quarta-feira, 3 de abril de 2019

Caminho do baile

Olá,
continuo surfando na inspiração fast track, então, mais um NANOCONTO... Agora mais aventureiro...
Caminho do Baile
Princesse de Broglie, por JA Dominique Ingres, 1853
Dominique arfou frustrada. Tanto exigiu, planejou, ralhou para estar absolutamente perfeita naquele baile e no entanto... Plantada estava na saleta de apoio vendo as modistas emendarem vestidos de segunda categoria e damas correrem para trás do biombo a fim de usar o bourdaloue. Mais uma arfada, essa quase audível. Talvez dormisse de pé encostada no espaldar da cadeira estofada, tamanha era seu enfado. Gastou as verbas que seu pappa havia lhe destinado ao semestre na melhor modista da cidade, escolheu tecido e renda, pedrarias, tudo em vão já que o salão estava repleto de cavalheiros tão incivis que sua sapatilha branca já alcançava dois tons de cinza escuro. Quantos pisões tomou ao aceitar companhia para duas danças? Incontáveis. 
A chegada da maior futriqueira da vizinhança foi o que fez Dominique se dar conta que sua presença na saleta insinuava a falta de qualidade de seu vestido – se não saía de perto das costureiras socorristas, deveria mesmo ter uma vestimenta de trapos! Se aprumou, alisou as saias de cetim azul cor de céu de verão e saiu pelo corredor avarandado. Parou ao ver um cartão no chão. Esticou a visão comprometida pela falta de óculos (que ela jamais usaria em um baile) e notou outro mais à frente. Abaixou com cuidado controlando as muitas anáguas e pegou os dois; iguais, cada cartão tinha uma dobra em um dos cantos. Viu então mais um, e mais alguns. Uma trilha de migalhas de conto de fadas! Tão encantada, não notou se encaminhar para a porta do gabinete do dono da mansão. Foi então que, ao notar a sombra do homem sozinho no cômodo, olhos nela, Dominique leu os cartões em sua mão.
*fim*


E aí, que tal?
Ah, as aventuras de saias rodadas e cartolas... 

Algumas curiosidades.
-Joséphine-Éléonore-Marie-Pauline de Galard de Brassac de Béarn, Princesse de Broglie está no Met... Lugar lindo!
-Havia mesmo em bailes de alta estirpe a salinha onde costureiras ficavam à disposição para concertos rápidos. Nos Cupidos em Devon há necessidade desse serviço salvador! Um pandemônio, nem te conto (ainda)!
-Bourdaloue era um peniquinho portátil usando fora de casa quando a dama tinha necessidade de se aliviar. Eram muitas saias, imagine suspender aquilo tudo para um peeps rapidinho? No meu casamento, me lembro de evitar beber muito para não ter que enfrentar esse dilema... enfim, os bourdaloues eram um mimo, como tudo feminino. Pintados, decorados, grandes, pequenos... Um dia falo mais deles.
Jane Austen World
François Boucher no LBCHistorical
-O Grande Khan, (Khan of Khans, rei dos reis em turco antigo) não é maluquice minha... Bem não totalmente. Nos meus guardados, existem preciosidades imensuráveis como esses cartões de descaramento. Me mato de rir...
A Mays
"O Desconhecido Sheik, comerciante atacadista de amor, abraços, apertos e beijos. 
Nos cantos, de superior esquerdo para direito. Depois abaixo.
Venham, meninas, vamos nos familiarizar.
Amor feito sem aviso prévio. 
Me teste antes de ir a outro lugar.
Horário de trabalho até eu ganhei. 
Todo o meu trabalho garantido a trazer resultados. 
Nenhuma taxa extra para o trabalho noturno."


A Mays
"Charles M. Krout, Jacobus, PA., 
Revendedor de atacado e varejo em amor, beijos e abraços modernos. 
Um grande estoque disponível a todo momento. 
(ele) Ficará feliz em demonstrar em um quarto escuro. 
Venha e examine meu negócio antes de contratar outro. 
Todos os negócios são confidenciais. 
Nos cantos, de superior esquerdo para direito. Depois abaixo.
Endereço de telégrafo: Eu tenho um sentimento para você. 
Cuidado com falsificações. Eu sou o original.
Consulte-me sobre possibilidade de conchinha. 
Atenção especial às meninas do outro cavalheiro."

Imagine receber uma cantada dessas? É pior que assobio-chupão, aquele que o cara segura o lábio de baixo quando a gente passa. Éca!
pinterest

Seriam serviços de escort? Scort. Acompanhante. Amizade colorida. Caixa postal do amante profissional?
Não consegui descobrir datas, mas pelo 'cable address' imagino que seja virada do século XIX quando o telégrafo ficou mais popular.

Para outros minicontos, vem aqui.

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