: eu acredito que poucas mulheres casadas tem tanto poder na casa do marido como tenho de Hartfield; e nunca, nunca poderia esperar ser tão amada e importante; então sempre primeiro e sempre certo nos olhos de qualquer homem, como eu estou no meu pai. ”
"Então, para ser uma solteirona afinal, como a srta. Bates!
“Essa é uma imagem tão formidável quanto você poderia me apresentar, Harriet; e se eu pensasse que eu deveria ser como a srta. Bates! Tão boba - tão satisfeita - tão sorridente - tão prosaica - tão indistinguível e desatenciosa - e tão apta a contar tudo quanto se relaciona a todos a meu respeito, eu me casaria amanhã. Mas entre nós, estou convencida de que nunca pode haver qualquer semelhança, a não ser quando se é solteira."
“Mas ainda assim, você será uma solteirona! E isso é tão terrível!"
"Não importa, Harriet, não serei uma pobre solteirona; e é só a pobreza que torna o celibato desprezível para público generoso! Uma mulher solteira, com uma renda muito estreita, deve ser uma solteirona ridícula e desagradável! (...) uma renda muito estreita tem uma tendência a contrair a mente e azedar o temperamento. (...)”

Nessa obra, Jane Austen usa o pianoforte como pista de grande segredo se desenrolando nos bastidores que passa desapercebido para quem ignora o valor e o simbolismo do instrumento nesta época. 
É um tipo de coisa que a autora não precisa explicar, 
pois para ela é valor intrínseco.

Se Emma não quer casar e Jane Fairfax é sobrinha de solteirona sem fortuna que precisa casar para se manter, é natural que a melhor pianista seja... Jane!
Veja:
Capítulo 8, na casa dos Cole, a Sra. Cole comenta
Sempre me magoou muito que Jane Fairfax, 
que toca tão deliciosamente, não tivesse um instrumento.

Capítulo 9,
A outra circunstância de arrependimento (de Emma em ter ido à casa dos Cole na noite anterior) também se relacionava com Jane Fairfax; e lá ela não tinha dúvidas. Ela sincera e inequivocamente lamentava a inferioridade de seu próprio tocar e cantar. Ela ficou muito entristecida pela ociosidade de sua infância - e sentou-se e praticou vigorosamente uma hora e meia.
Ela foi então interrompida pela chegada de Harriet; e se o elogio de Harriet pudesse satisfazê-la, ela poderia ter sido consolada.
“Oh! se eu pudesse tocar tão bem quanto você e a senhorita Fairfax!
“Não nos classifique juntas, Harriet. Meu talento não é maior que o dela, como uma lâmpada para o sol. ”
“Oh! querida, das duas, eu acho que você toca o melhor. Eu acho que você toca tão bem quanto ela. Tenho certeza de que preferia ouvir você. Todos ontem à noite comentaram o quão bem você tocou."

Amigas são para essas coisas, né, Harriet!... Se Emma toca melhor, como pode tocar tão bem quanto? Huh?
E perceba, Emma se arrepende de sua ociosidade em sua própria educação como as Bennets de O&P. Lizzy - que desdenha de  propostas de casamento - fala que poderia ensaiar mais. 


No próximo artigo vamos mergulhar no magnífico Broadwood de Emma, Anne Elliot presa ao piano em Persuasão e a educação das moças de Mansfield Park.

piano practice, 1924, GG Kilburne

Tradução e generosa parceria de Fran, da excelente página Adaptações de Jane Austen. 
Tradução das obras de Jane Austen são minhas, livres.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Irmãos de Jane Austen

olá,
Pesquisa para composição de livros/plots me leva por caminhos inesperados, como no post que fiz ontem.


Hoje é um novo dia para... Voltar a JANE AUSTEN! 
hahahaha 
JURO que não estava procurando pela Diva, 
J-U-R-O juradinho!

O ano em que me encontro é até errado, quero 1855, mas como a informação é árvore genealógica, 3 anos não fariam diferença, então embarquei no catálogo de ricos & famosos. Com quem me deparo?
who's who


ano: 1858, lista de 'Knights' - cavaleiros da Inglaterra
K.C.B. - Knight Commander of the Bath
K.B. - Knight Bachelor


cavaleiro # cavalheiro # cavaleiro
knight > gentleman > horseman

knight, segundo o wiki: título honorário de cavalaria concedido por um monarca, bispo, outro líder político ou religioso para o serviço ao monarca ou a uma igreja cristã, especialmente em uma capacidade militar. Historicamente, na Europa, a cavalaria era conferida a guerreiros montados. 
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lords and ladies
gentleman, wiki também: gentil + homem, traduzindo o velho francês gentilz hom. Na linguagem moderna é qualquer homem de conduta boa e cortês. Originalmente, era um homem da classe mais baixa da nobreza inglesa, abaixo de um escudeiro e acima de um pescador. Por definição, essa categoria incluía os filhos mais novos dos filhos mais novos e os filhos mais novos de baronetes, cavaleiros (knights) e escudeiros, e assim o termo captura o denominador comum da aristocracia inglesa.
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world4 eu
horseman, cavaleiro em português também é... um homem que anda a cavalo.
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Mr Darcy, só pq sim,, né? <3
pinterest
Em Orgulho & Preconceito, Jane faz graça do pai de Charlotte que se gaba por ser knight, lembra? 

"... Sir William Lucas fora antigamente comerciante em Meryton, onde acumulara uma fortuna regular e onde, também, fora agraciado pelo rei com um título de cavaleiro, enquanto exercia as funções de prefeito. A honra fora talvez demasiadamente apreciada. Ela lhe inspirara uma repulsa pelo seu negócio e pela pequena cidade comercial em que habitava. Abandonando as duas coisas, mudou-se com a família para uma casa situada a mais ou menos uma milha de Meryton, lugar que depois ficou sendo chamado “Lucas Lodge”, onde podia pensar com prazer na sua própria importância e, livre dos negócios, dedicar-se inteiramente à sociedade. Embora orgulhoso da sua posição, esta não o tornou desdenhoso; ao contrário, Sir William era todo atenção para os outros. Por natureza inofensivo, amável e prestativo, a sua apresentação em St. James o tornara polido e cortês." Austen, O&P, cap 5. Leia aqui.

O que era puro desdém de vizinho, picuinha, invejinha de Meryton. O título era uma grande honraria que sim distinguia os normais dos mais normais. Claro, se o knight fosse um nobre, a coisa mudava de figura...

who's who
K.C.B. - Knight Commander of the Bath
K.G. - Knight of the Garter

~ família da DIVA ~

Como já disse, estou sempre 'em roda da cinza', ou seja, indo e vindo em torno de Jane Austen. É inevitável. E olha que estou atrasada nos deveres de casa do curso que estou fazendo...
Sei algo da vida dela, mas não sou especialista. Nunca fui.
Por isso fiquei tão feliz em ver os nomes 'Austen' na lista de Knights. São eles:


KCB- Knight Commander of the Bath: 
Francis W Austen
FrancisAusten.jpg
wiki
Almirante da Marinha Real (1774 - 1865).
Comandou vários navios de porte e obteve grandes vitórias tanta antes, quanto durante e depois das  Guerras Napoleônicas.
Como oficial sênior, Austen serviu como Comandante-Chefe, na América do Norte e na Estação das Índias Ocidentais. 
Em 1806, Austen se casou com Mary Gibson; eles tiveram dez filhos. Após a morte de sua primeira esposa, ele se casou com Martha Lloyd em 1828; eles não tiveram filhos. Irmão de Jane.
wiki

A mais Honrosa Ordem de Bath (anteriormente a mais Honorável Ordem Militar de Bath) é uma ordem britânica de cavalaria fundada por George I em 18 de maio de 1725. O nome deriva da cerimônia medieval elaborada para nomear um cavaleiro, que envolveu o banho (como um símbolo de purificação) como um dos seus elementos. Nada a ver com a cidade de Bath onde os Austen moraram por um tempo. Os cavaleiros assim criados eram conhecidos como "Cavaleiros do Banho". 
A Ordem de Bath consiste do soberano (atualmente rainha Elizabeth II), o grande mestre (atualmente o príncipe de Gales), e três classes de membros: Cavaleiro da Grande Cruz (GCB) ou Dama Grande Cruz (GCB), Knight Commander (KCB) ou Dame Commander (DCB), Companheiro (CB)

Queen, Westminster Abbey
express
  


KB- Knight Bachelor: 
Henry E. Austen


Aqui as coisas ficam mais confusas...

Sabemos que Jane teve irmãos - James, George, Edward, Henry, Francis e Charles afora a irmã rasgadora-de-cartas Cassandra -  mas seu Henry já era falecido em 1858 quando saiu esse catálogo onde achei a lista. Veja o que diz o wiki:
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Henry Thomas Austen (1771 - 1850) oficial de milícia, clérigo, banqueiro.
Henry Thomas nasceu em Steventon, Hampshire, o quarto dos oito filhos nascidos do Rev. George Austen e Cassandra Leigh. Ele teve cinco irmãos; James (1765–1819), George (1766–1838), Edward (1768–1852), Francis William (Frank) (1774–1865), Charles John (1779–1852) e duas irmãs mais novas, Cassandra e Jane.
Se matriculou no St John's College, Oxford em 1788 e recebeu um mestrado em 1793. Em 1789-90, ele editou e publicou com seu irmão James uma revista literária, The Loiterer. Em 1793 ingressou na Milícia de Oxfordshire, passando a capitão antes de renunciar em 1801. Em 1804 fundou, com dois associados, o banco de Austen, Maude e Tilson em Covent Garden, Londres. Ele faliu em 1816. Ele entrou na igreja naquele mesmo ano e foi feito curador de Chawton, Hampshire. Em 1820 ele foi nomeado Reitor de Steventon. 
Ele organizou a publicação de Northanger Abbey e Persuasion após a morte de Jane Austen em 1817. Acredita-se que ele tenha publicado o primeiro aviso biográfico dela, que prefacia esses romances. Ele revisou e expandiu esse pequeno livro de memórias para a republicação de seus romances em 1833. Isso fez dele uma figura central na administração e curadoria da imagem pública póstuma de Jane Austen.
Foi casado duas vezes; em primeiro lugar, sua prima Eliza Hancock, Comtesse de Feuillide, uma viúva e, em segundo lugar, Eleanor Jackson.

Henry, o irmão favorito de Jane como ela dizia em cartas a Cassandra '...será um grande prazer estar com ele, como sempre é...' tinha o nome do meio Thomas 'T' e não 'E' como no registro...



E, no registro, o Knight Austen já tinha 72 anos... SE vivo, o irmão de Jane teria 87 em 1858. O Austen que era 'Knight' era sobrenome, Edward adotado pelos parentes ricos que ainda hoje tem ramificações e nos deixou o Museu, a casa, a biblioteca.
EdwardAusten.gif
Então...


talvez não seja ele... mas da família?

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portrait of  HDavis by Lawrence - pinterest


Um sobrinho, primo, parente...

fa, fi, fun, sinto cheiro de fanfic!

Curiosidade mata o gato, portanto estas são as outras ordens mencionadas...
Knight Bachelor:
A dignidade de grau mais baixo e básico de condecoração do monarca, mas não faz parte de uma das ordens organizadas de cavalaria. Simplesmente compõe o sistema de honras britânico. wiki
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Ringo Starr érr!
eonline

Knight of the Garter:
Ordem de cavalaria fundada por Edward III em 1348 e considerada a mais prestigiosa ordem britânica na Inglaterra e no Reino Unido. É dedicado à imagem e às armas de São Jorge, santo padroeiro da Inglaterra. As nomeações são feitas a critério exclusivo do Soberano. wiki
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oh, what a knigh! huba, huba!
daily mail

Estou vestida com as roupas e as armas de Jorge
para que meus inimigos tenham pés e não me alcancem
tenham olhos e não me enxerguem...

Acredite, isso me leva diretinho de volta ao livro que começou esta pesquisa!
Salve Jorge!
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George, the knight, military saint