segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Preto, inspiração no século 19

 olá!

Hoje falo de uma cor que adoro, uso todos os dias, é um must:

O preto que representa poder, sexualidade, sofisticação, formalidade, riqueza, mistério, profundidade e, o melhor de tudo, estilo puro. 

PRETO

Rainha Victoria no Jubileu de Diamante - pic de Museum of New Zealand

Quando penso no século 19, sempre imagino logo que preto era cor somente para o luto - o que não era verdade! 

Olha esse vestido de corte em veludo preto leiloado pela Christie's:

gogsmite net
A descrição diz: vestido de corte, 1810-1820, veludo preto adornado com renda prata e dourada, cauda curta, decote reto, cintura alta (empire). Lindo de morrer!

O assunto 'luto' no século 19, especialmente na era Vitoriana, foi muito complexo especialmente porque ela, a rainha Victoria, carregou luto por seu amado Príncipe Albert de 1861 (quando ele faleceu aos 42 anos) até sua morte aos 81 anos em 1901. Então, ao invés dos 3 ou 4 anos de luto, ela manteve-se de preto por 40 anos.

Analisando as fotos dela com Albert, eu imagino que ela já usava preto antes do falecimento dele. 

Rainha Victoria e seus nove filhos (9!!!) circa 1860. pic de wttw

São fotos preto-e-branco dos primórdios da arte da fotografia, ela poderia estar usando vermelho, azul, verde. Mas comparando com as casacas do marido Príncipe Albert e do filho Albert Edward, parece que ela veste preto também.

HOMENS

Autoridades na arte do bem vestir, revistas e manuais, diziam que para os homens, preto era mesmo o certo. Routledge's Manual of Etiquette (for gentlemen) diz que 'Pela manhã, (cavalheiro) use sobrecasacas, coletes trespassados ​​e calças de cores escuras ou claras, de acordo com a estação. 

À noite, embora apenas no seio de sua própria família, vista apenas preto e seja tão escrupuloso ao colocar um paletó como se estivesse esperando visitas. Se você tem filhos, ensine-os para fazer o mesmo. É a observância dessas ninharias menores na etiqueta doméstica que marca o verdadeiro cavalheiro.

Para festas à noite, jantares e bailes, use paletó preto, calça preta, colete de seda ou tecido preto, cravat branca, luvas de pelica brancas ou cinza e botas finas de couro envernizado. Uma cravat preta pode ser usada em ocasiões de gala, mas não é tão elegante quanto uma branca. Um colete de veludo preto só deve ser usado em um jantar.'

pinterest

O LUTO

Vamos ao assunto que domina a cor.

Estudei bastante o luto vitoriano para escrever um dos romances da série CUPIDOS EM DEVON e menciono na série LORDS IMPERFEITOS, mas confesso que é tanto detalhe & ordem & regra que só tendo uma colinha para seguir sem errar.

lady in mourning, H Thorell 1896 - pic de gallerix org

Para os homens, tudo era simples. Antes da metade do século, usavam uma casaca de luto. Depois, já vestiam bastante preto e quando não usavam a cor, bastava uma banda preta no braço, no chapéu e luvas pretas - o que devia ser bom porque sujava menos. E, claro, tinham a benesse de não precisar se isolar do mundo, podiam seguir com seus afazeres, visitando clubes, teatros, negócios.

Crianças não precisavam usar luto, meninas às vezes usavam branco.

Para as mulheres, luto era uma dureza. Em notas gerais, mostrar luto era feito em fases - LUTO PROFUNDO a LUTO LEVE. 

Dependia da relação do (a) falecido (a) com a mulher. Fontes variam muito, manuais específicos tinham mais regras, mas não é errado seguir que para:

- marido, o luto era de 2 anos (todo o processo, do negro ao branco)

- pais ou filhos, 1 ano

- avó, irmãos e primos, 6 meses


Havia moda para o luto como para vestidos de passear, ficar em casa, casar. E lojas especializadas em roupas de luto, joias (as poucas permitidas), mementos morris, chapéus, luvas, etc. 

burials and beyond

Jay's merece um posto só para ela, é uma referência no assunto.

E os tecidos também variavam, do bombazine e crepe pesados à seda fina e delicada. Parece-me claro que simbolizava a dureza da perda (lembre que a mulher dependia totalmente do seu homem - pai, irmão, marido, filho) até a volta à vida normal. Mas imagina que foi pega de surpresa, não tinha roupa de luto preparada e precisou TINGIR?

Tingimento era o assunto desse post, mas preto dá tanto pano pra manga, que virou um detalhe. Na Encyclopedia of practical receipts, aprendemos várias formas: 

Preto comum: Mergulhe os itens em um preparo de sumagre quente e deixe descansar de um dia para o outro. Torça e mergulhe em água de cal, e por fim uma solução de cobre. Daí os itens podem tanto ser lavados, ou trabalhado novamente em água com cal por 10 minutos; então trabalhe-os em um preparo quente de eucalipto (corymbia opca), adicionando lixívia de câmara e por fim cobre em solução. Depois lave e seque.

Preto profundo (Jet Black): Os itens são tingidos da mesma forma que o última receita; objetivo junto com eucalipto adicione tatajuba. Ao invés do cobre, use licor de ferro para um tom mais rico de preto. Ao menos uma mistura de  metade de cada um.

Preto azulado:  Tinja primeiro os itens em um bom tom de azul e então proceda como para o preto comum. E se o azul é muito profundo, então metade da quantidade de tingimento preto é suficiente.

Imagine-se em choque por uma morte inesperada e precisando consultar um manual para juntar ingredientes e tingir metros e metros e metros de tecido de um vestido. Ainda bem que haviam os criados, não é mesmo?

retrato de criada sentada descancando fruta - 19th century. pic de mutulart

Tentei achar um tweet bacana de Mrs. Finnegan, governanta de 1830 falando como o preto tingido descoloria miseravelmente, mas não consegui. Se achar, incluo depois. 

Menciono isso no 'O Conde Sovina', como era difícil manter roupas, lavar, guardar, etc.

Noivas de preto na Espanha e Alemanha

Vestido de noiva branco foi uma 'invenção' de Victoria na ocasião de seu casamento com Albert em 1840, antes disso a moça usava vestidos bonitos, mas nada tão específico. Muitas usavam o vestido da apresentação na corte, que era caro, elegante, rebuscado. Falo disso em dois livros da série CUPIDOS EM DEVON: uma noiva é simples e a outra é apressada, casamento forçado que mal deu tempo para fazer um bolo!

Mas aqui quero falar dos vestidos de noiva pretos!

vintag es


Preto é uma cor de elegância, classuda. Em alguns países como China, Espanha e Alemanha, preto nas noivas era tradição. Na Espanha se dizia que o negro significava a dedicação da mulher ao marido a partir do casamento.

vestido de casamento seda preta com bordados em renda - 1885, Rijkmuseum, Holanda


Em Baden-Wurttemberg, na Alemanha, a convenção ditava que todas as mulheres deveriam usar vestidos pretos para ir à igreja, mesmo em um dos dias mais memoráveis ​​de suas vidas. No entanto, puderam iluminar o vestido preto com acessórios brancos, como véu, luvas e buquê.

E havia o caso das viúvas que recasavam antes do final do luto. Ou por simpatia ao momento em que viviam.

the met

Este de seda, franjas de algodão e couro é da coleção do Met, veja: 'De acordo com a história da família, Amelia Jane Carley (1844-1892) usou este vestido em seu casamento com William Edward Chess (1842-1926) em 1868 na Virgínia Ocidental, as cores de meio luto escolhidas em homenagem aos que morreram durante a Guerra Civil. A noiva e o noivo tiveram a sorte de não ter perdido nenhum parente próximo durante a guerra, embora o irmão da Sra. Carley e o Sr. Chess tenham servido no Exército da União. Essa narrativa familiar sugere que a noiva escolheu tons de luto em resposta às perdas generalizadas sofridas durante a guerra, em vez de homenagear um indivíduo. Uma paleta suave de cinza e preto pode ter parecido mais respeitosa do que um vestido de noiva mais vistoso, enquanto tantas famílias ainda sofriam. 

Manuais de etiqueta e revistas femininas frequentemente ofereciam orientação para noivas cujos casamentos cruzavam com um período de luto, embora a escolha do vestido em tais circunstâncias muitas vezes refletisse o julgamento pessoal de uma mulher, em vez de conselhos prescritivos.'


bolo de noiva negro, que tal?

Tudo tão bacana e interessante...

Dava para ficar falando disso forever!

lisa's history room

Para encerrar, um must dos musts é esse figurino coisa-linda-de-morrer-vou-copiar do filme 'Bonequinha de luxo' de 1961. Obra magnífica de Givenchy (para Holly) e Edith Head (supervisora geral).



e...
 meu novo livro da SÉRIE CUPIDOS EM DEVON, o volume 3
'DILEMAS EM LEILÃO' já está disponível em ebook! 
Aproveite do  guapíssimo Kin!

Não foi à toa que enrolei tanto para postar esta cor!
Até a próxima!
M.

Mais estudos dos antigamentes apaixonantes aqui.

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e meus arquivos pessoais.

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