& Moira Bianchi: desejo sexual
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sábado, 15 de junho de 2019

Muitas mulheres em uma série só: Gentleman Jack

olá, preciso falar de Gentleman Jack!

twitter bbc one
A princípio fiquei curiosa pela série pela época retratada, 1832, bem na década que inicio o CUPIDOS EM DEVON. Sempre estou sedenta por fontes de pesquisa e uma produção BBC/HBO não seria errada. Claro, haveriam de haver licenças poéticas, eu imaginei isso, mas fui curiosa principalmente por nunca ter ouvido falar de Anne Lister.
Vivo fuçando arquivos e manuais e documentos históricos, mas essa mulher de vida tão interessante nunca tinha aparecido, nem em uma pista. Fiquei até magoada comigo mesma.
Daí tinha a característica da homossexualidade de Anne Lister e o fato de que ela não era a única na época. Esse detalhe eu já tinha visto, é da natureza humana experimentar e descobrir onde cada um se sente mais confortável. CUPIDOS EM DEVON fala disso e de outras possibilidades que a vidinha tão limitada das mulheres do século XIX permitia - ou não permitia.
Olha, aviso logo, vou falar demais e soltar muitos spoilers


placa histórica localizada na propriedade da família Lister, Shibden Hall - Halifax 
'Fundo cívico de Halifax - ANNE LISTER - 1791-1840 - diarista, mulher de negócios, proprietária de terras e lésbica que registrou bastante de sua vida pessoal em códigos secretos. Ela viveu em Shibden Hall de 1815 a 1840. 

Então, a série foi uma grata surpresa! 

Esta é a abertura da série, note o figurino de Anne que fantástico! Anáguas, saias e corset com camisa, colete, relógio de bolso, cravat, casaca e cartola! Ambígua! Híbrida! 
Ela é (era) lésbica, sim.
Tem cenas que insinuam relações sexuais entre mulheres, sim.
Ela seduz outras mulheres, sim.
Mas tem algo que ninguém pensa:


A VIDA DE OUTRAS MULHERES
e isso é maravilhoso!

-A tia Anne, velha e doente, que vive através da vida aventuresca da sobrinha Anne;
-A irmã de Anne, Marian, solteirona e esperançosa, que faz força para casar e salvar sua vida;
-A criada Eugénie, saidinha e pateta, que se apaixona por qualquer homem que lhe aparece e é rejeitada;
-A criada Condingley, sabida e boa gente, que foi obrigada a virar cozinheira e parar de viajar com Anne por causa de uma doença;
-A vizinha Mrs. Priestley, fofoqueira e preconceituosa, que faz intriga por não entender ou aceitar a sexualidade alheia;
-Ann Walker, pobre menina rica, que é explorada por sua beleza e riqueza por parentes, homens, criados;
-A irmã de Ann, Elizabeth, mal-casada e infeliz, que foi enganada por um marido que na verdade queria seu dinheiro e não sua companhia;
-A falecida Mrs. Aimsworth, infeliz e impotente, que deveria saber o quão vil era seu marido;
-A meeira Mary, amedrontada e espancada, que vivia sob o reino de terror do marido violento;
-A filha do capataz, Susannah, letrada e curiosa, que casa com o meeiro que assassinou o pai violento sem saber desse segredo;
-A amiga Mariana, rica e esperta, que decidiu casar com um homem por medo de enfrentar as sanções sociais da sua sexualidade;
-A heroína, Anne Lister, mulher à frente de seu tempo, aventureira, inteligente, culta, que fura os limites que a sociedade impunha às mulheres como todas as outras não conseguiam. A duras penas, claro.
twitter bbc one
Esta montagem veio de um thread da BBC one no Twitter comparando as mulheres de Gentleman Jack com sobremesas... Interessante, não é? Com tantas alegorias possíveis, escolheram comestíveis, indulgências, pecados até. 

Nos três primeiros episódios, fui ficando animada com cenários e figurinos, com as atuações bacanas, com os trejeitos de Anne. Ela é muito divertida e... Cavalheiresca. Na maneira de falar, de gesticular, de se portar na presença de damas que ela tem acesso por ser uma dama - se fosse um homem não poderia estar perto de moças com tanta facilidade. E por vezes está de mangas de camisa, sem a casaca, conversando e contando das viagens. 
hollywood reporter
E quando eventualmente usa vestidos femininos é quase caricato, hilário!
Eu ficava pensando e comparando, imaginando se fosse outro caso, se poderia acontecer, se, se, se... Daí fui olhar os diários dela e descobri que a autora Sally Wainright (que mandou bem demaisssssss) tirou VÁRIOS DIÁLOGOS das palavras que Anne Lister deixou, das cartas, 20 e tantos diários e 17 livros de viagem! 
Parei.
Deixei para pesquisar depois que terminasse a série para evitar achar defeitos ou discrepâncias. Fiz bem!
hiccup broom
Assim pude aproveitar as sutilezas, om ombros sempre caídos nos vestidos da depressiva Ann Walker em comparação com as roupas acinturadas de Anne Lister, as estampas animadas de Marian, as roupas ricas de Mariana e os tons aguados da irmã entristecida.


E então chegou o episódio 4. 

Essa cena, esse ponto foi quando a serie me conquistou de vez. Veio de uma outra cena forte quando Anne Lister exige que Ann Walker se decida, se prefere ficar com ela ou casar com o viúvo da amiga recém falecida (já falei acima). Pressionada, a depressiva Ann envia uma cesta de frutas (coisa de gente rica) para Anne com uma carta onde pede que ela resgate um saquinho escondido no meio das frutas e sorteie 'sim' ou 'não' porque ela própria é incapaz de decidir sua vida. Anne fica desesperada, vai tomar satisfação, pergunta se Ann acha que os sentimentos dos outros são uma brincadeira. E aí, eu que achava a sequência muito legal, fiquei boquiaberta com isso. Assista.

Tradução livre (minha)
Anne Lister: Ann.
Ann Walker: *choro*
L: Ann, fale comigo, somos adultas. Nada pode ser tão ruim.
W: Eu nunca mais te verei.
L: O que? O que quer dizer?
W: Se eu te contar a verdade, você não vai mais querer nenhum contato comigo. 
*choro*
L: Posso te surpreender. Hmm?
W: É ele.
L: Ele? Ele quem?
W: O reverendo Ainsworth. Eu fui… Indiscreta com ele.
Ele disse que estava apaixonado por mim e que queria casar comigo e que ela não viveria muito e eu não queria, mas eu não sabia como dizer 'não'. Por isso fiquei tão alterada quando ouvi que ela tinha morrido porque eu sabia que isso ia acontecer. Eu sabia que não se passariam 5 minutos até que ele me escrevesse. E Anne… Eu nunca o encorajei. Eu lhe disse que eu não queria, mas então ele passou a conseguir situações em que ficava a sós comigo, aqui ou quando eles visitavam ou lá na casa deles. Você entende? Você entende o problema? Ele teve… conhecimento da minha intimidade. 
L: Intimidade, como?
W: *choro*
L: Beijos?
W: *balança a cabeça*
L: Ele fez… Tocou em você?
W: *balança a cabeça*
L: Vocês estiveram conectados?
W: *choro* Uma vez. *choro* Esse é o problema. Isso não me coloca em obrigação para com ele, com Mr. Ainsworth?
L: Espere aí. Ele se impôs a você. Você estava na casadele, visitando sua amiga, esposa dele. Estava sob a proteção dele. Na casa dele. E ele tirou vantagem de você. 
W: Quando ela saiu da sala. Ainda assim, moralidade não…
L: Oh, meu Deus, não,  é claro que não.  Você não está sob obrigação alguma, ele era casado, pelo amor de Deus!
W: Você está gritando. Está irada.
L: Não estou gritando com você,  não estou irada com você. Estou aliviada- aliviada que me contou, Ann. Ann, você não tem obrigação alguma com ele.
W: Mas, vê? Você vê agora a razão porquê eu não podia dizer 'sim' para você porque eu estou tão preocupada que- todo tipo- que você ficaria chateada e que me exporia e que eu nem era livre ou digna de dizer 'sim' para você e por isso eu não poderia te mostrar a carta. E é- a carta está aqui- e está  muito claro pela linguagem que ele usa que ele já pensa que pertenço a ele. "Para a toda minha pequena Annie, do todo seu Thomas Ainsworth." E eu não consegui contar a ninguém porque ele disse que refletiria tão mal em mim quanto nele. *choro* Sei que me considera fraca. Estúpida. *choro* Seria mais fácil se eu tivesse alguém como você na minha vida. Isso nunca teria acontecido, porque eu teria alguém com quem conversar- para contar. Alguém que teria me ajudado. 
L: Tudo que me contou é absolutamente verdade?
W: Sim.
L: Você sabe que eu a teria livrado desse problema, não sabe? Não importa se tivesse me dito 'sim' ou 'não'.
W: Teria?
L: Sujeitinho sujo e desprezível. De coleira.
W: Ele ainda virá tentar conseguir o emprego aqui, nessa reunião do conselho da igreja. A coisa toda, sem dúvida,  é somente uma desculpa para chegar perto de mim.
L: Shhh. Você não tem nada a temer vindo dele. Me entende?
W: O que você vai fazer com ele?
L: Ainda não decidi.


Percebe as nuances da vida feminina? 

As muitas camadas das amarras sociais?
A rica herdeira era abusada constantemente pelo marido da amiga doente que estava no cômodo ao lado. Será que ela sabia e permitia por ser mais velha que o marido (é dito que era 15 anos mais velha e brincava que quando morresse, seria de Ann a responsabilidade de cuidar do seu marido)? Será que era enganada? Será que esse fato era real ou foi inventado para a série? Não tive coragem de pesquisar...
Essa olhada para a câmera, cumplicidade com o expectador, é muito bacana. Geralmente é divertido, mas nesse foi assim de cortar o coração...

A partir desse ponto passei a prestar mais atenção às outras personagens femininas da série e me descolar da curiosidade pela  'vida lésbica naquela época'. Anne Lister mostrada é muito mais que sua sexualidade, que na época era considerado 'uma coisa que as pessoas faziam' e não 'o que elas eram'. Ela era dona da porra toda, cuidava da propriedade, fazia investimentos, decidia, comprava, vendia, contratava... Como fazemos hoje e como muitas de nós ainda não conseguem fazer. É muita bolinha!



Na vida real elas recebiam cartas anônimas mais cruéis que na serie, trolagens como anúncios de jornal em que procuravam maridos; na serie Anne é espancada e humilhada. Também sua irmã em uma cena muito comovente. Ann sofre de depressão e sucumbe à pressão social. Elizabeth se arrepende de ter-se feito refém do marido o aceitando em casamento.


A vida é dura em qualquer época, acredito.
annelister co


Acredito que Anne Lister não teve a intenção de nos deixar lições de moral, ela escrevia para fazer catarse. Diz-se que começou quando foi exilada em um quarto no sótão do colégio interno onde estudava quando pequena. Nesta época desenvolveu o código que usou até o fim quando morreu de repente aos 49 anos, talvez devido a uma mordida de inseto em uma viagem pela Rússia.
annelister co

Como Jane Austen, ela também escrevia cartas longas e por vezes cruzava as linhas para usar o papel ao máximo. 

catablogue


Mas, mesmo sem querer, seus diários nos deixaram pistas incríveis da evolução feminina através dos tempos. Você não precisa ser lésbica para gostar da serie ou admirar os incríveis feitos dela. Na verdade, pode até correr as cenas mais risqué se quiser, pular totalmente. São poucas. 


De qualquer forma, veja. 
Vale a pena.
look out point tv
Eu vou esperar a 2ª temporada!

bj

>> outras curiosidades & pesquisas históricas, aqui

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e parei porque tinha que fazer mil coisas. Mas perderia mais tempo pesquisando.
Todos os videos são do Twitter da BBC one. Agradeço muito.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Sou Ellen, mas por que não ser Odete Roitman?

Olá,
Neste feriadão super alongado aproveitei para tirar umas férias do fla-flu político das redes sociais para finalizar um volume da série Cupidos em Devon e - tarefa cumprida com louvor - mergulhei nas maratonas. 
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Pleníssima com livro pronto e me dedicando ao hedonismo!
Sobre as crônicas de Frankenstein e de Lizzie Borden provavelmente farei posts depois. 
O nível de piração hj é outro. 
Falarei de... sexualidade feminina.
De novo, Moira?
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Deve ser o algaritmo do Google, toda hora me mostra o mesmo assunto. Fazer o que?
Veja só:


CASO 1: ODETE
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Maratonei os capítulos da semana de Vale Tudo. Já falei que é minha novela favorita de todos os tempos? Então, essa semana, Odete, a melhor vilã da vida, dá um show. Chora, tira o lenço de seda francesa da bolsa, faz mimimi, uma graça. Coitada, foi pega com a boca na botija. 
Armou com seu lover para ele se infiltrar na Paladar, empresa da purgante Raquel Acioli e envenenar a maionese - salada de batata e cenoura. Pausa para rir da ironia dos autores! Deve ser por isso que SEMPRE desconfio de maionese!! Então, Raquel descobriu, desconfiou do novo empregado, um monte de coincidências, acabou indo na TCA (empresa de aviação de Odete) e pegando-a na hora que pagava o pilantra para ele sumir. Um freje!
Os cetinhos purgantes acusam Odete de todos os nomes, usam 'cafetão', 'gigolô', 'michê', 'rapaz que ganha a vida na horizontal'. Era novela das 8 que passava às 8 da noite, né? 
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Odete, acuada, se faz de vítima até conseguir bolar uma escapada e assim que consegue, mostra as garras. A cena que dura uns 3 capítulos termina com ela dizendo para os bonzinhos: 'Vocês podem sair da minha empresa agora quietinhos com o rabo entre as pernas ou esperar a polícia chegar e descobrirem o quão poderosa eu sou.'
Uau, né?


CASO 2: ELLEN
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Comecei depois a maratonar Mr. Selfridge com certa preguiça pq são 4 temporadas longas. Estou adiando essa série faz tempo, é uma das que meu hubs não se interessa, então só verei quando der. Para fugir dela vi o documentário no Netflix mesmo no qual se baseou o seriado, umas 2 horas de duração, que é ótimo. Hubs pegou no meio, me fez recomeçar, adoramos. Sei os spoilers então, sei o que Harry recebe no final (da vida), final e sei que ele merece! Mal pai, mal marido, loko, mas visionário, comerciante de primeira, revolucionário.
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Mesmo assim, ver como ele renega a esposa americana em prol da lover Inglesa artista de teatro dói, irrita, dá raiva. Me peguei torcendo contra a moça que está só defendendo o seu. Ela faz limonada com o limão, pq vamos e venhamos, trabalhar na horizontal não há de ser moleza - perdão pelo trocadilho.


Daí é que veio minha piração. 

Por que imediatamente odiei a amante sem nem conhecer a esposa que mal foi apresentada na série?
Sei o que acontecerá com a amante famosa (as amantes famosas) de Selfridge, mesmo assim me recusei - a princípio - a entender minha miga mulher e ver no explorador homem o problema. A série coloca o empresário visionário como o pobrezinho que só queria vencer na vida seduzido pela harpia e EU CAÍ!...
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Rose e Jenny Dolly, gêmeas, em 1927. 
Por que Odete Roitman só pode ser dona de suas vontades e contratar um michê/garotão/gigolô por ser a vilã? Ela não tem direito de ter um amor? Ou uma companhia que seja?...
Leila se casa com Marco Aurélio por companhia...
Sei que quando ela se apaixonar de verdade, será pelo vilão pilantra mor e aí, bang bang I hit the ground, bang bang that awful sound, bang bang, Leila shot me down... 

CONCLUSÃO que chego: De novo, primeiro nos anos 80 e agora nos 2010, as mulheres ainda são punidas por sua sexualidade. Por ter desejo, gostar do tchaca-tchaca-na-butchaca, usar o que Deus lhes deu, etc, etc.
Chega, né?


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Essa é AMALDIÇOADA por ter desejo... Td bem, é doida. Mas mesmo assim...
Olha, nem vou na Colina Escarlate, filme LIIIINDO, mas oh, que massacre feminino... 
Não, lá não vou.

Enfim, minha piração é como somos manipuladas a, ainda, nos tolir. Como sabem, estou super enfiada na era Vitoriana, agora saindo da metade do século XIX, e vejo cada vez mais que, apesar de todas as muitas modernidades, nas convenções sociais as mulheres são tão tolidas quanto.
Sim, usamos saias mais curtas, decotes maiores, menos camadas, podemos ir a praia quase nuas, trabalhar e escolher não casar. Mas ai de quem quiser ter amante... O que?... Sem namorado fixo?
No epísódio antigo de The Big Band Theory que vi também esse finde - choveu no Rio e não posso correr, estou com o pé machucado - Sheldon faz estimativa de quantos parceiros Penny teve na vida e Amy pergunta na lata: 'Você é uma vagabunda?'





De miga para miga, o preconceito está lá, de cara...

Aff, mais 200 anos para nos livrarmos dessa escravidão?
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esperar sentada, né, migs?
até mais...

aviso: todas as imagens achadas no google em pesquisa: 'victorian lady', 'odete roitman namorado', 'mr selfridge', 'selfridge real lover', 'crimson peak', 'sheldon first date'

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Entendendo fantasias sexuais proibidas: violentas e ameaçadoras

olá,
meu Twitter é eclético. Lá, diferente do Facebook, eu sigo perfis de fontes variadas, opiniões conflitantes com as minhas, procuro estar sempre aberta ao contraditório. Adoro.
Por conta dos romances históricos que ando escrevendo, a todo vapor na série CUPIDOS EM DEVON que acabo de lançar o primeiro volume, sigo muitos estudiosos da Era Vitoriana, esse maravilhoso caldeirão de revolução social e industrial.
Um deles é o Meretrizes do Passado, perfil que defende a classe trabalhadora de profissionais do sexo - de ontem, hoje e amanhã. Já li coisas muito interessantes sobre sexualidade, erotismo, sociedade.
E, como é inegável o poder mediúnico do algoritmo da internet que sempre lê minha mente, hoje achei essa pérola de artigo.


Por que algumas mulheres fantasiam sobre sexo violento 
e por que isso não é nada para se envergonhar
.

essa imagem, de William Holman Hunt, O Despertar da Consciência,1853
sempre me deixa na dúvida. É um ataque? A carinha dela é de desespero? Surpresa?

Eu tinha acabado de comentar uma postagem de uma amiga no Facebook criticando quem suspira por um personagem cafajestão em livro, enquanto na vida real violência física e mental não é nada romântico.
Também assisto a reprise de Vale Tudo, que é uma viagem no tempo de volta aos anos 90 quando tudo era mais aberto e assim mesmo, mais elegante. Outro dia Ivan, o mocinho mau-caráter que troca Raquel pé-de-guerra pela rica-e-solta-um-mambo-dj Heleninha disse que só casou com a rica porque ela era frágil, educada, refinada e precisava do apoio dele. Raquel, a lutadora, o fazia sentir menos homem, menos necessário. Oh, food for thought.

Então, nesta linha de raciocínio, achar esse artigo foi bom porque caiu como uma luva no que eu vinha pensando. Vou traduzir algumas partes, mas se você quiser ler tudo, vai aqui no Inews. Recomendo.


"O desejo sexual é complexo, muitas vezes repleto de obstáculos,
 diferenças de poder e ambivalência"

é, sim... Vou comentar em itálicos.

Aviso. Como o artigo original, esse meu com comentários e referências ao que adorei tem assuntos que alguns podem achar perturbador. 

Um estudo em 2009 descobriu que 62% das mulheres participantes tinham fantasias sexuais nas quais eram forçadas a fazer sexo contra sua vontade. Estas estatísticas podem causar a leitura desconfortável, particularmente na esteira do movimento Me Too e os numerosos escândalos de agressão sexual que dominaram as manchetes recentes. E nossa corrida eleitoral tão carregada de fake news, true news e feminismo amiudado.
Mas, para nos compreender, devemos ir aonde é desconfortável. Por que algumas mulheres fantasiam regularmente sobre serem forçadas a fazer sexo?


Ser arrebatada
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note aqui a diferença de tonalidade...

"Estupro" talvez não seja uma descrição apropriada desse tipo de fantasia. Estupro por sua própria denúncia não é consensual, enquanto uma fantasia sexual, por mais violenta que seja, está sempre sob a direção e o controle da pessoa que a deseja. O estupro é profundamente traumático, muitas vezes fatal, violação profunda do ser de uma pessoa. É uma experiência aterrorizante, precisamente porque não é consentida e a vítima está sem poder. Mas uma fantasia é sempre um lugar seguro, sempre sob seu próprio controle e sempre sendo consentido. Não importa o quão extensa a lista de elenco possa ser, quão dramático é o cenário, ou quão bizarro é o enredo, é impossível não consentir em sua própria fantasia.
Então, a primeira coisa que precisa ser estabelecida é que essas não são fantasias sobre estupro, elas são sobre submissão e dominação. 
Já vemos aqui uma diferença, um desvio no rumo da conversa, percebe?
Nem significam que se sonhe em ser estuprado. Dr Lori Beth Bisbey é uma psicóloga e treinadora de intimidade sexual que trabalha com indivíduos e casais. Ela explicou que, embora essa fantasia seja uma das mais comuns com as quais seus clientes se apresentam, “nenhuma das mais de mil mulheres que trabalhei ou entrevistei nos últimos 30 anos queria ter um verdadeiro estupro. "A fantasia é sobre sexo. O estupro real é sobre poder.


Fazer uma distinção clara entre fantasia sexual 
e agressão sexual é essencial.
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Sabia que no século XIX, as mulheres insatisfeitas eram consideradas 'histéricas' e um dos tratamentos consistia em 'massagem pélvica'?
 Isso mesmo que você pensou vendo essa ilustração. 
Masturbação. Feita pelo médico. No consultório.
O nome disso hoje em dia? É, isso mesmo.

Não só é profundamente insultante, é simplesmente errado, sugerir que o estupro é uma experiência erótica. É primordial usar o termo correto "fantasias sobre ser violada" em vez de "fantasia de estupro", já que isso não apenas remove a palavra carregada "estupro", mas também comunica a troca de poder consensual em jogo. 


A fantasia não equivale a desejar a satisfação. 

O que nos leva a contradições que muitas pessoas encontram em suas fantasias sexuais:  O desejo sexual é complexo, muitas vezes repleto de obstáculos, poder diferenciado e ambivalência. O reino da fantasia sexual comumente carrega vergonha para as pessoas porque suas mais poderosas imaginações podem ir contra sua ética, política ou crenças, e ser o oposto do que elas gostariam que realmente acontecesse. 


“As fantasias são um ponto de encontro para o desejo e o conflito”.
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eu entendo isso, não sou diferente de ninguém, mas o que implico é que se glorifica o agressor como 'homem de pegada', 'gostoso', 'poderoso'. 
Na história que se lê/assiste, ele está participando da fantasia da mulher ou ele a está agredindo de FATO?
Dá para sacar a diferença?

E a fantasia de ser arrebatada não é nada senão desejo e conivência. Há que se evitar a culpa. Embora essa seja uma fantasia comum e completamente normal, ela apresenta um enigma para os psicólogos. 


Por que tantas mulheres estão fantasiando sobre algo 
que seria horrível e traumatizante na vida real? 
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E escrevendo e lendo sobre isso? 
E pirando por heróis de merda?
Por que não fantasiar sobre sexo consensual? 

Mulheres gostam de sexo sem o estigma de ser "sacanagem". Há evidências limitadas para apoiar isso, estudos sugerem que fantasias sobre serem violadas eram mais prevalentes em mulheres que experimentavam níveis mais elevados de culpa em relação ao sexo. No entanto, a maioria dos estudos sobre fantasias de violação não apóia essa teoria. Significativamente, pesquisas também falam que as mulheres “que eram mais altas em erotofilia [atitude positiva em relação ao sexo], abertura à fantasia, desejo por fantasias e auto-estima relataram maior excitação sexual a fantasias de estupro”. 

Longe de ser sintomática de culpa em torno do sexo, a fantasia da força é indicativa de alguém que gosta de sexo e é sexualmente condescendente.

Há até quem se ache 'uma feminista ruim', confunde com sentir-se desejável. O ponto comum em fantasias é que o homem é tão dominado pela luxúria que ele precisa ter aquela mulher, não importa o quê. Como Rhett Butler com Scarlett O'Hara em O vento levou.


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Uma vez uma amiga me disse que gostou tanto de um livro que eu detesto porque, enquanto eu só vejo o assédio mental, ela (minha amiga) via um cara que tinha tesão em uma única mulher. Ela achava isso muito sexy.


E chegamos a eles, os Rasgadores de corpete
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Fantasias extremamente comuns, especialmente para leitoras de romances de época. Ele, esse herói - ou agressor - é sempre bonito e de físico atlético, isto é confirmado pela pesquisa de fantasias sexuais. idéia central aqui é que a fantasia de violação retrata a mulher como tão atraente, sedutora e irresistível que, em sua presença, os homens não possam se controlar. Curiosamente, a estudiosa entrevistada sugere que isso pode ser o resultado de narrativas "românticas" internalizadas que erotizam a submissão feminina e dominação masculina.


Há quem diga que Mr Darcy é o precursor dos Rasgadores de corpete, ele - o alto, moreno e bonito - que fica enfeitiçado pelos olhos de Lizzy Bennet que o detesta e mesmo assim insiste em conquistá-la. Já discuti isso em um curso sobre Austen, como ela inventou esse gênero sem querer. Deu mó qui-qui-qui.


Nestes romances, o desejo do macho pela heroína desencadeia sua motivação sexual e sua a agressividade masculina desinibe o uso de força limitada
A recusa da heroína fornece tensão dramática, criando um contexto para ele mostrar seu poder e seu desejo.

Sarah, de 46 anos, diz: "Eu realmente nunca li romances desse tipo, mas lembro-me de ser fascinada por mulheres desmaiadas e homens fortes desde sempre. É estranho porque eu absolutamente não sou o tipo que desmaia."
Mas erotizar o homem hiper-masculino não explica o fato de participantes desse estudo fantasiarem ser violadas por uma mulher, apesar da maioria se identificar como heterossexuais. 
Rosie, 24 anos, fantasia que é arrebatada por uma mulher bonita que a amarra em uma cama. “Estou mais confusa pelo fato de que é sempre uma mulher, para ser honesta. Sou hétero e todos as minhas outras fantasias são sobre homens. Mas esta sempre foi uma mulher e é uma das minhas favoritas. Eu costumava me sentir bastante assustada com isso, mas decidi que não estou machucando ninguém e apenas aproveito!


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Também é completamente normal que as mulheres que foram vítimas de violência sexual na vida real continuem tendo ou desenvolvam fantasias de arrebatamento. Boa parte das participantes desse estudo tem uma história de agressão sexual. Mas isso é algo que muitas mulheres lutam.

Olha que curioso, é uma novidade isso para mim. Então será por isso que os romances cheios de agressores de quinta fazem tanto sucesso? Espelho da realidade? As pessoas querem passar a vida a limpo na pele de um cafa rico e gostosão que se pode controlar fechando o livro ou desligando a TV?
E me pergunto se isso não acaba dando força para os machos de quinta que sacaneiam as mulheres na vida real. Será que SEMPRE SE CONSEGUE SEPARAR A FANTASIA DA REALIDADE? Será que se consegue identificar quando um cafa está te triturando ou se acha vivendo um romantismo de merda?

Gemma, 28 anos, foi estuprada quando estava na universidade. Ela nunca relatou o crime, e anos depois de repente desenvolveu insônia. "Demorei muito tempo para me abrir sobre o estupro em minhas fantasias sexuais. Eu me senti tão culpada por isso. Eu chorei quando eu disse ao meu analista sobre isso porque eu pensei que significava que eu era algum tipo de aberração. Como eu poderia ter sido estuprada se fantasio que isso aconteça, sabe? Mas meu conselheiro explicou que é precisamente por isso algumas pessoas têm essas fantasias - assumir o controle de algo que era horrível e reimaginar em seus próprios termos. Isso realmente me ajudou. Isso fazia sentido."


Na fantasia, a mulher desempenha o papel submisso, 
mas sua fantasia é também sobre como controlar seu parceiro. 
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Toda mulher enfatiza que, na fantasia, ela é a poderosa que reduziu a outra pessoa a um estado onde ele (ela) não podia controlar a si mesmo. 
Isso atua na teoria da desejabilidade sexual, mas também é paradoxalmente aquele no controle.

Sim! Isso eu entendo e já escrevi várias vezes.
Em minha inspiração de Orgulho & Preconceito, The Prince of Pemberley, Darcy e Lizzy são amigos de adolescência que perdem o contato com o passar dos anos. Quando se reencontram, ele se surpreende com ela - como é autêntica e bonita e forte e fica... LOKO! 

É isso, ela está no controle das camas muito, muito quentes que eles dividem pelos três livros da trilogia.

"Teoria da abertura": Em vez de ser impulsionada pela sexualidade reprimida, esta teoria afirma que as fantasias de estupro/violação/arrebatamento podem derivar de uma a atitude geralmente aberta, aceita e sem culpa da mulher em relação ao sexo. Fantasias como resultado de trauma psicológico, repressão ou misoginia internalizada deveriam ser vistas como o resultado de uma abertura ao sexo e à fantasia em geral.

Certamente, todas as mulheres com quem a autora do artigo original, Dr Kate Lister, falou gostam de suas fantasias e acreditam que completam suas vidas sexuais. Para todos aqueles que leram o dela e o meu, Moira, comentado; que têm tais fantasias e sentem vergonha, eu espero que possam começar a se entender melhor e se dêem permissão para se curtir. 


Fantasia não é realidade e 
você não fez nada errado de qualquer forma.
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Na série CUPIDOS EM DEVON alguns tipos de fantasias sexuais serão mencionadas, alguns de forma mais contundente, outros mais discretos. Talvez até confusões, situações mal-interpretadas.

Algumas coisas são difíceis de mencionar, tento fazer com tato e bom gosto, reescrevo, apago, consulto minhas universitárias.
Já falei de agressões muito delicadamente na Princesa Possível 3, Te encontro lá, a pequena sereia moderna. 


Mas sempre, sempre, conto um final feliz.
Uma redenção feminina, encontro da força interna para dar a vota por cima, se reconstruir. 
É assim é que é, né?


E as fantasias, vamos nos esbaldar nelas!

Até mais,
bj



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