domingo, 26 de agosto de 2018

Cartas em 1800, whatsapps hoje

Olá,
eu e minha partner in crime, Lucy Dib, estamos nos últimos preparativos para lançar nosso ROMANCE HISTÓRICO 'CARTAS à DORA' e isso me faz pensar muito na importância das cartas na época que situamos nosso livro, a segunda década do século XIX.
Kilburne - Penning a letter
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Como sabem, eu não consigo deixar Jane Austen em paz - é um vício - então cá estou na Regência, os anos em que a Inglaterra foi governada pelo Príncipe gorducho e beberrão devido à doença de seu pai, o rei George III.
Lucy também não vai muito longe de Austen, achei mais uma metade dessa minha grande laranja literária!
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Apesar de ser pouco querido, motivo de infindáveis piadas e viver em difícil convivência com a Ton (nem sabemos o que é ser governado por alguém assim, né?), o Príncipe George foi responsável por várias reformas bacanas em seus anos de governo - como regente e como rei depois da morte de seu pai.
Austen dedicou Emma ele - com certa má vontade - já que o gorducho comilão era seu fã (como eu e a torcida do Flamengo). Há até recibo de pré-venda. Ele encomendou Emma antes de ser publicado, sabia?
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carrybeans feat info salons group
Mas quero falar de cartas, tão absolutamente importantes - tão comuns nos séculos passados como nós mandamos mensagens de whatsapp hoje. Eram torpedos uns anos atrás quando lancei '45 dias na Europa com Sr Darcy' e e-mails... E perceba: eram consideradas rápidas, seguras, reservadas e sigilosas. 

Austen deixou muitas cartas, trocava com vários parentes e amigos. Estão editadas em livros bacanas ou disponíveis no Gutenberg para quem quiser 'ouvir' mais dela e suas observações mordazes de sua vidinha mundana da Era Regencial.


gutenberg
Uma amiga já me perguntou: 'O que acha de Cassandra? Não gosto dela! Queimou as cartas de Jane, como pôde?'

Nem respondi, acho. 
Cassandra (a irmã de Jane) estava no seu direito já que eram comunicações sigilosas entre as duas. 
Esse costume, aliás, era muito corriqueiro assim como mantemos senha em nossos telefones, deletamos e-mails e limpamos conversas de whatsapp. Sei, está sorrindo pq faz isso de vez em quando, certo?  
Cartas guardadas em um baús poderiam ser encontradas e lidas, Lembra do Primo Basílio? Em nosso livro Cartas à Dora, o misterioso 'M' que envia cartas anônimas à moçoila, tem esse hábito de queimar documentos... 
Woman Reading a Love Letter by Auguste Toulmouche
Nesta crônica no link, o Jane Austen World chama atenção para um detalhe de Lydia e Kitty de Orgulho e Preconceito que eu nunca havia notado. 
Não sei como pode isso: tantas vezes já li, vi, esmiucei, sonhei, adaptei e TODO DIA descubro novidades em O&P. Enfim, a crônica fala de UM CÓDIGO entre as irmãs: sublinhar trechos. O que esses significariam? 
Provavelmente importância, como hoje em dia?
Ou segredo secretíssimo?
Seria o que Jane e Cassandra usavam e por isso tantas cartas foram queimadas?
Corri na minha estante e tirei meu livro - em pesquisas gosto de usar o livro de papel para sublinhar e deixar um post it coladinho. peguei minha edição bilíngue que ganhei de uma amiga queridíssima, e olhe o que achei na tradução:
Acho que a tradutora LEU AS CARTAS DE LYDIA para saber o que ela contava! ahahaha Conhecendo Lydia, nem duvido do conteúdo!
Mas Austen disse 'cartas muito cheias de linhas sob as palavras, para ser feitas públicas'. Hmmm, fiquei pensando... 

Quantos segredos haviam escondidos nas cartas, huh?
Um simples billet doux podia ser uma carta bomba!
Poucas linhas e... boom! Acabou com sua vida! Uma ameaça, um segredo, uma proposta!
Um spoiler!
Para bom entendedor...
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Cartas eram coisa tão corriqueira que romances eram escritos em forma de missivas - são os chamados EPISTOLARES. (Epístola vem do grego antigo 'mensagem', 'ordem escrita'. Texto escrito em forma de carta, para ser correspondido a uma ou nenhuma, mas se distinguindo desta por expressar opiniões, manifestos, e discussões para além de questões ou interesses. WikipediaMeu favorito absoluto é Lady Susan, mas Evelina é o máximo! E tantos outros como Drácula; e os que são desenvolvidos através de cartas como Nunca te vi, sempre te amei e... Cartas à Dora ! Meio epistolar, meio narrativa.

Eu sempre adorei cartas - papel, envelope, selo, correio... Adoro! Tive PENPALS pelo mundo na adolescência - ainda tenho até hoje, são mais de 30 anos de amizade! Éramos estudantes, hoje sou arquiteta e escritora, meu amigo é desembargador no tribunal da União Europeia.
Imagine o valor das cartas quando não havia outra maneira de comunicação?
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The Love Letter Painting by Jessie Elliot Gorst
A CARTA EM SI:
Era caro!
Boas penas custavam grana, especialmente de ganso que eram consideradas melhores. A pessoa tinha que apontar com um canivete ou faquinha de maneira a segurar a quantidade certa de tinta (ponta grossa ou fina?). Lembra de Miss Bingley se oferecendo para apontar a pena de Mr. Darcy? Tenho que rir pq, ó, q piriguete! Nem tenho coragem de escrever isso hoje em dia! hahaha
Se a pessoa morava no campo, poderia quebrar um galho com penas das aves de casa, mas a qualidade...
Ponteiras de metal eram ainda mais caras e difíceis de encontrar. Ah, se houvesse um comerciante interessado em expandir esse negócio... *spoiler alert*

Papel, nem se fala. Era bem caro, mesmo mesmo. Já viu aquelas lindas maravilhosas cartas de Austen em que ela escrevia primeiro na horizontal certinho, mas como o assunto não acabava ela continuava na vertical por cima do que já tinha escrito? hihihi Genial!
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jane austen world
Antes do mata-borrão (aquele pesinho de rolar sobre o que estava escrito para ajudar a secar a tinta), a pessoa tinha que espalhar areia, esperar um pouquinho, recolher, soprar.
Daí dobrar porque não usavam envelope e lá ia mais uma folha como proteção. Mais $. Tem um monte de sites e videos ensinando a dobrar como na época, um loosho. 
Depois vinha o chique: selo de cera
Sinete com seu brasão - ou da família, bastão de cera, algum jeito para não fazer sujeira e pronto.
Olha esse video: ensina a fazer com lápis cera e tubete de festa infantil. Já vi lindos com moldes feitos de cola quente.


O misterioso 'M' enlouquece a pobre Dora usando sinetes diferentes e até, olhem que homem é esse, alternando cores de cera!

Então, se você recebesse uma carta gorda era sinal que: 
1- o remetente era rico pois tinha fundos para muito papel, tinta e pena;
2- o remetente era culto pois conseguia compor longo texto;
3- você tinha meios ($) pois antes do 'Penny Post' era o destinatário quem pagava para receber. Igualzinho ao nosso início dos celelulares;
4- Quanto maior o carta, mais cara.


Era melhor ser conciso e discreto.

Entende porque 'a carta' de Mr.  Darcy em O&P é AQUILO TUDO? Ele entregou em mãos, planejava fazê-lo, de forma que não contava em fazer a moçoila pagar para receber, maaaas escreveu a esmo, botou o coração para fora, gastou $$$ com Lizzy. 
Ele é O CARA, como o mocinho diz no meu conto 'Pera, uva, maçã ou salada mista?' no 'Querida Jane Austen'.
Esse link tem mais um mooonte de detalhes bacanas sobre os práticos das cartas.


A ETIQUETA:
Como, na época, era o meio mais comum de comunicação, era também forma de apresentação. Pela maneira como se expressava, uma pessoa tinha avaliadas sua cortesia, cultura, traquejo social e 'noção' - ah se fosse assim ainda hoje!... imagine como seriam diferentes os posts no facebook?
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A Girl reading a letter by Candlelight, with a Young Man peering over her shoulder
by Joseph Wright of Derby
Para quem tinha dúvidas -e dívidas-, haviam os manuais de correspondências com exemplos para serem copiados. Nessa época, os manuais começavam a se popularizar; quando chega nas meninas Devon da minha série Cupidos em Devon - uns 50 anos à frente - aí existia manual para tudo! E como elas são trabalhadas na mutretagem, isso vai dar o que falar.


Não que Dora seja santa...
Ou que lhe faltem amigas...
Nem tramoias...
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Vittorio Reggianini, 'The Letter'
Dora poderia até ensinar umas mutretas para as meninas Devon, acho...Voltando...

Na Regência, época de Dora e o misterioso M, uma moça solteira só poderia falar com um rapaz se fosse formalmente apresentada a ele - quem não lembra do fofo Mr. Tilney virando o Pump room de Bath do avesso para ser apresentado a Catherine Morland? 
Se para falar com um rapaz ela precisava ser apresentada E estar acompanhada SEMPRE, imagine trocar correspondências (sigilosas) com um ser do sexo oposto? Não mesmo!

Correspondências eram trocadas entre 
parentes, 
moças que tinham alguma intimidade, 
homens de negócios (ou fazendo negócios) e 
no caso de noivos, as adoráveis cartas de amor.
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Leonid Osipovich Pasternak, The Passion of Creation, c. 1880s
Mas se eram PROIBIDAS para trocar com contatinhos, ninguém fazia, né?
Aham.
NINGUÉM mandava carta para um paramour combinando encontros ou fazendo juras de amor.
Não...
'Eclipse do coração' começa com uma charada assim, como amantes poderiam se comunicar se um deles deverá viajar para longe? Dúvida cruel...
Princess Elizabeth by Sir William Beechey
E em 'Cartas à Dora', se são 'CARTAS ANÔNIMAS' que 'M' manda para Dora, como eles fazem para se comunicar sem destruir com a reputação da moça?


Já falei de mutretas?
Ih, melhor parar ou lá vou eu soltar spoilers...
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bjs