& Moira Bianchi: comédia romântica
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quarta-feira, 21 de junho de 2023

Um romance TOTALMENTE criado por Inteligência Artificial

 olá!

No episódio de hoje do podcast Sincericídio Literário,podcast Sincericídio Literário, Vânia e eu falamos do PODER DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL no mundo literário.

No meio da grande discussão sobre o avanço da tecnologia, direitos aurorais e ética, eu apresentei um romance totalmente criado pelo ChatGPT. As imagens são do Blue Willow.

Aqui está ele:

Título: 

"Laços Ardentes"

Enredo:

Katherine Morgan, uma jovem publicitária de sucesso em Nova York, está exausta da agitação da cidade grande e decide fazer uma pausa em sua carreira. Ela retorna à sua cidade natal, uma pitoresca vila costeira chamada Crystal Bay. Katherine busca inspiração e tranquilidade, mas acaba encontrando muito mais do que esperava.

Capítulo 1: Reencontro Inesperado

Katherine volta para Crystal Bay e reencontra seu amigo de infância, Adam Stevens, agora um charmoso e misterioso capitão de barco. A atração entre eles é imediata, mas ambos têm seus próprios segredos.

Capítulo 2: A Tentação à Beira-Mar

Katherine e Adam passam mais tempo juntos, explorando as praias deslumbrantes e compartilhando momentos íntimos. A tensão sexual entre eles cresce, enquanto lutam contra a atração irresistível.

Capítulo 3: Mistérios do Passado

Adam revela um segredo sombrio que o assombra e teme que isso possa afetar seu relacionamento com Katherine. Ela, por sua vez, precisa confrontar seu passado e superar suas próprias inseguranças para seguir em frente.

Capítulo 4: O Conflito Interno

Enquanto a paixão entre Katherine e Adam aumenta, eles se veem diante de um dilema. Será que estão prontos para se entregar completamente e enfrentar os desafios que esse romance intenso trará?

Capítulo 5: Ameaças do Presente

Uma figura sombria do passado de Adam retorna, ameaçando separá-los. Katherine precisa decidir se confia o suficiente em Adam para enfrentar os obstáculos juntos.

Capítulo 6: O Amor Vence

Katherine e Adam enfrentam os desafios e superam as adversidades. Eles descobrem que o amor verdadeiro é capaz de curar feridas antigas e criar laços mais fortes do que nunca.

Capítulo 7: Um Futuro Juntos

Katherine e Adam decidem deixar para trás suas antigas vidas e começar uma nova jornada juntos. Eles encontram a felicidade e a realização em Crystal Bay, onde seu amor floresce.

Que tal?

Eu gostei bastante... é bem clichê, uma comédia romântica bem agradável!

Eu pedi isso (prompt): chat, preciso que você seja um especialista em ebooks de ficção na loja kindle. Quero escrever um romance contemporâneo com alto apelo comercial. Pode ser levemente erótico, tem que abordar assuntos em alta na loja kindle e ter 70 mil palavras. Você pode me dar um enredo e um esquema de capítulos?

O ChatGPT ainda me falou isso: Esse esquema de capítulos é apenas um exemplo inicial para ajudar a orientar você. Sinta-se à vontade para ajustar a ordem dos eventos, adicionar subtramas ou desenvolver ainda mais os personagens de acordo com a sua criatividade. Boa sorte com o seu romance!

Ouça o podcast e participe da discussão sobre IA aqui:

Spotify  ou  YouTube 


Me conta: te encheu de esperança ou de medo?

bj, M.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

SOVINICE é imperfeição nossa de cada Natal

 olá, tudo bem?

Trago novidades muito bacanas!

Sim, o ano de 2020 finalmente está acabando e com ele, as festas e um livro novo! Yay!



A série LORDES IMPERFEITOS que componho com minha querida amiga LUCY DIB começa com o vício da SOVINICE, o apego ao material, sujeito muquirana, mão-de-vaca, pão-duro, sangue ruim. O CONDE SOVINA é dupla com o DUQUE MUQUIRANA.



Ainda não sabe que os Lordes serão sempre lançados de dois em dois? 

Aqui conto as fofocas todas.


Tá felizinha, né? 

charles dickens/ J Leech, F Barnard, 1843 - catawiki

Aposto que tá pensando em alguém olha grande. 

Ou é tu mesmo...

Particularmente, no meu caso, sovinice é um momento, não uma qualidade que me define, digamos assim. Por exemplo: 

com chocolate: sovina, sai pra lá. 

Com cerveja: generosa, divido, pega um copo aê, miga. 

Com Livro de papel: sovina, não empresto, vai que você não me devolve. 

Com Filme: generosa, claro, de boa, bora ver junto.

Existe na literatura um zilhão de bons personagens sovinas, quando criança eu amava o 'Seu Nonô Correia' da novela 'Amor com amor se paga' de Ivani Ribeiro, 1984. Ele era de matar, mão-de-vaca de irritar, era xingamento popular na época chamar os outros de Nonô. E quando acharam o tesouro dele! Nossa, foi lindo!

Ah, que saudades de quando as novelas tinham enredo, começo/meio/fim... Foi até difícil escolher o trechinho pra colocar aqui, se o do tesouro ou da geladeira fechada a cadeado, haha. Muito engraçado!

Pesquisando o tema para compor o Conde, descobri quase sem querer que a grande autora Ivanir inspirou o Nonô no Harpagão de Molière e aí, como esse já estava nos meus alfarrábios, as coisas se encaixaram. Assim, no meu romance dos LORDES IMPERFEITOS, o CONDE SOVINA, Ruby - a mocinha - provoca o Conde com essa peça de Molière - O avarento. Famosa desde o sec 17 quando foi lançada, encenada trocentas vezes, até pela turma da Mônica, ainda é bastante atual. Achei um resumo interessante (talvez um pouco truncado) no vestibular1 que diz: 'ciclicamente as civilizações fazem suas adorações ao Bezerro de Ouro'. Ouch! O enredo fala de um sujeito tão olho grande, mas tão olho grande, que decide casar o filho com uma viúva rica filha de cara rico, o problema é que ela é apaixonada por um pobretão. Eita!

E como os Lordes se passam na Inglaterra, pelo menos essa primeira dupla, e estamos chegando nas festas de final de ano, graças ao bom Deus, quero falar de...

UM CONTO DE NATAL

 ~ Charles Dickens ~

Mickey's Christmas carol, 1983. we heart it

Quantas vocês você já viu esse filme/desenho/meme na vida? É como a música de John Lennon e show de Roberto Carlos: se saiu do baú, chegou o Natal.

Um conto de Natal (A Christmas Carol. In prose. Being a Ghost Story of Christmas) foi lançado no *meu aniversário* do ano de 1843 (19 de dezembro) quando Dickens já era famoso, e desde o início foi um sucesso. Muito bem recebido, na véspera de Natal, 5 dias depois, já estava esgotado - 6k cópias- , em janeiro já tinha cópia pirata sendo vendida no mercado negro, e ele precisou começar uma campanha por direitos autorais. Um dia posso postar sobre isso, é bem bacana essa história da pirataria de livros na era vitoriana.

Para ele foi um alívio vender tão bem, estava em maus bocados financeiros depois de sua longa viagem para os EUA no ano anterior. Teria ele costurado uma obra comercial? Bad Moira, bad... Se foi, deu quase certo, pois no final de 1844 já tinha vendido mais de 15k cópias. Pena que ele não ficou com a grana toda, tinha que dividir com o editor, etc, etc. 

O homem que inventou o Natal, 2017 - pic de filmes dublados e legendados


Apesar do filminho fofo contar diferente, até existem evidências (não canta!) que ele construiu Scrooge se baseando em dois homens reais. 'De acordo com a BBC Arts, Dickens teve a ideia para o personagem depois que entendeu mal a lápide do comerciante chamado Scroggie durante um passeio ao redor de Canongate Kirkyard de Edimburgo, que é mencionado em seus rascunhos como um indivíduo triste e mau. Outra fonte potencial para o personagem é o famoso avarento John Elwes. De acordo com o Telegraph, apesar de ser extremamente rico, Elwes gostava de viver aquela vida insensível - racionando aquecimento, velas e até mesmo comia comida que estava estragando.' Éca!

Enfim, a saga de Ebenezer Scrooge e os Fantasmas do Natal nunca deixou de ser publicado até hoje, 377 anos nas paradas de sucesso, todo dezembro. 

Para quem não lembra, não viu encenado pelos Muppets, Trapalhões, Mickey Mouse, Barbie, Disney, A feiticeira, Esqueceram de mim, leu (como eu, assumo), aqui vai um resumo muito resumido do que é o enredo que fala de ganância, perdão, viagem no tempo, generosidade e compaixão: 'Scrooge é um velho mesquinho e egoísta que odeia o Natal. Num frio 24.12, ele toca o terror: é cruel com as pessoas que trabalham para ele, se recusa a doar para instituições de caridade e é rude com o sobrinho que o convida a passar o Natal com ele. De noite, Scrooge é visitado pelo fantasma de seu antigo sócio, Jacob Marley - e depois por três fantasmas do tempo: os fantasmas do Natal passado, do presente e do futuro. 

O Fantasma do Natal Passado leva Scrooge em uma viagem pelos Natais de seu passado, onde ele se vê como uma criança infeliz e um jovem mais apaixonado por dinheiro do que sua noiva. O Fantasma do Natal Presente mostra a família de seu funcionário Bob Cratchit, bem pobre e com o filho Tiny Tim, que está muito doente, mas cheio de ânimo; depois para ver as celebrações de Natal de seu sobrinho Fred - para o qual ele havia sido convidado, mas rejeitou ir. Finalmente, o Fantasma do Natal Futuro aterroriza Scrooge, mostrando-lhe visões de sua própria morte, sozinho. É mudo, pois o futuro é mutável, Scrooge é quem o fará por suas escolhas.

A jornada dos fantasmas no tempo ensina a Scrooge o erro de seus atos. Quando ele acorda no dia de Natal, emocionado e arrependido, compra muita comida e leva para a família Cratchit antes de passar o dia com o sobrinho, cheio das alegrias do Natal.'

tumblr
Pessoalmente, não sou muito ligada nesses contos de arrependimento profundo, let bygones be bygones. Sou rancorosa, perdoo, mas tenho dificuldade de esquecer. Tenho cá minhas desconfianças se Scrooge muda pelo medo do que o fantasma do Natal futuro lhe mostra, que claramente tem o maior impacto nele, porque ele vê que vai deixar tudo para outros gastarem ou porque se arrepende de verdade. Não obstante, reconheço o valor da obra de Dickens.

Veja bem, não sou estudiosa de Dickens, curto sua obra. Goshto meshmo de Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Se você já veio aqui antes, já leu meus livros e romances gratuitos, sabe disso. Avalio O Conto de Natal como curiosa apaixonada da era Vitoriana. 

Muitas fontes teorizam o porquê de Dickens ter mirado e acertado direto no alvo, ele já falava desse tema em outras obras: a injustiça social na era Vitoriana, ele mesmo que teve origens pobres. Em Oliver Twist (1837-39) ele já tinha esmiuçado a vida dura da infância pobre nos cortiços e workhouses de Londres que (parece) comoveu até a rainha Victoria e o príncipe Albert (que desconheciam a situações de seus súditos, tsk, tsk). 'De certa forma, é uma história muito vitoriana de circunstâncias urbanas: extremos de riqueza e pobreza, indústria e incapacidade. Mas também ajudou a mudar a sociedade vitoriana, escreve a historiadora Catherine Golden para o blog do National Postal Museum. E é por isso que Dickens o escreveu.' Diz o Smithsonian Institute.

No Conto de Natal ele fala também de redenção e Natal, Então, digamos, são 3 os temas centrais da novella.

Humbug not to be spoken here, 1967 de A Feiticeira - christmas tv history

Injustiça social: Dickens tinha críticas severas sobre como a sociedade Vitoriana ignorava a pobreza de sua classe baixa. De um lado, estavam os ricos que gozavam de conforto e festejos de Natal e, do outro, as crianças forçadas a viver em condições terríveis em abrigos. Para nós hoje no século 21, amantes de 'romances de época', é muito difícil nos ligar nesta vertente da vida Vitoriana. Queremos ver ladies e lordes, bailes e chás das cinco, né? Mas a vida era muito mais dura do que ter que usar o bourdaloue entre as pernas para fazer xixi sem molhar as anáguas.

A forma que Dickens escolheu para destacar a injustiça da distribuição de riqueza foi fazer Scrooge se recusar a dar dinheiro para a caridade, mostrando assim o egoísmo dos mais ricos da sociedade vitoriana. As crianças que se escondem sob as vestes do Fantasma do Natal Presente são 'beliscadas' em vez de estarem felizes e alegres como gostaríamos que as crianças fossem. O Fantasma diz a Scrooge que os filhos são responsabilidade de toda a humanidade. Tiny Tim usava muletas, imagino que seja uma analogia à falta de condições normais de comparação entre as crianças ricas e pobres. Aqui temos que lembrar que, neste momento, as crianças começavam a deixar ser vistas como mini adultos. A criação começava a mudar, havia quem advogava a favor do direito de toda criança brincar e estudar, contra o trabalho infantil; era o início do raciocínio que temos hoje.

Depois, na hora do Fantasma do Natal Futuro, enquanto os ladrões vasculham os pertences de Scrooge, eles comentam sobre como ele tinha sido avarento na vida. Isso faz com que ele e o leitor apreciem as falhas de apenas pensar em si mesmo sem dividir com quem precisa e quando a gente morre, fica tudo para trás.

Barbie em A canção de Natal, 2008. IMDB

Redenção: É uma ideia sedutora, a de ser salvo do pecado ou do mal. Cristo é a Aliança, afinal de contas. Em Scrooge, vemos um homem que se transforma de um avarento ganancioso e egoísta em um personagem generoso e bem-humorado no final. Isso é o que queremos ver em todos os livros de romances, certo? Um arco de personagem que faça os 180º certinho. 

Scrooge vê (do verbo ver, enxergar; é levado pela mão para visitar o passado, o presente em outros lugares físicos, o futuro) ele vê o erro de seus atos com os fantasmas e é redimido por sua própria vontade de mudar. A mensagem moral da novela é que todos os seres humanos têm a oportunidade de se comportar de maneira mais gentil uns com os outros. 

Perceba que apesar do empurrãozinho dos fantasmas apontando o erro, a força de mudança vem de dentro, da vontade própria de Scrooge de mudar. Ele poderia ter perdido todo o dinheiro, então teria que mudar por força externa. Mas Dickens escolheu fazer com que ele tomasse a decisão de mudar.

The Muppets Christmas Carrol, 1992. smithsonian

Natal: O sobrinho Fred é sempre entusiasta do Natal, convida o tio, festeja e tal. Tiny Tim, o filho doentinho do empregado, é uma criança doente que acredita no espírito no Natal, que todos serão felizes na Noite mágica e tals. Dois personagens diferentes, um adulto e uma criança, um remediado e um pobre. Ambos homens, ok. Mas e aí?

Especialmente na era Vitoriana, o culto aos festejos de Natal começava a ser ampliado por conta de Victoria e Albert. Há anos já havia em Buckingham a tradição de montar árvores de Natal, a aristocracia também já fazia desde a rainha Charlotte, mas foram eles, Vic e Bert, com sua vontade de estabelecer a moralidade da vida familiar feliz, que popularizaram a coisa toda.

first christmas tree in Britain, 1946. Illustrated London news. wiki commons

Acredito que Dickens estivesse mirando neste abismo entre as crianças felizes em volta da árvore recheada e o menino doentinho no frio sem dinheiro para lenha na lareira ou comida farta.

Ao menos conseguiu estimular as doações à obras de caridade. Não sei (porque não pesquisei a fundo) se foram doações para limpar a consciência no momento do frenesi do lançamento do livro, mas sei de fonte confiável que Dickens era insatisfeito com o resultado da obra, ele esperava ter mudado a sociedade e juntado mais grana. 

Dickens pode não ter ficado rico $$ com a obra, 

mas tornou o mundo um pouco mais rico <3  de caridade.

Home alone, 1990. the new york times

No caso do filme Esqueceram de mim, que eu amei quando vi pela primeira vez, e amei muito assistindo o documentário sobre a produção Movies that made us, as teorias de quem e quais personagens são Dickenianos são lokas! Sugiro que você leia aqui. Eu sempre achei que era o vizinho idoso.

A história de Scrooge traz grande sabedoria, é fato. 

Durante as inevitáveis ​​épocas difíceis da vida, como esse incrível ano de 2020 que começou com água podre aqui no Rio e sabe-se-lá onde vamos parar, Deus nos proteja, as conexões humanas que temos com a família e amigos nos ajudam a superar. Eu contei e conto com azamigas, a família, a literatura, o século 19 e meus grupos de oração. Quando refletimos sobre quais valores de caráter são certos e errados, conseguimos perspectiva firme para seguir em frente. Os temas da obra são muito relevantes ainda hoje, talvez ainda mais agora em meio às mazelas trazidas à tona por conta deste distanciamento social. 

A Christmas carol, 2009 . tumblr

Com famílias e pessoas em geral separadas pela geografia e relacionamentos em perigo, distraídas pelo stress, sobrecarregadas de informações, mídia enlouquecida, redes sociais tóxicas e menor participação de comunidades espirituais e organizações cívicas, a conexão humana diminuiu. Vida louca, mano. Este declínio correspondeu a um declínio na alegria e aumento da ansiedade e depressão. 

A boa notícia é que não precisa ser assim. Podemos tirar um tempinho para refletir sobre a mensagem mais bacana de Dickens no Conto de Natal, talvez nem tenha sido a que ele considerou principal:

A VONTADE DE MUDAR POR CONTA-PRÓPRIA

design you trust

auto limpeza que fala, né?

Fazer um defrag, se livrar do lixo, renovar

Sovinice, só com chocolate. Com licença. Nisso eu posso!

E um livro novo para distrair a mente

e alimentar o coração!

Vai na Pitangus Editora ver datas e links.





bj, M.

mais sobre Natal Vitoriano, aqui

outras curiosidades & pesquisas históricas, aqui

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e meus arquivos pessoais.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Viajando com Tio Kenny

Olá!

Hoje pela manhã postei minhas impressões sobre o trailer do tão esperado filme do livro Cinquenta tons de cinza, mas agora não quero falar disso.

Estou sitiada em casa por conta de uma reforma e a Sessão da Tarde hoje é 'Tudo por amor', um dos grandes sucessos de Julia Roberts do meu tempo de adolescente. E ver este filme está dando um nó na minha cabeça...

julia roberts tudo por amor

A trilha sonora do Tio Kenny G claro traz inúmeras lembranças de sonhos românticos, namoros castos e noites lendo histórias açucaradas. Hoje me dá asco ouvir os intermináveis solos de sax, mas vinte cinco anos atrás (éca!) era muito sofisticado gostar de Leo Gandelman, saber os nomes das musicas de Kenny G ( não era todo o cd uma música só?), comer profiteroles e achar q não tinha flor como a orquídea.

Mas o filme que conta o improvável amor de uma mulher comum de 23 com um homem rico e doente de 28 está rolando e destruindo minhas ilusões românticas.

Sou fissurada em 'Orgulho e Preconceito', fato.
Meu conto de fadas preferido é Cinderela.
Adoro My fair Lady. A estória de Pigmaleão em geral.
Sou romântica mesmo.
Mas agora sou 4.0. (Cruzes!)

Então vejo assim:

1- Victor só contratou Hilary pelas suas pernas e asinha curtinha que ele viu pela porta entreaberta enquanto seu pai milionário e poderoso entrevistava enfermeiras de verdade. 
Eu me lembrava de amor à primeira vista...

2- Bonita e sem cultura, Hilary era panicat uma garota fadada ao subemprego mesmo. Ele gostou do corpo mas teve q trabalhar o resto. Deu duro! (Desculpe a piadinha) Ela nunca tinha ouvido falar de Klint, carpaccio ou Van Gogh. Mas ele era rico, doente e diletante então ele começou suas aulas de aprimoramento. Ok, Pigmaleão. Gosto.
Eu me lembrava que ela o havia mostrado uma vida feliz q ele não conhecia...

3- Victor mente para Hilary e a leva para sua casa de campo/praia onde eles moram juntos como amigos, depois namorados. Casa grande, limpa, tem comida, não tem empregada... 
Me lembrava que ele abria mão do seu tratamento para viajar com ela e acabaram vivendo uma grande história de amor. 

Agora, vinte e tantos anos depois estou vendo assim: um cara rico, gato e doente fica tarado na panicat, mas precisa torná-la palitável. Culto como era ele não conseguiria ter um relacionamento com ela se as pedras verbais e comportamentais continuassem a destrai-lo. Precisou dar um trato na moça para poder traçar.

jullia roberts tudo por amor

Ele mente para ela e a leva para longe do seu mundinho refinado e que o lembrava de sua doença. Romântico ssssim, mas... Penso que ele simplesmente escondeu seu relacionamento do seu pai, mordomo, realidade.

Vergonha?
Fuga da realidade?
Da doença?

Na minha época de faculdade, havia uma lenda que no curso de Comunicação havia uma matéria que explicava 'a verdade por trás dos contos de fadas'. Sempre achei muito sedutor o assunto... Está disponível na web, eu mesma postei um ótimo livro com essa temática nos meus '40 páginas 40'. Continuo achando muito interessante mas nunca vi maldade atrás deles. Agora...

verdade sobre as princesas

Vejo que Victor manipulou a gostosa como quis. Ela caiu, claro. Rico, doente, gato... Ela era dura, saudável, carente (o namorado a traiu no comecinho do filme), instinto maternal aguçado pelo moço dodói... Como resistir a esse apelo todo?

Ela saca que foi enrolada só quando ele cai doente. 'Eu achei que finalmente estava num relacionamento de verdade e foi tudo mentira! Você achou que eu não iria sacar porque sou burra? Porque não sou uma porra de uma enfermeira?'* Ela grita chorando. (Nota: Panicat tem que chorar para ser crível.) 

Na época chorei também, devo ter achado que ela pirou afinal ele estás doente, coitadinho!... Mas não é assim q vários caras enrolam mulheres as convencendo a ser amantes, aceitar namoros abertos, e outros infernos particulares?

No final ela vira Pretty Woman (esse filme é de 91, somente um ano depois do grande sucesso que eu ainda sei as falas de cor) e pede desculpas por se ofender por ter sido enrolada por meses. Victor tem crises de raiva, fica pelos cantos a observando... uma pinta de Fantasma da Ópera...  Que no básico é a mesma estória do Pigmaleão.

E no final, o happy ending é sugerido e como na 'vida real' a gente torce para dar tudo certo, para a leucemia ir para o espaço, para o mentiroso safado aprender a falar a verdade, para ela caber na vida dele... 

Papo de romântica, né?
Mesmo vendo a canalhice, a gente ainda sonha com la vie en rose... *suspiro*

Amanhã na sessão da tarde será Le petit Nicolas. Nem vou ver. Imagina acabar com minhas ilusões das aulas na Aliança Francesa, de freqüentar a biblioteca da Maison?... Não! Se ainda estiver sitiada em casa, vou ver Discovery ID!

Bj


* Tradução livre.