segunda-feira, 15 de junho de 2020

Entendendo o apelo do horror: violência, sexo e ameaças

Olá!
Há quase 2 anos fiz uma pesquisa sobre o apelo de fantasias eróticas perigosas. No post 'Entendendo fantasias sexuais proibidas: violentas e ameaçadoras' expliquei o que aprendi:
tudo se baseia em poder
Obra baseada em Carmilla, de Sheridan le Fanu, do wiki

O poder que temos de mudar de canal, fechar o livro, sair do cinema. 
Mesmo para vítimas de violência sexual, talvez mais ainda nestes casos, o controle é o fator mais importante. Não se deixe levar por este resumo simplório, leia o post cheio de referências e fontes bibliográficas. 
Na época, minha pesquisa veio especificamente da minha incapacidade de entender porque o gênero 'vanilla porn' fazia tanto sucesso; agora venho fazer outra pesquisa devido a uma complicada correlação de fatores literários que me levam a entender a nova modinha como horror.
Gênero super popular nas artes com exponentes como Stephen King e Zé do Caixão, o horror movimenta zilhões $$ todo ano. 
Mas, péra, do que raios eu estou falando? 
De onde eu tirei o 'horror'?
Te conto.
poster de Misery de D Litzinger 

Há pouco eu li '1984' de cabo-a-rabo pela primeira vez. Apesar de comparar com 'Admirável mundo novo' (que eu adoro), percebi e dei valor merecido a todas as referências com a nossa vida atual, quase um século depois que Orwell escreveu a crítica ao socialismo. Da 'think police' à 'reescrita de todas as notícias do passado', vivemos a era do Big Brother. Se você leu, sabe que todos são pegos pelo sistema, cedo ou tarde, por um deslize ou outro. E quando é capturado, você conta o que sabe até chegar na maior crueldade possível para o ser humano, para cada ser humano.
Sala 101
pinterest
Qual é o seu maior medo? 
Pode não ser o meu.
O meu é encarceramento e violência sexual. 
e, olha veja só...
Justo o tema do momento agora.
we heart it

Pesquisei então o apelo do gênero do horror - que é diferente do que é chamado de terror na linga inglesa, tipo terrorismo 11 de setembro. Já li Stephen King e adorei. Já abandonei outro título dele por medo, confesso. Acho mesmo que o cara escreve bem a este ponto. Curto Neil Gaiman, transo bem. Filmes não são minha praia. Mas são de muita gente!
Sara Roncero Menendez definiu assim (e eu gostei muito): "Os leitores têm suas próprias razões para mergulhar no escuro das estórias de horror. Talvez eles gostem da adrenalina, ou talvez tenham nascido sem medo e nada os sacuda. Talvez seja terapêutico, ou talvez seja a definição deles de diversão."
Livros de terror/horror podem apresentar  criaturas típicas como vampiros, lobisomens, fantasmas com muito sangue e carne exposta; pode ter atmosfera gótica - e até humor- carregada; pode ser sobre medo em si. Mas é um erro achar que todo horror é projetado para fazer você se sentir inquieto ou deixá-lo acordado à noite, temendo todos os rangidos, gemidos e luzes tremelicantes, já que, e aqui está a chave da coisa toda, o mais importante é que tudo é superável e passível de sobrevivência.
Viu porque adorei ler a explicação de Menendez?
Tudo se baseia em poder.
giphy

Explico...
Ela continua falando o óbvio, vários personagens de histórias de terror/horror morrem, até ficamos com pena, veja só! Mas a grande maioria sobrevive! O bem vence o mal. Há luz no fim do túnel. Vamos sair da quarentena. (Vai ser engraçado ler isso daqui há um tempo...) 
Então, por vias tortuosas, na dureza do sofrimento, ler esse gênero é escapismo. "O livro pede que você siga as jornadas emocionais e físicas dos personagens para sentir o que eles estão passando, ou para ficar justaposto às coisas horríveis que eles estão fazendo ou vendo. No final, pode parecer que você esteve no inferno e voltou, o que pode não ser "divertido", mas ainda é gratificante, enriquecedor e instigante." Entendeu? Através do personagem, você enfrentou os raios e sobreviveu!
Aleluia!!!

Romances também servem pra isso, né, Mr Darcy?

E o controle, o poder?
Tá puxado? 
O inferno da vida tá dificil de encarar? 
Larga o livro, pula um capítulo, lê o fim. 
Você manda!
Um mix de emoções carnudas, tudo muito gostoso de experimentar. Um shot de adrenalina, reações viscerais tipo raiva - ódio - medo - amor - surpresa - terror - repulsa - empatia, tanto para o leitor sentir-se vivo, conquistar demônios, explorar o desconhecido. Merrie de Stefano lista vários tópicos, explica razões para quem, como eu  tenta entender o apelo. No fundo, no fundo, é a necessidade de encher os reservatórios de esperança, provar que podemos sobreviver, satisfação quando o terror é superado, ela diz "PROVA QUE OS DRAGÕES NÃO SÓ EXISTEM, MAS QUE PODEM SER DERROTADOS".

É PELA EMOÇÃO!
pinterest

No Quora, lugar bom de visitar, achei essa explicação: Ler ficção de terror/horror é uma atividade segura. Eu sei que estou seguro, mesmo quando não me sinto seguro. Portanto, as emoções que sinto durante a leitura são emocionantes. (do dicionário: capaz de causar emoção; impressionante ou provoca comoção; comovente). Muitas pessoas também acham que o horror tem um poder catártico. "Catarse" é a purificação e purgação de emoções através da arte. Sigmund Freud diz que é uma maneira de se livrar de nossas "más" emoções.

Mas de toda a minha pesquisa, o que mais adorei, printei, vou laminar pra guardar na carteira e ler todo dia da minha vida é isso:
 "Buscamos histórias que nos dão um lugar para colocar nossos medos. 
 Os livros em particular, (...) histórias que nos assustam, nos perturbam, (...) 
nos deixam desconfortáveis ​​ou que tocam em algum lugar no coração - 
nos dão os meios para explorar as coisas que nos assustam ... 
mas apenas na medida em que nossa imaginação e nossas experiências permitem. 
Elas nos mantêm seguros enquanto nos permitem imaginar que estamos em perigo.

 Afinal, as histórias nunca são sobre o que elas são
sempre há um bolso em algum lugar delas para que possamos
 experimentar nossas próprias emoções, 
nossos próprios medos. 

 Uma caixa no centro de tudo esperando para ser preenchida, 
em algum lugar podemos levantar a tampa e olhar a escuridão... 
e fechá-la novamente quando tivermos o suficiente."

Entendi!
Perfeito!
Muito obrigada, Lou Morgan no The Guardian.
meme generator


E isso tudo com a modinha da vez?

Tenho ouvido tititi de toda sorte, gente dizendo que o novo livro/filme-muito-bom-demais é água com açúcar e gente dizendo que é apologia ao crime & ao momento merda que estamos vivendo.

Como disse, na sala 101, cada um tem seu medo.
mecanix

E convenhamos, vez por outra aparece um sucesso desses sem plot, ou o enredo é muito ruim, ou doido mesmo. Lembra de 9 semanas e 1/2 de amor? Quanto mais sem enredo, mais sexo inverossímil e heróis cafajestes, melhor. Pornô que chama, né?
Mas daí, agora o tema é mais pesado.
Violência mesmo.
Sequestro.
Estupro.
Gaslighting.
Assédio. 
Depois do 'me too' e da 'maria da penha' ainda há espaço pra estupro romanceado? Tem!
susannabirch

praiseworld radio

Deixa eu contar uma estória: moça lindinha tem namorado, mas um bad boy cisma com ela. Certo de que a moça tem que ficar com ele, o bad boy convence a moça que o namorado é inútil, não serve nem para protegê-la. Solteira, o bad boy sequestra a moça para viver, com muito sexo animal, um romance com ela. Até que, não convencida, eles se separam.
Enredo de filme de sucesso em plataforma de streaming inspirado em livro Europeu? Quem me dera... Essa é a história de Liana Bei Friedenbach, mocinha de 16 anos em 2003 em um caso que, vergonhosamente, o facínora foi quem ganhou fama. Pesquise no Google se quiser lembrar, não vou sujar meu blog com o nome deste individuo.
Você vai me dizer: ah! Mas é tudo diferente!
jovem pam

Sim, no filme o facínora é rico, bonito, bem dotado, 
enche a vítima de presentes caros, tem charme. 
click araguaiana

Você vai até repetir a brincadeira: quem me dera sentar num cara desses!
E melhor, você tem o poder de desligar na hora que quiser.
instituto santos dumont

Mas, na real, é a mesma violência hedionda.

jornal de blumenau

O lance é: sabemos diferenciar ficção de realidade?
IPPUR/UFRJ

Isso. Não. É. Romântico.
Isso é horror. 
É terror.
Se você acha que é gostosinho, 
procura ajuda. Rápido.

Pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui.





2 comentários:

  1. Não assisti, mas vi a sinopse e só o SEQUESTRO me deixou: ALGUÉM DÁ UM TAPA NESSA GENTE! Adorei o post!

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