& Moira Bianchi

sábado, 12 de dezembro de 2020

Um podcast para os LORDES IMPERFEITOS

 Olá!

No lançamento dos Lordes Imperfeitos - a série de romances de época que eu e Lucy Dib lançamos pela Editora Pitangus - tivemos um convite muito especial para participar de um PODCAST.

Adamson David Comba - five o'clock tea


UM LIVRO EM 5 MINUTOS é um canal muito bacana da Dayane Neves. Vale seguir!

Como o CAFÉ COM JANE AUSTEN anda em recesso, achei uma graça gravar com as amigas. Andava com saudade.

Falamos de nossas origens, de como começamos a escrever, das influências, de como Jane Austen tem culpa na união que tenho com a Lucy.

Além dos primeiros Lordes Imperfeitos - O Conde Sovina e O Duque Muquirana - falamos dos próximos (spoilers abundam!) Lordes, do Cartas à Dora que fizemos juntas e de muito mais coisas.

É um papo bem bacana, rapidinho, divertido, várias risadas e alguns segredos.

listening at the door - 19th cent


Vem ouvir, como se fosse fofoca dita atrás da porta!

bj


Jane Austen é atual, ainda e para sempre!

 Olá!

Faz um tempinho que dei uma entrevista para a fofa Mayara do Portal Protagonista. Falamos de Jane Austen, de fanfics, de interpretação e cultura básica em Austen Nation.

creative commons
Com aprovação dela, aqui reproduzo o artigo opinativo final que ficou show!


Jane Austen é mais atual do que você imagina

Os ensinamentos que a romancista do século XIX deixou no mundo, por meio de ótimas histórias e grandes protagonistas, serão sempre lembrados como revolucionários. POR MAYARA PEREIRA, que jura solenemente não fazer nada de bom, postado no dia do aniversário da minha mãe, 23 de outubro de 2020

É uma verdade universalmente conhecida que Jane Austen possuía uma mente muito à frente de seu tempo. A autora tinha um pensamento bem progressista em relação a mulheres, comportamento e casamento, assuntos esses pouco discutidos de forma tão opinativa na época. Seus ideais e suas frases poderiam ser facilmente colocados no século XXI e suas protagonistas femininas são discutidas e analisadas com admiração até hoje.

Se você gosta de Jane Austen, se interessa por literatura ou simplesmente quer saber mais sobre o assunto, confira essa matéria especial que o Portal Protagonista fez sobre a grande romancista do século XIX.

Valkirias

Quem foi Jane Austen

Jane Austen foi uma escritora inglesa, que nasceu em Steventon, na Inglaterra, em dezembro de 1775. Ela se destacou na literatura por escrever sobre assuntos rotineiros e até considerados monótonos por alguns, em uma época que livros sobre aventuras e ação estavam em alta. Seus livros, que falavam sobre amor, casamento e sociedade, se tornaram cada vez mais famosos e até hoje fazem sucesso, são estudados e discutidos, além de possuírem centenas de adaptações diferentes.

Adriana Sales Zardini é Docente do CEFET-MG, possui Doutorado em Estudos Linguísticos pela Faculdade de Letras, UFMG. Além disso, é editora da Revista Literausten, participa do Podcast Café com Jane Austen, é presidente da Jane Austen Sociedade do Brasil desde 2009, escreve no blog Jane Austen Brasil desde 2008, é autora de diversos capítulos de livros e artigos sobre a escritora, além de ter traduzido Emma, Mansfield Park e Razão e Sensibilidade. Atualmente é membro da JASNA (Jane Austen Society of North America) e JASA (Jane Austen Society of Australia). A mesma relata que “Jane Austen recebeu uma educação simples em internatos, mas foi na casa dos pais que recebeu a instrução mais valiosa. Austen é filha do Reverendo George Austen, conhecido por seus sermões e, principalmente, por receber alunos que desejam se preparar para os estudos universitários. Assim, Jane tinha à sua disposição uma vasta biblioteca. Foi ali entre os livros que a escritora ‘colheu’ inspiração para tantas histórias maravilhosas como as que ela escreveu. Na época de Austen, não era comum uma moça escrever livros, muito menos com o objetivo de ganhar dinheiro. A família de Jane pertencia à ‘gentry class’, pessoas educadas, porém sem título de nobreza ou grandes heranças.”

Usando o pseudônimo By a Lady, sua primeira obra foi Razão e Sensibilidade, publicada em 1811. Em 1813, veio a publicação de seu livro mais famoso, Orgulho e Preconceito, que foi quase intitulado como First Impressions (Primeiras Impressões). Em 1814 publicou Mansfield Park, seguido de Emma, em 1815. Jane Austen também havia começado a escrever Persuasão em 1815, mas teve que parar um ano depois ao sentir mal de saúde. A autora faleceu em 18 de julho de 1817, aos 41 anos de idade. Acredita-se que a causa de sua morte foi Doença de Addison. Em uma de suas biografias, escritas por seu irmão Henry Austen, o mesmo relata que suas últimas palavras foram: “Não quero nada mais que a morte”. Henry preparou os romances da irmã, Persuasão e A Abadia de Northanger (escrito entre 1798 e 1799), para serem publicados em 1817. 

the atlantic

Revolucionária

Alguns dos fatores mais importantes para que Jane Austen seja considerada uma escritora tão revolucionária e a frente de seu tempo se deve aos seus diferenciais, se comparada a outros autores da época. Por exemplo, a romancista tinha a ironia como uma marca registrada. Ela conseguia retratar a sociedade, os costumes e os diálogos de uma forma muito bem humorada e até ácida, que talvez alguns não tenham reparado. Ela também fazia algumas críticas sociais, de aspectos que, pelo visto, não incomodavam as outras pessoas. Ou até incomodavam, mas esses detalhes eram abordados de uma forma banal por outros. Claro que essas críticas não ficavam muito explícitas e talvez nem fosse esse seu objetivo, mas ainda assim elas estavam presentes.

Seus personagens e suas motivações eram extremamente reais. Suas atitudes poderiam ser executadas por qualquer ser humano. Isso foi um diferencial. Austen não precisou criar climas muito melancólicos ou personalidades perfeitas, seus livros possuem pessoas indo à festas e jantares, tendo problemas familiares e outras situações rotineiras. Mas até mesmo o mais simples diálogo nos prende e faz com que a gente se identifique com as atitudes de algum personagem ou torça para que tudo se resolva a tempo.

Austen muito provavelmente desejava apenas expressar suas opiniões e visão do mundo ao escrever. A importância de Austen na literatura universal é marcada, principalmente, pela escolha de temáticas simples, porém, que são factíveis em qualquer sociedade, inclusive no Brasil. O olhar certeiro de Austen para questões do foro íntimo é o que a escritora traz de revolucionário em suas obras. Naquela época, as mulheres viviam quase que exclusivamente para o lar. Eram raros os casos de mulheres com educação formal e que tinham como objetivo o trabalho fora de casa”, descreve Adriana Sales.

Até mesmo o amor e afeição eram abordados de forma distinta por Jane Austen. Para ela, o amor não era assim tão fácil e vaidoso, conquistado apenas com alguns poemas e um pedido de casamento. O amor poderia vir de um velho amigo que sempre te corrige, mas quer te ajudar a ser uma pessoa melhor, como é o caso de Mr. Knightley para com Emma (Emma). Em algumas situações o afeto pode não ser imediato e começar com uma rejeição, demorando anos para ser conquistado, como acontece com Marianne Dashwood e o Coronel Brandon (Razão e Sensibilidade). Enquanto em outras pode haver uma conexão em questão de dias, mas as circunstâncias também influenciam para que não dê certo imediatamente, como é o caso de Elinor Dashwood com Edward Ferrars (Razão e Sensibilidade) e Jane Bennet com Mr. Bingley (Orgulho e Preconceito). Não eram necessários grandes feitos entre os amantes, grandes atos de bravura. As motivações e personalidades são tão bem exploradas, que não é preciso um grande discurso para que o leitor demore muito a se apaixonar.

O amor, segundo Austen, também poderia nascer lentamente entre duas pessoas que não se dão bem de cara, já possuem opiniões formadas sobre o outro e tem certeza de que vão se odiar para sempre. Elizabeth Bennet e Mr. Darcy são, com certeza, o casal mais famoso de Jane Austen e um dos casais mais queridos na literatura. Criando duas pessoas complexas, teimosas, orgulhosas e preconceituosas, Austen pode não ter inventado a famosa representação do “Enemies to Lovers” (inimigos que se apaixonam), mas com certeza ajudou a torná-lo popular.

Orgulho e Preconceito é o romance preferido da maioria dos fãs da autora, e boa parte se deve ao seu casal principal e o enredo que os envolve, já que Austen faz questão de mostrar o gênio forte de Lizzie(sic. No original é Lizzy), ironizar a importância superestimada que o casamento e a riqueza possuem e aprofundar questões como a vaidade, os maus hábitos e a sociedade daquela época, fazendo com que tudo isso influencie na relação do casal principal muito mais do que imaginamos.

Mesmo Darcy e Elizabeth se entendendo, se perdoando e se apaixonando com o tempo, ainda há dificuldades para que o casal possa ficar junto. Uma delas é o fato de Lizzie  não ter uma boa condição social, ter outras quatro irmãs, mas nenhum irmão e uma de suas irmãs mais novas estar envolvida em um escândalo. Darcy está tão aficionado por ela que já não se importa mais com “a inferioridade de seu berço”, porém sua tia, Lady Catherine de Bourgh, não pensa do mesmo jeito e humilha Lizzie de todas as formas imagináveis.

“Orgulho e Preconceito é um clássico que diz muito sobre quem podemos ser. Apesar de ser muito fora dos nossos padrões, a obra tem ensinamentos sobre ser quem se é, sobre ir contra o habitual, de uma forma mais contida e em alguns momentos até cômica. As adaptações e as milhares de tiragens diferentes provam que ele é um clássico atemporal. Apesar de ser um romance, mostra mais como uma moça “fora dos padrões” pode ser desejada. Mas também mostra que por ela ser assim nada é tão simples, porque ela tem opinião. Acho que a Lizzie é o ponto fora da curva no texto e ao mesmo tempo é a mocinha que depois é retratada em milhares de livros. A ideia de ser diferente, estranha as vezes, e ser vista. Mas torna a ideia de ser único sempre divertida”, conta Gabrielle Batista, que possui especialização em Literatura Inglesa e comanda o Podcast literário Terminei.

É claro que, como sendo uma história de amor, tudo termina bem para o casal, mas não é difícil notar que Jane Austen tinha o objetivo de mostrar que, naquela época, até mesmo o maior dos amores poderia ser prejudicado por questões sociais. Por mais inteligente, interessante e até mesmo por mais bonita que uma jovem fosse, caso ela não possuísse boas condições financeiras, ela não poderia se dar ao luxo de não depender de uma figura masculina (seja um marido, um pai ou um irmão).

É impossível não notar a forma como o universo feminino é visto, opinado e transmitido por Jane Austen. Suas heroínas possuíam personalidades, condições de vida e experiências completamente diferentes em cada uma de suas obras, embora todas se passassem em cenários domésticos e no cotidiano da nobreza e burguesia agrária. As experiências de vida das mulheres se resumiam a conversas durante o chá, cartas trocadas e noites em bailes. Elas não possuíam grandes aspirações para o futuro, pois não podiam se dar a esse luxo. Para terem uma boa vida, elas precisavam ter um casamento vantajoso.

Moira Bianchi é autora de diversos livros – alguns inspirados em Jane Austen – tanto em português, quanto em inglês. Possui um blog literário e também participa do Podcast Café com Jane Austen. Moira nos conta que “Ela escrevia o que conhecia. Por isso ela quase não falava da vida na cidade, ou levava seus personagens em viagens ao continente, por exemplo. Vamos lembrar que não havia internet ou Google, as comunicações eram difíceis e lentas, alguém tinha que viver uma situação ou ao menos ouvir alguém contar diretamente. Ela tinha acesso à biblioteca do pai e depois à vida do irmão, mas o trabalho dela é basicamente a vidinha do interior, visitando amigos e parentes, idas e vindas.”

Moira continua: “De novo, em uma visão deslocada do contexto histórico da época, a vida feminina parece fútil comparada à vida que vivemos hoje. Mas tudo era muito relevante, Mrs Bennet (Orgulho e Preconceito) tinha mesmo que ser louca com o casamento das filhas, já que as via morrendo de fome quando o marido morresse. Casar bem era questão de sobrevivência feminina em uma era em que irmãos tinham prevalência em relação às irmãs, mesmo que mais velhas. Assim, se uma família rica tivesse duas filhas e um filho caçula, ele herdaria quase tudo e seria responsável pelo sustento das irmãs solteiras, poderia as tratar com migalhas e ficava por isso mesmo… O capítulo inicial de Razão e Sensibilidade conta isso com detalhes – é enervante!”

Se analisarmos as heroínas de Austen com atenção, vamos notar que todas elas, por mais diferentes que sejam, possuem pelo menos uma coisa em comum: o fato de serem contidas apenas por serem mulheres e reprimidas por suas personalidades, opiniões e comportamentos.

Começando por Emma Woodhouse, “bonita, inteligente e rica”, como a própria Jane Austen descreve na primeira página do livro. Emma, por mais privilegiada e mimada que fosse, teve que se tornar a mulher da casa muito cedo, por conta da morte precoce de sua mãe e o casamento de sua irmã mais velha. Por um lado era uma jovem de 20 anos muito madura, que cuidava do pai e tinha uma amizade duradoura com o crítico, mas bondoso, Mr. Knightley. Por outro lado ela era um pouco manipuladora e casamenteira, cometendo muitos erros de ação e julgamento que poderiam ocasionar na infelicidade de outras pessoas, por melhor que fossem suas intenções. Emma, por ser rica, não se preocupava com um casamento e até mesmo achava que era incapaz de se apaixonar, sem pensar muito sobre o assunto. Porém, por mais bondosa que fosse, era vista como superficial e vazia. Isso aponta bastante para o fato de que até mesmo as jovens mais ricas e favorecidas não possuíam muitas opções de entretenimento e distrações. Emma não tinha a oportunidade de se divertir senão tentando juntar casais.

Em contrapartida, se fosse um homem no lugar de Emma, que possuísse uma ótima condição financeira e quisesse apenas cuidar da vida de outras pessoas, ele seria visto como diferente e raro. Por exemplo, o Mr. Bingley, que é rico e amigável, assim como Emma, nunca seria visto socialmente como vazio e superficial. Até mesmo o Mr. Darcy, que é um homem muito rico e reservado, por vezes até arrogante, nunca seria reprimido por seu jeito como acontece com Emma. Esse já é um grande exemplo de como mulheres e homens recebiam tratamentos bem diferentes por suas atitudes.

É válido lembrar que os privilégios de uma boa vida que Emma possuía eram uma grande exceção. “Poucas mulheres, mesmo sendo filhas únicas, herdavam heranças, principalmente propriedades como Emma Woodhouse.”, Relata Raquel Sallaberry Brião, responsável pelo blog Jane Austen em Português (desde 2008), diagramadora e restauradora de livros.

Em Orgulho e Preconceito, temos Elizabeth Bennet, a segunda filha mais velha entre cinco irmãs. Por mais que sua mãe se preocupasse unicamente em casar suas cinco filhas – já que todas vão perder a casa e os bens quando o pai morrer -, Lizzie diz que só se casará por amor. Isso já mostra bastante da personalidade da heroína, que possui um gênio forte, é alegre, engraçada, sincera e muito inteligente. Um verdadeiro espírito livre. Mas, por maior que seja sua sede de expandir seus horizontes e por mais culta que seja, possui a limitação de não poder ser mais do que lhe é incumbido como mulher. Lizzie é mal vista socialmente por ter fortes opiniões sobre a sociedade, comportamento e até mesmo o sexo feminino. Ela não se importa de ser vista como tola por rir demais ou como sabichona por saber exatamente o que quer, e é exatamente isso o que nos encanta nela.

the new york times

Elizabeth e Miss Bingley sobre o ideal de uma mulher perfeita.

Segundo Adriana Sales, “O universo feminino é apresentado em diversas nuances. Desde as mocinhas que nasceram em famílias ricas até as que passam por situações vexatórias por serem pobres. Ao descrever os hábitos e comportamentos da sociedade em que viveu, Austen nos dá um panorama sobre como era ser mulher naquele período. Se fizermos uma leitura mais detalhada de suas obras, podemos perceber inúmeros exemplos de regras de etiqueta, comportamento em público e privado, formas de se vestir e se arrumar, protocolos para fazer e receber visitas, cotidiano da vida rural da classe média inglesa, entre outros.”

Razão e Sensibilidade mostra ainda mais sobre a injustiça que era ser uma mulher no passado. O livro já se inicia com a morte do pai das duas jovens protagonistas, Elinor e Marianne Dashwood. Elas também tinham uma irmãzinha mais nova, Margaret, e viviam com a mãe. O Sr. Dashwood já havia sido casado antes e possuía um filho deste primeiro casamento, John, que como sendo o único filho homem, herda tudo após a morte do pai. Influenciado por sua mulher, John acaba deixando suas meias-irmãs – e madrasta – sem nenhum sustento e por isso elas se mudam para uma casa muito mais simples e sem muitos recursos de vida. 

Elinor, a mais velha das irmãs, é uma moça forte, porém muito reservada, já Marianne é uma jovem romântica e comunicativa. Enquanto Elinor representa a razão, Marianne representa a sensibilidade. Mesmo ambas sendo completamente diferentes, são julgadas por suas personalidades. Elinor é vista como uma mulher fria, indiferente e até rígida, enquanto Marianne é vista como sensível demais, exagerada e por vezes imatura. É claro que ao longo da história as duas irmãs mudam bastante e aprendem qualidades uma com a outra, mas ainda há o ponto de que uma mulher, independentemente do seu jeito, será sempre criticada.

Moira Bianchi diz que Austen nunca quis ser revolucionária, como Mary Wollstonecraft, já que era uma moça do interior, curiosa, ligada à família e que foi genial na forma como contava sobre o mundinho que vivia. “Aliás, essa foi a crítica mais feroz que ela recebeu na época.” Em sua opinião Austen criticava, não revolucionava. “Sinto como se ela fosse uma amiga próxima me contando uma fofoca: ‘Amiga, tenho um caso pra te contar, você vai adorar! Um cara rico, mas boboca, falou mal da garota e ela ouviu! Foi um vexame! E ele fingiu que nem ligou, mas depois passou meses tentando se desculpar até que acabou apaixonado! Bem feito, mordeu a língua!’ (risos) Sempre que releio O&P, imagino que estou visitando meus amigos queridos nesses termos de intimidade.” Ela continua dizendo que o “protofeminismo de Jane Austen” é um assunto muito discutido entre os fãs. “Acontece que por ser tão acessível nos assuntos mundanos, tão delicada na ironia, ela alcançou muita gente e deu fomento para analisar a vidinha daquelas mulheres naquela época. Eu sempre tomo cuidado com o anacronismo histórico.”

“Um exemplo, em Razão e Sensibilidade, está na oferta impetuosa de Marianne com Willoughby. Ela fica felizinha em ceder aos apelos dele e deixar que ele corte ‘uma longa mecha de cabelo que estava solta do penteado, caída nas costas dela’ (cap 12). Veja, presentear cabelo era algo muito pessoal, significava uma relação muito íntima, um laço já bem apertado. E Austen faz questão de nos contar como fofoca da irmãzinha Margaret fazendo tudo ainda mais arriscado. Ela (Margaret) viu o casal trocando sussurros e risos, viu o rapaz implorando e mexendo na tal ‘longa mecha solta’ e viu que a irmã deixou que ele próprio cortasse. Quem pesquisou a importância histórica dessa sequência de sem-vergonhice explícita – ainda mais na frente da irmã caçula – viu nisso já um ‘ihhh, só faltam se trancar em um quarto!’. Mas quem, como eu quando li pela primeira vez, não sabe o valor histórico, passa batido e acha Marianne exagerada quando tem o coração partido.”, Moira conclui.

“Sobre as personagens femininas, cada uma tem sua função em ‘abrir’ os olhos do leitor para questões que mereciam ser discutidas naquela época e continuam atuais até hoje.”, diz Adriana Sales. “As heroínas de Austen se mostram revolucionárias por terem um comportamento diferente, não rebelde, do que era esperado para mocinhas naquela época. Isso, por si só, já traz uma importância enorme para esse hall de personagens Austeneanas. Em graus diferentes, elas não se conformaram em viver a vida estabelecida para mulheres daquela época. Obviamente, Austen não é uma escritora feminista, o termo nem existia naquela época. Porém, podemos considerar as discussões presentes em seus livros como discussões acaloradas sobre a posição da mulher na sociedade no século XIX.” 

É claro que há muitas outras heroínas e personagens secundárias abordadas profundamente nos livros de Jane Austen, mas não podemos analisar cada uma delas. Até mesmo os homens em seus livros podem abrir espaço para discussões voltadas ao universo feminino. A romancista fazia questão de criar personagens com uma grande profundidade emocional, psicológica e comportamental. Há espaço para discutir todo tipo de questões em seus livros, desde a educação da mulher até qual idade uma moça pode ter até ser considerada velha demais para se casar. As pessoas, os lugares e as atitudes criadas por Jane são até hoje muito discutidas por fãs.

the lily

Os Fãs

Mais de duzentos anos depois da sua morte e das publicações de suas obras, Jane Austen continua no auge. Os tempos mudaram e agora é a internet que domina, mas isso não quer dizer que as pessoas estão lendo menos ou que a nova geração não conheça a autora. Não importa a idade do leitor ou como essa pessoa faz para ler – por e-books ou livros físicos -, os fãs de Jane Austen continuam se conhecendo e se encontrando em eventos ou grupos de redes sociais. 

Raquel Sallaberry nos conta de sua trajetória ao conhecer a autora, além de mostrar que não tem idade para conhecer Jane Austen e que nunca é tarde demais para virar fã. “Minha admiração por Austen começou – creio que como a maioria de seus admiradores no Brasil -, lendo Orgulho e Preconceito na tradução de Lúcio Cardoso. Lembro de ler Emma, Persuasão e A Abadia de Northanger primeiro em inglês. Em 2008 quando iniciei o Jane Austen em Português do Brasil ganhei Emma e Razão e Sentimento, ambos na tradução do poeta Ivo Barroso. Por fim li Mansfield Park, traduzido por Rachel de Queiróz. As novelas inacabadas, Os Watsons e Sanditon, tive não só o prazer de ler como também escrever a introdução para a primeira tradução no Brasil, feita também por Ivo Barroso e publicada pela editora Nova Fronteira. Comecei a ler Austen depois dos trinta anos e o que me cativou foi o humor e a sua perspicácia ao mostrar com sutileza o comportamento humano nas mais comezinhas situações.”

Adriana Sales relata como Jane Austen influenciou em sua vida, carreira e em como ela ajudou outros fãs a se encontrarem e terem referências: “Eu comecei a ler Austen na graduação em Letras e quando fui estudar nos Estados Unidos comprei todos os livros da autora. Durante a minha graduação pude assistir várias adaptações das obras de Austen, algumas inclusive no cinema, como Emma (1995). Eu fui me envolvendo com Austen aos poucos, até que em 2005 assisti uma nova adaptação de Orgulho e Preconceito para o cinema e ao chegar em casa já fui entrando no Orkut para ver se havia uma comunidade brasileira do livro/filme. Ao longo da minha participação nesse grupo no Orkut, que em 2005 já possuía mais de 10 mil membros, percebi que as pessoas tinham muita dificuldade de encontrar informações sobre Austen em língua portuguesa. Assim, em fevereiro de 2008, criei o primeiro blog/site referência sobre a escritora com o objetivo de divulgar a vida e obra de Austen, além de atualizar os leitores sobre notícias e lançamentos de adaptações e livros traduzidos.”

“No ano seguinte, em 2009, eu e mais algumas amigas fundamos a Jane Austen Society of Brazil, primeira sociedade da escritora em língua latina, com o propósito de organizar eventos e publicações semelhantes às que ocorrem na Inglaterra, Estados Unidos, Canadá e Austrália. Até o momento, já traduzi três obras de Austen: Mansfield Park, Sense and Sensibility e Emma. Nossa sociedade já realizou inúmeros eventos, inclusive em outros estados do Brasil, para reunir leitores e fãs. Nesses eventos, temos roda de leitura, exibição de filmes ou séries de TV, apresentação de pesquisas e artigos científicos, entre outros. Nosso trabalho é reconhecido pelas Jane Austen Societies ao redor do mundo e, constantemente, somos convidados para eventos em outros países ou on-line.”

Ela continua: “Desde 2017, publicamos a Revista Literausten, primeira revista acadêmica totalmente dedicada à escritora, cujo objetivo é promover a discussão e divulgação dos trabalhos e pesquisas acerca de Austen aqui no Brasil. Atualmente, por causa da pandemia, estamos realizando lives no nosso perfil no Instagram e depois publicamos também no Youtube. Vamos completar, agora em outubro, nossa 60ª live, que faz parte do projeto #janeaustenlives, cujo objetivo é entrevistar pesquisadores que fazem ou já concluíram pesquisas sobre os mais variados assuntos relativos à Austen e suas obras. Além disso, temos também um projeto chamado #RelendoAusten que proporciona a leitura coletiva e discussão das obras de Austen.”

Além dos projetos de leitura, Adriana possui uma trajetória de 12 anos de dedicação exclusiva ao universo da autora e diz ter “muita satisfação em falar da escritora e suas obras”. Como acadêmica, ela diz sempre encontrar um ‘jeitinho’ de falar Austen em suas aulas. “Em 2011, realizei um curso na Universidade de Oxford sobre Jane Austen e em 2018 defendi minha tese de doutorado sobre o universo dos fãs Austeneanos aqui no Brasil.”

Já Moira Bianchi diz que conheceu Jane Austen há bastante tempo, quando trabalhava em um lugar estressante e sempre levava um livro para ler no ônibus e no intervalo do almoço. Ela diz que uma amiga do escritório a desafiou a ler vários clássicos da literatura mundial, incluindo Razão e Sensibilidade. “Achei uma chatice! Queria que Elinor desse uma decisão naquele povo, que virasse a mesa, que mandasse ver. Me arrastei pelos 50 capítulos reclamando e aí minha amiga falou: ‘Você precisa de Elizabeth Bennet.’ Ah, foi amor à primeira linha, paixão desde que Austen me disse ‘…Darcy nunca havia estado tão enfeitiçado por nenhuma mulher quanto estava por ela’. Fiquei eu enfeitiçada. Alguns anos depois, essa mesma amiga me disse com cara de pena: ‘Querida, você está desenvolvendo uma fixação doentia por um personagem literário…’ Eu ri e respondi: ‘Culpa sua!’”

Moira possui uma publicação sobre o poder do casting e sua influência nas adaptações de Jane Austen, e outra publicação sobre o poder das fanfics e como esse estilo de escrita atual ajuda a fomentar e popularizar o nome e as obras de Austen. Para ela, a relação entre fanfics e Jane Austen é primordial. “Fanfic é o que mantém a obra dela viva e pulsante até hoje, dois séculos depois de lançados. Shakespeare não é tão pop. Fanfic proporciona intimidade com o canon (oficial), melhor entendimento, vontade de ler o original – esse é o elogio que mais gosto, quando alguém diz que pegou O&P pela primeira vez porque gostou de um livro meu.”

É importante que sempre haja livros atuais que façam referências às obras de Austen, para que as novas gerações continuem a propagar seu nome e seu legado. Muitas vezes, as pessoas só conhecem a obra original porque leram um headcanon (não oficial, porém uma crença dos fãs) ou tiveram acesso a um livro com ligação direta à autora. “Não consigo deixar Darcy e Lizzie em paz! (risos)”, diz Moira. “Tenho uma versão contemporânea linear com todos os detalhes de Orgulho e Preconceito chamada ‘45 dias na Europa com Sr. Darcy’ em que Lizzie é carioca. Tenho uma dúzia auto publicados e dezenas para leitura gratuita no meu blog.”

É válido ressaltar que, em 2017, o site de notícias The Guardian fez as contas e organizou Jane Austen em números e fatos gráficos. Moira Bianchi traduziu os infográficos e os disponibilizou. Por isso, os créditos das imagens abaixo vão totalmente ao site The Guardian e a Moira Bianchi, que os traduziu.

Seja no século XIX ou no século XXI, Jane Austen continua encantando uma legião de fãs ao redor do mundo, fazendo com que pessoas de todas as idades se apaixonem pela leitura. Com toda a certeza, a autora nunca imaginou o quanto seria famosa, mesmo séculos depois de sua morte, e que seu nome serviria como referência e admiração entre muitos.

Seu nome está entre as maiores autoras (e também autores) de todos os tempos, como Agatha Christie, Clarice Lispector, Virginia Woolf e J.K. Rowling. Sua escrita inspirou relacionamentos, declarações, relações familiares, empoderamento feminino e comportamento – entre várias outras coisas. “Nesses últimos duzentos anos, os costumes e leis mudaram bastante sobre os direitos das mulheres: o casamento, o trabalho, a divisão de bens, o cuidado com os filhos etc. Mas os sentimentos e questões de caráter são os mesmos e neste quesito podemos nos guiar por suas heroínas, heróis e até mesmo personagens secundários.”, diz Raquel Sallaberry. O que não podemos negar é que Jane Austen foi e continuará sendo uma grande protagonista na literatura mundial.

“O olhar para tantas questões sociais que a cercavam possibilitou a Austen escrever histórias fascinantes e que, aos olhos de hoje, podem ser consideradas revolucionárias. Como o caso das discussões a respeito da mulher não ter direito aos estudos ou à herança do pai, apenas por pertencer ao sexo feminino; mulheres escolherem se casar quando houvesse sentimento entre os parceiros, e não apensar uma ‘transação comercial’ entre as famílias; entre outros. Austen inova por trazer os assuntos do privado para o enredo de seus livros. Mostra que as discussões entre mulheres e homens, a vida em sociedade e experiências de pessoas ‘comuns’ valia a pena ser escrito e lido. Essas histórias continuam ‘vivas’ até hoje por serem universais, ou seja, podemos conhecer uma história de vida ou pessoa na vida real que possuem características presentes nas obras de Austen.”, conta Adriana Sales.

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the atlantic


Bacana, né?


O artigo indica ainda:

- uma playlist, 

- 20 adaptações da vida e obras de Jane Austen na TV e no cinema, 

- 10 adaptações de Orgulho e Preconceito,

- 10 escritores britânicos para ler o quanto antes,

- 10 importantes escritoras famosas,

- 5 livros feministas, de Jane Austen à Virginia Woolf, 

- Por que Orgulho e Preconceito é a melhor história de amor de todos os tempos e a desconstrução do amor à primeira vista,

- Obras clássicas e populares de três autoras inspiradoras,

- Uma crítica de Emma,

- A imortalidade das heroínas de Jane Austen,

- A biblioteca fundamental de Jane Austen,

- Despertando o hábito da leitura com clássicos da literatura,

oup blog


É muito conteúdo, Darcy friend!

Vamos mergulhar nisso tudo!

bj

domingo, 6 de dezembro de 2020

Jane Austen para iniciantes

 Olá!

Nada como ter a vida cheia para inventar mais coisas para fazer, não é mesmo?

De tanto ver posts de gente se maravilhando com as descobertas de Austen Nation, resolvi fazer um canal para explicar o que sei de Jane Austen. 



JANE AUSTEN PARA INICIANTES 

A ideia é ter um local para concentrar o bê-a-bá onde qualquer pessoa pode encontar informações básicas sobre Ms Austen. Quem foi, quando viveu  suas obras, como ler sem cair na armadilha do anacronismo. 

Vou tentar me manter atenta aos fatos, pesquisa em fontes primárias e compilação dos meus estudos sobre ela. 


De tanto escrever fanfics e romances inspirados em Orgulho e Preconceito, muito me aprofundei na vida e obra de Austen. E para escrever bem, pesquisei como louca. 

Olha as minhas muitas pesquisas de Austen Nation:


Obras postadas na íntegra

Orgulho e Preconceito

Romances inspirados em Orgulho e Preconceito

gratuitos

gratuitos em Inglês

publicados

publicados em Inglês

Novela Orgulho e Paixão

Novela Orgulho e Paixão - as referências de outras obras

Emma - filme

Bridget Jones

Diário secreto de Lizzie Bennet

Lizzie Bennet Diaries - webseries

Orgulho e Preconceito em 15 filmes/adaptações

Miscelânea

Fantasias de Carnaval

Austen para crianças

Austen para crianças 2

Adoro Mr. Darcy

Artesanato Austenite faça-você-mesma - receitas

Aniversário de Jane

Joguinho Lizzie Bennet Diaries

A nota e moeda de Jane Austen na Inglaterra

Revista LiterAusten - O poder das fanfics

Revista LiterAusten - O poder do casting de elenco

Quotes de Jane Austen

Entrevista sobre o livro 'Querida Jane Austen, uma homenagem'

Entrevista sobre o livro '45 dias na Europa com Sr. Darcy'

Entrevista 2 sobre o livro '45 dias na Europa com Sr. Darcy'

Podcast

Café com Jane Austen


Me segue lá tb! Multiplataforma, hein?

INSTAGRAM

TWITTER 

FACEBOOK 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

The Crown - o melhor diálogo das 4 temporadas

 olá!

Nós aqui de casa finalmente conseguimos assistir os últimos episódios da temporada 4 de The Crown, a mais esperada até agora porque traz Diana - segredo para ninguém que Diana é a royal favorita de todo mundo. É a minha.

E online


Confesso que odiei a temporada 3, descaradamente passando pano para o príncipe Charles, figura real (de rei e de realidade) antipática e fraca, um sujeito encostão. A presença física dele nos faz pensar no posto de príncipe herdeiro, o quão incapacitante é ficar esperando alguém morrer para assumir o que você nasceu para fazer. Dizem que ele assume muito poder hoje em dia, torço para ser verdade, coitado. É um tanto ridículo para mim ver o homem de terceira idade ainda esperando a mamma sair de cena para ele reinar. Puxa, que vida perdida!

É um contraste absurdo com a figura que idolatramos nos romances históricos, o herdeiro rico e viril, que não recua e toma decisões difíceis e corajosas, um go getter. Esse príncipe de Wales é completamente oposto a isso.

daily mail


Pois bem, o bebê chorão tem 35+ no final dessa temporada, ainda faz mimimi pela namorada que perdeu ou foi perdida para ele, por quem ele não lutou - o seriado mostra dessa forma - e se deixou levar pelas vontades dos mais velhos e mais sábios da família. Ainda assim, ele é amante da tal mulher (Camilla, esposa dele hoje em dia) sem culpa ou vergonha, planeja fazer dela sua rainha à base de muito mimimi e chororô. Desculpe, acho a figura muito sem virilidade; se fosse mulher eu classificaria como maria mijona.

tatler


E depois de tudo, no final da temporada (episódio 10) apareceu um diálogo maravilhoso, adoraria saber se é real, mas nem fui procurar com medo de descobrir que é só ficção.

Estão em Balmoral para o Natal, a propriedade preferida da rainha, o grupo volta de uma caça - menos Charles e Diana que apesar de terem chegado separados, não se juntaram à família nos campos.

radio times


Em Português, (tradução minha)

CENA 1 - HALL

[DIANA] Aí está você, Mamãe.

Bem, tenho certeza de que ninguém lhe contou, mas fiz um pedido oficial através do meu escritório para que encontrássemos um momento para conversarmos, em particular.

[RAINHA] Espero que você não queira que seja aqui.

[D] Não, aqui não.

[R] Ou agora. Os cães precisam de alimentação.

[D] Os cachorros.

[R] Sim, os cães.

[D] Teremos que encontrar outra hora.

[cachorros choramingando]

CENA 2 - GABINETE

[R] O que você está fazendo aqui?

[CHARLES] Espero que você não se importe.

Achei que poderíamos encontrar um momento a sós.

[R] Honestamente, vocês dois!

[C] Nós dois?

[R] Você e sua esposa me emboscando em todos os lugares que vou com olhares ansiosos, querendo conversar.

[C] Eu quero conversar, mamãe.

Nós precisamos conversar.

[R] Ótimo. Vamos conversar.

Posso solicitar que o façamos como conselheiros da coroa? De pé para ter certeza que será breve.

[C] É sobre o casamento.

[R] Tive uma péssima ideia de que iríamos nessa direção.

[C] Fiz o tudo que pude.

Meu melhor, e estou sofrendo!

[R] Não, você não está sofrendo. Nós estamos sofrendo por ter que aturar isso!

[C solta um grunhido]

[R] Deixe-me esclarecer uma coisa.

Quando as pessoas olham para você e para Diana, vêem dois jovens privilegiados que, por sorte, têm tudo o que se poderia sonhar na vida. Ninguém, nem uma única pessoa, nenhuma alma vivente em qualquer lugar, vê causa para sofrimento.

[C] Eles o fariam se soubessem.

[R] Soubessem do quê?

Eles sabem que você trai sua esposa e não faz nenhuma tentativa de esconder isso. Eles sabem que graças a você, ela tem problemas psicológicos e come ou não come ou o que quer que seja que ela faz ou não faz. Eles sabem que você é um homem mimado e imaturo, que reclama sem parar e sem necessidade, casado com uma mulher mimada e imatura, que reclama sem parar e sem necessidade.

E todos nós estamos profundamente fartos disso.

Tudo o que qualquer um quer é que vocês dois se recomponham, parem de passar vergonha em público e façam este casamento e suas posições extremamente privilegiadas na vida funcionarem.

[C] E se eu quiser a separação?

[R] Você não vai se separar, nem se divorciar, nem ser uma decepção de forma alguma.

E se um dia você espera ser rei ...

[C] Espero.

[R] Então, sugiro que você comece a se comportar como tal.

[FIM]

refinery 29 


No original...

SCENE 1- HALL

[Diana] There you are. 

Mama.

Well, I'm sure no one told you, but I made a request through my office for us to find a moment to speak together, in private.

[Queen]I hope you're not wanting to talk here.

[D] No, not here.

[Q] Or now. The dogs need feeding.

[D] The dogs.

[Q] Yes, the dogs.

[D] We'll have to find another time.

[dogs whimpering]

SCENE 2 - DEN

[Q] What are you doing here?

[CHARLES] I hope you don't mind.

I thought we might find a moment alone.

[Q] Honestly, both of you!

[C] Both of us?

[Q] You and your wife ambushing me everywhere I go with anxious looks, wanting to talk.

[C] I do want to talk, Mummy.

We need to talk.

[Q] Fine. Let's talk.

Might I request we do it like privy counsellors? On our feet to keep it brief.

[C] It's the marriage.

[Q] I had a horrible idea we were going in this direction.

[C] I have done my best. 

My very best, and I am suffering!

[Q] No, you are not suffering. We're suffering having to put up with this!

[C grunts]

[Q] Let me make something clear.

When people look at you and Diana, they see two privileged young people who, through good fortune, ended up with everything one could dream of in life. No one, not a single breathing, living soul anywhere, sees cause for suffering.

[C] They would if they knew.

[Q] Knew what?

They know that you betray your wife and make no attempt to hide it. They know that thanks to you, she has psychological problems and eats or doesn't eat or whatever it is she does or doesn't do. They know you're a spoiled, immature man, endlessly complaining unnecessarily, married to a spoiled, immature woman, endlessly complaining unnecessarily. 

And we are all heartily sick of it.

All anyone wants is for the pair of you to pull yourselves together, stop making spectacles of yourselves, and make this marriage and your enormously privileged positions in life work.

[C] And if I want to separate?

[Q] You will not separate or divorce or let the side down in any way.

And if one day you expect to be king...

[C] I do.

[Q] Then might I suggest you start to behave like one.

[END]


Bom, né? Curta e grossa, adoro!

Piada pronta! Se tem um príncipe sapo, é esse. pic de hello magazine 

Agora é esperar a temporada 5 com os divórcios de todos e a morte de Diana... 

we heart it

Queria que a ficção reescrevesse a vida.

Até, mais.


PS.: achei o scipt aqui.


domingo, 29 de novembro de 2020

Compras, liberdade feminina e black friday: adoro!

Olá!

Black Friday chegou e passou, mas o Natal bate à nossa porta. Além de uva passa, parente serpente e show do rei RC, essa época significa:

COMPRAS!

Comprando anel de noivado, Bertha ficou famosa por ter dedos extremamente finos' - gravura da metade do século 19 - disponível na Amazon

Sabe qual é a importância desse 'hobby' para o universo feminino?

Ajudou muito o desenvolvimento das empresas de cartão de crédito, sim, mas ir às compras agiu principalmente no tocante da conquista da independência feminina.

Passear livremente

As mulheres eram confinadas às suas casas que não eram apenas confortáveis, mas consideradas o único lugar seguro para elas. Essa proteção era mais figurativa do que literal; na época, apenas ser olhado por uma pessoa “indesejável” era considerado um insulto a mulheres “respeitáveis”. Então, era comum o comércio a domicílio.

Antigamente, mascates visitavam casas vendendo de tudo um pouco: fitas, botões, tecidos, móveis, serviços de cabeleireiro, retratista, etc. Era assim na época de Jane Austen, aqui no Brasil Colonial, nos EUA. Bem me lembro da visita do mascate na minissérie Alias Grace (passado no Canadá de 1843). Já viu?

tumblr


Vale lembrar o que já comentei aqui em outros posts, a situação feminina nos séculos 18 e 19 era muito diferente da nossa no século 21. Naquela época, a mulher era um pacote que devia ser carregado para cá e para lá pelo homem da família - fosse ele pai, irmão, sobrinho, cunhado. Sair de casa sozinha era proibido, elas deviam estar sempre acompanhadas por um parente ou uma chaparone, essa função sim poderia ser ocupada por outra mulher - criada, mãe, preceptora, avó. Liberdade elas tinham dentro de casa - mas nunca na frente de criados. As mais empobrecidas tinham mobilidade porque precisavam trabalhar para sobreviver, iam e vinham cumprindo ordens dos patrões, viviam do sexo ou das artes (ambas funções condenadas) e com isso, estavam mais expostas aos riscos oferecidos pelos homens tarados. 

Parece exagero e bobeira, mas não era. Se tiver saco, leia este artigo que compila arquivos de tribunais do final da era Vitoriana e Eduardiana, a tendência de questionar a respeitabilidade feminina e julgar a vontade delas de adequadamente resistir (ou não) aos avanços sexuais masculinos.

A vendedora de modas Bénard - 1769 - wiki


Mas o assunto aqui não é tão espinhoso. A invenção do ato de fazer compras como experiência, lazer, forma de passar tempo agradavelmente foi muito importante para os direitos das mulheres que empurrou diretamente a ascensão dos centros comerciais de lojas, confeitarias e restaurantes. Os shopping centers de hoje eram os quarteirões de lojas elegantes - que existem ainda.

Esses lugares foram fundamentais, pois abriram as cidades modernas para as mulheres e deram-lhes áreas onde elas, como os homens, poderiam vagar à vontade

Para muitas mulheres na era Vitoriana, especialmente na Grã-Bretanha, sair para fazer compras significava um gostinho de liberdade e ponto de partida para entrada na vida pública. A historiadora E. Rappaport em seu livro Shopping For Pleasure explica assim: “A respeitabilidade e a posição social de uma família dependiam da ideia de que a esposa e a filha de classe média permaneciam separadas do mercado, da política e do espaço público, então a mulher compradora era uma figura especialmente perturbadora.”

Foi mesmo um tipo de escândalo social, uma revolução, quando no final do século 18 e no 19, os centros urbanos passaram do domínio masculino que se dedicavam política e negócios para a frequente visita feminina. As mulheres pouco tinham presença pública, podiam ir a galerias, ao parque e exposições nos museus com um acompanhante masculino, e algumas mais ricas faziam compras. Com a industrialização e a revolução manufatureira do século 19, que produziu móveis, talheres, roupas e etc e tal em volumes assombrosos. A explosão na variedade e disponibilidade de bens de consumo significou que a crescente classe média poderia repentinamente comprar coisas apenas pelo prazer. A quem caberia essa árdua tarefa de escolher o que comprar? Às mulheres, claro.

loja de vidro em Londres, Pellatt and Green's. 1809


Se eram elas que ficavam em casa, normalmente seriam elas a saber o que a vida doméstica precisava e com isso, nasceu um passatempo. Logo, as donas de casa começaram a vagar pela cidade sob o pretexto de comprar coisas. Por esta nova definição, “comprar” nem sempre envolveu uma compra real. Tratava-se dos prazeres de admirar, ver os pontos turísticos, as exibições, as pessoas. 

O mundo era dividido em duas esferas durante a era vitoriana, e essas fronteiras eram rígidas: os homens possuíam centros urbanos, as mulheres possuíam salas de estar.

Este desequilíbrio de poder era considerado necessário para manter a ordem social.

Os varejistas urbanos receberam as mulheres com entusiasmo a ponto de inventar lugares como a loja de departamentos, onde as mulheres podiam fazer compras com conforto, cercadas de amenidades e semiparticulares. O seriado Mr. Selfridge conta o passo-a-passo desse raciocínio, como ele percebeu que somente oferecendo segurança ele conseguiria convencer as pessoas - em especial mulheres - a frequentar sua loja.

media player news


“Ao fornecer um motivo - fazer compras - para que as mulheres apareçam sem escolta em público, bem como providenciar espaços seguros como banheiros e salões de chá onde as mulheres possam se reunir ou sentar-se sozinhas sem medo de serem molestadas por homens ... as lojas de departamentos também tornaram isso possível para as mulheres deixar o espaço doméstico da casa e reivindicar o centro da cidade “, escrevem os sociólogos Sharon Zukin e Jennifer Smith Maguire.

Mas muito antes das lojas de departamento, a cidade precisou se reconfigurar para receber essa nova demanda, as mulheres compradoras não tinham onde almoçar ou o banheiro. Mas logo, escreve Rappaport, feministas multiformes pressionaram o governo da cidade a instalar banheiros públicos. Clubes e casas de chá surgiram para as mulheres comerem entre as compras.

O normal era entrar na loja, cumprimentar o dono/vendedor e entregar uma lista do que a mulher precisava, se despedir e sair. O sujeito se ocuparia de separar tudo, embrulhar e mandar entregar na casa da madame e cobrar ao marido. Com o tempo, a mudança social permitiu que elas passassem tempo nas lojas escolhendo, experimentando, apreciando o passeio.

a tentação

the independent


Com essas mudanças surgiram novos males sociais como um surto de furtos em lojas. Autoridades, médicos inclusive, chegaram à conclusão que, por se tratar de ações (contravenções) perpetradas por mulheres, muitas abastadas, se tratava uma condição médica relacionada ao útero e inventaram a doença “cleptomania”. Klepto (roubo) e mania (mania) é um termo pela que descreve ladrões que agem impulsivamente surrupiando itens desnecessários por pura insanidade. É um comportamento caracterizado por irresistíveis e involuntários impulsos involuntários. A pessoa é “forçado a roubar” devido a uma doença mental, não por falta de fortaleza moral. Devido à percepção de que tal comportamento afetava apenas mulheres afetadas (atá!), explicações no final do século 19 ligavam o comportamento a doenças uterinas ou tensão pré-menstrual quanto possível causas. 

Com o aumento da variedade de roupas, alimentos e utensílios domésticos, as compras tornaram-se uma importante atividade cultural no século XVIII. Uma tentação também. Há até quem faça uma conexão da compra e venda durante o período e com os muitos bens de luxo e as plantations de escravos na América do Sul e no Caribe. O maior poder de compra e queda gradual dos preços levaram ao aumento da demanda por novos produtos de consumo como açúcar que na Grã-Bretanha, por exemplo, dobrou entre 1690 e 1740, enquanto o preço do chá caiu pela metade. Mas a maior disponibilidade de tais luxos tinha um lado mais sombrio. As importações de algodão em bruto, açúcar, rum e tabaco originavam das Américas e do Caribe escravocratas, onde africanos escravizados como sua principal fonte de trabalho.

Desde o período georgiano, descrito por historiadores como a "era das manufaturas", homens e mulheres britânicos passaram a ter acesso a uma gama estonteante de coisas materiais. Com as melhorias na tecnologia de transporte e fabricação, as oportunidades de compra e venda tornaram-se mais rápidas e eficientes do que nunca. Mais produtos criaram a necessidade de mais compradores para sustentar uma nova economia de consumo. Em resposta, as lojas decidiram ter como alvo um novo mercado: a mulher próspera. Se as mulheres tivessem um lugar seguro e socialmente aceitável para fazer compras, raciocinaram os varejistas, elas aprenderiam sobre e comprariam novos produtos. E como uma coisa puxa a outra que puxa uma que puxa a outra, vilas e cidades passaram a crescer rápido e as compras se tornaram uma parte importante da vida cotidiana, uma atividade cultural por si só. Para atender às demandas, apareceram nichos, como as muitas lojas refinadas em elegantes distritos, por exemplo Strand e Piccadilly, em Londres, e em balneários como Bath e Harrogate.

Nos bairros mais pobres, dezenas de lojas competiam entre si também representando um importante centro de atividade social na maioria das comunidades. As feiras semanais de produtos agrícolas e pecuários também eram eventos importantes na maioria das cidades (hoje ainda é assim, né?), junto com a agitação diária de vendedores ambulantes de todos os tipos de produtos por alguns centavos: doces, peixes, frutas, vegetais e uma variedade de produtos domésticos. Crianças vendedoras de flores eram comuns, outras também pediam moedas em troca de varrer a rua para damas atravessarem (não esqueça que com cavalos e carruagens, as ruas eram cheias de estrume. Éca!), e outras funções.

The Flower girl - J G Brown, 1877


As fachadas das lojas eram projetadas para atrair a atenção dos passantes e atrair os clientes para dentro. Janelas em arco exibindo mercadorias, placas penduradas, luzes brilhantes, espelhos e anúncios comerciais coloridos se tornaram características padrão do varejo no início do século.

Muitas lojas atendiam especificamente a gostos refinados, e comprar nelas passou a definir o status social de uma pessoa. Milliners, armarinhos, ourives e vendedores de móveis, entre outros, todos apelaram aos gostos mais recentes entre os ricos. Um visitante de Londres no final do século descreveu 'um mundo de placas de ouro e prata, depois pérolas e joias derramando seu brilho deslumbrante, manufaturas caseiras do gosto mais requintado, um oceano de anéis, relógios, correntes, pulseiras, perfumes, vestidos prontos, fitas, rendas, gorros e frutas de todas as zonas do mundo habitável '.

The repository of Arts, Literature, Commerce, Manufactures, FAshions and Politics, 1809


A maioria dos varejistas se especializava em produtos específicos: tecidos, livreiros, fabricantes de perucas, meias, por exemplo. A maioria dos comerciantes emitia cartões convidando pessoas de uma área local para atrair clientes e melhorar sua reputação. Os clientes que entravam em uma loja podiam manusear mercadorias no balcão da loja e eram estimulados a experimentar as mercadorias para sentir os tecidos mais recentes, por exemplo, ou para experimentar relógios ou simplesmente relaxar em móveis novos. Como hoje, a experiência geral de compra era frequentemente tão importante quanto a qualidade dos próprios produtos.

No seriado Sr. Selfridge, o plot da personagem Agnes começa quando ela é vendedora e deixa a cliente manusear luvas em uma lojinha. Apesar do seriado se passar em 1908, é tomado como uma novidade, a liberdade de tocar em mercadorias e acaba por nortear a visão comercial de Selfridge.

Roupas e moda eram muito importantes, um único item de roupa frequentemente representava o item mais caro nas posses de uma pessoa e novos itens menores como golas e punhos geralmente eram muito valorizados. As roupas de lã, pesadas e difíceis de limpar, começaram a desaparecer gradualmente a partir da primeira metade do século. Estes foram substituídos por tecidos de algodão estampados mais baratos que foram primeiro importados da Índia e posteriormente fabricados na expansão do comércio têxtil britânico no norte da Inglaterra. 

uma pausa para Mr. Thornton, please

Norte e Sul minissérie, pic do giphy - Não é neve, é fuligem de algodão da tecelagem dele.


As roupas de algodão permitiam aos homens e mulheres comuns uma escolha maior de roupas leves e coloridas, duráveis, fáceis de lavar e, portanto, mais higiênicas para o usuário. 

Cada vez mais havia opções variadas de itens à escolha para compor a vestimenta. Para homens de todas as classes, terno de três peças: calça, colete e casaco longo, camisa de babados, meias e cravat. Para as mulheres, corpete, anágua e saias, vestidos, luvas, parassol, bonnet, etc, etc. Os tecidos mais baratos eram impressos com desenhos florais ou estampados, embora os itens caros fossem feitos de seda e bordados ou acolchoados. 

Muitos homens perdem a paciência em dias de compras muito extensos, mas as mulheres geralmente adoram. Eu goshto muito e meu Hubs se aproveita disso: desde que casamos, ele nunca mais comprou uma peça de roupa; fica tudo comigo. Assim era desde sempre, acredito. 

Por isso coube às mulheres essa revolução de ir às compras.

Bom gosto e paciência

E não se limitava a vestuário, livros, etc; comida também teve parte nesta evolução. A maioria das cidades desfrutava de produtos frescos como resultado da expansão do comércio interno. Londres - como um porto marítimo movimentado - tinha acesso regular a frutos do mar, frutas e vegetais frescos também chegavam das hortas e pomares dos condados de origem nas proximidades, e outras cidades, outras cidades mantinham mercados agrícolas e pecuários semanais.

Comer e beber continuava na moda entre os ricos, mas mesmo para os membros mais pobres da sociedade, comer fora era possível. A maioria das cidades do século 18 tinha uma variedade de lojas de culinária e tavernas onde as refeições podiam ser compradas a baixo custo e bebidas como café e chocolate podiam ser consumidas. Em meados do século, havia cerca de 50.000 estalagens e tabernas na Grã-Bretanha atendendo a todos os tipos de clientes. Os cafés, em particular, tornaram-se grandes centros de sociabilidade, onde se discutia política e se realizavam transações comerciais. Muitos bancos e seguradoras, como o Lloyd's de Londres, devem suas origens a essa "cultura do café" do século XVIII.

Tal como aconteceu com a comida, ao longo desse período os objetos da vida cotidiana que antes eram caros demais para todos, exceto para os ricos, tornaram-se gradualmente acessíveis às massas. Variedades mais baratas e produzidas em massa de muitos itens domésticos estavam agora ao alcance do homem e da mulher comum.

A prosperidade e a expansão nas indústrias de manufatura, como cerâmica e metais, aumentaram drasticamente a escolha do consumidor. O  trabalhadores que comiam em travessas de metal com instrumentos de madeira, poderiam então jantar na porcelana Wedgwood. Os consumidores passaram a exigir uma série de novos produtos domésticos e móveis: facas e garfos de metal, por exemplo, assim como tapetes, carpetes, espelhos, fogões de cozinha, potes, panelas, relógios, relógios e uma variedade estonteante de móveis. A era do consumo em massa havia chegado.

prato vintage Wedgwood, sec 19 - £245,00 no ebay (R$ 1.750,00)

Para as mulheres, tudo mudou realmente com a invenção das lojas de departamento. Luxuosos palácios de varejo iluminados por milhares de lâmpadas a gás, grandes vitrines de vidro plano, recheadas de peles, luvas e tecidos, e de música tocada ao vivo artistas contratados foram os primeiros espaços urbanos onde as mulheres podiam circular sem a “proteção” dos homens fora de casa. Por mais que as mulheres gostassem de ser atendidas por vendedoras cuidadosamente vestidas ou relaxar nos assentos dispostos para conversar sobre suas compras com as amigas, elas estavam experimentando um novo tipo de liberdade.

Como era esperado que as mulheres de classe média e alta saíssem às ruas apenas acompanhadas, muitas lojas, restaurantes e locais públicos eram fechados ou mesmo proibidos para damas sozinhas. A etiqueta apropriada desencorajava as mulheres de se demorar nas calçadas, uma dama de bom comportamento deveria se vestir de maneira discreta, ter modos discretos, ser quase invisível em público.

O conceito de espaço seguro para mulheres perderem tempo avaliando itens e por conseguinte, comprando, levou à criação de um tipo totalmente diferente de loja, um ambiente mais feminino, por assim dizer.

respeitável, atraente, convidativa e bonita

Loja de departamentos Wanmakers inaugurada em 1876. Philly, USA. pic do pinterest

>> a loja de departamentos, não a mulher <<

Muito diferentes das monótonas lojas onde os homens costumavam se reunir,  as lojas de departamento eram grandes, limpas e atraentes, com muitos tipos diferentes de produtos sob o mesmo teto, organizados em seções. E seus inventores perceberam algo que os varejistas anteriores não perceberam: fazer compras podia ser divertido.

Varejistas experientes como Harry Gordon Selfridge e Rowland Hussey Macy fizeram dessas lojas uma extensão da casa de família, a fim de garantir às mulheres que fazer compras ali não prejudicaria sua reputação. Com uma equipe predominantemente feminina, as lojas apresentavam móveis luxuosos, tapetes, poltronas e confortáveis ​​vestiários privados. Os preços eram fixos, de modo que não se esperava que as mulheres barganhassem ou, em alguns casos, até lidassem com dinheiro - as cobranças eram enviadas depois, geralmente aos maridos (venda a crédito, né?). As lojas contavam com guardas de segurança e se tornaram, nas palavras do dono da loja de departamentos de Boston, Edward Filene, um... 

“Éden sem Adão”

Quanto mais caseira a atmosfera, maior a probabilidade de uma mulher permanecer ali. O Emporium em São Francisco, por exemplo, contava com: 

-berçário, 

-pronto-socorro, 

-correio, 

-salão de beleza 

-biblioteca. 

O Marshall Field's em Chicago tinha um escritório de informações em grande escala e apresentava vários lugares para as mulheres jantarem e tomarem chá. E separar salas para fumantes e até mesmo entradas oferecia aos homens um lugar para se divertir sem perturbar ou colocar em risco as mulheres dentro de si.

perfumaria da Harrods Londres, 19o3 - pinterest


As compras logo se tornaram uma forma popular de as mulheres saírem de casa. De repente, era socialmente aceitável que as mulheres estivessem na rua e tudo mudou. Restaurantes e teatros que antes eram fechados para mulheres sozinhas perceberam que elas também podiam ser clientes e começaram até ofereceram bebidas alcoólicas - uma inovação que acabou com outro tabu social. Mais mulheres começaram a usar o transporte público, frequentar saguões de hotéis e até ir a bancos.

Com essa mobilidade recém-descoberta veio o poder econômico também. Essa nova economia criou empregos para as mulheres e possibilitou que mulheres solteiras vivessem e trabalhassem fora de suas casas, sem colocar em risco sua reputação. 

As ricas compradoras geraram mais empregos para as mais empobrecidas, um círculo virtuoso de feminismo - uma tem liberdade de sair de casa para comprar para outra ter liberdade de sair de casa para vender. 

fashion plate Harrods Londres - wiki


Com o passar dos anos, as mulheres se tornaram as principais consumidoras de suas famílias e as marcas começaram a disputar sua atenção e seus dólares. Depois que as mulheres se tornaram compradores, elas sobrecarregaram o mercado. Hoje, até 80% de todas as decisões de compra do consumidor são tomadas por mulheres - uma ilustração do imenso poder desencadeado pelas lojas de departamentos e pelas gerações de mulheres que seguiram os primeiros compradores das lojas de departamentos.

Ironicamente, porém, as lojas de departamento que ajudaram a transformar as mulheres em potências de compras com um poder de compra de até US $ 20 trilhões em todo o mundo podem estar em seus dias de declínio. A consumidora hoje presa mais por atendimento personalizado e itens exclusivos. Nem vamos falar dessa época estranha de pandemia quando tivemos que comprar remotamente e felizmente ajudamos quem vendia o que produzia.

livraria Messrs, Lackington, Allen & Co. 1809


Gostou disso tudo? Já sabia de um tanto?

Bacana, né?

Outras pesquisas históricas estão aqui.

Minha lojinha no facebook e instagram tem as promoções de livros para minha black friday. 



até mais!

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e em meus arquivos pessoais.