& Moira Bianchi: educação feminina
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terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Fallen woman ou a Mulher-perdida na vida Vitoriana

Olá!
trago novidades! 

Sim, livro novo da série CUPIDOS EM DEVON!

O CLUBE DE FLORENCE



Este romance, segundo livro da série, traz um tema que eu sempre quis pesquisar: 

a mulher-perdida
cortesão mostrando imagem obscena - Honthrost - sec 16

Mal falada, má-companhia, safada, rodada, desonrada, promíscua, moça da vida. Quantos termos pejorativos e depreciativos conhecemos para essa condição feminina? Quase uma doença - incurável, veja bem - e contaminosa.
Observe que o termo tem hífen. 
Mulher-perdida.
Não necessariamente uma profissional do sexo, mas a perdida é também chamada de prostituta, meretriz; mulher da rua; mulher-dama. 


A perdida é uma moça que foi pelo mau caminho pelos próprios pés, 
encaminhada por más companhias ou levada à força. 
Pouco importa a razão, importa que ela perdeu-se.

Tenho mil anotações porque essa 'condição' sempre me capturou a curiosidade. Sou de cidade pequena, lá sempre havia o fantasma rondando as meninas e de vez em quando atacando a prima-da-amiga-da-conhecida-da-escola: cedeu aos desejos, teve relação, engravidou... 
Coitada, está perdida!
Mesmo hoje em dia, anos depois que saí do interior e que a sociedade evoluiu (ah, tá!), quem tem filho de namorado desconhecido/sumido/pipa-voada, ainda é vista com maus olhos. 
a exilada, Redgrave - sec 19

O termo em Inglês 'fallen woman' ou em Português 'mulher caída' descreve a moça que, como um anjo, caiu do céu - das graças de Deus. Trocando em miúdos: "perdeu a inocência".
Note que inocência apesar de principalmente, não se refere somente à vida sexual. Uma moça solteira que perde a virgindade perde com ela a inocência, sim. Mas também é desonrada/perdida/tem má reputação a que se corresponde com um homem com quem não tem relacionamento direto - profissional ou familiar (esse era o pavor de Dora no romance Cartas à Dora). Ainda tem a mulher que se vinga de um marido infiel e comete adultério ou maridicídio ou amantecídio (qualquer tipo vingativo de homicídio) também perde a inocência. As que sucumbem aos vícios em álcool ou drogas são também perdidas, sem inocência, caídas na vida.
Espera, estou falando do século 19 ou de hoje em dia? Mudou tanto assim nesses últimos 200 anos?


Machismo?
o despertar da consciência - Hunt - séc 19
é dito que esta moça perdida está em um momento de redenção, percebeu sua desgraça e tenta fugir

Sim, claro. Porque dos homens é esperado que comecem sua vida mundana logo cedo, o mais cedo possível. É prova de virilidade masculina ter várias parceiras e entrar no casamento com bastante experiência, mesmo porque ele - o marido - é responsável pela educação sexual da esposa inocente. 
Nas minhas pesquisas eu encontrei termos curiosos como 'perda', 'rendição', 'corrupção moral' para explicar essa condição de 'mulher-perdida'. Frequentemente subentende-se que são ações involuntárias a que ela é submetida, mas que ela deve arcar com as consequências sociais.
No caso de Florence do livro 2 da série Cupidos em Devon, ela é vítima de um cavalheiro amoral que a seduz com promessas de casamento. Ela era bem jovem, ele era adulto; ambos ricos, ele sabia o quão inocente para as maldades do mundo ela era pois tinha noção da criação que ela recebia, mesmo assim enganbelou a moça. Fica tranqs, não é spoiler! O passado de Florence é contato rapidamente no livro 1 - Eclipse do coração. Enfim, ela foi abandonada depois da noite de amor e... 


O que seria feito dessa 
moça deflorada
na década de 1830?

A família conseguiu abafar o escândalo, mas tem sempre algum fofoqueiro que não deixa a história morrer. E pior, tem a depressão tomando conta de Florence ao longo dos anos.
Daí você pensa: precisava morrer aos pouquinhos por mais de uma década isolada na propriedade da família longe dos olhos de todo mundo?

Sim... Por mais cruel que seja.

Toda sociedade tem suas regras, e como o mundo é grande, as regras variam muito. Em quase todas, porém, a mulher deve ser virtuosa e casta.
facebook

Especialmente na Grã-Bretanha do século 19, por conta das novas regras de vida marital determinadas pelo exemplo alimentado pela rainha Victoria & príncipe Albert, formou-se a crença de que, para ser social e moralmente aceitável, a mulher deveria obedecer aos padrões de boa esposa e dedicada mãe. Para isso, sua sexualidade e a experiência mundana deveriam ser inteiramente restritas ao casamento quando ela estaria sob a supervisão e o cuidado de um homem (autoritário) que substituía seu pai nesta árdua função.
Fora do matrimônio, uma moça tinha pouquíssimas oportunidades de se sustentar de forma honrada. 
Com o avanço da sociedade Vitoriana, hordas de moças solteiras chegavam às cidades caçando trabalho, casamento ou outra forma de viver mais do que sobreviver na pobreza do interior. Eram chamadas de 'mulheres-problema' pelo risco que ofereciam.
Se educada poderia ser preceptora de crianças, se mais velha poderia ser acompanhante; se prendada seria costureira trabalhando 20 horas por dia sob luz de velas ou balconista de lojas renomadas; se feia, pobre e ignorante, seria criada doméstica ou... profissional do sexo. E mesmo sem chances de lutar contra as durezas da vida, ela era jogada no ostracismo do termo 'mulher-perdida' meramente por se defender e achar maneira de sobreviver.
Usado quando a sociedade oferecia poucas oportunidades para mulheres em tempos de crise ou dificuldades, o termo era frequentemente associado à prostituição, que era considerada causa e efeito de uma mulher "caída" já que ela era espelho perigosíssimo: uma mulher dona de sua sexualidade a ponto de lucrar com ela.
Percebe a ligação?
Daí a associação com a perda ou rendição da castidade de uma mulher - fosse por ser enganada por um homem, atacada ou em ato consensual - o que levaria todas as mulheres que já haviam experimentado sexo à promiscuidade feminina.
A prostituta era (é?) uma grande ameaça social pois escancara uma vida de liberdade e sexualidade assumida tão proibitiva! Um pecado! Uma doença a ser eliminada para evitar a repetição por outras mulheres. Dumêt cita uma fonte em sua tese (achei na web) falando que a corrupção da moral feminina exibida na mulher-perdida através de seu comportamento sexualmente descontrolado, mantendo relações sexuais por dinheiro e entregando-se à masturbação, à sodomia, e práticas antinaturais do gênero, era um manual vivo da forma anti-higiênica de ser mulher.
Também suja, safada, rodada era a mulher que tinha amantes - mesmo que seu marido tivesse muitas. 
E a ladra. 
E a criminosa. 
E a que tinha opiniões sobre qualquer coisa, principalmente política.
fanpop

Na literatura clássica, temos várias:
- Lydia Bennet em Orgulho e Preconceito era liberada e atirada (talvez por sua pouca idade) sem medo de assumir a atração sexual que sente. Seu castigo é quase-pobreza ao lado do canalha com quem ela fugiu;
- Martha Endell em David Copperfield que sofre de fofoca, tenta se matar e é enviada para beeem longe, Austrália. Somente longe da sociedade civilizada ela pode recomeçar (sem que soubessem sua desgraça) e acha marido;
- Tess protagonista de Tess de Ubervilles é estuprada, mas carrega essa vergonha de ter perdido a virgindade - que lhe foi roubada, certo? Grávida, dá a luz, batiza e enterra a prova de sua vergonha sozinha. 
- Marianne em Razão e Sensibilidade passa por aquele chuvaréu, lembra? Eu sempre achei que era uma alegoria para sua perda de virtude para Willoughby, seu desespero na verdade ao perceber que o bonitão se foi e ela sifu...


Mas eu sempre me perguntei:
o que era feito de uma moça depois que ela se perdia? 
Uma 'mulher-perdida' é tipicamente apresentada como sendo muda, contrita, enigmática em seu silêncio constrangido e culpa exacerbada. Marianne casou com Cel. Brandon depois que fugir dele o tempo todo. Seria ele a saída honrada que ela teve? A perdida é um enigma, pois apesar de todos saberem que ela é perdida, muitos se perguntam o que exatamente causou sua queda. 


É fofoca que fala, né?
twitter

Machismo, você está pensando. Puxa, a garota foi estuprada e mesmo assim fica mal falada. Caramba! Como Tess, Florence também é VÍTIMA, mas carrega a vergonha social, a depressão, o medo de ser exposta ao ridículo e à violência de novo; enquanto isso... o bonitão sedutor, fonte e autor da corrupção feminina? Por aí pela vida, livre leve solto.

Achei referência na música nacional contemporânea, olha: 
O samba 'Mil réis', de Candeias.
Tentarei te esquecer, perdida
Perdida porque não honraste um homem
Manchaste o meu nome e tudo quanto te ofertei
Jogaste fora, como moeda sem valor, um grande amor
Quem me encontrou, me valorizou

O mestre Cartola, pintor de paredes e poeta, nos deixou a mais que perfeita 'O Mundo É Um Moinho' feita para sua filha que se perdia:
Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és
...
Muita atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés


Na época, século 19, a única saída para a perdida era:
1- entregar os filhos em orfanatos (alguns só aceitavam o primeiro. Novos 'erros' não eram aceitos/desculpados/entendidos nem por religiosos e caridosos);
2- morrer/se matar;
3- emigrar para longe da sociedade civilizada que testemunhou seu erro.
encontrada afogada - Watts. séc 19

No entanto... no O CLUBE DE FLORENCE ela encontra uma redenção mais palatável - um final feliz! Em meio à sua depressão ela descobre maneira de dar a volta por cima e com isso, conhece um homão da po**a que... Ih, nem te conto!
Pára: esse 'clube' é um clube mesmo? Tipo o que diz o dicionário: Local de reuniões políticas, sociais, literárias ou recreativas; sociedade ou agremiação para a prática de esportes e/ou de recreação (jogos, conversas, dança etc.) de seus associados. É isso?
Bem, ela era 'MULHER-PERDIDA' e acha maneira de ajudar outras que estão na mesma situação e... *SPOILER ALERT*



Aqui está a sinopse completa, links e curiosidades da série.



Até mais!

e... outras curiosidades & pesquisas históricas, aqui

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e nas minhas muuuuitas anotações e estudos desde antes de escrever Florence... Lembra que postei o registro dela no EDA FBN? Faz tanto tempo que nem achei nos arquivos dos posts da novela Orgulho e Paixão...

terça-feira, 9 de abril de 2019

O piano e música para Jane Austen

Olá,
E minha saga ao piano chega ao fim neste 4º post, mesmo que as fontes de pesquisa e curiosidade sejam infinitas.
Para moças a caminho do matrimônio, grande objetivo feminino nas eras Regencial e Vitoriana (e muito antes, e muito depois e até hoje, tsk, tsk.), o piano era fundamental. Já falei do valor social de ter um instrumento em casa, do que significava uma dama dominar a arte da música, da adequabilidade do piano para mulheres elegantes. 
Minha comparsa FranDarcy friend da Adaptações de Jane Austen, nem imaginava a confusão que ia gerar quando puxou papo sobre a importância do piano na educação feminina na Regência, época da diva. Mas nossa parceria deu samba! Ou valsa que fica melhor ao piano. 

A young lady playing piano - Velazques
Bom mesmo é pirar na batatinha!
Muito pesquisei, achei fontes contemporâneas e históricas, anúncios de época, manuais de etiqueta e foi tanta coisa interessante que dividi em 4 partes... 


Esse é o 4º e último
O piano e a música para Jane Austen
Artigo MARAVILHINDO da 
JAWORLD que estuda Austen a fundo e 
nos ensina a entender e admirar ainda mais a Diva.
Eu incluí meus comentários abaixo e recheei com quotes e curiosidades.

O 1º artigo foi: O piano, damas e cavalheiros
Neste, conto e mostro tipos de pianos usados na Regência e era Vitoriana e seus antepassados. 
Falo de alguns virtuosos e faço uma breve introdução ao que será discutido.

O 2º foi: O piano na preparação de moças casamenteiras na Regência
Nele está o artigo original com vários links de CDs e MP3 de músicas para pianoforte da época de Jane Austen - Regência Britânica -  e claro, meus comentários.

O 3º foi: O piano, instrumento ideal para moças
Neste, o artigo traduzido fala em que ótica era visto o instrumento, as implicações eróticas e as pirações da arte.

Todos têm parceria com a Fran, a quem muito agradeço!
Vamos ao último artigo 'editado' com meus pitacos em itálico.


Jane Austen e a Música
de 12 de Julho de 2010 por Vic
LEIA O ORIGINAL inteiro AQUI.
Tradução: Francielle Souza 22 de Fevereiro de 2019
S Berter - Piano girl

Este post discute a música que era popular na época de Orgulho e Preconceito (circa 1813). 
Tecnicamente considerada habilidosa, Mary Bennet era pedante se comparada com sua irmã Elizabeth, cujo estilo musical era mais animado e que cantava com mais expressão. Uma noite na era Regencial, poderia se resumir a uma família reunida na sala de estar, com as mulheres preocupadas com tarefas domésticas como costurar, os homens lendo, ou um grupo jogando. Como não havia rádio ou caixas de mecânicas de música que começam a aparecer em meados do século (espere CUPIDOS EM DEVON), era comum alguém tocar um instrumento musical ou cantar uma música popular para entreter o grupo, esta era função feminina como vimos em artigos anteriores da série piano. Em reuniões maiores, grupos grandes poderiam se formar, seria deixa para abrir espaço na mobília, enrolar o carpete e dançar um jig ou a reel, como teriam feito moçoilas animadas do tipo de Lydia, por exemplo. Excelente oportunidade de expor suas muitas qualidades femininas, oh-lá-lá!


uma jig
uma reel

Algumas vezes profissionais se misturavam a amadores. Em 1811, Jane Austen contou à irmã Cassandra de um encontro na casa do irmão Henry em Londres. “Cerca de 80 pessoas estão convidadas para a próxima noite de terça, e haverá muita música boa – cinco profissionais, três deles cantores de coral, além de amadores. Um dos contratados é o harpista principal, por quem tenho grandes expectativas.”
Assim como Anne Elliot em Persuasão, Jane Austen com frequência tocava piano para o entretenimento de sua família. Ela praticava horas seguidas todas as manhãs, antes que outras pessoas de sua família começassem o dia. Sua sobrinha Caroline, recordava que sua tia tinha um gosto natural pela música. Jane estudou por anos seguidos com Dr. Chard, um organista da Catedral de Winchester. Foi dito que sua voz era doce tanto falando quanto cantando, e que ela só cantava para sua família. Um local em Chawton Cottage era reservado para o pianoforte, mas
algumas das maiores casas na época da Regência podiam ter uma sala dedicada somente para música.

Em Razão e Sensibilidade, Marianne Dashwood teve seu presente do Colonel Brandon colocado na sala de desenhos de Barton Cottage.
curiouspianoteacher

Em Orgulho e Preconceito, Georgiana Darcy tocava tão bem, que seu irmão lhe deu um instrumento novinho de presente e havia uma sala inteiramente feita para música dela. 
janeaustencouk

Em Persuasão, cabia à solteirona Anne Elliot a função de entreter os outros já que ela era a que não tinha par.
jane austen summer

Em Emma, o presente de um maravilhoso e caro piano Broadwood para a garota apagada Jane Fairfax gera o maior tititi que carrega boa parte da trama.
book rat

Em Mainsfield Park, 'pianoforte' é mencionado apenas 5 vezes. Fanny Price em uma se lamenta e se indigna com a opinião que os outros têm dela que não sabe tocar.
austenmansfield

Estas salas poderiam conter uma variedade de instrumentos, incluindo harpas, flautas, violinos e pianofortes.
“Durante a maior parte do século 19, a linha entre o “popular” e a música clássica era mais confusa do que é hoje. A música regencial ou a popular de salão podia incluir um ar tradicional irlandês popularizado por Thomas Moore, uma sonata de piano por Pleyel, uma música favorita de uma ópera balada ou um cenário de uma música de dança popular. ”- Anthea Lawson
As preferências musicais de Austen circulavam ao redor de músicas em danças que eram populares em seu tempo. O fato de algumas músicas do passado terem se tornado músicas clássicas de hoje (Haydn, Mozart e Beethoven) aconteceu por acaso, pois muitos dos compositores cujas músicas e canções Jane Austen preferira desapareceram na obscuridade. Jane preferia Ignaz Pleyel a Haydn, e incluiu em sua coleção de músicas 14 de suas sonatas. Ela
tocava músicas populares, escocesas e irlandesas (muitas com arranjos de Haydn e Beethoven), e músicas de cunho popular de compositores como Dibdin, Arne e Shiled. Ela também colecionava trabalhos de Piccinni, Sterkel, e J.C. Bach, e teve o "Grande Concerto" de Steibelt, Haydn’s English Conzonets, música de John Wall Callcott e Che Faro do Orfeo ed Euridice de Gluck.
CADERNOS DE MÚSICA MANUSCRITOS ORIGINAIS NA FAMÍLIA AUSTEN -
archive org - jane austen house museum

Em Orgulho e Preconceito, Mary Bennet toca uma seleção de músicas escoceses e irlandeses (airs) que eram bem populares em sua época. Jane Fairfaix em Emma toca Robin Adair, uma música de G. Kiallmark que Jane Austen também deve ter executado com diversas variações da canção em sua coleção musical.

“Às vezes ela cantava à noite, para seus próprios acompanhantes, algumas músicas antigas simples, cujas palavras e ares, que não ouço mais agora, ainda permanecem na minha memória.”
Memória de Jane Austen por James Edward Austen Leigh
Enquanto Jane viajou para Londres em visita ao seu irmão Henry, ela visitou com frequência as lojas, sem dúvida à procura de novas músicas, novos tecidos, livros e presentes para sua família e isso ela mostra em suas obras, não é mesmo?

Muitas das músicas que eram populares durante a Era da Regência, eram mais abertas do que os assuntos que as damas podiam abordar em suas conversas civilizadas. Marcados por uma voz de soprano, essas cantigas populares falavam de amor e perseguição, convite sexual e pessoas declarando seu amor abertamente – Algumas eram sexuais, algumas sobre castrações, algumas doces, algumas cômicas, algumas sentimentais, algumas melodramáticas - Algo bem “avançando” para damas mencionarem em conversas, mas que eram aceitáveis se musicadas.
Moças solteiras e castas cantavam músicas com sotaque ou imitando sotaques como o escocês, por exemplo, sem que ninguém pensasse o pior dela. Essas músicas permitiam uma liberdade de expressão e desempenhavam um papel que Jane Austen podia incluir em seus livros. 
portrait of a laid with a fan, WP Frith, 1885-1895
O turco de turbante 
(The Turban'd Turk
O pessoal de Londres se iludiu.
E eles se aproveitam do estilo da capital
E deixe que perguntem enquanto cruzam as ruas
De qualquer moça virgem que possam encontrar
E eu sei que ela dirá por trás de seu leque
Não há ninguém que possa amar como um Irlandês
Como um irlandês.

(The British Minstrel and National melodist, p. 265-266, Sherwood, Gibert, e Piper, 1827)

Assim como os produtores e compositores de discos de hoje, os editores musicais lançavam milhares de novas músicas para performance vocal e música para danças por ano. Campbell, Fentum, Birchall, e Andrews, e outros publicaram seus livros e fizeram fama como virtuosos e mestres de dança em lugares famosos como o Almack's. 
Com o passar dos anos, a cultura musical sofria mudanças. Orquestras amadoras em tavernas ou em clubes de cavalheiros competiam com os consertos profissionais que começaram a brotar em lugares públicos. Músicos locais eram contratados para bailes em pequenas cidades. Músicos com mais experiência profissional, poderiam ser recrutados para tocar em eventos melhores, como o baile de Netherfield em O&P. A dama solicitada a liderar um grupo escolheria a música e os passos, e transmitiria seu pedido ao Mestre de Cerimônias. A maioria das jovens moças disponíveis para casamento preferiam versões de música moderna, do que as já casadas que não precisavam mais demonstrar suas qualidades ou angariar a atenção masculina (assim deveriam se comportar...). Isso significava que muitas das escolhas feitas para cenas dos bailes nas adaptações
dos filmes de Jane Austen estão completamente erradas!... No começo do século dezenove, os adolescentes nunca estariam dispostos a dançar um Mr. Beveridge's Maggot, não importa o quanto os espectadores de hoje gostem das cenas em que esta música é apresentada.


Artigo bem bacana, não é?
Dele parti para 'Jane Austen behind closed doors', algo como 'Jane Austen na intimidade' que fala como ela sempre ligava música a livros nas suas meninas, como elas dividiam músicas como fofocas, comunicação de parceria. 
O piano era música e 
da música vinha dança, 
da dança vinha flerte, 
do flerte vinhas os boys... 
Êta, que ficou bom!

E como ela no fim da vida tocava todos os dias no fim da vida... Olha isso... Seria por já estar doente? Por finalmente ter estabilidade financeira? Por ter estabilidade emocional?
O que vimos do piano até agora? 
Era sinônimo de refinamento da educação feminina, símbolo de status social para a família, item caro de ter e manter, haveria de se ter tempo para apreciar a música. Quando pulando de casa em casa precisando dos favores de parentes, Jane, a mãe e a irmã não deveriam mesmo ter chance de se dedicar às artes...
De novo, a carta que ela mandou para a irmã Cassandra em dezembro de 1808 (ela faleceu em julho de 17, 8 anos depois):
"Sim, sim, teremos um piano, tão bom quanto possível por trinta guinéus, e praticarei danças campestres para que possamos nos divertir com nossos sobrinhos e sobrinhas, quando tivermos o prazer de sua companhia."
'Yes, yes, we will have a pianoforte, as good a one as can be got for thirty guineas, and I will practise country dances, that we may have some amusement for our nephews and nieces, when we have the pleasure of their company.'


Um instrumento desses seria mesmo um bom investimento, poucas famílias poderiam arcar com essa despesa. Por ignorância deste detalhe, da primeira vez que li - e até que vi a adaptação para cinema - de Emma, não entendi porque o furdúncio em torno da transparente Jane Fairfax. Emma é tudo aquilo (chata, pedante, bonita, rica, inteligente, etc, etc) e Jane é pobre órfã que toca bem, mas que ganha um piano. So what?
grand Broadwood - Met NY
AGORA, depois de fazer esses posts, eu entendi o que Austen enfiou ali, como o tal do Churchil é um ardiloso horroroso mesmo, como é o pior vilão de todos como sempre suspeitei!
Um Broadwood custava uma fortuna! Imagina enviar um deles de presente secreto para sua noiva secreta enquanto debocha dela em público! Que safado!
pinterest

Claro que ela não tinha dúvida... Seria como dar um camaro amarelo de presente para a noiva. Cretino esse cara... Urgh!
Veja o preço de um Broadwood de segunda mão em 1780 em anúncio na revista 'The Harmonicon, a journal of music'

Entende agora, como eu, porque tamanha generosidade criou tanta especulação na vizinhança? 

Emma, capítulo VIII
tradução livre minha, Moira
'...Emma tinha tanta razão para estar satisfeita com o resto do grupo quanto com o Sr. Knightley. Ela foi recebida com um respeito cordial que não podia deixar de agradar, e recebeu todas os respeitos que poderia desejar. Quando os Weston chegaram, os olhares mais bondosos de amor, a mais forte de admiração foram para ela, tanto do marido quanto da esposa; o filho aproximou-se dela com uma ansiedade alegre que a marcou como seu objeto peculiar e, no jantar, encontrou-o sentado ao lado dela - e, como ela acreditava firmemente, não sem alguma destreza a seu lado.


O grupo era bastante grande, pois incluía uma outra família, uma família rural adequada e inquestionável, a quem os Coles tinham a vantagem de nomear entre seus conhecidos, e a parte masculina da família de Cox, o advogado de Highbury. As mulheres menos dignas viriam à noite, com Miss Bates, Miss Fairfax e Miss Smith; mas já, no jantar, eram numerosos demais para que qualquer assunto de conversa fosse geral; e, enquanto a política e o Sr. Elton eram discutidos, Emma conseguia renunciar toda a atenção à simpatia de seu vizinho. O primeiro som remoto ao qual ela se sentiu obrigada a comparecer foi o nome de Jane Fairfax. A sra. Cole parecia estar relacionando algo dela que esperava ser muito interessante. Ela ouviu e achou que valeu a pena ouvir. Essa parte muito querida de Emma, ​​sua curiosidade, recebeu uma oferta divertida. A sra. Cole dizia que estivera visitando a srta. Bates e, assim que entrou na sala, ficou impressionada com a visão de um piano - um instrumento de aparência muito elegante - não um piano grande, mas de grandes dimensões; e a substância da história, o fim de todo o diálogo que se seguiu de surpresa, e indagações, e parabéns do lado dela, e explicações sobre a Srta. Bates, foi que esse piano havia chegado de Broadwood no dia anterior, para grande surpresa de tia e sobrinha - totalmente inesperada; que, a princípio, pelo relato da Srta. Bates, a própria Jane estava bastante perplexa, bastante desnorteada ao pensar em quem poderia tê-la ordenado - mas agora, ambas estavam perfeitamente satisfeitas de que poderia ser de apenas um quarto; Seja do coronel Campbell.'

> Perceba que a FOFOCA é que ao entrar na casa, ela se deu conta do grande piano, era uma presença tão pungente como de uma pessoa! Não foi convidada a conhecer o piano, entrou lá e bum! Deu de cara com o convidado especial.

No canon: "Emma had as much reason to be satisfied with the rest of the party as with Mr. Knightley. She was received with a cordial respect which could not but please, and given all the consequence she could wish for. When the Westons arrived, the kindest looks of love, the strongest of admiration were for her, from both husband and wife; the son approached her with a cheerful eagerness which marked her as his peculiar object, and at dinner she found him seated by her—and, as she firmly believed, not without some dexterity on his side.

The party was rather large, as it included one other family, a proper unobjectionable country family, whom the Coles had the advantage of naming among their acquaintance, and the male part of Mr. Cox's family, the lawyer of Highbury. The less worthy females were to come in the evening, with Miss Bates, Miss Fairfax, and Miss Smith; but already, at dinner, they were too numerous for any subject of conversation to be general; and, while politics and Mr. Elton were talked over, Emma could fairly surrender all her attention to the pleasantness of her neighbour. The first remote sound to which she felt herself obliged to attend, was the name of Jane Fairfax. Mrs. Cole seemed to be relating something of her that was expected to be very interesting. She listened, and found it well worth listening to. That very dear part of Emma, her fancy, received an amusing supply. Mrs. Cole was telling that she had been calling on Miss Bates, and as soon as she entered the room had been struck by the sight of a pianoforte—a very elegant looking instrument—not a grand, but a large-sized square pianoforte; and the substance of the story, the end of all the dialogue which ensued of surprize, and inquiry, and congratulations on her side, and explanations on Miss Bates's, was, that this pianoforte had arrived from Broadwood's the day before, to the great astonishment of both aunt and niece—entirely unexpected; that at first, by Miss Bates's account, Jane herself was quite at a loss, quite bewildered to think who could possibly have ordered it—but now, they were both perfectly satisfied that it could be from only one quarter;—of course it must be from Colonel Campbell."

Então...
Depois de 4 posts, de vasculhar as obras de Austen, de reler o que eu achava que tinha entendido, digo... Há que ser ter cuidado ao ler um romance histórico ou um clássico. Entrelinhas há muito dito que transcende nosso pobre entendimento.

Dominar a arte do piano era ser bem educada (no sentido da erudição e da cortesia), significava estar pronta para a alçar níveis mais altos na vida adulta e angariar um bom casamento. 
Quem como Fanny Price não tocava estava fora do mercado. 
Quem como Lizzy Bennet tocava mal, dependia do conto de fadas.
Quem como Emma reconhecia que outras tocavam melhor, precisava lidar com a dor de cotovelo.
redisthenewblack

Piano era tudo, amiga!
Até!