segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Mary Wollstonecraft merecia mais

 Olá,

Eu confesso que tentei entender, mas não gostei da estátua em homenagem à 'mãe' do feminismo, Mary Wollstonecraft.

the independent

Engraçado que ela hoje é mais conhecida pela maternidade, por ser mãe de Mary Shelley, esta autora de Frankenstein; justo ela que faleceu logo depois do parto aos 38 anos e foi pioneríssima na reinvindicação de direitos femininos. Mas também, maternidade é fundamentalmente uma característica  da mulher.

trecho de uma carta dela para o companheiro, pai do bebê que ela esperava: 'Começo a amar esta criaturinha e a antecipar seu nascimento como um novo nó que não desejo desatar.'  -  pic de feminist for life


Os retratos de Wollstonecraft (1759 - 1797) a mostram como uma mulher austera, mas até acho que era a norma da época . Wiki diz que 'durante sua breve carreira, ela escreveu romances, tratados, uma narrativa de viagem, uma história da Revolução Francesa, um livro de conduta e um livro infantil; mas é mais conhecida por A Vindication of the Rights of Woman (1792), no qual ela argumenta que as mulheres não são naturalmente inferiores aos homens, mas apenas parecem ser porque não recebem a mesma educação, que homens e mulheres devem ser tratados como seres racionais e imagina uma ordem social fundada na razão.

Após a morte de Wollstonecraft, William Goodwin, seu viúvo, publicou Memoir (1798) ou seja, memórias de sua vida, revelando seu estilo de vida não ortodoxo, que inadvertidamente destruiu sua reputação por quase um século. No entanto, com o surgimento do movimento feminista na virada do século XX, a defesa de Wollstonecraft da igualdade das mulheres e as críticas da feminilidade convencional tornaram-se cada vez mais importantes.'

Bem, nem tanto.

Li bastante sobre a campanha para levantar fundos para fazer a homenagem, sobre como na Inglaterra existem poucos monumentos para mulheres, sobre as críticas que a artista recebeu em suas outras obras. Ainda assim, não gostei mesmo.

youtube

Em sua famosa obra revolucionária de 1792, formadora de opinião, influenciadora, vanguardista, ela diz no capítulo 5 que 'a mulher é ensinada desde a infância que a beleza é seu poder, por isso a mente dela se molda ao corpo e, vagando em sua gaiola dourada apenas busca adornar sua prisão.' (Taught from infancy that beauty is woman's sceptre, the mind shapes itself to the body, and roaming round its gilt cage, only seeks to adorn its prison.) A Vindication of the Rights of Woman. Lá se vão 2 séculos e tal, e ainda pensamos o mesmo, agimos da mesma forma.

Estaria Mary W equivocada ou nós é que não aprendemos ainda?

A julgar por este monumento, acredito que ainda temos muito a evoluir...

Conto o que aprendi sobre. Depois da campanha 'Mary on the Green' que levou 10 anos para levantar fundos, vários artistas foram convidados a apresentar ideias para a estátua. Um comitê de curadores de arte e pessoas da comunidade votou unanimemente na proposta de Maggi Hambling. A autora explica a estátua - caso você, como eu, não tenha entendido nada depois de admirar boquiaberta essas fotos. 'A escultura mostra uma figura prateada nua de todas as mulheres sustentada por um turbilhão de formas femininas. Não é uma imagem heróica ou fantasiosa convencional de Mary Wollstonecraft. É uma escultura sobre agora, em seu espírito.' 

Então, eu só vejo peitos e pelos pubianos.

tes


Juro que tentei achar as formas femininas sustentando a bonequinha mínima no topo. Li que essa massa prateada reflete o parque e a Igreja Não-Conformista que Mary W. frequentava. Mas me distraio sempre na bonequinhazinha. Peitos, mamilos, cabelo... curto? Afro? Mas as feições são europeias. Magra, mais magra do que as mulheres eram no século 18, mas se é para ser do século 21, também me parece magra-modelo-e-manequim, não todas as mulheres, ou a mulher comum traduzindo melhor. Nem mudei esse termo 'everywoman' porque é muito repetido na defesa da escolha artística e ele me parece... trivial.

Uma das defensoras da campanha de fundos e do monumento pronto diz: 'Maggie Hambling é uma artista pioneira e queríamos fazer algo diferente de colocar pessoas em pedestais. Poderíamos ter feito algo realmente chato e comum, e muito vitoriano e antiquado.' Essa artista, Hambling, é bem controversa. Já li até críticas dizendo que a rejeição a este monumento é machismo contra ela, a artista. tsk, tsk. E continuei pesquisando para aprender a ver... 

“Não é convidativa (a nudez da peça) . É um desafio. 

É uma obra de arte desafiadora e é para ser assim.”

Ah, tá. 

Ainda assim, não gostei. Por que ela está nua com atributos tão perfeitinhos? Precisava?

essa foi a opção rejeitada, ficou em 2º lugar. pic de financial times


As primeiras ROUPAS que se tem notícia vêm dos neandertais (40.000 anos atrás) que em algum momento aprenderam a usar as peles dos animais para se manter aquecidos e secos. Também se fala da possibilidade dessas primeiras roupas terem tido funções sociais antes de práticas, algo como rituais de magia, decoração, culto ou prestígio. A semiótica (estudo de símbolos) aplicada ao vestuário leva a imagens que sustentam a estrutura da interação social como o sistema de status e papéis. A maneira como alguém se veste pode ser analisada como um mecanismo simbólico para comunicar ideias e valores a outros membros de uma sociedade.

A roupa é um significante visual que pode ser interpretado de forma diferente com base especialmente no contexto e na cultura.

E a mulher que defendeu a igualdade é representada nua.

Como disse uma outra mulher muito eloquente (tsk,tsk) em um reality show: 'Não gosto de você. Não sinto verdade em você. Acho que você, sim, incoerente, você está onde te convém. em todos os seus jeitos, falas, posicionamento e etc '

outro monumento recente de Londres, da sufragista Millicent G Fawcet. A crítica aqui foi para o pano de prato que ela segura. tsk, tsk. Mas está vestida. pic de secret London


Acho que é indiferente falar da fonte escolhida para gravar o nome de Mary na base, disso ou daquilo. O blob de bronze prateado elevando a mocinha frágil, desnuda, sem o apoio da sociedade e mesmo assim, olhando corajosamente para o futuro, me causa frustração. 

Chocante? É. 

Impactante? Também. 

Atende ao que se propõe, que é mostrar o quão fora dos padrões Wollstonecraft era? Sim. 

Mas conta a alguém que nunca ouviu falar nela quem foi essa mulher? Não.

outra obra controversa da mesma artista, esta em homenagem a Oscar Wilde que sai de um caixão fumando um cigarrinho. Tô doida ou ele tem até gravata? pic de timeout


No meu ponto de vista, Mary W. merecia mais que uma controvérsia por sua nudez (mesmo que não seja uma representação do corpo físico dela). Uma gaiola vazia faria o mesmo sentido, né?

Até.



serviço: 

Mary Wollstonecraft está em Newington Green.

Oscar Wilde está em Spreading gossip, na Adelaide Street com Charing Cross. Você pode sentar no peito dele para descansar do footing, se quiser.


pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e em outros sites que já nem me lembro porque li bastante sobre isso desde a inauguração.

Nenhum comentário:

Postar um comentário