sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Um desfile de grandes mulheres

Olá,
hoje, em minhas pesquisas pelos labirintos da Era Vitoriana, descobri mais uma prova da influência de Jane Austen na sociedade, não só na cultura.
do Twitter, retweetado de making jane austen
'Ela dirigiu 'Um desfile de Grandes Mulheres' (1909)' - peça sufragista montada internacionalmente
que primeiro colocou Jane Austen no palco como uma personagem feminista.
Em memória de Cicely Hamilton 91872-1952) 

A primeira vez que ouvi falar das sufragistas foi no filme 'Mary Poppins' quando Mrs. Banks canta seu número Sister Suffragette vinda de um comício (escondida do marido).

"Apesar de gostarmos de homens individualmente,
concordamos que em conjunto eles são bastante... estúpidos!"

Sufragistas, segundo a wiki, foram primeiras ativistas do feminismo no século XIX, assim conhecidas justamente por terem iniciado um movimento no Reino Unido a favor da concessão, às mulheres, do direito ao voto. O nome vem de sufrágio que vem do latim suffragium, "voto".

A luta pelos direitos das mulheres vem de longa data, desde sempre, desde que se reconheceu a disparidade de que rainhas poderiam governar nações, mas suas súditas não poderiam ter sua voz ouvida. Elizabeth e Victoria na Inglaterra, Catarina na Russia, Isabel na Espanha, grandes imperatrizes, rainhas e czarinas que não estenderam às suas pares a gentileza da equidade.

A briga de 'suffragettes' começou mesmo por volta da década de 1840 quando grandes mulheres se conheceram na Convenção anti-escravidão em Londres. Apesar de suas ideias revolucionárias, os membros da convenção as impediram de participar por, por, por... seu sexo frágil. 
Tem dó!

Especificamente na Inglaterra e Reino Unido, o voto feminino foi primeiro reconhecido em 1881 na Ilha de Man que apesar de submetida ao Reino, tinha governo próprio. Austrália do Sul em 1895 e Austrália em 1901.

Em 1910, a autora ativista Cicely Hamilton escreveu essa peça 'A pageant of great women' encenando um julgamento. Um desfile de grandes mulheres (título traduzido por mim) foi um sucesso.
wiki acha que essa é uma foto de uma encenação da peça
Na época se precisava educar as pessoas - não só as mulheres, mas homens também - sobre a necessidade de direitos iguais no voto. A peça fez isso possível porque todos temos aquela curiosidade mórbida por um julgamento, né?

Veja os personagens: 
(traduções de minha autoria)

Justiça
Preconceito
Mulher

AS MULHERES INSTRUÍDAS
Hypatia 
St. Teresa 
Lady Jane Grey 
Madame de Stael 
Madame Roland 
Madame de Scudery 
Jane Austen 
George Sand 
Caroline Herschell 
Madame Curie 

AS ARTISTAS
Sappho 
Vittoria Colonna 
Angelica Kauffmann 
Vigee le Brun 
Rosa Bonheur 
Margaret van Eyck 
Nance Oldfield 

AS MULHERES SANTAS
Santa Hilda 
Elizabeth Fry  
Elizabeth of Hungary 
Catherine of Siena 

AS MULHERES HERÓICAS
Charlotte Corday 
Flora Macdonald 
Kate Barlass 
Grace Darling 

AS GOVERNANTES
Victoria 
Elizabeth 
Zenobia 
Philippa 
Deborah 
Isabella 
Catherine the Great 
Tsze-Hsi-An 

AS GUERREIRAS
Joan of Arc 
Boadicea 
Agnes of Dunbar 
Emilie Plater 
Ranee of Jhansi 
Maid of Saragossa 
Christian Davies 
Hannah Snell 
Mary Ann Talbot 
Florence Nightingale 


Que timaço!
Related image
we got this covered
A peça começa assim, veja se não é pedreira:
A pageant of great women, by Cicely Hamilton
Um desfile de Grandes Mulheres
De novo traduzida livremente por mim.

Justiça (em seu trono) recebe a Mulher perseguida pelo Preconceito. Ela ajoelha aos pés da justiça.

JUSTIÇA: Por que você se apega a mim? O que você quer?

MULHER: Eu me apego à ti e choro por liberdade!

JUSTIÇA: Não é teu já?

MULHER: Não e não!

JUSTIÇA: Tu não és digna de liberdade?

MULHER: Sim e sim!

PRECONCEITO: Deusa, ela fala, mas tolice gagueja. Não sabe o que ela pede.

MULHER: Eu sei e longo -

PRECONCEITO: Ela chora por aquilo que não está apta a ter; ela é muito criança nos caminhos do mundo. Uma coisa protegida, coberta de sua aspereza-

MULHER: Não senti a sua aspereza, sofri e chorei?

JUSTIÇA: Deixe-o falar, deixe-o acusar, e então responda.


Repare que o Preconceito interrompe a Mulher e a Justiça não o reprimenda, mas quando a Mulher interrompe o Preconceito, a Justiça acha ruim... Mmmm, que coisa, né? Me lembra de um tweet que vi ontem do velhinho Sanders (gosto dele não, se me é dado o direito de ter opinião sobre político gringo) fazendo piadinha para interromper a deputada novinha Ocasio-Cortez. Velho babão!


Alô, homens! Não nos toquem quando estamos falando. 
Não nos interrompam. 
Mesmo se acharem que é para uma piada super engraçada. 
Não. 

Se segure e nos deixem terminar.





Enfim, de volta a Austen e o voto feminino. Na peça, Hamilton segue assim até citar Jane Austen.


PRECONCEITO: A liberdade nasce da sabedoria - salta da sabedoria. E quando foi a mulher sábia? Ela não se espelho no homem como uma criança? Ela não faz show antes de demonstrar graça interior? 
Aprendizagem desprezada, para não diminuir a luz do olhar dela?
Conhecimento evitado, para que o longo estudo não clareasse sua bochecha?
Não é o dia dela um dia de pequenos cuidados, de pequenos ódios e afeições? Quando ela ficou divina em sua sabedoria, grande de alma?
Qual é o seu prêmio na vida - um beijo, um sorriso, o direito de reivindicar carícias! No entanto, ela chora pela liberdade ! Uma que ela tinha, ela iria vendê-la para o braço de um homem em volta da cintura!

MULHER: Bem, de fato, isso vem de você, quem segurou o corpo como tudo, o espírito como nada.
De você que nos viu apenas como um sexo!
Quem fez o seu pior e melhor para saciar em nós a própria faísca e brilho do intelecto:
Quem explodiu ao pulo e vislumbre disso e sufocou com riso! . . Isso de você quem elogiou um sorrisinho muito acima de um pensamento - Quem valorizava uma covinha muito além do cérebro!
Então, fomos treinadas para simular, não para pensar:
Então fomos criadas para ser covinhas, não cérebros!
Não almas, mas carne tola - então você nos desejou.
E, Deus tenha pena, nos fez! . . Você vai chorar desprezo pelo que fez você mesmo? Então você chora desprezo por si! Nunca foi a mulher mais do que bochecha rosada e lábio amuado,
Você deveria ser burro antes de sua maldade - você quem não pede mais dela. . . 
Oh, você está bem o que você fez para tornar difícil para ela sonhar, escrever, pintar, construir, aprender. 
Oh, pense bem! E maravilha na linha daqueles que sabiam que a vida era mais que amor e lutou seu caminho para a conquista e para a fama!

(As mulheres instruídas entram.)

Hypatia, ela cuja sabedoria lhe trouxe a morte,
Encabeça a linha corajosa; e veja a santa freira Santa Teresa Teresa, guia e líder para Deus 
Escritora de palavras vivas! 
Dez dias rainha Lady Jane pobre empregada, o peão de mentes mais culpadas,
Tua aprendizagem deixou muitos homens envergonhados!
Madame de que do afiado De Staël, rápido de língua, polido de caneta? De Manon Roland, o que ...
Madame Líder dos homens, invicta até na morte?
Boast de romancers - 'foi a mão de uma mulher que escreveu um romance primeiro - de Scudery!
E ela segue seus discípulos dois, Jane Austen e George Sand da França. Vê quem ajudou a mapear as estrelas do céu -

Uau, né?!
O bacana é que, quando vi o sticker, pensei; olha que deve ter sido uma das primeiras formas de fanfic com a persona de Austen. Daí fui pesquisar. 


Ainda bem. 
Porque informação é tudo nessa vida!

Hamilton apenas cita Austen pelo valor de sua obra, a força dela está em ter publicado seu trabalho, se fazer ouvir. Ela não colocou palavras na boca de Austen ou fez dela feminista, proto-feminista, sufragista, sambista, pianista. 
Aprendi.
Entendi.
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A mensagem está clara, basta ter olhos para ver.

Até, M.


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