sexta-feira, 23 de junho de 2017

Te encontro lá - A pequena sereia moderna - Capítulo 1

hey, esquece o frio e escolhe um biquini - ou uma sunga...
As 'Princesas Possíveis' estão a todo vapor -mesmo! Embarcando em um transatlântico daqueles brancos bem grandes para navegar pela paradisíaca Costa Amalfitana na Itália.
As amigas dessa vez ficam de camarote urubuzando a vida de Ariela, a mais velha e mais sensata, prima de Cibele ( primeira Princesa Possível, 'A bela e a fera' em BIBLILOVE). Mesmo sabendo estar entrando em um vespeiro, ela embarca nessa viagem que vai lhe abrir novos horizontes.
O lance é que em alto mar qualquer um está sujeito aos caprichos do destino... Não se diz que depois da tempestade vem a calmaria?

A aventura começou assim:



Série PRINCESAS POSSÍVEIS
VOLUME 3
romance inspirado em 'A Pequena Sereia'

Consultórios médicos eram sempre intimidadores, ele pensou fechando os botões da camisa. Sentado na maca com os pés pendurados, se sentia meio infantil - um menino levado esperando uma bronca. 

'Olha, me surpreendeu. Parabéns.' O médico disse olhando várias folhas nas suas mãos. 'Seus exames estão ótimos, se livrou da ameaça de diabetes... Está pronto para entrar nos quarenta.’

‘Foi mês passado.’

‘Parabéns duplo, ou seria triplo? Arrumou alguém para tomar conta de você?’

Sacudiu a cabeça. ‘Tenho a mesma faxineira há dez anos.’

‘Maneira pouco lisonjeira de falar de uma companheira.’

Um risinho. ‘Mulheres dão muito trabalho, prefiro minha liberdade.’ Ele prendeu um sorriso constrangido, levantou da maca e arrumou a camisa dentro da calça. ‘Finalmente tenho alta da dieta, certo?’

A expressão do médico foi de otimista a lúgubre. ‘Dieta é para sempre, ainda mais depois dos quarenta. Passou um aperto grande, seu corpo quase deu perda total.’

Jonas fechou os olhos por um momento com a lembrança do peito apertado, da dor em lança, da visão turva, do medo de não ir embora de vez.

O médico voltou para sua mesa e se distraiu fazendo anotações. ‘Vou te indicar uma vitamina, ajuda na fadiga e raciocínio. Como vai o trabalho?’

‘Estressante como sempre.’

‘Só posso me opor a isso anotando na sua ficha. Neste check up funcional, a empresa tem que ser notificada do que acontece com seus executivos. Tem como controlar o stress?’

‘Estou saindo de férias semana que vem. Ganhei um cruzeiro como prêmio de produtividade.’

‘Fiz um cruzeiro até o Nordeste com meus filhos no Réveillon, eles adoraram. Aproveita para se exercitar e descansar. Quem sabe sua companhia será alguém que goste da academia a bordo?’ O médico sugeriu.

‘Da escotilha da academia eu procuro por uma sereia na costa da Itália.’ Jonas disse sarcasticamente.

Riram os dois homens.

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‘Como não consegui entender ainda, não posso ajudar nossas quatro amigas aqui no grupo perguntando a mesma coisa desesperadamente.’ Apontou para o celular piscando a cada nova mensagem. ‘Pode repetir?’

‘Posso.’ Ariela disse e Cibele levantou as sobrancelhas olhando por cima da xícara de café. ‘Vou viajar com meu ex.’ A prima ainda olhava incredulamente. ‘É isso.’

‘Estou esperando me explicar porque aceitou esse harakiri.’

Ariela deu de ombros. ‘Pena. Acho.’

A prima abaixou a xícara e pensou por alguns minutos. ‘Se é para sentir pena do ex, que seja na Costa Amalfitana.’

‘Foi o que pensei.’

‘Viajar é sempre bom, Ari, mas Mel e Rafí têm razão. Isso é uma pena grande demais para se carregar.’

‘Deus não dá cruzes maiores do que podemos suportar.’

‘Poético e Bíblico, mas sabemos que não é verdade.’ Cibele inclinou a cabeça. ‘Pedro, por exemplo, sofreu calado por muito tempo.’

‘Até que você apareceu linda e loura para salvá-lo.’

‘Sem deboche... Átila então, nem se fala. Como aquele homem penou até achar um rumo na vida.’

‘Só está me falando de histórias com finais felizes, Bele. Estou ficando inspirada.’

A prima suspirou. ‘Vai ficar presa por doze dias.’

‘O que são doze dias em quinze anos?’

‘Ai, Ari... Que coisa!’ Cibele apertou os olhos. ‘Nem todos os anos foram ruins...’

‘Não, claro que não. Mas esse último ano mais ou menos solteira foi bom, me ajudou a perceber que não tem volta.’

‘No entanto...’

Ariela suspirou, os olhos passeando pelas vitrines iluminadas do café onde estavam. Poderia pedir uma torta de açaí ou integral de banana, mas estava bem na dieta, se sentia mais disposta e bonita. ‘No entanto ainda falo com ele, fui às bodas de ouro do chefe dele, fico com as meninas dele e aceitei esse cruzeiro com ele.’

‘Cruzeiro romântico. Sei não, Ari, mas acho que dessa vez você vai se enrolar.’ Cibele sacudiu a cabeça devagar. ‘Meter a mão em vespeiro.’

‘É a terceira viagem que ele arruma nesse ano, neguei todas as outras. Ele sabe que tenho férias vencidas e que o meu projeto acabou-’ Ariela parou no meio da frase e seus olhos brilharam. ‘Contei que foi um sucesso? Mandei bem, vou subir um nível na cotação interna da empresa!’

‘Parabéns, prima!’ Sorriram as duas mulheres. ‘Itália poderia ser uma ótima comemoração...’

‘Foi o que ele disse...’

‘Mas a companhia...’ Suspiraram as duas. ‘Te ajudo. Vamos começar fazendo um glossário de Italiano.’ A prima pegou o celular e carregou o aplicativo de tradução. ‘Porca miseria, va al diavolo!’ Disse sorrindo e sacudindo a mão com os dedos unidos no alto. ‘Tem mais: Del senno di poi son piene le fosse.’

‘SAP, por favor.’

‘De boas intenções o inferno está cheio.’

‘Verdade.’

‘Outro, ouve só: Gallina vecchia fa buon brodo.’

‘Brodo é uma sopa, vecchia é velha então acho que saquei o deboche.’

‘Panela velha é que faz comida boa! Eu sei!’ Cibele cantou e Ariela beliscou seu braço. Depois do riso, ela levantou um dedo. ‘Essa aqui, meu bem: In bocca al lupo. Eu te digo ‘na boca do lobo’ desejando sorte, você responde ‘que morra’: Crepi.’

‘Crepi!’

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Disposto a cumprir ordens médicas, Jonas visitou a academia bem cedo na sua primeira manhã a bordo da jamanta branca flutuante, antes mesmo de visitar o buffet de café da manhã que deveria ser tão farto quanto o do jantar. Mais de quarenta minutos fechado no ar condicionado suando na esteira vendo o oceano pelas janelas, ele pegou uma garrafa de água e se debruçou no guarda-corpo da sacada.

Aos poucos sua respiração voltou ao normal embalada pela brisa do mar aberto e as braçadas vigorosas de uma mulher na piscina do deck principal. Ela seguia um ritmo perfeito: seis, sete, oito braçadas, mergulhava, virava, nadava submersa e voltava às braçadas. Ele perdeu a conta de quantas voltas a viu dar sem parar e sem perder o ritmo.

Foi sua garrafa de água vazia que o chamou atenção para o tanto de tempo perdido na admiração do mar aberto e da sereia de piscina, notou um chapéu de palha e uma bolsa colorida em uma das espreguiçadeiras no deck vazio, um outro barco muito ao longe, pessoas chegando na academia até então vazia e resolveu voltar à sua cabine para um banho e o café da manhã.

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Ela sempre gostou de um cigarrinho após o jantar. Não fumava muito, até escolhia uma marca difícil de achar para garantir que cigarros seriam somente para momentos especiais como aquele. 

O deck lateral praticamente vazio iluminado somente pelas guirlandas altas balançando ao sabor do vento de alto mar, escuridão total no horizonte, música baixa vindo de algum lugar ao longe: um cenário perfeito para um cigarrinho e a última taça de espumante. Gostaria de ter trazido um casaquinho, mas não iria voltar à cabine naquela hora... O ventinho a incomodava, mas não o suficiente para estragar seu refúgio.

Um vulto lhe chamou atenção, era uma cabeça saindo de uma porta lateral. Chegou a pular na espreguiçadeira, mas quando notou ser outro lobo solitário como ela; se reacomodou, provou da sua flute e tragou fundo.

O outro fumante se debruçou na mureta, o cabelo curto sendo bagunçado pelo vento do passo rápido do navio e Ariela voltou a se concentrar na sua reflexão.

Ao tentar acender um segundo cigarro, ciente do pecado dobrado que cometia, Jonas deixou cair o isqueiro no mar. Um xingamento lhe escapou, queria mesmo fumar mais um. 

Desconsolado, decidiu pedir ajuda. ‘Buonasera...’ Ele tentou, ela sorriu de volta. ‘Do you speak English? My Italian is awful.’

‘Mine too. English is fine.’

Ele inclinou a cabeça tentando identificar o leve sotaque nas poucas palavras que ela disse. ‘How about Portuguese?’

‘Melhor.’

‘Boa noite, tem isqueiro?’ Prendeu os lábios em um sorriso constrangido. ‘Acabei de derrubar o meu.’

‘Claro.’ Ariela se remexeu na cadeira para achar a carteira de cigarros. 

Ele acendeu, tragou fundo e aliviado devolveu o isqueiro. ‘Muito obrigado.’

‘O pecado vale a pena, né?’

‘Nossa, e como... Meu médico teria muito a dizer se soubesse que este é meu segundo.’

‘Que rebeldia.’

‘Demais!’ Ele riu baixinho. ‘Ordens médicas também te proíbem um cigarrinho?’

‘Pior... Consciência.’

Ele grunhiu. ‘Por isso está sozinha aqui no escuro?’

Ela achou graça da ironia. ‘É calmo aqui.’

‘Incomodo? Desculpe.’

‘Huh-huh.’ Sacudiu a cabeça bebendo.

‘Está sozinha aqui ou no cruzeiro?’

Que pergunta difícil de ser respondida... Pensou em como fazê-lo, especialmente a um estranho que levantava as sobrancelhas tragando. ‘Vim com meu ex-marido.’ 

‘Ah...’ O deck lateral na penumbra lhe pareceu adequado. ‘Uma reconciliação?’

Deu de ombros. ‘Faz quase um ano que ele tenta.’

‘Uau.’ Balançou a cabeça. ‘Coitado.’ Ela achou graça da entonação. ‘Pelo jeito ele não tem a mínima chance.’

‘No.’

‘E por que insiste?’

‘Só ele pode responder isso.’ Ela deu de ombros. ‘Você?’

‘Aqui?’

Ela balançou a cabeça. Não estava exatamente interessada, mas eram companheiros de baforadas. 

‘Sozinho nas férias e na vida.’

‘Por força do destino?’

‘Escolha.’

‘Mmm... Sabe que existem cruzeiros específicos para solteiros?’

‘Não escolhi esse.’ Ele sorriu para a mulher atraente. ‘Ganhei da empresa, prêmio de produtividade.’

‘Ah!... A maneira que o sistema tem para se desculpar por sugar nossas vidas.’

‘Isso!’ Riu. ‘Jonas.’

‘Ari.’

‘Tenho um amigo Ari.’ Ele disse desconfiado.

‘Ane Ariela.’ Disse simplificando seu nome. ‘Meu bisavô era Aristides.’ Ela fez uma cara engraçada. ‘Podia ser pior!’ Ele riu concordando e como não mencionou a pequena sereia, ela imaginou que não tinha filhos.’

‘Manda trocar o nome na sua cabine para Ari. Todos vão pensar que é um homem e seu ex não vai te achar. Com certeza tem outros Aris aqui.’

‘Boa estratégia, pena que não funcionaria. Ele reservou uma cabine só. Exigi duas e ele garantiu que estava tudo certo...’

‘Estava contando que aceitaria, imagino.’

Ela balançou a cabeça sem nem ao menos cogitar explicar que apesar dos esforços da equipe em lhe achar uma cabine vaga, tinha cedido à chantagem emocional do ex. Uma noite foi suficiente para que ela percebesse que as outras nove seriam uma tortura física e emocional.

‘Merece mais um cigarro.’ Ele decretou. ‘Me acompanha? Nicotina solidária?’

‘O prazer é meu.’

O cigarro terminado, ele se levantou. ‘Vou dormir. Fica bem sozinha?’

‘Muito.’

Jonas apertou os lábios e teve pena da mulher... E do cara a esperando na cama. ‘Boa noite.’

‘Boa.’ Ela apertou um sorriso desinteressado.

Ele já estava perto da porta de onde havia saído quando ouviu a outra abrir e parou por um momento. Depois de ler reclamações em sites, estava um pouco ressabiado em sua primeira experiência de turismo em alto mar. Forçou a atenção tentando ser discreto e reconheceu que a voz de um homem rouco falava Português, pareciam ser íntimos pelo tom usado no convite para uma sessão de cinema.

‘Vou ficar mais um pouco.’ Ela disse sem muito entusiasmo. ‘Pode ir, te encontro lá.’

~ continua ~

 começamos bem?...