& Moira Bianchi: feminismo
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sexta-feira, 28 de julho de 2023

Inacreditável: Jane Austen entrou no filme da Barbie

 Olá,

como o PODCAST SINCERICÍDIO LITERÁRIO fala de livros, filmes, royals e fofocas, claro que a sensação do cinema deste ano estaria lá. E qual não foi minha surpresa quando eu vi Orgulho e Preconceito inserido na narrativa não contada?

Quer saber qual é a verdade sobre esse easter egg?


É puro GASLIGHTING

Ao contrário do marketing do filme cujos personagens são brinquedos para meninas de 3 a 12 anos, eu não te escondo o raciocínio deste artigo. Nem que pedi ajuda a várias ferramentas de Inteligência Artificial e nenhuma conseguiu explicar o que eu queria te mostrar. Toda vez que elas ajudaram, vou te avisar.

 Tudo bem se você curtiu o filme, talvez até tenha achado graça do momento em que a boneca derrotada desiste de qualquer luta gera um novo produto: Barbie depressão.



Mas você não pode negar que o marketing extremamente agressivo desse filme nunca, em momento nenhum, assumiu seu viés militante. Ao contrário, o CEO da Mattel correu para desmentir quando os atores e a diretora deixaram escapar que o filme era feminista, o que seria o esperado já que a boneca é uma moça sozinha que tem casa, carro, profissão, etc, etc.

Olha o que a apresentadora de um programa de TV muito militante no USA fala do filme. Quero te mostrar porque é possível que você esteja pensando isso também, e vou te falar o que está por trás disso mais abaixo.

"É um filme sobre uma boneca! Eu pensei que vocês ficariam felizes por ela não ter genitália, então não há sexo envolvido. Ken não tem genitália. (...) As crianças sabem que é colorido e é a Barbie, que eles não viveram o que os adultos viveram e não pensam em sexo quando estão vendo este filme, não é assim que eles são vendo para em Ken. As crianças estão vendo um filme da Barbie! "

PROPAGANDA ENGANOSA

E até achei curioso ver essa entrevista da diretora e da atriz em que ambas são extremamente mal articuladas, falam com linguagem adolescente usando 'tipo' (like em inglês) 96 vezes em 20 minutos de entrevista (Sim, eu contei.). Sei que são mulheres muito inteligentes e de sucesso em suas carreiras, como a Barbie. Então por que falam tão mal nessa entrevista??

Porque estão escolhendo palavras

entrevista 'GG e MR discutem o surpreendente feminisno de Barbie' de 12.07.2023

Esse filme da livremente baseado na boneca Barbie faz uma abordagem aparentemente alegre e é nesta capa de leveza e sátira enquanto recheia o maravilhosamente lindo mundo cor de rosa da boneca que eu amo desde que a vi pela primeira vez.

O que é esse recheio: mensagens subliminares

IA diz: O uso de mensagens subliminares em imagens ou conteúdos tem o objetivo de influenciar o público de maneira sutil, sem que essas mensagens sejam percebidas conscientemente. Essas mensagens são incorporadas de forma dissimulada, muitas vezes abaixo do limiar de percepção consciente, mas teoricamente captadas pelo subconsciente. 

Acha que eu pirei, né?


Neste cena da batalha de dança dos Kens, sua atenção ficou presa na beleza masculina dos atores e na memória afetiva de Michael Jackson e Grease (até a meia aparecendo!) ou você reparou o simbolismo e erotismo para a anatomia feminina que piscou na tela?

Eu só reparei porque isso é logo depois do clipe de Orgulho e Preconceito e eu já estava louca da vida com a ligação de 

JANE AUSTEN COM DEPRESSÃO FEMININA

Segundo IA, o intuito por trás do uso de mensagens subliminares pode variar, e existem diferentes teorias e práticas relacionadas a esse assunto. 

  • Influenciar Comportamentos; 
  • Reforçar Mensagens;
  • Estimular Consumo;
  • Criar Impacto Emocional.

A eficácia e a ética do uso de mensagens subliminares são assuntos controversos, é até considerados ilegais em certos contextos, especialmente em publicidade. O ideal em um mundo ideal seria que seu uso em estratégias de comunicação fosse transparente respeitando a privacidade e a liberdade do público-alvo.



Você pode não saber, mas essa piada é bem velha. Jane Austen é ligada a mulher velha ou infeliz ou mal casada ou solteirona ou cheia de gatos ou feia ou sem amigos, etc, etc.


Eu odeio essa piada

Entrei em Austen Nation em um momento da minha vida que precisava de muito apoio emocional, e achei amigos em Darcy & Lizzy. Tenho ciúme e quero protegê-los de gente que não os entende, por isso comecei um Instagram dedicado a apresentá-los a quem está começando em Austen Nation. 

Neste Easter Egg da Barbie Depressão, a obra de Jane Austen apareceu como ironia e sátira supostamente representando essa fonte de endorfina

Talvez se você, como eu, já conhece O&P, você até se identificou!... Pensou em todos os momentos que visitou Meryton para achar segurança e felicidade. 

Mas e quem não conhece a obra?

Esta é a associação que essa pessoa fará:


Percebe a covardia com quem ainda não ama Jane Austen?

Assim como ela picotou e remontou Little Women (Mulherzinhas, filme de 2019), essa diretora/roteirista fez um quebra-cabeças esquisito para passar mensagens que para ela, são super importantes para mulheres jovens - já que ele é direcionado ao público feminino até 39 anos.

"... saí deste filme sentindo nada, isso atrapalhou o desenvolvimento dos personagens. Não me comoveu em nada. A estrutura do filme tira totalmente o peso emocional da história e isso é um verdadeiro crime em uma obra como Little Women."

Veja essa crítica aqui. Recomendo.

Não precisa me dizer que o filme não é para crianças porque eu vi o marketing usando a boneca, a logo da boneca, o rosa, os vestidinhos, a caixa da boneca para você entrar, etc, etc. E ele foi lançado nas férias escolares. E tem bonecas especiais do filme. E já falei que esconderam o viés de feminismo.

"...não é que homens e mulheres tenham que se ignorar, é que (no filme Barbie) as mulheres tiveram que manipular os homens para que agissem como mulheres para conseguir vencer."

Veja essa análise aqui.

A ironia maior de todas está em Austen sempre defender e questionar a situação feminina em suas obras. Aqui no blog você acha análises detalhadas de várias obras dela, mas vou te dar uma lista aqui como IA me deu.

O termo "depressão" como entendemos hoje nunca apareceu em suas obras. Porém, existem conexões entre os desafios e as expectativas sociais enfrentadas pelas mulheres e o impacto que essas circunstâncias podem ter sobre seu bem-estar mental

"Razão e Sensibilidade": Marianne Dashwood experimenta uma profunda turbulência emocional depois que seu coração é partido pelo Sr. Willoughby. Sua dor e sensibilidade exemplificam as lutas emocionais que as mulheres podem enfrentar devido ao amor não correspondido.

"Orgulho e Preconceito": Elizabeth Bennet lida com as pressões e expectativas da sociedade, principalmente em relação ao casamento. O peso da situação financeira de sua família e a intromissão incessante de sua mãe podem ser uma fonte de angústia.

"Emma": Harriet Smith enfrenta sentimentos de inadequação e desgosto devido à sua afeição não correspondida pelo Sr. Knightley. Suas lutas destacam os desafios emocionais das mulheres jovens em uma sociedade hierárquica.

"Mansfield Park": Fanny Price experimenta sentimentos de alienação e baixa auto-estima ao viver com seus parentes mais ricos em Mansfield Park. Sua constante dúvida e falta de arbítrio podem ser vistas como reflexos de possíveis temas depressivos.

"Northanger Abbey": a imaginação hiperativa de Catherine Morland e a suscetibilidade a fantasias góticas levam à ansiedade e à dúvida, mostrando o impacto dos pensamentos íntimos de alguém no bem-estar mental.

"Persuasão": Anne Elliot enfrenta arrependimento e melancolia depois de rejeitar a proposta do capitão Wentworth anos antes. Sua jornada emocional demonstra os efeitos duradouros de decisões passadas na psique de uma mulher.

"Lady Susan": A personagem titular, Lady Susan Vernon, manipula e explora os outros para atingir seus objetivos, destacando o impacto emocional que tal comportamento pode ter tanto no manipulador quanto no manipulado.

"Sanditon": Miss Lambe, uma jovem mestiça, lida com questões de identidade e pertencimento em uma sociedade predominantemente branca, abordando as lutas emocionais enfrentadas por mulheres marginalizadas.

"Amor e Amizade" (conto da Juvenília): A protagonista, Laura, navega pelas complexidades do amor e dos relacionamentos, que podem ser uma fonte de turbulência emocional para as mulheres daquela época.

"The Watsons" (romance inacabado): A personagem Emma Watson enfrenta o desafio de encontrar um par adequado em uma sociedade onde o casamento costuma ser o objetivo principal das mulheres, refletindo as pressões emocionais que elas vivenciaram.



Enquanto os romances de Jane Austen exploram principalmente temas de amor, casamento e expectativas sociais, eles indiretamente lançam luz sobre as lutas emocionais e os desafios enfrentados pelas mulheres durante o período da Regência. 

É essencial lembrar que a compreensão e a interpretação da saúde mental e do bem-estar emocional evoluíram significativamente desde a época de Austen.

Percebe que enfiando esse Easter Egg na Barbie Depressiva, GG foi extremamente injusta com Austen? Por que ela não foi inserida em outro cenário? Ken vai à biblioteca, pega livros, estuda. Barbie poderia ter achado Austen em sua jornada no mundo real. Os filmes que ele assiste são vistos como obras de referência - mesmo que para fazer graça do personagem, o vilão-vítima que só quer amar.

Ao examinar os comentários do filme, podemos que as pessoas estão se deixando levar pela capa cor de rosa, achando que tudo é inocente e muito divertido no desafio das narrativas tradicionais, mas deixa passar a mensagem subliminar da 

narrativa não contada

Este termo, segundo IA, refere-se a informações ou histórias que não são expressamente comunicadas/compartilhadas, seja em um contexto específico, uma mensagem, ou em um determinado conteúdo. Elas podem ser subentendidas, sugeridas ou implícitas, mas não são abordadas de forma explícita. 

É importante ter em mente que a narrativa não contada pode ser uma estratégia poderosa para envolver o público e permitir que as pessoas construam suas próprias interpretações. Por outro lado, também pode levar a mal-entendidos, interpretações equivocadas ou até mesmo manipulação se não for usada de forma ética e transparente.

Portanto, tanto em comunicação quanto em interações sociais, é fundamental ser consciente e transparente sobre o que está sendo dito explicitamente e o que está sendo subentendido ou não contado. Isso ajuda a garantir uma comunicação clara e uma compreensão mais precisa da mensagem transmitida.

Mas por que, meu Deus, por que inserir Orgulho e Preconceito neste momento específico do filme e da trama do romance?

Se você não percebeu, é Hunsford, meu momento favorito de todos os favoritos de O&P porque é quando... 

Darcy cai do cavalo.

Chega, vou parar por aqui para não contar que também é quando Lizzy faz papel de idiota repetindo mentiras do boy lixo e mostrando quão inocente, ingênua e facilmente manipulada ela é - mesmo que se acha super sagaz.

Chega, né, você já entendeu.

até mais, M.

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leia mais pesquisas sobre Jane Austen

leia romances & contos gratuitos inspirados em O&P

leia romances inspirados em O&P

obs.: pesquisei muito aqui, aqui, aqui, aqui e no Youtube e usando ferramentas de IA ChatGPT, Junia, Writesonic, Midjourney. Mas foram tantas perguntas em tantos momentos que já não sei quem me respondeu o quê. Midjourney é só imagem mesmo.

domingo, 29 de novembro de 2020

Compras, liberdade feminina e black friday: adoro!

Olá!

Black Friday chegou e passou, mas o Natal bate à nossa porta. Além de uva passa, parente serpente e show do rei RC, essa época significa:

COMPRAS!

Comprando anel de noivado, Bertha ficou famosa por ter dedos extremamente finos' - gravura da metade do século 19 - disponível na Amazon

Sabe qual é a importância desse 'hobby' para o universo feminino?

Ajudou muito o desenvolvimento das empresas de cartão de crédito, sim, mas ir às compras agiu principalmente no tocante da conquista da independência feminina.

Passear livremente

As mulheres eram confinadas às suas casas que não eram apenas confortáveis, mas consideradas o único lugar seguro para elas. Essa proteção era mais figurativa do que literal; na época, apenas ser olhado por uma pessoa “indesejável” era considerado um insulto a mulheres “respeitáveis”. Então, era comum o comércio a domicílio.

Antigamente, mascates visitavam casas vendendo de tudo um pouco: fitas, botões, tecidos, móveis, serviços de cabeleireiro, retratista, etc. Era assim na época de Jane Austen, aqui no Brasil Colonial, nos EUA. Bem me lembro da visita do mascate na minissérie Alias Grace (passado no Canadá de 1843). Já viu?

tumblr


Vale lembrar o que já comentei aqui em outros posts, a situação feminina nos séculos 18 e 19 era muito diferente da nossa no século 21. Naquela época, a mulher era um pacote que devia ser carregado para cá e para lá pelo homem da família - fosse ele pai, irmão, sobrinho, cunhado. Sair de casa sozinha era proibido, elas deviam estar sempre acompanhadas por um parente ou uma chaparone, essa função sim poderia ser ocupada por outra mulher - criada, mãe, preceptora, avó. Liberdade elas tinham dentro de casa - mas nunca na frente de criados. As mais empobrecidas tinham mobilidade porque precisavam trabalhar para sobreviver, iam e vinham cumprindo ordens dos patrões, viviam do sexo ou das artes (ambas funções condenadas) e com isso, estavam mais expostas aos riscos oferecidos pelos homens tarados. 

Parece exagero e bobeira, mas não era. Se tiver saco, leia este artigo que compila arquivos de tribunais do final da era Vitoriana e Eduardiana, a tendência de questionar a respeitabilidade feminina e julgar a vontade delas de adequadamente resistir (ou não) aos avanços sexuais masculinos.

A vendedora de modas Bénard - 1769 - wiki


Mas o assunto aqui não é tão espinhoso. A invenção do ato de fazer compras como experiência, lazer, forma de passar tempo agradavelmente foi muito importante para os direitos das mulheres que empurrou diretamente a ascensão dos centros comerciais de lojas, confeitarias e restaurantes. Os shopping centers de hoje eram os quarteirões de lojas elegantes - que existem ainda.

Esses lugares foram fundamentais, pois abriram as cidades modernas para as mulheres e deram-lhes áreas onde elas, como os homens, poderiam vagar à vontade

Para muitas mulheres na era Vitoriana, especialmente na Grã-Bretanha, sair para fazer compras significava um gostinho de liberdade e ponto de partida para entrada na vida pública. A historiadora E. Rappaport em seu livro Shopping For Pleasure explica assim: “A respeitabilidade e a posição social de uma família dependiam da ideia de que a esposa e a filha de classe média permaneciam separadas do mercado, da política e do espaço público, então a mulher compradora era uma figura especialmente perturbadora.”

Foi mesmo um tipo de escândalo social, uma revolução, quando no final do século 18 e no 19, os centros urbanos passaram do domínio masculino que se dedicavam política e negócios para a frequente visita feminina. As mulheres pouco tinham presença pública, podiam ir a galerias, ao parque e exposições nos museus com um acompanhante masculino, e algumas mais ricas faziam compras. Com a industrialização e a revolução manufatureira do século 19, que produziu móveis, talheres, roupas e etc e tal em volumes assombrosos. A explosão na variedade e disponibilidade de bens de consumo significou que a crescente classe média poderia repentinamente comprar coisas apenas pelo prazer. A quem caberia essa árdua tarefa de escolher o que comprar? Às mulheres, claro.

loja de vidro em Londres, Pellatt and Green's. 1809


Se eram elas que ficavam em casa, normalmente seriam elas a saber o que a vida doméstica precisava e com isso, nasceu um passatempo. Logo, as donas de casa começaram a vagar pela cidade sob o pretexto de comprar coisas. Por esta nova definição, “comprar” nem sempre envolveu uma compra real. Tratava-se dos prazeres de admirar, ver os pontos turísticos, as exibições, as pessoas. 

O mundo era dividido em duas esferas durante a era vitoriana, e essas fronteiras eram rígidas: os homens possuíam centros urbanos, as mulheres possuíam salas de estar.

Este desequilíbrio de poder era considerado necessário para manter a ordem social.

Os varejistas urbanos receberam as mulheres com entusiasmo a ponto de inventar lugares como a loja de departamentos, onde as mulheres podiam fazer compras com conforto, cercadas de amenidades e semiparticulares. O seriado Mr. Selfridge conta o passo-a-passo desse raciocínio, como ele percebeu que somente oferecendo segurança ele conseguiria convencer as pessoas - em especial mulheres - a frequentar sua loja.

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“Ao fornecer um motivo - fazer compras - para que as mulheres apareçam sem escolta em público, bem como providenciar espaços seguros como banheiros e salões de chá onde as mulheres possam se reunir ou sentar-se sozinhas sem medo de serem molestadas por homens ... as lojas de departamentos também tornaram isso possível para as mulheres deixar o espaço doméstico da casa e reivindicar o centro da cidade “, escrevem os sociólogos Sharon Zukin e Jennifer Smith Maguire.

Mas muito antes das lojas de departamento, a cidade precisou se reconfigurar para receber essa nova demanda, as mulheres compradoras não tinham onde almoçar ou o banheiro. Mas logo, escreve Rappaport, feministas multiformes pressionaram o governo da cidade a instalar banheiros públicos. Clubes e casas de chá surgiram para as mulheres comerem entre as compras.

O normal era entrar na loja, cumprimentar o dono/vendedor e entregar uma lista do que a mulher precisava, se despedir e sair. O sujeito se ocuparia de separar tudo, embrulhar e mandar entregar na casa da madame e cobrar ao marido. Com o tempo, a mudança social permitiu que elas passassem tempo nas lojas escolhendo, experimentando, apreciando o passeio.

a tentação

the independent


Com essas mudanças surgiram novos males sociais como um surto de furtos em lojas. Autoridades, médicos inclusive, chegaram à conclusão que, por se tratar de ações (contravenções) perpetradas por mulheres, muitas abastadas, se tratava uma condição médica relacionada ao útero e inventaram a doença “cleptomania”. Klepto (roubo) e mania (mania) é um termo pela que descreve ladrões que agem impulsivamente surrupiando itens desnecessários por pura insanidade. É um comportamento caracterizado por irresistíveis e involuntários impulsos involuntários. A pessoa é “forçado a roubar” devido a uma doença mental, não por falta de fortaleza moral. Devido à percepção de que tal comportamento afetava apenas mulheres afetadas (atá!), explicações no final do século 19 ligavam o comportamento a doenças uterinas ou tensão pré-menstrual quanto possível causas. 

Com o aumento da variedade de roupas, alimentos e utensílios domésticos, as compras tornaram-se uma importante atividade cultural no século XVIII. Uma tentação também. Há até quem faça uma conexão da compra e venda durante o período e com os muitos bens de luxo e as plantations de escravos na América do Sul e no Caribe. O maior poder de compra e queda gradual dos preços levaram ao aumento da demanda por novos produtos de consumo como açúcar que na Grã-Bretanha, por exemplo, dobrou entre 1690 e 1740, enquanto o preço do chá caiu pela metade. Mas a maior disponibilidade de tais luxos tinha um lado mais sombrio. As importações de algodão em bruto, açúcar, rum e tabaco originavam das Américas e do Caribe escravocratas, onde africanos escravizados como sua principal fonte de trabalho.

Desde o período georgiano, descrito por historiadores como a "era das manufaturas", homens e mulheres britânicos passaram a ter acesso a uma gama estonteante de coisas materiais. Com as melhorias na tecnologia de transporte e fabricação, as oportunidades de compra e venda tornaram-se mais rápidas e eficientes do que nunca. Mais produtos criaram a necessidade de mais compradores para sustentar uma nova economia de consumo. Em resposta, as lojas decidiram ter como alvo um novo mercado: a mulher próspera. Se as mulheres tivessem um lugar seguro e socialmente aceitável para fazer compras, raciocinaram os varejistas, elas aprenderiam sobre e comprariam novos produtos. E como uma coisa puxa a outra que puxa uma que puxa a outra, vilas e cidades passaram a crescer rápido e as compras se tornaram uma parte importante da vida cotidiana, uma atividade cultural por si só. Para atender às demandas, apareceram nichos, como as muitas lojas refinadas em elegantes distritos, por exemplo Strand e Piccadilly, em Londres, e em balneários como Bath e Harrogate.

Nos bairros mais pobres, dezenas de lojas competiam entre si também representando um importante centro de atividade social na maioria das comunidades. As feiras semanais de produtos agrícolas e pecuários também eram eventos importantes na maioria das cidades (hoje ainda é assim, né?), junto com a agitação diária de vendedores ambulantes de todos os tipos de produtos por alguns centavos: doces, peixes, frutas, vegetais e uma variedade de produtos domésticos. Crianças vendedoras de flores eram comuns, outras também pediam moedas em troca de varrer a rua para damas atravessarem (não esqueça que com cavalos e carruagens, as ruas eram cheias de estrume. Éca!), e outras funções.

The Flower girl - J G Brown, 1877


As fachadas das lojas eram projetadas para atrair a atenção dos passantes e atrair os clientes para dentro. Janelas em arco exibindo mercadorias, placas penduradas, luzes brilhantes, espelhos e anúncios comerciais coloridos se tornaram características padrão do varejo no início do século.

Muitas lojas atendiam especificamente a gostos refinados, e comprar nelas passou a definir o status social de uma pessoa. Milliners, armarinhos, ourives e vendedores de móveis, entre outros, todos apelaram aos gostos mais recentes entre os ricos. Um visitante de Londres no final do século descreveu 'um mundo de placas de ouro e prata, depois pérolas e joias derramando seu brilho deslumbrante, manufaturas caseiras do gosto mais requintado, um oceano de anéis, relógios, correntes, pulseiras, perfumes, vestidos prontos, fitas, rendas, gorros e frutas de todas as zonas do mundo habitável '.

The repository of Arts, Literature, Commerce, Manufactures, FAshions and Politics, 1809


A maioria dos varejistas se especializava em produtos específicos: tecidos, livreiros, fabricantes de perucas, meias, por exemplo. A maioria dos comerciantes emitia cartões convidando pessoas de uma área local para atrair clientes e melhorar sua reputação. Os clientes que entravam em uma loja podiam manusear mercadorias no balcão da loja e eram estimulados a experimentar as mercadorias para sentir os tecidos mais recentes, por exemplo, ou para experimentar relógios ou simplesmente relaxar em móveis novos. Como hoje, a experiência geral de compra era frequentemente tão importante quanto a qualidade dos próprios produtos.

No seriado Sr. Selfridge, o plot da personagem Agnes começa quando ela é vendedora e deixa a cliente manusear luvas em uma lojinha. Apesar do seriado se passar em 1908, é tomado como uma novidade, a liberdade de tocar em mercadorias e acaba por nortear a visão comercial de Selfridge.

Roupas e moda eram muito importantes, um único item de roupa frequentemente representava o item mais caro nas posses de uma pessoa e novos itens menores como golas e punhos geralmente eram muito valorizados. As roupas de lã, pesadas e difíceis de limpar, começaram a desaparecer gradualmente a partir da primeira metade do século. Estes foram substituídos por tecidos de algodão estampados mais baratos que foram primeiro importados da Índia e posteriormente fabricados na expansão do comércio têxtil britânico no norte da Inglaterra. 

uma pausa para Mr. Thornton, please

Norte e Sul minissérie, pic do giphy - Não é neve, é fuligem de algodão da tecelagem dele.


As roupas de algodão permitiam aos homens e mulheres comuns uma escolha maior de roupas leves e coloridas, duráveis, fáceis de lavar e, portanto, mais higiênicas para o usuário. 

Cada vez mais havia opções variadas de itens à escolha para compor a vestimenta. Para homens de todas as classes, terno de três peças: calça, colete e casaco longo, camisa de babados, meias e cravat. Para as mulheres, corpete, anágua e saias, vestidos, luvas, parassol, bonnet, etc, etc. Os tecidos mais baratos eram impressos com desenhos florais ou estampados, embora os itens caros fossem feitos de seda e bordados ou acolchoados. 

Muitos homens perdem a paciência em dias de compras muito extensos, mas as mulheres geralmente adoram. Eu goshto muito e meu Hubs se aproveita disso: desde que casamos, ele nunca mais comprou uma peça de roupa; fica tudo comigo. Assim era desde sempre, acredito. 

Por isso coube às mulheres essa revolução de ir às compras.

Bom gosto e paciência

E não se limitava a vestuário, livros, etc; comida também teve parte nesta evolução. A maioria das cidades desfrutava de produtos frescos como resultado da expansão do comércio interno. Londres - como um porto marítimo movimentado - tinha acesso regular a frutos do mar, frutas e vegetais frescos também chegavam das hortas e pomares dos condados de origem nas proximidades, e outras cidades, outras cidades mantinham mercados agrícolas e pecuários semanais.

Comer e beber continuava na moda entre os ricos, mas mesmo para os membros mais pobres da sociedade, comer fora era possível. A maioria das cidades do século 18 tinha uma variedade de lojas de culinária e tavernas onde as refeições podiam ser compradas a baixo custo e bebidas como café e chocolate podiam ser consumidas. Em meados do século, havia cerca de 50.000 estalagens e tabernas na Grã-Bretanha atendendo a todos os tipos de clientes. Os cafés, em particular, tornaram-se grandes centros de sociabilidade, onde se discutia política e se realizavam transações comerciais. Muitos bancos e seguradoras, como o Lloyd's de Londres, devem suas origens a essa "cultura do café" do século XVIII.

Tal como aconteceu com a comida, ao longo desse período os objetos da vida cotidiana que antes eram caros demais para todos, exceto para os ricos, tornaram-se gradualmente acessíveis às massas. Variedades mais baratas e produzidas em massa de muitos itens domésticos estavam agora ao alcance do homem e da mulher comum.

A prosperidade e a expansão nas indústrias de manufatura, como cerâmica e metais, aumentaram drasticamente a escolha do consumidor. O  trabalhadores que comiam em travessas de metal com instrumentos de madeira, poderiam então jantar na porcelana Wedgwood. Os consumidores passaram a exigir uma série de novos produtos domésticos e móveis: facas e garfos de metal, por exemplo, assim como tapetes, carpetes, espelhos, fogões de cozinha, potes, panelas, relógios, relógios e uma variedade estonteante de móveis. A era do consumo em massa havia chegado.

prato vintage Wedgwood, sec 19 - £245,00 no ebay (R$ 1.750,00)

Para as mulheres, tudo mudou realmente com a invenção das lojas de departamento. Luxuosos palácios de varejo iluminados por milhares de lâmpadas a gás, grandes vitrines de vidro plano, recheadas de peles, luvas e tecidos, e de música tocada ao vivo artistas contratados foram os primeiros espaços urbanos onde as mulheres podiam circular sem a “proteção” dos homens fora de casa. Por mais que as mulheres gostassem de ser atendidas por vendedoras cuidadosamente vestidas ou relaxar nos assentos dispostos para conversar sobre suas compras com as amigas, elas estavam experimentando um novo tipo de liberdade.

Como era esperado que as mulheres de classe média e alta saíssem às ruas apenas acompanhadas, muitas lojas, restaurantes e locais públicos eram fechados ou mesmo proibidos para damas sozinhas. A etiqueta apropriada desencorajava as mulheres de se demorar nas calçadas, uma dama de bom comportamento deveria se vestir de maneira discreta, ter modos discretos, ser quase invisível em público.

O conceito de espaço seguro para mulheres perderem tempo avaliando itens e por conseguinte, comprando, levou à criação de um tipo totalmente diferente de loja, um ambiente mais feminino, por assim dizer.

respeitável, atraente, convidativa e bonita

Loja de departamentos Wanmakers inaugurada em 1876. Philly, USA. pic do pinterest

>> a loja de departamentos, não a mulher <<

Muito diferentes das monótonas lojas onde os homens costumavam se reunir,  as lojas de departamento eram grandes, limpas e atraentes, com muitos tipos diferentes de produtos sob o mesmo teto, organizados em seções. E seus inventores perceberam algo que os varejistas anteriores não perceberam: fazer compras podia ser divertido.

Varejistas experientes como Harry Gordon Selfridge e Rowland Hussey Macy fizeram dessas lojas uma extensão da casa de família, a fim de garantir às mulheres que fazer compras ali não prejudicaria sua reputação. Com uma equipe predominantemente feminina, as lojas apresentavam móveis luxuosos, tapetes, poltronas e confortáveis ​​vestiários privados. Os preços eram fixos, de modo que não se esperava que as mulheres barganhassem ou, em alguns casos, até lidassem com dinheiro - as cobranças eram enviadas depois, geralmente aos maridos (venda a crédito, né?). As lojas contavam com guardas de segurança e se tornaram, nas palavras do dono da loja de departamentos de Boston, Edward Filene, um... 

“Éden sem Adão”

Quanto mais caseira a atmosfera, maior a probabilidade de uma mulher permanecer ali. O Emporium em São Francisco, por exemplo, contava com: 

-berçário, 

-pronto-socorro, 

-correio, 

-salão de beleza 

-biblioteca. 

O Marshall Field's em Chicago tinha um escritório de informações em grande escala e apresentava vários lugares para as mulheres jantarem e tomarem chá. E separar salas para fumantes e até mesmo entradas oferecia aos homens um lugar para se divertir sem perturbar ou colocar em risco as mulheres dentro de si.

perfumaria da Harrods Londres, 19o3 - pinterest


As compras logo se tornaram uma forma popular de as mulheres saírem de casa. De repente, era socialmente aceitável que as mulheres estivessem na rua e tudo mudou. Restaurantes e teatros que antes eram fechados para mulheres sozinhas perceberam que elas também podiam ser clientes e começaram até ofereceram bebidas alcoólicas - uma inovação que acabou com outro tabu social. Mais mulheres começaram a usar o transporte público, frequentar saguões de hotéis e até ir a bancos.

Com essa mobilidade recém-descoberta veio o poder econômico também. Essa nova economia criou empregos para as mulheres e possibilitou que mulheres solteiras vivessem e trabalhassem fora de suas casas, sem colocar em risco sua reputação. 

As ricas compradoras geraram mais empregos para as mais empobrecidas, um círculo virtuoso de feminismo - uma tem liberdade de sair de casa para comprar para outra ter liberdade de sair de casa para vender. 

fashion plate Harrods Londres - wiki


Com o passar dos anos, as mulheres se tornaram as principais consumidoras de suas famílias e as marcas começaram a disputar sua atenção e seus dólares. Depois que as mulheres se tornaram compradores, elas sobrecarregaram o mercado. Hoje, até 80% de todas as decisões de compra do consumidor são tomadas por mulheres - uma ilustração do imenso poder desencadeado pelas lojas de departamentos e pelas gerações de mulheres que seguiram os primeiros compradores das lojas de departamentos.

Ironicamente, porém, as lojas de departamento que ajudaram a transformar as mulheres em potências de compras com um poder de compra de até US $ 20 trilhões em todo o mundo podem estar em seus dias de declínio. A consumidora hoje presa mais por atendimento personalizado e itens exclusivos. Nem vamos falar dessa época estranha de pandemia quando tivemos que comprar remotamente e felizmente ajudamos quem vendia o que produzia.

livraria Messrs, Lackington, Allen & Co. 1809


Gostou disso tudo? Já sabia de um tanto?

Bacana, né?

Outras pesquisas históricas estão aqui.

Minha lojinha no facebook e instagram tem as promoções de livros para minha black friday. 



até mais!

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e em meus arquivos pessoais.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Mary Wollstonecraft merecia mais

 Olá,

Eu confesso que tentei entender, mas não gostei da estátua em homenagem à 'mãe' do feminismo, Mary Wollstonecraft.

the independent

Engraçado que ela hoje é mais conhecida pela maternidade, por ser mãe de Mary Shelley, esta autora de Frankenstein; justo ela que faleceu logo depois do parto aos 38 anos e foi pioneríssima na reinvindicação de direitos femininos. Mas também, maternidade é fundamentalmente uma característica  da mulher.

trecho de uma carta dela para o companheiro, pai do bebê que ela esperava: 'Começo a amar esta criaturinha e a antecipar seu nascimento como um novo nó que não desejo desatar.'  -  pic de feminist for life


Os retratos de Wollstonecraft (1759 - 1797) a mostram como uma mulher austera, mas até acho que era a norma da época . Wiki diz que 'durante sua breve carreira, ela escreveu romances, tratados, uma narrativa de viagem, uma história da Revolução Francesa, um livro de conduta e um livro infantil; mas é mais conhecida por A Vindication of the Rights of Woman (1792), no qual ela argumenta que as mulheres não são naturalmente inferiores aos homens, mas apenas parecem ser porque não recebem a mesma educação, que homens e mulheres devem ser tratados como seres racionais e imagina uma ordem social fundada na razão.

Após a morte de Wollstonecraft, William Goodwin, seu viúvo, publicou Memoir (1798) ou seja, memórias de sua vida, revelando seu estilo de vida não ortodoxo, que inadvertidamente destruiu sua reputação por quase um século. No entanto, com o surgimento do movimento feminista na virada do século XX, a defesa de Wollstonecraft da igualdade das mulheres e as críticas da feminilidade convencional tornaram-se cada vez mais importantes.'

Bem, nem tanto.

Li bastante sobre a campanha para levantar fundos para fazer a homenagem, sobre como na Inglaterra existem poucos monumentos para mulheres, sobre as críticas que a artista recebeu em suas outras obras. Ainda assim, não gostei mesmo.

youtube

Em sua famosa obra revolucionária de 1792, formadora de opinião, influenciadora, vanguardista, ela diz no capítulo 5 que 'a mulher é ensinada desde a infância que a beleza é seu poder, por isso a mente dela se molda ao corpo e, vagando em sua gaiola dourada apenas busca adornar sua prisão.' (Taught from infancy that beauty is woman's sceptre, the mind shapes itself to the body, and roaming round its gilt cage, only seeks to adorn its prison.) A Vindication of the Rights of Woman. Lá se vão 2 séculos e tal, e ainda pensamos o mesmo, agimos da mesma forma.

Estaria Mary W equivocada ou nós é que não aprendemos ainda?

A julgar por este monumento, acredito que ainda temos muito a evoluir...

Conto o que aprendi sobre. Depois da campanha 'Mary on the Green' que levou 10 anos para levantar fundos, vários artistas foram convidados a apresentar ideias para a estátua. Um comitê de curadores de arte e pessoas da comunidade votou unanimemente na proposta de Maggi Hambling. A autora explica a estátua - caso você, como eu, não tenha entendido nada depois de admirar boquiaberta essas fotos. 'A escultura mostra uma figura prateada nua de todas as mulheres sustentada por um turbilhão de formas femininas. Não é uma imagem heróica ou fantasiosa convencional de Mary Wollstonecraft. É uma escultura sobre agora, em seu espírito.' 

Então, eu só vejo peitos e pelos pubianos.

tes


Juro que tentei achar as formas femininas sustentando a bonequinha mínima no topo. Li que essa massa prateada reflete o parque e a Igreja Não-Conformista que Mary W. frequentava. Mas me distraio sempre na bonequinhazinha. Peitos, mamilos, cabelo... curto? Afro? Mas as feições são europeias. Magra, mais magra do que as mulheres eram no século 18, mas se é para ser do século 21, também me parece magra-modelo-e-manequim, não todas as mulheres, ou a mulher comum traduzindo melhor. Nem mudei esse termo 'everywoman' porque é muito repetido na defesa da escolha artística e ele me parece... trivial.

Uma das defensoras da campanha de fundos e do monumento pronto diz: 'Maggie Hambling é uma artista pioneira e queríamos fazer algo diferente de colocar pessoas em pedestais. Poderíamos ter feito algo realmente chato e comum, e muito vitoriano e antiquado.' Essa artista, Hambling, é bem controversa. Já li até críticas dizendo que a rejeição a este monumento é machismo contra ela, a artista. tsk, tsk. E continuei pesquisando para aprender a ver... 

“Não é convidativa (a nudez da peça) . É um desafio. 

É uma obra de arte desafiadora e é para ser assim.”

Ah, tá. 

Ainda assim, não gostei. Por que ela está nua com atributos tão perfeitinhos? Precisava?

essa foi a opção rejeitada, ficou em 2º lugar. pic de financial times


As primeiras ROUPAS que se tem notícia vêm dos neandertais (40.000 anos atrás) que em algum momento aprenderam a usar as peles dos animais para se manter aquecidos e secos. Também se fala da possibilidade dessas primeiras roupas terem tido funções sociais antes de práticas, algo como rituais de magia, decoração, culto ou prestígio. A semiótica (estudo de símbolos) aplicada ao vestuário leva a imagens que sustentam a estrutura da interação social como o sistema de status e papéis. A maneira como alguém se veste pode ser analisada como um mecanismo simbólico para comunicar ideias e valores a outros membros de uma sociedade.

A roupa é um significante visual que pode ser interpretado de forma diferente com base especialmente no contexto e na cultura.

E a mulher que defendeu a igualdade é representada nua.

Como disse uma outra mulher muito eloquente (tsk,tsk) em um reality show: 'Não gosto de você. Não sinto verdade em você. Acho que você, sim, incoerente, você está onde te convém. em todos os seus jeitos, falas, posicionamento e etc '

outro monumento recente de Londres, da sufragista Millicent G Fawcet. A crítica aqui foi para o pano de prato que ela segura. tsk, tsk. Mas está vestida. pic de secret London


Acho que é indiferente falar da fonte escolhida para gravar o nome de Mary na base, disso ou daquilo. O blob de bronze prateado elevando a mocinha frágil, desnuda, sem o apoio da sociedade e mesmo assim, olhando corajosamente para o futuro, me causa frustração. 

Chocante? É. 

Impactante? Também. 

Atende ao que se propõe, que é mostrar o quão fora dos padrões Wollstonecraft era? Sim. 

Mas conta a alguém que nunca ouviu falar nela quem foi essa mulher? Não.

outra obra controversa da mesma artista, esta em homenagem a Oscar Wilde que sai de um caixão fumando um cigarrinho. Tô doida ou ele tem até gravata? pic de timeout


No meu ponto de vista, Mary W. merecia mais que uma controvérsia por sua nudez (mesmo que não seja uma representação do corpo físico dela). Uma gaiola vazia faria o mesmo sentido, né?

Até.



serviço: 

Mary Wollstonecraft está em Newington Green.

Oscar Wilde está em Spreading gossip, na Adelaide Street com Charing Cross. Você pode sentar no peito dele para descansar do footing, se quiser.


pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e em outros sites que já nem me lembro porque li bastante sobre isso desde a inauguração.

sábado, 15 de junho de 2019

Muitas mulheres em uma série só: Gentleman Jack

olá, preciso falar de Gentleman Jack!

twitter bbc one
A princípio fiquei curiosa pela série pela época retratada, 1832, bem na década que inicio o CUPIDOS EM DEVON. Sempre estou sedenta por fontes de pesquisa e uma produção BBC/HBO não seria errada. Claro, haveriam de haver licenças poéticas, eu imaginei isso, mas fui curiosa principalmente por nunca ter ouvido falar de Anne Lister.
Vivo fuçando arquivos e manuais e documentos históricos, mas essa mulher de vida tão interessante nunca tinha aparecido, nem em uma pista. Fiquei até magoada comigo mesma.
Daí tinha a característica da homossexualidade de Anne Lister e o fato de que ela não era a única na época. Esse detalhe eu já tinha visto, é da natureza humana experimentar e descobrir onde cada um se sente mais confortável. CUPIDOS EM DEVON fala disso e de outras possibilidades que a vidinha tão limitada das mulheres do século XIX permitia - ou não permitia.
Olha, aviso logo, vou falar demais e soltar muitos spoilers


placa histórica localizada na propriedade da família Lister, Shibden Hall - Halifax 
'Fundo cívico de Halifax - ANNE LISTER - 1791-1840 - diarista, mulher de negócios, proprietária de terras e lésbica que registrou bastante de sua vida pessoal em códigos secretos. Ela viveu em Shibden Hall de 1815 a 1840. 

Então, a série foi uma grata surpresa! 

Esta é a abertura da série, note o figurino de Anne que fantástico! Anáguas, saias e corset com camisa, colete, relógio de bolso, cravat, casaca e cartola! Ambígua! Híbrida! 
Ela é (era) lésbica, sim.
Tem cenas que insinuam relações sexuais entre mulheres, sim.
Ela seduz outras mulheres, sim.
Mas tem algo que ninguém pensa:


A VIDA DE OUTRAS MULHERES
e isso é maravilhoso!

-A tia Anne, velha e doente, que vive através da vida aventuresca da sobrinha Anne;
-A irmã de Anne, Marian, solteirona e esperançosa, que faz força para casar e salvar sua vida;
-A criada Eugénie, saidinha e pateta, que se apaixona por qualquer homem que lhe aparece e é rejeitada;
-A criada Condingley, sabida e boa gente, que foi obrigada a virar cozinheira e parar de viajar com Anne por causa de uma doença;
-A vizinha Mrs. Priestley, fofoqueira e preconceituosa, que faz intriga por não entender ou aceitar a sexualidade alheia;
-Ann Walker, pobre menina rica, que é explorada por sua beleza e riqueza por parentes, homens, criados;
-A irmã de Ann, Elizabeth, mal-casada e infeliz, que foi enganada por um marido que na verdade queria seu dinheiro e não sua companhia;
-A falecida Mrs. Aimsworth, infeliz e impotente, que deveria saber o quão vil era seu marido;
-A meeira Mary, amedrontada e espancada, que vivia sob o reino de terror do marido violento;
-A filha do capataz, Susannah, letrada e curiosa, que casa com o meeiro que assassinou o pai violento sem saber desse segredo;
-A amiga Mariana, rica e esperta, que decidiu casar com um homem por medo de enfrentar as sanções sociais da sua sexualidade;
-A heroína, Anne Lister, mulher à frente de seu tempo, aventureira, inteligente, culta, que fura os limites que a sociedade impunha às mulheres como todas as outras não conseguiam. A duras penas, claro.
twitter bbc one
Esta montagem veio de um thread da BBC one no Twitter comparando as mulheres de Gentleman Jack com sobremesas... Interessante, não é? Com tantas alegorias possíveis, escolheram comestíveis, indulgências, pecados até. 

Nos três primeiros episódios, fui ficando animada com cenários e figurinos, com as atuações bacanas, com os trejeitos de Anne. Ela é muito divertida e... Cavalheiresca. Na maneira de falar, de gesticular, de se portar na presença de damas que ela tem acesso por ser uma dama - se fosse um homem não poderia estar perto de moças com tanta facilidade. E por vezes está de mangas de camisa, sem a casaca, conversando e contando das viagens. 
hollywood reporter
E quando eventualmente usa vestidos femininos é quase caricato, hilário!
Eu ficava pensando e comparando, imaginando se fosse outro caso, se poderia acontecer, se, se, se... Daí fui olhar os diários dela e descobri que a autora Sally Wainright (que mandou bem demaisssssss) tirou VÁRIOS DIÁLOGOS das palavras que Anne Lister deixou, das cartas, 20 e tantos diários e 17 livros de viagem! 
Parei.
Deixei para pesquisar depois que terminasse a série para evitar achar defeitos ou discrepâncias. Fiz bem!
hiccup broom
Assim pude aproveitar as sutilezas, om ombros sempre caídos nos vestidos da depressiva Ann Walker em comparação com as roupas acinturadas de Anne Lister, as estampas animadas de Marian, as roupas ricas de Mariana e os tons aguados da irmã entristecida.


E então chegou o episódio 4. 

Essa cena, esse ponto foi quando a serie me conquistou de vez. Veio de uma outra cena forte quando Anne Lister exige que Ann Walker se decida, se prefere ficar com ela ou casar com o viúvo da amiga recém falecida (já falei acima). Pressionada, a depressiva Ann envia uma cesta de frutas (coisa de gente rica) para Anne com uma carta onde pede que ela resgate um saquinho escondido no meio das frutas e sorteie 'sim' ou 'não' porque ela própria é incapaz de decidir sua vida. Anne fica desesperada, vai tomar satisfação, pergunta se Ann acha que os sentimentos dos outros são uma brincadeira. E aí, eu que achava a sequência muito legal, fiquei boquiaberta com isso. Assista.

Tradução livre (minha)
Anne Lister: Ann.
Ann Walker: *choro*
L: Ann, fale comigo, somos adultas. Nada pode ser tão ruim.
W: Eu nunca mais te verei.
L: O que? O que quer dizer?
W: Se eu te contar a verdade, você não vai mais querer nenhum contato comigo. 
*choro*
L: Posso te surpreender. Hmm?
W: É ele.
L: Ele? Ele quem?
W: O reverendo Ainsworth. Eu fui… Indiscreta com ele.
Ele disse que estava apaixonado por mim e que queria casar comigo e que ela não viveria muito e eu não queria, mas eu não sabia como dizer 'não'. Por isso fiquei tão alterada quando ouvi que ela tinha morrido porque eu sabia que isso ia acontecer. Eu sabia que não se passariam 5 minutos até que ele me escrevesse. E Anne… Eu nunca o encorajei. Eu lhe disse que eu não queria, mas então ele passou a conseguir situações em que ficava a sós comigo, aqui ou quando eles visitavam ou lá na casa deles. Você entende? Você entende o problema? Ele teve… conhecimento da minha intimidade. 
L: Intimidade, como?
W: *choro*
L: Beijos?
W: *balança a cabeça*
L: Ele fez… Tocou em você?
W: *balança a cabeça*
L: Vocês estiveram conectados?
W: *choro* Uma vez. *choro* Esse é o problema. Isso não me coloca em obrigação para com ele, com Mr. Ainsworth?
L: Espere aí. Ele se impôs a você. Você estava na casadele, visitando sua amiga, esposa dele. Estava sob a proteção dele. Na casa dele. E ele tirou vantagem de você. 
W: Quando ela saiu da sala. Ainda assim, moralidade não…
L: Oh, meu Deus, não,  é claro que não.  Você não está sob obrigação alguma, ele era casado, pelo amor de Deus!
W: Você está gritando. Está irada.
L: Não estou gritando com você,  não estou irada com você. Estou aliviada- aliviada que me contou, Ann. Ann, você não tem obrigação alguma com ele.
W: Mas, vê? Você vê agora a razão porquê eu não podia dizer 'sim' para você porque eu estou tão preocupada que- todo tipo- que você ficaria chateada e que me exporia e que eu nem era livre ou digna de dizer 'sim' para você e por isso eu não poderia te mostrar a carta. E é- a carta está aqui- e está  muito claro pela linguagem que ele usa que ele já pensa que pertenço a ele. "Para a toda minha pequena Annie, do todo seu Thomas Ainsworth." E eu não consegui contar a ninguém porque ele disse que refletiria tão mal em mim quanto nele. *choro* Sei que me considera fraca. Estúpida. *choro* Seria mais fácil se eu tivesse alguém como você na minha vida. Isso nunca teria acontecido, porque eu teria alguém com quem conversar- para contar. Alguém que teria me ajudado. 
L: Tudo que me contou é absolutamente verdade?
W: Sim.
L: Você sabe que eu a teria livrado desse problema, não sabe? Não importa se tivesse me dito 'sim' ou 'não'.
W: Teria?
L: Sujeitinho sujo e desprezível. De coleira.
W: Ele ainda virá tentar conseguir o emprego aqui, nessa reunião do conselho da igreja. A coisa toda, sem dúvida,  é somente uma desculpa para chegar perto de mim.
L: Shhh. Você não tem nada a temer vindo dele. Me entende?
W: O que você vai fazer com ele?
L: Ainda não decidi.


Percebe as nuances da vida feminina? 

As muitas camadas das amarras sociais?
A rica herdeira era abusada constantemente pelo marido da amiga doente que estava no cômodo ao lado. Será que ela sabia e permitia por ser mais velha que o marido (é dito que era 15 anos mais velha e brincava que quando morresse, seria de Ann a responsabilidade de cuidar do seu marido)? Será que era enganada? Será que esse fato era real ou foi inventado para a série? Não tive coragem de pesquisar...
Essa olhada para a câmera, cumplicidade com o expectador, é muito bacana. Geralmente é divertido, mas nesse foi assim de cortar o coração...

A partir desse ponto passei a prestar mais atenção às outras personagens femininas da série e me descolar da curiosidade pela  'vida lésbica naquela época'. Anne Lister mostrada é muito mais que sua sexualidade, que na época era considerado 'uma coisa que as pessoas faziam' e não 'o que elas eram'. Ela era dona da porra toda, cuidava da propriedade, fazia investimentos, decidia, comprava, vendia, contratava... Como fazemos hoje e como muitas de nós ainda não conseguem fazer. É muita bolinha!



Na vida real elas recebiam cartas anônimas mais cruéis que na serie, trolagens como anúncios de jornal em que procuravam maridos; na serie Anne é espancada e humilhada. Também sua irmã em uma cena muito comovente. Ann sofre de depressão e sucumbe à pressão social. Elizabeth se arrepende de ter-se feito refém do marido o aceitando em casamento.


A vida é dura em qualquer época, acredito.
annelister co


Acredito que Anne Lister não teve a intenção de nos deixar lições de moral, ela escrevia para fazer catarse. Diz-se que começou quando foi exilada em um quarto no sótão do colégio interno onde estudava quando pequena. Nesta época desenvolveu o código que usou até o fim quando morreu de repente aos 49 anos, talvez devido a uma mordida de inseto em uma viagem pela Rússia.
annelister co

Como Jane Austen, ela também escrevia cartas longas e por vezes cruzava as linhas para usar o papel ao máximo. 

catablogue


Mas, mesmo sem querer, seus diários nos deixaram pistas incríveis da evolução feminina através dos tempos. Você não precisa ser lésbica para gostar da serie ou admirar os incríveis feitos dela. Na verdade, pode até correr as cenas mais risqué se quiser, pular totalmente. São poucas. 


De qualquer forma, veja. 
Vale a pena.
look out point tv
Eu vou esperar a 2ª temporada!

bj

>> outras curiosidades & pesquisas históricas, aqui

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e parei porque tinha que fazer mil coisas. Mas perderia mais tempo pesquisando.
Todos os videos são do Twitter da BBC one. Agradeço muito.