& Moira Bianchi

sexta-feira, 11 de março de 2022

Juvenília: a Jovenzinha Jane Austen 2 - Uma situação complicada

 olá!

Mais uma parte deste projeto que tem me ocupado por meses! E que lindeza!

JANE AUSTEN JUVENÍLIA 

Os cadernos da Jovenzinha Jane

Faz tempo que tenho me dedicado a este projeto com muito carinho e muito cuidado. Porque traduzir Jane Austen não é moleza! Quando penso nos feras que já fizeram e no quanto amamos Austen sinto um frio na barriga! Conto todos os detalhes aqui.

Pesquisei muito, revisitei meus arquivos dos cursos que fiz e discussões sobre a obra que já participei, revi palestras e li análises críticas, tudo para te trazer textos caprichados!


Este projeto me exigiu muita preparação, meses de pesquisa que, aliados aos meus anos em Austen Nation, me deixaram segura o suficiente para assumir a grande tarefa de traduzir Jane.
Algumas dessas pesquisas eu divido contigo no Instagram JANE AUSTEN PARA INICIANTES, perfil que criei só para falar dela porque o povo não aguentava mais me ouvir repetir Austen isso, Austen aquilo! Assim, quem vem para esse perfil, sabe que é dela mesmo que vou ficar repetindo e repetindo!

VOLUME 1 que é a ÍNTEGRA do Volume Primeiro que Jane Austen nos deixou. E é uma graça!

O VOLUME 2 que sai agora é fogo no parquinho! Você não imagina a boca suja da Jovenzinha Jane! Nem dá para acreditar!...

Todas as revisoras me perguntaram: foi Jane mesmo que escreveu isso??


Nem vou postar as safadezas dela, vou deixar você ler!


Mas quero te mostrar meu conto favorito entre os 13 que compõem esse Volume 2:

*****

Carta de uma jovem dama em situação complicada para uma amiga

Alguns dias atrás eu estava em um baile privado dado pelo Sr. Ashburnham. Como minha mãe nunca sai, confiou-me aos cuidados de Lady Greville, que me deu a honra de me pegar no caminho e de me deixar sentar virada para frente , o que é um favor pelo qual sou muito indiferente, especialmente porque sei que é considerado um grande atenção comigo. 

― Então, senhorita Maria ― disse sua Senhoria ao me ver chegando na porta da carruagem ― você parece muito bem vestida esta noite. Minhas pobres meninas estarão bastante em desvantagem em relação a você. Eu só espero que sua mãe não tenha feito muito esforço para prepará-la. Você está com um vestido novo?

― Sim, senhora. ― respondi com tanta indiferença quanto possível.

― Sim, e é bem bonito, eu acho ― acreditando ser esta a permissão dela, eu me sentei ao seu lado ― Eu ouso dizer que é muito bonito. Mas eu devo dizer, porque você sabe que eu sempre falo o que penso, que eu acho foi um gasto bastante desnecessário. Por que você não pode usar o seu velho listrado? Não é meu jeito de criticar as pessoas porque elas são pobres, porque eu sempre acho que elas são mais para desprezar & lamentar do que culpar por isso, especialmente se elas não podem remediar, mas ao mesmo tempo devo dizer que, na minha opinião, seu velho vestido listrado teria sido bastante bom para quem o usa, porque para dizer a verdade - sempre falo o que penso - tenho muito medo de que metade das pessoas na sala não saberá se você porta um vestido ou não. Mas suponho que você pretende fazer seu destino esta noite. Bem, quanto antes melhor; & desejo-lhe sucesso.

― Na verdade, senhora, eu não tenho essa intenção -

― Quem já ouviu uma jovem admitir que ela era uma caçadora de fortunas? ― Miss Greville riu, mas tenho certeza de que Ellen ficou constrangida por mim.

― Sua mãe foi para a cama antes de você sair? ― disse Sua Senhoria.

― Cara senhora ― Ellen disse ― são apenas nove horas. 

― Verdade Ellen, mas velas custam dinheiro, e a Sra. Williams é sábia demais para ser extravagante.

― Ela estava sentando para cear, Madame -

― E o que ela ia comer?

― Eu não observei.

― Pão e queijo, suponho.

― Eu nunca desejaria uma ceia melhor. ― disse Ellen. 

― Você nunca tem motivo algum ― respondeu sua mãe ― pois uma melhor é sempre fornecida para você. 

Srta. Greville riu excessivamente, como ela sempre faz com a sagacidade de sua mãe. 

Tal é a situação humilhante em que sou forçada a estar enquanto andava na carruagem de sua Senhoria - não ouso ser impertinente, pois minha mãe está sempre me aconselhando a ser humilde e paciente se eu quiser viver na sociedade. Ela insiste em que eu aceite todos os convites de Lady Greville, ou você pode ter certeza de que eu nunca entraria em sua casa ou em sua carruagem com a desagradável certeza que sempre tive de ser maltratada por minha pobreza enquanto estou nelas. 

Quando chegamos a Ashburnham, eram quase dez horas, o que era uma hora e meia mais tarde do que desejávamos ter chegado; mas Lady Greville é elegante demais (ou ela imagina que é) para ser pontual. A dança, porém, não tinha começado pois esperavam pela Srta. Greville. Eu não tinha estado há muito na sala antes de ter combinado dançar com o Sr. Bernard, mas quando íamos tomar a posição, ele se lembrou de que seu criado havia pego suas luvas brancas & imediatamente correu para buscá-las. Neste meio tempo a dança começou & Lady Greville, a caminho de outra sala, passou exatamente na minha frente. Ela me viu & instantaneamente parando, disse-me apesar de que havia várias pessoas perto de nós:

― Ei, senhorita Maria! O que, você não consegue arranjar um parceiro? Pobre jovem! Receio que seu vestido novo foi usado para nada. Mas não se desespere; talvez você possa dar um passo antes que a noite acabe.  

Dito isso, ela se foi sem ouvir minhas repetidas garantias de estar apenas esperando & e partiu muito irritada por ter sido tão exposta diante de todos. Porém, Sr. Bernard voltou logo & vindo para perto de mim no momento que entrou na sala e me conduzindo para  junto dos dançarinos, espero que minha imagem tenha sido limpa da insinuação que Lady Greville lançara sobre ele, aos olhos de todas as velhas damas que ouviram sua fala. Eu logo esqueci todos os meus aborrecimentos no prazer de dançar e de ter o parceiro mais agradável na sala. Como ele é, acima de tudo, herdeiro de uma grande propriedade, eu pude ver que Lady Greville não pareceu muito satisfeita quando descobriu que foi a escolha dele. Ela estava determinada a me humilhar e, portanto, quando estávamos sentados entre as danças, ela veio até mim com mais do que sua habitual presenção insultante, acompanhada pela Srta. Mason e disse alto o suficiente para ser ouvida por metade das pessoas na sala,

― Diga, Mary, em que trabalhava seu avô? Pois a Srta Mason & eu  não conseguimos concordar se era uma verdureiro ou encadernador.

Eu percebi que ela queria me humilhar e eu estava decidida que se possível, evitaria que ela visse seu plano dar certo.

― Nem um dos dois, madame; ele era um comerciante de vinho.

― Sim, eu sabia que ele estava de alguma forma xinfrim. Ele faliu, não foi?

― Eu acredito que não, Madame.

― Ele não fugiu?

― Eu nunca ouvi falar disso.

― Pelo menos ele morreu devedor?

― Nunca me disseram isso antes.

―  Ora, seu pai não foi tão pobre quanto um rato? 

―  Acho que não.

― Não esteve na Corte de apelações  uma vez?

― Eu nunca o vi lá.

Ela me fulminou com o olhar & se afastou com grande aborrecimento; enquanto eu estava meio encantada comigo mesma por minha impertinência, & meio com medo de ser considerada muito atrevida. 

Como Lady Greville estava extremamente brava comigo, ela me ignorou o restante da noite e mesmo se eu a agradasse também teria sido igualmente negligenciada, já que ela estava em um grupo de gente importante & ela nunca fala comigo quando pode conversar com qualquer outra pessoa. Srta. Greville estava com o grupo de sua mãe na ceia, mas Ellen preferiu ficar com os Bernards & eu. Desfrutamos de uma dança muito agradável & como Lady G. dormiu todo o caminho para casa, eu tive um passeio muito confortável.

No dia seguinte, enquanto jantávamos, a carruagem de Lady Greville parou na porta, pois essa é geralmente a hora do dia que ela pensa ser correta. Mandou um recado do criado para dizer que "ela não sairia, mas que a Srta. Maria devia ir até a porta da carruagem porque queria falar com ela, e que devia se apressar e vir imediatamente..."  

― Que messagem impertinente Mama! ― disse eu.

― Vá, Maria ― ela respondeu. 

Assim eu fiz & fui obrigada a ficar parada lá à mercê de sua Senhoria, embora o vento estivesse extremamente forte e muito frio.

― Ora, senhorita Maria, você não está tão bem vestida quanto ontem à noite. Mas eu não vim examinar seu vestido, mas para lhe dizer que você pode jantar conosco depois de amanhã. Amanhã não, lembre-se, não vá amanhã, pois esperamos a família de Lord e Lady Clermont & a família de Sir Thomas Stanley. Não haverá ocasião para você estar muito elegante, pois enviarei a carruagem. Se chover, você pode levar um guarda-chuva.

Eu mal pude deixar de rir ao ouvi-la me dar licença para me manter seca.

― E por favor, lembre-se de ser pontual, pois não vou esperar, detesto minhas comidas passadas. Mas você não precisa chegar antes da hora. Como vai sua mãe? Ela está jantando, não está?

― Sim, senhora. Estávamos no meio do jantar quando Vossa Senhoria chegou. 

― Temo que você esteja com muito frio, Maria. ― disse Ellen.

― Sim, é um vento leste horrível ―  disse sua mãe ―  asseguro-lhe que mal posso suportar a janela abaixada. Mas você está acostumada a ser golpeada pelo vento, senhorita Maria, e é isso que tornou sua pele tão corada e grossa. Vocês, jovens damas que muitas vezes não podem andar em uma carruagem, não se importam qual o tempo que você enfrentam, ou como o vento mostra suas pernas. Eu não deixaria minhas meninas paradas fora de casa como você faz em um dia como esse. Mas alguns tipos de gente não sentem nem frio, nem delicadeza. Bem, lembre-se de que esperamos você na quinta-feira às 5 horas. Você deve dizer à sua criada para vir buscá-la à noite. Não haverá lua, e você fará uma caminhada horrível para casa. Meus cumprimentos à sua mãe, temo que seu jantar estará frio. Siga em frente, cocheiro. 

E ela foi embora, deixando-me muito irritada com ela como sempre faz.

Maria Williams

coitadinha da Maria...

mais um conto que eu ADORARIA continuar!

~ além desta, existem mais 4 cartas na 'Coleção de cartas' incluída neste Volume 2 ~


Gostou?

Uma graça, não é?

Eu devo dizer que continuo apaixonada pela Juvenília!

Eu incluí um sem número de notas te explicando as citações que Austen fez, quem era quem nas dedicatórias, significado escondido nos trocadilhos e datas que ela cita. E olha, Austen neste volume está sem limites! Nossa, cada piadinha suja...


Amei me dedicar a Austen Nation!


**O Volume 2 está disponível em ebook no Kindle Unlimited.**


**O Volume 1 já está disponível na Amazon em ebook Kindle Unlimited. **


** O Volume 3 já está na Kindle Unlimited também. **



As versões em papel brochura e capa dura vêm logo em seguida. Assim como o caderno guia!...

   


Leia um trecho do Volume 1 aqui.

Leia um trecho do Volume 3 aqui.

Saiba mais do caderno guia aqui.



bjs, M.


quinta-feira, 10 de março de 2022

Tem um romance escondido no MANUAL DO BOM COMPORTAMENTO!

 Um projeto lindo que está no forno há anos!



O 'Bom Comportamento, um manual comentado para moças' 

é a tradução comentada, editada, e muito pesquisada do clássico de Florence Hartley, a mestra da etiqueta no século 19.

leia agora mesmo!

Uma das coisas que eu mais gosto na pesquisa para montar um romance de época é mergulhar nos detalhes e regras minuciosas da convivência social na era Vitoriana.



Por gostar tanto, eu achei os manuais para pesquisar na fonte primária, adorei ler o que as garotas liam na época. É legal como imaginar que a minha personagem poderia ter existido de verdade!


Escondido nas muitas regras e dicas que listamos, escondemos um romance lindinho para te guiar na leitura.



É a história de Dorca, ou melhor, Cassy, um moça simples que herda uma inesperada fortuna e precisa aprender a viver na cidade grande. Tal qual My fair Lady, essa moça é transformada pelas regras da vida aristocrática e precisa descobrir seu lugar nesse mundo.

Olha, vou te mostrar os primeiros capítulos de Dorca Cassy:


Capítulo 0 - CONDUÇÃO

Há males que vêm para o bem. 

Melhor dito, há males de uns que vêm para o bem de outros.

Esse foi o caso de Dorca e da família Higgins, em 1860. 

O abastado senhor dos negócios de seguro, Sr. James Higgins, rumava com a esposa Mary e filha Catherine pelo interior em direção à propriedade de Lord Tanbridge a fim de oficializar o noivado destes últimos. O longo dia no trem deu lugar a uma jornada de carruagem que, infelizmente, foi interrompida logo no início por um horroroso acidente. Já caía a noite, eram desconhecidos, socorro foi demorado e dali sobreviveram somente um lacaio e um dos cavalos. 

Dessa tragédia que levou Sr. Higgins, Sra. Higgins e Srta. Higgins, única herdeira viva dos cinco que o casal teve, veio o revés de Dorca Smith. Alguns poderiam – e o fizeram – chamar de boa sorte, mas no turbilhão que seguiu, a vida de Dorca foi um tormento.

Sr. Higgins fazia força para esconder suas origens humildes e, portanto, foi um choque para os procuradores descobrir que ele tinha parentes no interior. Rose Smith era essa pessoa, prima distante do falecido segurador, e como empobrecida meeira de fazenda de ovinos, não resistiu ao se descobrir rica: morreu de ataque apoplético assim que os senhores procuradores bem-vestidos lhe deram a notícia, ainda em meio às malcheirosas ovelhas que ela criava.

Sua única filha era Dorca, moça de 19 anos de vida, possuidora de alguma beleza, talento para a lã e pouquíssima educação. Sabia suas letras e números, tinha um sorriso cativante, mas era como um coelho selvagem – de tudo corria!

Com muito custo, os procuradores convenceram a enlutada herdeira a rumar à cidade para tomar posse de suas heranças: imóveis, investimentos, fundos no banco.

Mal havia chegado à mansonete abandonada há quase dois meses, tempo gasto na procura e convencimento dela, Dorca ouviu batidas na porta. Inocente, incerta, gentil, ela atendeu.

— Ah, olá. — Disse a elegante dama parada nos degraus. — É nova aqui?

— Sim, senhora.

A mulher entrou sem esperar convite. — Sou a Sra. Von Vauteigh, vizinha. —  Apontou sua mão enluvada para trás do ombro. — Era muito amiga de Mary, que Deus a tenha.

— Amém.

— Vim dar boas-vindas à herdeira.

— Agradecida.

A mulher uniu as sobrancelhas sob o bonnet rebuscado, desgostava de criadas atrevidas. — Pode ir chamá-la.

— Estou aqui, senhora. — Dorca limpou a mão no avental que usava sobre o vestido obviamente tingido de negro e ofereceu. — Dorca Smith.

Ouvir aquilo foi um choque para a mulher. — Não!... 

— Sim, minha mãe... — Um suspiro triste. — Era prima do Sr. Higgins, Smith é nome do meu pai. Os dois morreram. Ele, faz bastante tempo, ela caiu dura quando ouviu a quantidade de dinheiro que ganhou. — Dorca olhou em volta. — Se tivesse resistido, ia morrer vendo tudo que tem para limpar aqui...

— Você não é a criada?

— Não, senhora.

— Mas está vestindo um trapo surrado.

— Era o vestido que dava para tingir. Luto não é barato.

— Você herdou fundos, Mary era rica.

— Só recebi o dinheiro quando cheguei aqui. — Dorca balançou os ombros. — Nem sei onde comprar roupa a bom preço, conheço nada aqui, nenhuma loja de segunda mão. Sabe indicar?

Jane Von Vauteigh estava boquiaberta. Nunca, jamais, sua amiga Mary cogitaria usar roupas usadas. Nem permitia que sua filha usasse as suas! — Sei da modista de Mary que também atendia Catherine, é para lá que você deve ir! 

— Cataporas... É careira?

— Não para você, Srta. Smith.

— Dorca. —  Mais um aceno de ombros. — Prefiro.

— Que nome horrível. — Jane fez careta. — De onde vem isso? 

A garota levantou o nariz. — Minha mãe escolheu.  

— Me desculpo pela impertinência. Estou tomada pelo assombro. Você é a única herdeira da minha boa amiga e a vejo vestida de criada cuidando da limpeza! — Uma sacudida de cabeça. — Por que faz isso?

— Alguém tem que fazer.

— Criados.

Dorca corou. — Eu, tendo criados? Cataporas!

— A mansão Higgins sempre teve criados. Onde estão?

— Acho que todos foram demitidos, ou partiram quando descobriram que o Sr. Higgins deixou algum dinheiro para eles.

— James era um bom homem. Mau marido, mas bom homem, que Deus o tenha. 

— Amém.

— Ao menos é religiosa.

Dorca fechou o rosto.

— É moça?

Dorca alisou as saias do vestido surrado.

— Já foi deflorada? É isso que pergunto.

— Dona Vovo...

— Von Vauteigh.

— Vovo...

— Fon-Vo-tiss. — Jane disse pausadamente com bastante ênfase no último fonema sibilado entredentes. — Von Vauteigh. 

— Vovoti.

— Von Vauteigh.

Doca esticou o pescoço para frente, testa franzida. — Vo-vo-ti.

— Von Vauteigh! — Jane perdeu a paciência. — Diga, Von Vauteigh! 

— Dona Vovoti, por que quer saber das minhas... — Gesticulou às saias. — Intimidades.

Vovoti, oh céus! Era ela realmente avó, chamada de vovó por seus netos crescidos entrando na idade casadoira; ela havia contraído matrimônio cedo, cedo demais, teve rebentos demais, agora, era avó cedo demais. Tinha tez fina, cabelos fartos, viço... Considerava um desperdício já ser avó. — Pergunto porque se você não tem marido ou pretendente apalavrado, logo vai ter. É rica.

— Acha mesmo? — Rosto corado de novo.

— Certeza. — Um decisivo aceno de cabeça. — Então, deflorada?

— Ainda não. Billy queria adiantar as intimidades, mas esteve adoentado e quando voltou a insistir, mamãe faleceu e...

— Acertou o que com Billy quem? 

— Billy, ajudante do curtume. Lá de onde eu morava. 

— Céus, céus... — Jane tirou o bonnet. — Seu noivo. 

— Não! — Um risinho. — Só um... sabe... um...

— Sem vergonha com quem fazia sem-vergonhice.

— Dona Vovoti!

— Pois bem, é solteira, desimpedida, despreparada, inocente, quase bela. Precisa de mim.

— Como sabe disso tudo?

— Deixou uma estranha entrar quando está sozinha, obviamente não conhece os riscos da vida na cidade. Usa roupa antiga mal tingida enquanto seus fundos jazem no banco. Faz limpeza ao invés de se hospedar em um hotel enquanto os novos criados cuidam da casa. Me parece que tem alguma beleza por trás desses cabelos desgrenhados e pele bronzeada. — Jane pousou o bonnet na mesa mais próxima, tirou as luvas e segurou a cintura. — Pois bem, será meu presente de despedida para Mary. Sinto falta de minha amiga a cada dia, dolorosamente. Estávamos animadas com os preparativos para o casamento da filha espevitada dela com o lorde falido, campeão dos investimentos infelizes. Planejávamos anos tranquilos depois que ela se livrasse da dor de cabeça que era controlar a filha. Mary merecia mais da vida... — Piscou para esconder lágrimas. — Você tem que honrar a memória dela. Está de luto, ninguém vai suspeitar se você não aparecer em sociedade por algum tempo. — Torceu o nariz olhando para a garota. — Um bom tempo, precisaremos de um ano, no mínimo.

— Um ano para quê, dona Vovoti?

— Te transformar em uma dama! 

— Cataporas! E eu preciso disso?

— O palavreado tem de melhorar. Também postura, costumes, aparência, tudo. Primeiro, o mais fácil, esse nome... Não, não... 

— Dorca Smith é meu nome.

— E será nas suas mais íntimas intimidades. Na sociedade, você precisa de um nome que não lhe cause desvantagem. Ao ser apresentada, você deve causar boa impressão em todos os aspectos... — Jane andou pela saleta empoeirada. — Dora, Orca, Morta, Móca, Cassy! —  Estalou os dedos. — Cassy Higgins.

A garota emudeceu.

— A partir de hoje, será Cassy Higgins, herdeira dos falecidos Higgins, jovem dama cumprindo luto até que faça sua entrada em sociedade. — Bateu as palmas sorrindo. — Ao trabalho, Cassy!


Que tal?

Gostou do início da jornada de Cassy?



Venha com ela nesta caminhada pela transformação rumo a se tornar uma lady da sociedade e, quem sabe, achar um grande amor.


São mais de 30 capítulos explicando de um tudo na vida Vitoriana de uma mulher. 

Veja mais detalhes aqui.



Leia agora mesmo!


terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Juvenília: a Jovenzinha Jane Austen 1 - As três irmãs

 olá!

Hoje lanço um projeto que tem me ocupado por meses! E que lindeza!

JANE AUSTEN JUVENÍLIA 

Os cadernos da Jovenzinha Jane

Faz tempo que tenho me dedicado a este projeto com muito carinho e muito cuidado. Porque traduzir Jane Austen não é moleza! Quando penso nos feras que já fizeram e no quanto amamos Austen sinto um frio na barriga! Conto todos os detalhes aqui.

Pesquisei muito, revisitei meus arquivos dos cursos que fiz e discussões sobre a obra que já participei, revi palestras e li análises críticas, tudo para te trazer textos caprichados!


Hoje lanço o projeto em live no Instagram JANE AUSTEN PARA INICIANTES, perfil que criei só para falar dela porque o povo não aguentava mais me ouvir falar! Assim, quem vem para esse perfil, sabe que é dela mesmo que vou ficar repetindo e repetindo!

Neste lançamento já sai o VOLUME 1 que é a ÍNTEGRA do Volume Primeiro que Jane Austen nos deixou. E é uma graça!



Vou te mostrar parte do meu conto favorito entre os 16 que compõem esse Volume 1:

As três irmãs, um romance

Carta 1ª

Srta. Stanhope para Srta.––– 

Minha querida Fanny

Sou a criatura mais feliz do mundo porque acabei de receber o pedido de casamento do Sr. Watts. É o primeiro que recebi na vida & mal sei como apreciar o suficiente. Como vou me vangloriar sobre as Duttons! Eu não pretendo aceitar, ao menos acredito que não, mas não tenho certeza, dei a ele uma resposta ambígua & parti. 

E agora, minha querida Fanny, eu quero seu conselho se devo ou não aceitar a proposta dele, mas para que você possa julgar os méritos & situação dele, vou lhe fazer um relato. 

Ele é um homem bastante velho, tem uns 32 anos, muito simples, tão simples que eu não aguento nem olhar para ele. Ele é muito desagradável & eu o odeio mais que qualquer outra pessoa no mundo. Ele tem uma grande fortuna & vai me dar muito conforto, mas ele é um homem bem saudável. 

Ou seja, eu não sei o que fazer. Ele praticamente me disse que se eu recusá-lo, ele vai pedir Sophia em casamento & se ela o recusar, vai à Georgiana, & eu não aguentaria se elas se casem antes de mim. Se eu o aceitar, eu sei que serei infeliz pelo resto da minha vida, porque ele tem um péssimo temperamento é mesquinho, terrivelmente ciumento & tão sovina que não há convivência com ele dentro de casa. 

Ele me disse que ia falar com minha mãe, mas eu insisti para que ele não o fizesse porque ela certamente vai me fazer casar com ele quer eu queira ou não; contudo ele pode já ter falado porque ele não faz nada que seja pedido a ele. 

Acho que vou aceitá-lo. Vai ser um triunfo tão grande casar antes de Sophy, Georgiana & as Duttons. E ele me prometeu ter uma nova carruagem para a ocasião, mas nós quase brigamos por causa da cor, porque eu insisti que queria azul marcada de prata & ele declarou que terá quer ser chocolate & para me provocar mais ele disse que será tão barata quando sua velha. 

Eu não vou aceitá-lo, decidi. Ele disse que vai voltar amanhã para minha resposta final, então eu acho que devo agarrá-lo enquanto posso. Eu sei que as Duttons vão ficar com inveja de mim & eu poderei ser acompanhante de Sophy & Georgiana em todos os bailes de inverno. Mas então qual será o valor disso se ele provavelmente não vai me deixar ir sozinha, porque eu sei que ele odeia dançar & não entende ninguém gostar do que ele detesta, & além do mais ele fala bastante de mulheres sempre ficando em casa & tal. 

Eu acho que não vou aceitá-lo. Eu preferiria recusá-lo de uma vez se eu tivesse certeza que nenhuma das minhas irmãs o aceitariam & ele não pediria as Duttons em casamento depois. Eu não posso correr esse risco, então, se ele me prometer encomendar a carruagem como eu quero, eu vou aceitá-lo, se não ele pode andar nela sozinho. 

Eu espero que goste da minha decisão, eu não posso pensar em nada melhor,

E sou sua sempre dedicada

Mary Stanhope 


Da mesma para a mesma

Querida Fanny

Eu tinha mal acabado de selar minha última carta para você quando minha mãe veio a mim & disse que queria falar comigo sobre um assunto muito particular.

― Ah! Eu sei o que quer dizer ― eu disse ― Aquele velho bobo do Sr. Watts te falou tudo, mesmo quando implorei que ele não fizesse. Contudo, eu não serei forçada a aceitá-lo se não gosto dele.

― Eu não vou te forçar, criança, mas só quero saber qual é sua ideia a respeito do pedido dele & insistir que tome a decisão de uma maneira ou de outra porque se não aceitá-lo, Sophy vai.

― Entendo ― respondi apressadamente ―Sophy não precisa se preocupar porque eu certamente me casarei com ele.

― Se essa é sua decisão ― disse minha mãe ― por que estava com medo que eu a forçasse?

― Ora, porque eu ainda não me decidi se vou ou não aceitá-lo.

― Você é a garota mais estranha do mundo, Mary. O que diz um momento, você desdiz no seguinte. Me fale de uma vez por todas se pretende casar com Sr. Watts ou não?

― Ah, mama, como posso te dizer se eu mesma não sei?

― Então eu desejo que você saiba & rápido porque Sr. Watts diz que não vai ser mantido no suspense.

― Isso depende de mim.

― Não mesmo, porque se você não der uma resposta final a ele amanhã quando ele vier tomar o chá conosco, ele pretende fazer o pedido a Sophy.

― Então eu direi a todo mundo que ele agiu muito mal comigo.

― E qual o valor disso? Sr. Watts já foi muito xingado pelo mundo para se importar com isso agora.

― Eu queria ter um pai ou irmão porque eles brigariam com ele.

― Eles seriam tolos se o fizessem porque Sr. Watts fugiria antes & portanto você deve & vai resolver se o aceita ou não antes de amanhã de tarde.

― Mas por que ele tem que propor casamento a minhas irmãs se eu recusá-lo?

― Por que! Porque ele deseja se unir a nossa família & porque elas são tão bonitas quanto você.

― Mas Sophy se casaria com ele se ele a pedisse?

― Possivelmente. Por que ela não o faria? Porém, se ela não o escolher, Georgiana terá que fazê-lo, porque eu estou determinada a não deixar escapar uma boa oportunidade de estabelecer minhas filhas como essa. Então, aproveite seu tempo. Eu vou deixar você decidir por si mesma.

E então ela se foi. A única coisa que consigo pensar, minha querida Fanny, é perguntar a Sophy & Georgiana se elas o aceitariam se ele as pedisse em casamento & se elas negarem eu estou resolvida a recusá-lo também, porque eu o odeio mais do que você pode imaginar. E quanto as Duttons, se ele casar com uma delas, ainda assim eu terei triunfado por ter recusado ele primeiro. 

Então, adeiu  minha querida amiga.

Sua sempre

M. S.


Srta. Georgiana Stanhope para Srta.  x x x 

Quarta-feira

Minha querida Anne

Sophy & eu estivemos ensaiando uma pequena peça que pregaremos em nossa irmã mais velha para a qual não concordamos totalmente & ainda assim as circunstâncias são tais que se algo puder desculpá-las, que o faça. 

Nosso vizinho Sr. Watts propôs casamento a Mary, proposta essa que ela não sabe como responder por que apesar de ela desgostar dele (no que não está sozinha) ainda assim ela casaria com ele de bom grado para não arriscar que ele pedisse Sophy ou a mim o que ele disse a ela que faria se ela o recusasse então saiba que a pobre garota considera nosso enlace antes do dela o maior azar que poderia lhe ocorrer & para prevenir isso garantiria para si mesma infelicidade eterna no casamento com Sr. Watts. 

Uma hora atrás ela veio até nós para averiguar nossas inclinações a respeito do assunto, o que decidiria a opinião dela. Um pouco antes dela veio minha mãe que nos contou tudo, dizendo que ela certamente não vai deixar que ele encontre uma esposa longe de nossa família.

― E então ― disse ela ― se Mary não o aceitar, Sophy o fará & se Sophy não o fizer, Georgiana terá que fazê-lo.

Pobre Georgiana! Nenhuma de nós tentou fazer minha mãe mudar de ideia, o que eu temo dizer que é mais severamente mantida do que racionalmente formada. Assim que ela saiu, no entanto, eu quebrei o silêncio para confortar Sophy dizendo que se Mary recusar Sr. Watts, eu não esperaria que ela sacrificasse sua felicidade se tornando esposa dele por generosidade para comigo, o que eu temia que sua bondade e amor de irmã poderiam a impelir a fazer.

― Vamos nos convencer ― respondeu ela ― que Mary não vai recusá-lo. Mas como eu poderei ter esperança que minha irmã vai aceitar um homem que não a fará feliz.

― Ele não conseguirá, é verdade. Mas sua fortuna, seu nome, sua casa, sua carruagem o farão e eu não tenho dúvidas que Mary se casará com ele, de certo, por que não? Ele não tem mais que 32 anos, uma idade muito apropriada para um homem se casar. Ele é bem simplório, mas o que é beleza em um homem? Se ele tem um figura agradável & um rosto razoável já está mais que suficiente.

― Isto é verdade, Georgiana, mas a figura do Sr. Watts infelizmente é extremamente vulgar & sua aparência é bem pesada.

― E ainda mais, seu temperamento é reconhecidamente ruim, mas que não podem todos estar enganados? Existe uma franqueza aberta em sua disposição que cai bem em um homem. Dizem que ele é sovina, podemos encarar como prudência. Dizem que ele é desconfiado, mas isso vem de uma quentura no coração que só é desculpável na juventude & portanto eu não vejo razão para ele não ser um marido muito bom, ou por que Mary não devesse ser feliz com ele.

Sophy riu, eu continuei.

― No entanto, se Mary o aceitar ou não, eu estou decidida. Minha decisão está tomada. Eu nunca me casarei com Sr. Watts se mendigar for a única alternativa. Tão deficiente em todos os aspectos! Horroroso em pessoa e sem uma boa qualidade para justificar o resto. Sua fortuna de certo é boa, ainda assim, nem tão grande! Três mil por ano. O que são três mil por ano? Só é seis vezes mais do que a renda de minha mãe. Não vai me tentar.

― Mas será uma excelente fortuna para Mary ― disse Sophy rindo de novo.

― Para Mary! Claro que vai me fazer feliz vê-la com tanta prosperidade. 

Assim eu continuei para grande entretenimento de minha irmã até que Mary entrou no quarto aparentando estar em grande agitação. Ela sentou, nós abrimos lugar para ela na frente da lareira. Ela parecia não saber por onde começar & por fim disse de forma meio confusa.

― Por favor, Sophy, você pensa em se casar?

― Me casar! Não mesmo. Mas por que me pergunta? Você sabe de alguém que pretende me fazer a oferta?

― Eu - não, como saberia? Mas não posso fazer uma simples pergunta?

― Não é uma pergunta comum, Mary, de certo. ― eu disse. 

Ela pausou & continuou depois de uns momentos de silêncio.

― O que acharia de se casar com o Sr. Watts, Sophy?

Eu pisquei para Sophy & respondi por ela: ― Quem não se alegraria em desposar um homem de três mil por ano?

― Verdade ― ela respondeu ― É verdade mesmo. Então você o aceitaria se ele te pedisse em casamento, Georgiana. E você, Sophy?

Sophy não gostava da ideia de mentir & enganar sua irmã, ela evitou a primeira & aliviou sua consciência usando de um equívoco.

― Eu certamente faria o mesmo que Georgiana.

― Bem ― disse Mary com triunfo nos olhos ― Eu recebi uma oferta do Sr. Watts. 

Nós ficamos muito surpresas, claro. ― Oh! Não o aceite ― eu disse ― e então quem sabe ele me escolherá.

Em miúdos, nosso esquema deu certo & Mary resolveu se casar para evitar nossa suposta felicidade o que ela não teria feito para assegurá-la, na verdade. Ainda assim meu coração não me absolveu & Sophy tem ainda mais escrúpulos. 

Aquiete nossas mentes, minha querida Anne, escrevendo-nos & nos dizendo que aprova nossa conduta. Considere que tudo está decidido. Mary vai ter felicidade verdadeira sendo uma mulher casada & capaz de ser nossa acompanhante, o que ele certamente o fará, porque me acho obrigada a contribuir tanto quanto possível para a felicidade dela já que eu a fiz escolher desta forma. Eles provavelmente terão uma carruagem nova, o que será o paraíso para ela & se pudermos convencer o Sr. W. a usar sua faetonte  ela ficará feliz demais. No entanto, essas coisas não serão consolo para infelicidade doméstica, nem para Sophy, nem para mim. Lembre-se disso & não nos condene.

Sexta-feira.

Ontem a noite Sr. Watts veio como combinado tomar chá conosco. Assim que a carruagem dele parou na porta, Mary foi para a janela.

― Você acredita, Sophy ― ela disse ― que o velho tolo quer ter a carruagem nova da mesma cor da velha & tão barata também. Mas eu não vou aceitar – serei irredutível. E se ele não quiser que seja tão luxuosa quanto às das Dutton & azul com marcações em prata, eu não o aceitarei. Sim, eu o farei. Lá vem ele. Eu sei que ele será rude, eu sei que ele será mal educado & não me dirá uma palavra gentil! Nem se comportará como um pretendente. ― ela então sentou & Sr. Watts entrou.

― Senhoras, seu criado. ― ele pagou cumprimentos & se sentou. ― O tempo está bom, senhoras. ― se dirigiu a Mary. ― Bem, Srta. Stanhope, espero que tenha decidido o assunto em sua mente & será tão boa a ponto de me informar se condescenderá a casar comigo ou não.

― Eu acho, senhor ― disse Mary ― que você poderia ter me perguntado de uma maneira mais educada que esta. Eu não sei se devo lhe aceitar se comportar dessa maneira tão estranha.

― Mary! ― disse minha mãe 

― Ora, mama, se ele ficará tão contrariado...

― Ora, ora, Mary, você não deve ser rude com o Sr. Watts.

― Por favor, madame, não coloque rédeas na Srta. Stanhope a obrigando a ser educada. Se ela não escolher aceitar minha mão, eu posso oferecer a outra, porque eu não sou guiado por nenhuma preferência especial a você acima de suas irmãs, é exatamente o mesmo para mim com quem das três eu me casarei. 

Nunca houve tamanho desgraçado! Sophy corou de raiva & eu me senti tão irada!

― Muito bem ― disse Mary em voz irritada ― eu o aceitarei se assim devo fazer.

― Eu deveria ter pensado, Srta. Stanhope, que quando é feita uma oferta como essa que eu lhe fiz, não poderia haver ofensa maior feita no aceite.

Mary resmungou alguma coisa que eu que sentava perto dela entendi ser ‘Qual é o valor de grande pensão se homens vivem para sempre?’ e mais alto. ― Lembre-se da mesada, duzentos por ano.

― Cento e setenta e cinco, madame.

― Duzentos na verdade, senhor ― disse minha mãe.

~ continua ~



Gostou?

Uma lindeza, não é?

Eu devo dizer que estou apaixonada pela Juvenília!

Eu inclui um sem número de notas te explicando as citações que Austen fez, quem era quem nas dedicatórias, significado escondido nos trocadilhos e datas que ela cita. 

** Amei me dedicar a Austen Nation! **


Este Volume 1 já está disponível na Amazon em ebook Kindle Unlimited

O Volume 2 está disponível, também no Kindle Unlimited.

Leia um trecho do Volume 2 aqui.

O Volume 3 está também no Kindle Unlimited.



Leia uma das lindas orações aqui.

   

O 3º VOLUME será publicado em maio.22

Leia um trecho aqui.

Saiba mais do caderno guia aqui.



bjs, M.




quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

PODCAST de Natal: livros e filmes

 Olá, beleza?

Dezembro chegou e com ele, os jingle bells. Também um ano que você provavelmente não vai querer ver retrospectiva.

Mas podemos nos dedicar ao lado bom das 

FESTAS DE FINAL DE ANO! 

Romances dedicados à esta época do ano em que ficamos mais sentimentais.

Aqui eu fiz uma pesquisa sobre o Natal na era Vitoriana e já citava algumas dessas produções.

No EPISÓDIO ESPECIAL de Natal do Podcast Sincericídio Literário, nós falamos deste filão e citamos várias dicas. Aqui estão elas:



O conto de Natal de Charles Dickens  

O homem que inventou o Natal, filme e livro


Downton Abbey, seriado | episódio final da temporada 2  


A aventura do pudim de Natal de Agatha Christie 

Como eu era antes de você de Jojo Moyes 

O Grinch de Dr. Seuss 



O Diabo disse não, filme 

Felicidade não se compra, filme  

Milagre na rua 34, filme 



Uma babá milagrosa de Debbie Macomber 

Debbie Macomber, a obra toda 

Canal Hallmark 


Razão, Sensibilidade e Homens de Neve, filme 

Orgulho, Preconceito e Azevinho, filme 

Era uma vez no Natal, coletânea de contos – editora Pitangus  



Elizabeth Bezerra, a obra toda 

Silvana Barbosa, a obra toda 

Esqueceram de mim, filme 

E os JABÁS que eu esqueci de mencionar porque o papo estava bom demais!

Contos de Fim de Ano de Orgulho e Preconceito 

Três chances para o amor de Bianchi, Rickli e Araújo 



E aí, te deixei no clima?

Ho, ho, ho!


Detalhes e mais links para o PODCAST, venha aqui.

bjs


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Cupcake Vitoriano para o Halloween

 Olá,

O Halloween é um festejo que nós adotamos aqui no Brasil, mas que não tem nossas raízes. Aqui eu falei de tradições e história da festa da qual sabemos do trick or treat, das maçãs do amor, marshmellows e balas, mas e os bolos?

tesco real food

Eu amo bolo!

E descobri que sou incapaz de assar um bolo... Fica sempre um horror, solado, queimado, torto, transborda, suja o forno... Nem te conto.

olive magazine


Esse da foto, recheado e tão lindo todo naked, é o Victoria Sponge Cake tradicional, ou Pão de ló da Rainha Victoria. O nome do bolo também pode ser 'The Royal Victoria Sponge', já que seu nome remete à própria Rainha Victoria porque ela costumava desfrutar de uma fatia do delicioso bolo com seu tradicional chá da tarde inglês.

No tentando, a razão inicial pela qual ele é especial e tradicional até hoje devido à invenção do fermento em pó em 1843.

Imagina se eu um dia serei capaz de fazer um desses! Há!

Mas cupcakes eu consigo!

Então, nesse Halloween, te trago o

Devil’s Food Cupcakes

food network

Esse lance de doces ou travessuras baseado em doce de supermercado, tipo Cosme e Damião; mas em meados do século 20, as donas de casa distribuíam biscoitos e cupcakes feitos em casa.

 Após a Segunda Guerra Mundial, nos EUA, esforços foram feitos para direcionar o Halloween para crianças mais novas e longe de adolescentes "brincalhões" que passaram o feriado causando estragos em seus bairros. 

 Cupcakes festivos se tornaram um deleite popular graças e o  Devil’s Food fez logo sucesso por causa do gosto carregado de chocolate e seu nome assustador. 

Mas ele vem de bem mais longe, da era Vitoriana!

O bolo ganhou seu nome durante a década de 1870, quando o recém-melhorado cacau em pó foi adicionado à massa do bolo pela primeira vez. Naquela época, os alimentos escuros ou muito condimentados costumavam ser chamados de “apimentados”, ou "deviled", um termo que combinava perfeitamente com o bolo de chocolate de cor escura.

Apesar do nome, não há nada de muito “diabólico” no bolinho. As primeiras receitas impressas para o bolo apareceram em dois livros de receitas de 1902, o Novo Livro de Receitas da Sra. Rorer e o Livro de Receitas The New Dixie. No final de 1800, o chocolate era usado para dar sabor à cobertura, não como um tempero para a massa de bolo em si. 

Naquela época, quando alguém se referia a um “bolo de chocolate”, geralmente se referia a um bolo amarelo com cobertura de chocolate. No final da década de 1870, quando o processamento do cacau melhorou e pela primeira vez, o chocolate foi adicionado à massa do bolo para enriquecer o sabor e escurecer a cor. Naquela época, os alimentos escuros ou muito condimentados eram frequentemente chamados de “deviled”, um termo que se adequaria naturalmente a um bolo de chocolate mais escuro. 

food network


 O nome Devil’s Food Cake também foi usado para diferenciar o bolo de chocolate rico e escuro do bolo de comida Angel’s light e esponjoso.

Tori Avey sugere essa receita abaixo copiada de um livro da decada de 1930 que dizia ter sido o bolonho que Martha Washington fazia para George em Mount Vernon, lá pelo finalzinho do século 18.

Cupcake de Devil's Food

ingredientes

  • 2 1/2 xícaras de farinha de trigo peneirado
  • 1 1/2 colher de chá de fermento em pó
  • 3/4 colher de chá de bicarbonato de sódio
  • 1/2 colher de chá de sal
  • 120 gramas de chocolate amargo sem açúcar
  • 1 3/4 xícaras de açúcar, dividido
  • 1 1/2 xícaras de buttermilk (leitelho), dividido
  • 1/2 xícara de manteiga sem sal, temperatura ambiente
  • 3 ovos grandes, temperatura ambiente, bem batidos
  • 1 colher de chá de baunilha

modo de preparo

  • Pré-aqueça o forno a 350 graus . Peneire a farinha, o fermento, o bicarbonato e o sal. Peneire a mistura novamente mais três vezes. Reserva.
  • Pique o chocolate em pedaços pequenos e derreta em banho-maria ou em uma tigela de vidro sobre uma panela de água fervente, mexendo sempre com uma espátula de borracha, até que o chocolate fique homogêneo. Misture ½ xícara de açúcar e ½ xícara de buttermilk até que estejam derretidos e bem misturados ao chocolate. Retire do fogo e reserve.
  • Em uma tigela grande, bata 1/2 xícara de manteiga e 1 ¼ xícara de açúcar por vários minutos até obter um creme claro, fofo e não mais granuloso. Observação: é muito importante que a manteiga esteja em temperatura ambiente, caso contrário, ela não ficará bem cremosa.
  • Junte os ovos.
  • Bata um quarto da mistura da farinha junto com toda a mistura do chocolate derretido.
  • Adicione a mistura de farinha restante e 1 xícara de buttermilk à massa, alternadamente em pequenas quantidades, batendo bem após cada adição. Junte a baunilha.
  • Coloque as forminhas de cupcake na travessa. Encha cada uma cerca de 2/3 com massa (não os encha muito alto ou eles irão transbordar).
  • Asse os cupcakes por 20-25 minutos, até que o centro volte ao normal quando eles são pressionados suavemente. Não asse por muito tempo ou as pontas ficarão duras. Deixe os cupcakes esfriarem um pouco na forma, retire e continue esfriando sobre uma gradinha.
  • Enquanto os cupcakes estão assando, faça a cobertura. Pode ser um buttermilk laranja (cor do Halloween), vermelho (cevil) ou somente um chocolatão bem cremoso como o de bolo de cenoura.
  • Decore os cupcakes com cobertura depois que eles esfriarem completamente. Guarde os cupcakes na geladeira, retire-os 15-20 minutos antes de servir para deixar o glacê amolecer um pouco.


Veja a receita original em Inglês aqui.

Gostou?

Vai fazer?

Me conta!


Feliz Halloween!

bj

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Uma carta de luto de Charlotte Bronte

 olá!

Hoje me aconteceu DE NOVO uma coisa deliciosa que GRAÇAS AO BOM DEUS, me acontece sempre:

achar fontes primárias


Te explico o passo-a-passo:

1- Eu estava passeando no Pinterest

2- Achei uma imagem linda de mulheres se ajudando a vestir, pinturas do século 19

3- Salvei no meu painel do próximo volume da série Cupidos em Devon

4- Achei mais uma imagem de mulheres se ajudando, salvei no painel 1855 

5- Mais uma. Salvei também

6- Pensei em fazer um post no Instagram falando do amor de irmãs

7- Comecei a catar quotes das irmãs Brontë

8- Depois parti para Austen

9- Achei um quote que não existia no canon de Austen

10- Descobri que era FAKE QUOTE

11- Fiz um post sobre fake quotes

12- Voltei às Brontë e achei isso!...

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CARTAS DE LUTO DE CHARLOTTE BRONTË

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Ah, que maravilha!

Eu não comemoro o luto da diva, mas o registro preservado

daguerreótipo dito ser de C.B. (não confirmado) - 1855


Scans das cartas originais em papel de luto, uma moda linda e fofa e delicada e polida da era Vitoriana de avisar, logo de cara, que o remetente estava sofrendo. Olha uma delas:

british library


Era assim o papel que Charlotte usou.



Uma folha (talvez o nosso A4) dobrada ao meio fazendo 4 páginas de carta. A 'capa' tinha borda preta sinalizando o luto.

Olha essa da Rainha Victoria (depois do falecimento do príncipe Albert). Tem até o brasão do Castelo de Balmoral, que eles compraram no início do casamento e levaram um tempão reformando.

brifging the unbridgeable


A regrinha valia inclusive nos envelopes, frente e verso.

19th century paper doll blog

Quanto mais grossa a borda, mais profundo era o luto que a pessoa passava.

ephemera society

E as cartas de Charlotte Brontë 

estão disponíveis no maravilhoso site da British Library.

Aqui te trago uma delas, no original e traduzida por mim mesma.



TRADUZIDA

2. Cliff. Scarbro '

4 de junho / 49

meu caro senhor

Mal sei o que disse da última vez que escrevi - estava então febril e exausta - agora estou melhor e - creio - bastante calma.

Você foi informado da morte de minha querida irmã Anne - deixe-me agora acrescentar que ela morreu sem muito resistir - resignada - confiando em Deus - agradecida por ter sido libertada de uma vida de sofrimento - profundamente segura de que uma existência melhor estava diante dela - ela acreditava - ela esperava e declarou sua fé e esperança com seu último suspiro. - O silêncio dela - sua morte cristã não aquietou meu coração como no fim sério, simples e quieto de Emily. Eu deixei Anne ir para Deus e senti que Ele tinha o direito de tê-la, mas mal pude deixar Emily ir - eu a quis segurá-la e a quero de volta agora - Anne, desde sua infância parecia se preparar para uma morte prematura. O espírito de Emily parecia forte o suficiente para carregá-la pelos anos completos - Ambas se foram - e também o pobre Branwell - e papai agora só tem a mim - a mais fraca - a mais decrépita - a menos promissora de seus seis filhos - A tuberculose levou todos os cinco .

Por ora, as cinzas de Anne descansam separadas das outras - enterrei-a aqui em Scarbro' para poupar papai da angústia do retorno e de um terceiro funeral.

Recebo ordens de ficar um pouco à beira-mar - não posso descansar aqui, mas também não posso voltar para casa - Possivelmente não tornarei a escrever logo - não atribuo meu silêncio nem à doença, nem à negligência. Nenhuma carta vai me encontrar em Scarbro' depois do dia 7 e eu não sei qual será meu próximo endereço - irei vagar uma ou duas semanas na costa leste e apenas pararei em lugares solitários e silenciosos - Ninguém precisa ficar ansioso por mim, Pelo que eu sei - Amigos e conhecidos parecem pensar que este é o pior momento de sofrimento - eles estão redondamente enganados - Anne repousa agora - o que foram as longas horas desoladas por sua dor paciente e rápida decadência?

Por que a vida é tão vazia, breve e amarga, não sei - Por que mais jovens e muito melhores do que eu são arrancados dela deixando projetos não realizados, eu não consigo compreender - mas acredito que Deus é sábio - perfeito - misericordioso.

- Ela amava Scarbro' - um sol pacífico dourou sua noite.

Sinceramente,

C Brontë


ORIGINAL

2. Cliff. Scarbro'

June 4th /49

My dear Sir

I hardly know what I said when I wrote last - I was then feverish and exhausted - I am now better and - I believe - quite calm.

You have been informed of my dear sister Anne's death - let me now add that she died without severe struggle - resigned - trusting in God - thankful for release from a suffering life - deeply assured that a better existence lay before her - she believed - she hoped, and declared her belief and hope with her last breath. - Her quiet - Christian death did not rend my heart as Emily's stern, simple, undemonstrative end did - I let Anne go to God and felt He had a right to her I could hardly let Emily go - I wanted to hold her back then - and I want her back hourly now - Anne, from her childhood seemed preparing for an early death. Emily's spirit seemed strong enough to bear her to fulness of years - They are both gone - and so is poor Branwell - and Papa has now me only - the weakest - puniest - least promising of his six children - Consumption has taken the whole five.

For the present Anne's ashes rest apart from the others - I have buried her here at Scarbro' to save Papa the anguish of the return and a third funeral.

I am ordered to remain at the sea-side a while - I cannot rest here but neither can I go home - Possibly I may not write again soon - attribute my silence neither to illness nor negligence. No letters will find me at Scarbro' after the 7th at I do not know what my next address will be - I shall wander a week or two on the east coast and only stop at quiet lonely places - No one need be anxious about me as far as I know - Friends and acquaintance seem to think this the worst time of suffering - they are sorely mistaken - Anne reposes now - what have the long desolate hours of her patient pain and fast decay been ?

Why life is so blank, brief and bitter I do not know - Why younger and far better than I are snatched from it with projects unfulfilled I cannot comprehend - but I believe God is wise - perfect - merciful .

I have heard from Papa - he and the servants knew when they parted from Anne they would see her no more - all try to be resigned - I knew it likewise and I wanted her to die where she would be happiest - She loved Scarbro' - a peaceful sun gilded her evening .

Yours sincerely

C Brontë



Que tal?

Ah, vou mergulhar nas pesquisas para acabar o meu DUQUE que vai sair neste Natal.

bj


Venha aqui para outras pesquisas históricas.