terça-feira, 7 de abril de 2020

Jane Austen e a maçonaria secreta de Kipling

Olá!
Como vão indo seus dias de isolamento social?
Eu confesso que tenho sido bem menos produtiva do que imaginei.
Esse post de hoje, por exemplo, levei quatro dias para organizar! Mas ah, que pérola! Garanto que vai te deixar com um sorriso no rosto...
Uma maçonaria para Jane Austen?
lembra da Maçonaria nos Flintstones? haha

Sim, Austen Nation!

Deixa eu te contar como encontrei essa pérola, essa gracinha, essa fofura Austenite!...
Um amigo me fala há tempos de um documentário de Jane Austen que passa no canal Arte 1 da TV a cabo e nunca consigo. Ele que só conhece Austen pelo tanto que eu falo e pelo que escrevo (pq ele e migo de fé, irmão camarada e lê tudo que eu escrevo), sempre pegava o programa e me avisava, mas eu nunca conseguia. Estava fora de casa, ocupada, sei lá! Mas aí, semana passada ele me ligou dizendo: 'Para o que está fazendo e vai ver que o programa está começando!' Eu fui. 
O documentário é bacana mesmo, chama 'Adoradores de Jane Austen' (The many lovers of Jane Austen). Acho que não estará na programação pela semana de Páscoa (próxima), mas achei no Youtube o pedacinho que me fisgou.

Um 'amante' de Austen em especial, Rudyard Kipling, escreveu um conto chamado Janeites há 100 anos... Que interessante!
Na mesma hora pesquisei Janeites Kipling e fiz print da tela para pesquisar depois. Esqueci. Fiz a revisão final do manuscrito do meu novo projeto com a migona Lucy Dib, mandei para revisão, cozinhei, lavei louça, cozinhei, lavei louça (só faço isso nesses dias de isolamento infernal), até que me lembrei. 
Gente, que angu de caroço!
Puxei uma linha, veio um novelo infinito!
E incrível!...
msn com


Olha, primeiro de tudo, vamos ao homem, Kipling. Não é o dono da grife adorável do macaquinho - que aliás foi batizada E tem o macaquinho por causa do livro mais famoso de Rudyard Kipling, JUNGLE BOOK (O LIVRO DA SELVA) - mas o autor Inglês.
kipling

Tudo é tão rico e tem tanta significância que tomei um surra trabalhando nesta tradução. Amay fazer, mas desde já peço perdão por qq loucura de Janeite. Veja que mistura:


JANE AUSTEN + MAÇONARIA + 1ª GUERRA MUNDIAL
E isso casa?
Sim!!! 

Fato é que a cada pesquisa que eu fazia, mais uma vertente achava, mais um livro, mais uma fonte, mais me apaixonei pelo conto e a atmosfera criada por Kipling. Nunca gostei muito de Mogli, acho meio chatão, mas devo dizer que o autor tem uma finesse que me derreteu o coração. 
Palmas para ti, Mr. Kipling!


Organizei da melhor maneira que pude para te localizar no tempo & espaço, mas se quiser pular a explicação e ir direto ao conto (em outro post pq este aqui ficou muito recheado), garanto que vai rolar a mesma reação: olhos marejados e sorriso no rosto.

Bem, aqui vai meu trabalho duro. Espero que goste!
mensagem com amor


Joseph Rudyard Kipling (1865-1936) foi um jornalista inglês, escritor de contos, poeta e romancista. A Índia, seu lugar de nascimento, inspirou grande parte de seu trabalho. Seus livros infantis são clássicos descritos como “um presente narrativo versátil e luminoso”.
Maçom ativo em vários momentos da vida, membro da Sociedade Rosacruz, a Primeira Guerra Mundial tocou profundamente Kipling. Além dos horrores do conflito, seu filho John foi morto aos 18 anos na Batalha de Loos (França), em setembro de 1915. John havia tentado sem sucesso se alistar várias vezes até Kipling, o pai, pedir a intervenção de um velho amigo ex-comandante do exército Britânico e coronel da Guarda Irlandesa; só então John foi aceito na Guarda Irlandesa. 

Muitos documentos da época contam que os soldados nas trincheiras geralmente pediam cigarros e algo para ler - especialmente algo que tirasse suas mentes da dura realidade que viviam. Jane Austen era a favorita por seu bom-humor e sagacidade no realismo da vida da rural gentility. Assim, após a morte de seu filho, Kipling compôs vários trabalhos sobre a Primeira Guerra Mundial, incluindo um conto intitulado “The Janeites”, sobre um grupo de soldados da Primeira Guerra Mundial que secretamente era fã dos romances de Austen. Este conto, frequentemente citado como o local de onde veio o termo Janeite, foi publicado na revista Story-Teller em maio de 1924. Em 1926, Kipling publicou uma coletânea de contos chamados Débitos e Créditos (Debits and Credits). Nele existem quatro contos de inspiração maçônica, todos centrados em torno de uma loja maçônica imaginária e perfeita de Londres chamada 'Faith and Works No. 5837, E.C.' (Fé e obras num. 5837, E.C.). As histórias são: ‘Interesses dos irmãos’, ‘Janeites’, ‘Madona das trincheiras’ e ‘Amigo da família’. 
Nesta coletânea, com alguns pequenos cortes e acertos, Janeites foi precedido pelo poema ‘A sobrevivência’ e seguido por ‘Casamento de Jane’ (ambos poemas no próximo post).
No ótimo livro A romancista Jane Austen: Ensaios Passados e Presentes de J McMaster, há o capítulo Jane Austen como Fenômeno Cultural que trata disso.

'Janeites, o conto de 1926, divertidamente reformula James (Henry James, famoso por fornecer "a análise mais astuta das origens do Janeitismo"), de amoroso de Jane Austen a sua prole legítima. A história tem um lugar curioso no debate Janeite e, principalmente, pela reversão dos alinhamentos usuais de gênero. Como alguém que teve ocasião de observar os dados demográficos atuais das sociedades de Jane Austen, nas quais as mulheres são a grande maioria, saúdo o forte viés masculino da história; pois reforça a imagem de Jane Austen, apropriada para ambos os sexos e também para todas as estações.
A história se passa após a Primeira Guerra Mundial, entre veteranos que se reúnem para recordar. O personagem principal é um artilheiro da classe trabalhadora, Humberstall, que foi 'explodido duas vezes'. Depois da primeira vez, quando ele poderia ter ficado na vida civil com honras, ele ainda assim insiste em voltar à sua unidade, embora com sua capacidade mental diminuída notavelmente. (Suas credenciais como macho man são impecáveis.) Como ele não está mais em condições de usar as armas, ele recebe um emprego na retaguarda e, portanto, ouve muito da conversa de seus superiores. Na vida civil, um deles é advogado de divórcio, o outro, investigador particular; e, portanto, como consequência natural, ambos são misóginos. A única mulher que eles admiram, de fato idolatram, é Jane (seu sobrenome nunca é mencionado). Com analogias elaboradamente implícitas aos segredos e rituais maçônicos, seus escritos se tornam um código, e o conhecimento deles qualifica você para pertencer a uma sociedade selecionada e privilegiada. (As sociedades de Jane Austen de hoje sabem muito sobre isso, embora sejam menos deliberadamente exclusivas.) As frases dos romances se tornam senhas: as armas são chamadas de 'Bloody Eliza', 'The Reverend Collins' e 'The lady Caterine de Bugg'. Humberstall, embora sua experiência como artilheiro tenha ficado completamente esquecida, ainda assim entra nos seis romances e chega a responder a eles profunda e misteriosamente. A conversa na base se forma de narrativas sobre o tribunal e a agência de detetives para aprender teologia de Jane. "Então eles discutiram sobre Jane - todos os três, independentemente da posição", lembra Humberstall. O motivo final, alegremente entregue por um ex-professor de escola é "bosko absoluto", é a alegação de que Jane, em vez de morrer sem "descendência legal", na verdade "deixou um problema legal na forma de um filho; como '' é o nome era 'Enery James'.
Toda a unidade, com exceção de Humberstall, é exterminada quando a frente de Somme entra em colapso em 1918. Humberstall, que teve todas as roupas arrancadas dele, exceto suas botas, cambaleia para um hospital, onde uma alusão à senhorita Bates lhe garante a admissão, caldo de carne e um cobertor extra. As senhas de Jane o valem tanto no mundo dominado por mulheres do hospital, como nas conservas masculinas dos artilheiros nas trincheiras e dos veteranos.
...
Quando o termo Janeite é usado de forma abusiva agora, espera-se que seu referente seja exagerado, entusiasmado, feminino e conscientemente "culto". É bastante agradável encontrar Kipling caracterizando os Janeites como agressivamente masculinos e o estudo dela como superando todas as barreiras de hierarquia, classe, educação e até - em última análise - gênero. Humberstall, apesar de ser da classe trabalhadora, em estado de choque, bêbado e abobado, e 'apto a se perder às vezes ', e apesar de sua compreensão superficial dos romances na melhor das hipóteses, no entanto, lembra os dias de sua imersão em Jane como a mais feliz da sua vida.
Na vida civil, Humberstall é cabeleireiro; esta é a única concessão ao mundo feminino que marca sua excelência Janeite. Sua conexão profissional com a vaidade feminina não o azedou, como o advogado e o investigador particular. Embora 'The Janeites' retrate um mundo predominantemente masculino, o gênero continua sendo uma questão importante.

The Janeites, de Kipling, parece ter sido escrito em resposta a Henry James, com a piada de que ele era filho de Jane formando uma censura alegre a um filho insuficientemente respeitoso.

Com isso tudo tão desenhadinho e perfeitamente dito, fui procurar Henry James...
wiki


"...Henry James, em cujas boas maneiras na ficção são frequentemente instrumentos de destruição indiretos, poderia ser condescendente com uma de suas influências mais fortes, embora reconhecesse sua genialidade. As heroínas de Austen tinham "mentes pequenas e de segunda classe e eram pequenos Filisteus perfeitos", pensou. "Mas acho que é isso em parte o que as torna interessantes hoje". Disse Lee Siegel na Atlantic.

E sabe o que mais eu achei nesta pesquisa? Virginia Woolf, E. M. Forster, um mundo de gente boa demais para deixar passar... Isso é um buraco quente, te digo!
Nem vou te levar nesse labirinto infinito, mas te encaminho para o conto propriamente dito com essa citação maravilhosa:


“Sou Jane Austenite e, portanto, um pouco imbecil sobre Jane Austen. 
Minha expressão tímida e ares de imunidade pessoal - quão mal eles parecem no rosto, digamos, de um Stevensoniano! 
Mas Jane Austen é tão diferente. 
Ela é minha autora favorita! 
Eu li e reli, a boca aberta e a mente fechada."
wiki

O conto está no próximo post. Aqui.


outras curiosidades & pesquisas históricas, aqui

Pesquisei aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, ufa!

Nenhum comentário:

Postar um comentário