sexta-feira, 15 de maio de 2020

Arma Perigosa - um NANOCONTO Vitoriano

Olá,
Sempre é tempo para uma historinha, né? Ainda mais nesses dias trancafiados, nada melhor que uma intriga...
Dia desses me contaram uma anedota. A trama me ficou na cabeça, rolei a ideia por um tempão até chegar aqui e daqui para frente... Me aguardem!

Arma Perigosa
Vitorio Reggianini - The secret

 
Cecille, a Baronesa Westbrook, olhou o amante calmamente lendo o jornal do gabinete, charuto preso entredentes, e suspirou. Ali ela era Cils e ele Cici, simplesmente. Um aceno para o mordomo que lhe abria a porta e ela saiu. En garde. Dez passos para a desgraça, poucos momentos até sua vida ser decidida na saleta de visitas de Bominda, a Baronesa Abominável. Cils odiava aquela vizinhança esnobe, as casas geminadas, a falta de privacidade; odiava ser reconhecida onde quer que fosse, odiava mais ainda ter sido vista na fuga vergonhosa pelo passeio coberto do Albany. Imaginava seu nome na boca de todas as damas no chá para onde se encaminhava tal como condenado ao cadafalso. ‘Ela saiu correndo, foi?’ e ‘Do prédio de apartamentos para homens solteiros?’ e ‘Casada com o idoso Westbrook, amante de jovem misterioso!’ A porta da mansão vizinha abriu assim que Cils subiu os três degraus da calçada, o mordomo da Abominável tomou seu casaco e indicou as escadas, ela subiu ouvindo vozes fantasma na cabeça; torcia as feições em raiva, sentia enrubescer as bochechas. ‘Tarde da noite, de capa escura, mas sei que foi ela!’ e ‘A safadinha, gracejando nas costas do barão!’ O zum-zum-zum de conversa feminina parou quando ela entrou, rosto da cor de cereja. Movida por indignação, dedos trêmulos descalçando a luva de pelica da mão direita, Cils se encaminhou diretamente à Bominda e slap!  
‘Escolha sua arma.’ 
Houve um arfar generalizado, alto e aterrorizado.
Pronto, tinha feito o desafio, resolveria tudo de uma vez. Sorriu já vitoriosa mirando o ombro da baronesa abominável. Cils era exímia caçadora, controlava uma pistola como ninguém. A outra nunca mais usaria decotes amplos, teia que esconder a cicatriz em xales.
Com a mão no rosto onde o tapa ardia mais na humilhação do que na pele, Bominda apertou os olhos. ‘Tinta e pena.’ Respondeu iniciando um novo arfar pela sala. 
Todas entendiam que era guerra.

 * FIM *
 
luvas vitorianas, antiguidade. flickr


Assim como Cloistered, este nanoconto é presente para amigas queridas, companheiras de loucura nessa vida engaiolada de quarentena. Cada uma em seu quadrado, vivemos trocando fofocas de nossas vizinhanças. Cecille e Bominda são fruto dessas nossas tricotagens.

Duelos eram proibidos na época desse Nanoconto, não só na Inglaterra Vitoriana, mas pelo mundo. Na verdade proibidos desde o século 18. No entanto, há relatos de vendetas resolvidas no tête-a-tête, ponta do sabre e cuspida de arma de fogo.
Entre damas, há relatos de duelos incríveis, despidas até a cintura para evitar sujar os trajes, por causa de flores e outras razões que hoje parecem infames.
É um assunto ótimo, estou presa na pesquisa desde que essa anedota me fez pensar em duelo pela defesa da honra. Dia desses faço um post bacana explicando detalhes e curiosidades.
pinterest

Por hora, te convido a se deliciar com a zoom meeting do elenco do musical Hamilton durante o bacanérrimo talk show do gato John Krasinski. O musical é famoso por ter somente atores 'não brancos' na equipe, latinos, negros, orientais, indígenas. Alexander Hamilton é um dos 'founding fathers' dos Estados Unidos. Estadista, político, estudioso das leis, comandante militar, advogado, banqueiro e economista que foi perseguido por duelos a vida toda. Tanto ele quanto seu filho primogênito morreram duelando. E Lin Manuel fez Mary Poppins 2, então ele pode tudo, né? Supercalifragilistespialidoso!


OUTROS NANOCONTOS? Tem, sim! aqui, ó!
até mais,
M.

pesquisas aqui, aqui, aqui, aqui e mais em outro post

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