domingo, 21 de maio de 2017

Noiva em 6 pérolas - Cinderela moderna - capítulo 1

hey, e la nave va...
As 'Princesas Possíveis' vão seguindo seu schedule, amigas de mãos dadas uma puxando a outra. Depois de Cibele encantar em sua versão de 'A bela e a fera' em BIBLILOVE, agora é a vez de Serafina e sua própria maneira de viver um romance a la Cinderela.

Quer ver como é?




Série PRINCESAS POSSÍVEIS
VOLUME 2
romance inspirado em 'Cinderela'


~ 1.05 ~

A animação das Olimpíadas já contagiava a todos no Rio de Janeiro quando Maio começou. As infinitas obras finalmente ficando prontas, a tocha caminhando pelo país, programas de TV dedicados, jornalistas correspondentes, atletas e turistas conhecendo a cidade – ninguém conseguia fugir da maior festa do esporte internacional prestes a começar. Havia protestos e a turbulência na política, mas também a excitação que a distribuição de medalhas trazia.

Apesar de se considerar razoavelmente politizada, Serafina Mello tentava manter-se sóbria frente à presente situação do país, tanto em relação à Brasília quanto ao evento esportivo tão grandioso na cidade onde morava. Sobriedade não significava frieza e ela até pensou em se inscrever como voluntária – falava línguas, era despachada e curiosa... Poderia ajudar em alguma coisa bacana como protocolo ou guia. Quem sabe?

Mas não o fez. Bem no fundo temia que o fiasco da Copa do Mundo, ainda estava fresco na sua memória, fosse repetido. Na época, recém-chegada de um sabático longo que interrompeu sua faculdade de Economia por dois anos, andava insegura com a escolha de curso que havia feito. Apostava na ênfase em Ecologia, mas receando ter se equivocado contava que o esperado hexa campeonato de alguma forma significasse que tudo ficaria bem.
Lá veio o humilhante 7x1.

Para ela foi especialmente dolorido – aterrorizante até. Seus pais riram de sua ansiedade, a irmã e o grupo de amigas queridas muito próximas tentaram acalmá-la naqueles dias que sucederam o tetra campeonato da Alemanha. Como todo feitiço do mal, a sensação de falência custou a passar.

Para as Olimpíadas, Serafina estava emocionalmente mais protegida de seus próprios devaneios esperançosos. Muito bacana ter a cidade cheia, os novos museus, mais metrô, etc., etc.; fazia planos de ver uns jogos nas arenas, ia encontrar as amigas para ver outros na TV e esse seria todo o poder que essa nova festa do esporte ia ter na sua vida.

Ponto final.

Bem, havia seu emprego que a mergulhava nas Olimpíadas quase literalmente. Formada a pouco, trabalhava como terceirizada no Instituto Público de Rios e Lagoas em uma função (que ela achava) relevante, gostava do que fazia, dos projetos onde estava inserida e por isso ficou muito surpresa quando recebeu a surpreendente paquera de um renomado escritório internacional de recrutamento.

Sim, porque a insistência do Head Hunting Office só poderia ser definida como ‘paquera’.

Foi em uma terça-feira comum, daquelas que vem depois de uma segundona enfadonha e precedia uma quarta modorrenta; em uma terça dessas, Rafí - como era chamada pelos amigos e família - seguia sua rotina de se esgueirar da cama cedinho para ir à praia, na volta engolir um iogurte e uma fruta, tomar um banho rápido, bater papo com quem ainda estivesse em casa e correr para o metrô. 
Tudo absolutamente corriqueiro, nada fora do padrão, mas naquele dia houve a ligação de uma mulher educada, seca e muito insistente a convidando para uma entrevista. Serafina fez perguntas que não foram respondidas e desconfiada agradeceu já declinando, mas como a mulher insistiu com muita veemência, acabou concordando em uma reunião rápida.

Precisou planejar sua hora de almoço; uma saladinha, duas estações de metrô, passo apertado – ia dar tempo. O imponente prédio onde o HHO ocupava um andar inteiro não era longe do seu trabalho.
Com alguns minutinhos para perder, deu tempo até para caçar monstrinhos no celular! Que sorte: a praça em frente ao prédio imponente também era um hotspot fantástico. ‘Quantos conseguiu?’ Ela perguntou a outro ‘caçador’. ‘Seis? Qual deles perdi?’ Distraída, Serafina não notou dois rapazes charmosos passarem pelo grupo de pessoas envolvidas nos seus próprios celulares.

Para quem considerava a mania uma grande besteira, essa obsessão mundial estava perigosamente saindo do controle. Nicolas e Oswald Brent preferiam se dedicar às Olimpíadas. Após quase serem atropelados por dois caçadores andando atrás de um monstrinho virtual, continuaram em direção ao seu restaurante favorito para almoçar.

Os primos haviam sido descobertos pela HHO no último ano de faculdade na Inglaterra – Administração para um e Finanças para outro – e foram contratados antes mesmo de pegarem seus diplomas. A empresa que acompanhou suas especializações e MBAs os lapidou para cuidar do futuro escritório Brasileiro de olho em todo o potencial do país em franca ascensão. Nicolas era filho de Brasileira, tinha dupla nacionalidade, por isso caberia a ele a responsabilidade de manter a excelência do HHO contando com o auxílio de outras jovens mentes Europeias igualmente brilhantes e promissoras como o primo.

Apesar de sua origem aristocrática, os dois abraçaram a experiência de estabelecer a filial da empresa no Brasil assim que lhes foi oferecida. Não somente por ser uma façanha notável no âmbito profissional, mas também pessoal: viveriam sozinhos por anos.
Escolheram Copacabana, a praia famosa, apartamentos vizinhos, em frente ao mar: estariam no Brasil a trabalho, sim; mas também aproveitariam o que a cidade tinha de melhor. Nos Réveillons e na Copa, seus pequenos flats no apart-hotel ficaram lotados de amigos. Agora que os Jogos estavam próximos, seria ainda melhor já que os amigos do antigo time competiriam. Como tinham saudade da vida em Vilas Olímpicas...

Haviam feito parte do time de esgrima – Nicolas como atleta de competições individuais e Oswald da equipe técnica. Precisaram se desligar quando a vida profissional exigiu que se dedicassem mais à faculdade que ao esporte, mas a experiência os acompanharia para sempre.

Tinham orgulho de sua participação no time de sucesso e seu orgulho por vezes poderia ser confundido com arrogância. Nicolas por sua personalidade reservada – não tinha tanto de sangue Brasileiro a ponto de ser socialmente destemido; o primo por ser bonachão e assertivo.

Depois de um almoço leve e rápido, voltaram ao escritório discutindo relatórios e compromissos daquela tarde, também os preparativos para receber o dono da empresa em sua iminente visita que possivelmente perduraria até os Jogos. Evitar se deixar distrair pelas Olimpíadas já seria difícil, muito mais tendo que ciceronear seu chefe.

Esperando na longa fila para os elevadores, Nicolas deixou os olhos vagarem pela praça do lobby de seu edifício enquanto o primo checava o telefone, os pensamentos tão distraídos quanto seus olhos que focaram em uma garota bonita. Também concentrada no celular, ela precisou dar vários passinhos para o lado, saltitou graciosamente como uma ginasta para deixar um senhor muito gordo sair do elevador. Mesmo de longe Nicolas viu que ela deixou o celular cair, levou as mãos aos quadris reclamando e aceitou quando alguém abaixou para lhe devolver; agradeceu e entrou por último no elevador lotado. Mais uma caçadora de monstrinhos, provavelmente por isso levou o encontrão... Sorriu com ironia.

Mais de quinze minutos depois, Serafina ainda esperava na recepção luxuosa do HHO quando o elevador bipou. De novo. Para um edifício tão movimentado, os elevadores eram incrivelmente lentos e barulhentos, pensou irritada sem tirar os olhos de sua coleção de monstrinhos. Precisava colocar mais uns dois ovos para chocar e cuidar dos que já estavam prestes a eclodir.

Os dois homens entraram na recepção ainda conversando e cumprimentaram a recepcionista deixando escapar um leve sotaque. Um deles seguiu pela porta de vidro enquanto o outro perguntou se havia recados.

‘Só da Dona Zara. Quando ela saiu para o almoço deixou recado para o senhor atender essa moça se ela não chegasse na hora.’ Apontou para Serafina. ‘Já está esperando faz um tempinho.’ Cochichou.

Nicolas franziu a testa virando para ver quem seria, nunca marcavam entrevistas àquela hora. Lá estava ela, a garota bonita do elevador, a caçadora graciosa. De perto era ainda mais bonita, fã de jogos de celular e... Tentou lembrar o que sua recrutadora-chefe havia repetido incessantemente na reunião daquela manhã. A economista ecologista promissora, deveria ser ela.

Impaciente com a demora e a falta de educação, Serafina checou o relógio. Logo seu almoço estaria no fim, ela não procurava outro emprego, por que por em risco o que já tinha e gostava? Quando levantou os olhos contrariada, o cara ainda encarava com a testa franzida.

Ao encontrarem os olhares, Nicolas levantou as sobrancelhas discretamente, suas pupilas dilataram. Uau. Ele pensou. Serafina apertou as pálpebras.

Durou pouco mais do que se esperaria para duas pessoas que se encontravam pela primeira vez, três ou quatro segundos a mais.

Ele meneou a cabeça, ela estranhou com o cumprimento.

Havia ficado irritada quando a recepcionista disse que a mulher insistente não a estava esperando, deveria ter dado meia-volta e partido sem perder nem mais um segundo. Estupidamente se rendeu à sua curiosidade e sentado para esperar. Também estupidamente achou que o cara tão bonito iria se desculpar e a chamar para entrar. Mas não! Ele permaneceu plantado ao lado do balcão da recepção a encarando e... A cumprimentou silenciosamente!

Tomada por ironia e incredulidade, ela meneou a cabeça de volta forçando um sorriso de lábios presos. Otariano. Serafina apertou os olhos de novo.

‘Boa tarde.’ Ele a cumprimentou seca e inesperadamente, por um momento pensou em fugir para esconder suas bochechas coradas na sua sala.

Serafina foi mais uma vez pega de surpresa pelo cara bonito. Por alguns momentos achou que ele a ignoraria.

‘Estou com a tarde cheia.’ Nicolas virou-se para a porta na intenção de esconder o rosto aquecido. ‘Zara marcou essa entrevista na hora do almoço?’ Perguntou e a recepcionista balançou a cabeça. ‘Liga para ela, manda voltar imediatamente.’ Disse se recompondo. ‘Peço que desculpe o contratempo, logo será atendida.’ Explicou à Serafina. ‘Já lhe serviram água ou café?’ Nicolas ofereceu e esperou estoicamente.

‘Obrigada.’ Mal respondeu e sentiu o pescoço aquecer com a reação dele: balançou a cabeça uma vez, deu meia volta e sumiu pela porta de vidro. Francamente! Paciência tem limite!

Muito constrangida, a recepcionista se desculpou vendo Serafina se levantar. Esticou um tablet com um e-formulário para que fosse preenchido de modo a comprovar que ela esteve lá. Pediu por favor indicando com o polegar sobre o ombro a porta por onde Nicolas havia sumido; ela própria teria que dar explicações à auditoria caso Serafina não deixasse provas.

Mais uma vez estupidamente, Serafina sentou com pena da recepcionista e pegou o tablet. Pensou em digitar ‘Serafina Otariana’ no espaço ‘nome’ ouvindo o elevador bipar de novo e uma loura magra vagamente parecida com Lady Gaga em um bom dia, fortemente cheirando a cigarro entrou na recepção em passos decididos.

A recepcionista suspirou aliviada. ‘Dona Zara, Serafina Mello está esperando.’

‘Brent não chegou, por que não começou a entrevista?’ A mulher franziu a testa unindo as sobrancelhas negras e se virou para Serafina esticando a mão. ‘Serafina, boa tarde. Mando te chamar já, já.’ Apertaram as mãos em um cumprimento curto e energético antes que a mulher sumisse pela porta tão rápido como apareceu.
Que titica de lugar esquisito é esse? Serafina sacudiu a cabeça rearrumando os pensamentos, abaixou os olhos para o formulário em suas mãos e não conseguiu pensar em sequer uma razão para preenche-lo. Estava feliz no seu emprego, tinha um salário decente, carga horária confortável, não precisava procurar outra colocação. Havia porém a razão que a tinha movido, seu pecado: curiosidade.

Finalmente foi levada a uma pequena sala de reunião no final de um corredor longo cheio de pequenas salas de reunião. Eram especialistas em entrevistas concomitantes, aparentemente. Também em atraso e frieza.

‘Você foi indicada por um parceiro.’ Zara disse olhando para seu tablet pousado sobre a mesa. ‘Economista especializada em ecologia com ótima formação, cursos no exterior... Muito incomum.’ Continuou sem levantar os olhos. ‘Aqui no Head Hunting Office temos grande demanda para esta vaga. Não para um cliente, para trabalhar conosco em nossa divisão focada em Ecologia. É um departamento novo, em formação.’ Por fim olhou para Serafina. ‘Vários clientes estão aprimorando políticas de desenvolvimento sustentável, greenwashing não é mais aceitável.’

‘Um parceiro?’ Serafina inclinou a cabeça. ‘Quem?’ Zara desconversou dizendo que falavam com várias fontes diariamente, seria quase impossível lembrar quem a indicou primeiro. ‘Vários parceiros falaram de mim?’ Insistiu achando muito intrigante ser assim tão famosa. ‘Que companhias estão focando em ecologia com seriedade? Terceiro setor, um tipo de WWF ou Greenpeace?’ Mais respostas evasivas. ‘Olha, como te falei ao telefone, não estou interessada em outro emprego. Mas agradeço de qualquer forma.’ Disse decidida a levantar e partir.

Ainda assim a mulher continuou a entrevista pedindo que o tal formulário fosse preenchido e de repente, para surpresa de Serafina, ela levantou, apertou sua mão e a deixou sozinha na pequena sala de reunião. Estupefata, Serafina decidiu parar o formulário onde estava – mas não antes de pedir salário anual cinco vezes maior do que tinha no momento por pura irritação. Apertou os olhos pensando em adicionar mais um zero. Save. Send.

Assim que saiu do elevador na plaza do térreo, carregou ‘Só as princesas’, o grupo de mensagens das amigas.


Rafí: *mensagem de voz* Gente, acabo de sair da twilight zone. Uma pessoa misteriosa me indicou para ser entrevistada por gente bonita e mal educada para um emprego perfeito em uma companhia fantasma. Acham que é pegadinha de programa humorístico, meninas? Riu.