terça-feira, 23 de outubro de 2018

Entendendo fantasias sexuais proibidas: violentas e ameaçadoras

olá,
meu Twitter é eclético. Lá, diferente do Facebook, eu sigo perfis de fontes variadas, opiniões conflitantes com as minhas, procuro estar sempre aberta ao contraditório. Adoro.
Por conta dos romances históricos que ando escrevendo, a todo vapor na série CUPIDOS EM DEVON que acabo de lançar o primeiro volume, sigo muitos estudiosos da Era Vitoriana, esse maravilhoso caldeirão de revolução social e industrial.
Um deles é o Meretrizes do Passado, perfil que defende a classe trabalhadora de profissionais do sexo - de ontem, hoje e amanhã. Já li coisas muito interessantes sobre sexualidade, erotismo, sociedade.
E, como é inegável o poder mediúnico do algorítimo da internet que sempre lê minha mente, hoje achei essa pérola de artigo.


Por que algumas mulheres fantasiam sobre sexo violento 
e por que isso não é nada para se envergonhar

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essa imagem, de William Holman Hunt, O Despertar da Consciência,1853
sempre me deixa na dúvida. É um ataque? A carinha dela é de desespero? Surpresa?

Eu tinha acabado de comentar uma postagem de uma amiga no Facebook criticando quem suspira por um personagem cafajestão em livro, enquanto na vida real violência física e mental não é nada romântico.
Também assisto a reprise de Vale Tudo, que é uma viagem no tempo de volta aos anos 90 quando tudo era mais aberto e assim mesmo, mais elegante. Outro dia Ivan, o mocinho mau-caráter que troca Raquel pé-de-guerra pela rica-e-solta-um-mambo-dj Heleninha disse que só casou com a rica porque ela era frágil, educada, refinada e precisava do apoio dele. Raquel, a lutadora, o fazia sentir menos homem, menos necessário. Oh, food for thought.

Então, nesta linha de raciocínio, achar esse artigo foi bom porque caiu como uma luva no que eu vinha pensando. Vou traduzir algumas partes, mas se você quiser ler tudo, vai aqui no Inews. Recomendo.


"O desejo sexual é complexo, muitas vezes repleto de obstáculos,
 diferenças de poder e ambivalência"

é, sim... Vou comentar em itálicos.

Aviso. Como o artigo original, esse meu com comentários e referências ao que adorei tem assuntos que alguns podem achar perturbador. 

Um estudo em 2009 descobriu que 62% das mulheres participantes tinham fantasias sexuais nas quais eram forçadas a fazer sexo contra sua vontade. Estas estatísticas podem causar a leitura desconfortável, particularmente na esteira do movimento Me Too e os numerosos escândalos de agressão sexual que dominaram as manchetes recentes. E nossa corrida eleitoral tão carregada de fake news, true news e feminismo amiudado.
Mas, para nos compreender, devemos ir aonde é desconfortável. Por que algumas mulheres fantasiam regularmente sobre serem forçadas a fazer sexo?


Ser arrebatada
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note aqui a diferença de tonalidade...

"Estupro" talvez não seja uma descrição apropriada desse tipo de fantasia. Estupro por sua própria denúncia não é consensual, enquanto uma fantasia sexual, por mais violenta que seja, está sempre sob a direção e o controle da pessoa que a deseja. O estupro é profundamente traumático, muitas vezes fatal, violação profunda do ser de uma pessoa. É uma experiência aterrorizante, precisamente porque não é consentida e a vítima está sem poder. Mas uma fantasia é sempre um lugar seguro, sempre sob seu próprio controle e sempre sendo consentido. Não importa o quão extensa a lista de elenco possa ser, quão dramático é o cenário, ou quão bizarro é o enredo, é impossível não consentir em sua própria fantasia.
Então, a primeira coisa que precisa ser estabelecida é que essas não são fantasias sobre estupro, elas são sobre submissão e dominação. 
Já vemos aqui uma diferença, um desvio no rumo da conversa, percebe?
Nem significam que se sonhe em ser estuprado. Dr Lori Beth Bisbey é uma psicóloga e treinadora de intimidade sexual que trabalha com indivíduos e casais. Ela explicou que, embora essa fantasia seja uma das mais comuns com as quais seus clientes se apresentam, “nenhuma das mais de mil mulheres que trabalhei ou entrevistei nos últimos 30 anos queria ter um verdadeiro estupro. "A fantasia é sobre sexo. O estupro real é sobre poder.


Fazer uma distinção clara entre fantasia sexual 
e agressão sexual é essencial.
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Sabia que no século XIX, as mulheres insatisfeitas eram consideradas 'histéricas' e um dos tratamentos consistia em 'massagem pélvica'?
 Isso mesmo que você pensou vendo essa ilustração. 
Masturbação. Feita pelo médico. No consultório.
O nome disso hoje em dia? É, isso mesmo.

Não só é profundamente insultante, é simplesmente errado, sugerir que o estupro é uma experiência erótica. É primordial usar o termo correto "fantasias sobre ser violada" em vez de "fantasia de estupro", já que isso não apenas remove a palavra carregada "estupro", mas também comunica a troca de poder consensual em jogo. 


A fantasia não equivale a desejar a satisfação. 

O que nos leva a contradições que muitas pessoas encontram em suas fantasias sexuais:  O desejo sexual é complexo, muitas vezes repleto de obstáculos, poder diferenciado e ambivalência. O reino da fantasia sexual comumente carrega vergonha para as pessoas porque suas mais poderosas imaginações podem ir contra sua ética, política ou crenças, e ser o oposto do que elas gostariam que realmente acontecesse. 


“As fantasias são um ponto de encontro para o desejo e o conflito”.
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eu entendo isso, não sou diferente de ninguém, mas o que implico é que se glorifica o agressor como 'homem de pegada', 'gostoso', 'poderoso'. 
Na história que se lê/assite, ele está participando da fantasia da mulher ou ele a está agredindo de FATO?
Dá para sacar a diferença?

E a fantasia de ser arrebatada não é nada senão desejo e conivência. Há que se evitar a culpa. Embora essa seja uma fantasia comum e completamente normal, ela apresenta um enigma para os psicólogos. 


Por que tantas mulheres estão fantasiando sobre algo 
que seria horrível e traumatizante na vida real? 
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E escrevendo e lendo sobre isso? 
E pirando por heróis de merda?
Por que não fantasiar sobre sexo consensual? 

Mulheres gostam de sexo sem o estigma de ser "sacanagem". Há evidências limitadas para apoiar isso, estudos sugerem que fantasias sobre serem violadas eram mais prevalentes em mulheres que experimentavam níveis mais elevados de culpa em relação ao sexo. No entanto, a maioria dos estudos sobre fantasias de violação não apóia essa teoria. Significativamente, pesquisas também falam que as mulheres “que eram mais altas em erotofilia [atitude positiva em relação ao sexo], abertura à fantasia, desejo por fantasias e auto-estima relataram maior excitação sexual a fantasias de estupro”. 

Longe de ser sintomática de culpa em torno do sexo, a fantasia da força é indicativa de alguém que gosta de sexo e é sexualmente condescendente.

Há até quem se ache 'uma feminista ruim', confunde com sentir-se desejável. O ponto comum em fantasias é que o homem é tão dominado pela luxúria que ele precisa ter aquela mulher, não importa o quê. Como Rhett Butler com Scarlett O'Hara em O vento levou.


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Uma vez uma amiga me disse que gostou tanto de um livro que eu detesto porque, enquanto eu só vejo o assédio mental, ela (minha amiga) via um cara que tinha tesão em uma única mulher. Ela achava isso muito sexy.


E chegamos a eles, os Rasgadores de corpete
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Fantasias extremamente comuns, especialmente para leitoras de romances de época. Ele, esse herói - ou agressor - é sempre bonito e de físico atlético, isto é confirmado pela pesquisa de fantasias sexuais. idéia central aqui é que a fantasia de violação retrata a mulher como tão atraente, sedutora e irresistível que, em sua presença, os homens não possam se controlar. Curiosamente, a estudiosa entrevistada sugere que isso pode ser o resultado de narrativas "românticas" internalizadas que erotizam a submissão feminina e dominação masculina.


Há quem diga que Mr Darcy é o precursor dos Rasgadores de corpete, ele - o alto, moreno e bonito - que fica enfeitiçado pelos olhos de Lizzy Bennet que o detesta e mesmo assim insiste em conquistá-la. Já discuti isso em um curso sobre Austen, como ela inventou esse gênero sem querer. Deu mó qui-qui-qui.


Nestes romances, o desejo do macho pela heroína desencadeia sua motivação sexual e sua a agressividade masculina desinibe o uso de força limitada
A recusa da heroína fornece tensão dramática, criando um contexto para ele mostrar seu poder e seu desejo.

Sarah, de 46 anos, diz: "Eu realmente nunca li romances desse tipo, mas lembro-me de ser fascinada por mulheres desmaiadas e homens fortes desde sempre. É estranho porque eu absolutamente não sou o tipo que desmaia."
Mas erotizar o homem hiper-masculino não explica o fato de participantes desse estudo fantasiarem ser violadas por uma mulher, apesar da maioria se identificar como heterossexuais. 
Rosie, 24 anos, fantasia que é arrebatada por uma mulher bonita que a amarra em uma cama. “Estou mais confusa pelo fato de que é sempre uma mulher, para ser honesta. Sou hétero e todos as minhas outras fantasias são sobre homens. Mas esta sempre foi uma mulher e é uma das minhas favoritas. Eu costumava me sentir bastante assustada com isso, mas decidi que não estou machucando ninguém e apenas aproveito!


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Também é completamente normal que as mulheres que foram vítimas de violência sexual na vida real continuem tendo ou desenvolvam fantasias de arrebatamento. Boa parte das participantes desse estudo tem uma história de agressão sexual. Mas isso é algo que muitas mulheres lutam.

Olha que curioso, é uma novidade isso para mim. Então será por isso que os romances cheios de agressores de quinta fazem tanto sucesso? Espelho da realidade? As pessoas querem passar a vida a limpo na pele de um cafa rico e gostosão que se pode controlar fechando o livro ou desligando a TV?
E me pergunto se isso não acaba dando força para os machos de quinta que sacaneiam as mulheres na vida real. Será que SEMPRE SE CONSEGUE SEPARAR A FANTASIA DA REALIDADE? Será que se consegue identificar quando um cafa está te triturando ou se acha vivendo um romantismo de merda?

Gemma, 28 anos, foi estuprada quando estava na universidade. Ela nunca relatou o crime, e anos depois de repente desenvolveu insônia. "Demorei muito tempo para me abrir sobre o estupro em minhas fantasias sexuais. Eu me senti tão culpada por isso. Eu chorei quando eu disse ao meu analista sobre isso porque eu pensei que significava que eu era algum tipo de aberração. Como eu poderia ter sido estuprada se fantasio que isso aconteça, sabe? Mas meu conselheiro explicou que é precisamente por isso algumas pessoas têm essas fantasias - assumir o controle de algo que era horrível e reimaginar em seus próprios termos. Isso realmente me ajudou. Isso fazia sentido."


Na fantasia, a mulher desempenha o papel submisso, 
mas sua fantasia é também sobre como controlar seu parceiro. 
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Toda mulher enfatiza que, na fantasia, ela é a poderosa que reduziu a outra pessoa a um estado onde ele (ela) não podia controlar a si mesmo. 
Isso atua na teoria da desejabilidade sexual, mas também é paradoxalmente aquele no controle.

Sim! Isso eu entendo e já escrevi várias vezes.
Em minha inspiração de Orgulho & Preconceito, The Prince of Pemberley, Darcy e Lizzy são amigos de adolescência que perdem o contato com o passar dos anos. Quando se reencontram, ele se surpreende com ela - como é autêntica e bonita e forte e fica... LOKO! 

É isso, ela está no controle das camas muito, muito quentes que eles dividem pelos três livros da trilogia.

"Teoria da abertura": Em vez de ser impulsionada pela sexualidade reprimida, esta teoria afirma que as fantasias de estupro/violação/arrebatamento podem derivar de uma a atitude geralmente aberta, aceita e sem culpa da mulher em relação ao sexo. Fantasias como resultado de trauma psicológico, repressão ou misoginia internalizada deveriam ser vistas como o resultado de uma abertura ao sexo e à fantasia em geral.

Certamente, todas as mulheres com quem a autora do artigo original, Dr Kate Lister, falou gostam de suas fantasias e acreditam que completam suas vidas sexuais. Para todos aqueles que leram o dela e o meu, Moira, comentado; que têm tais fantasias e sentem vergonha, eu espero que possam começar a se entender melhor e se dêem permissão para se curtir. 


Fantasia não é realidade e 
você não fez nada errado de qualquer forma.
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Na série CUPIDOS EM DEVON alguns tipos de fantasias sexuais serão mencionadas, alguns de forma mais contundente, outros mais discretos. Talvez até confusões, situações mal-interpretadas.

Algumas coisas são difíceis de mencionar, tento fazer com tato e bom gosto, reescrevo, apago, consulto minhas universitárias.
Já falei de agressões muito delicadamente na Princesa Possível 3, Te encontro lá, a pequena sereia moderna. 


Mas sempre, sempre, conto um final feliz.
Uma redenção feminina, encontro da força interna para dar a vota por cima, se reconstruir. 
É assim é que é, né?


E as fantasias, vamos nos esbaldar nelas!

Até mais,
bj



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