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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O Clube de Florence - romance de época (pré) Vitoriana - livro 2 da série Cupidos em Devon

 Olá!

O Clube de Florence está voltando!


A excitante história da busca pelo final feliz da moça renegada pela sociedade por ter entregue sua inocência fora do casamento ganha novas cenas, nova capa e ilustrações! E até, uma lista de músicas para inspirar a jornada de Florence.

Até aqui, Florence teve uma vida difícil.

Depois de mais de uma década presa em sua própria redoma remoendo cicatrizes na alma e no corpo, em companhia de seu irmão Oscar 'Cary' Devon, Florence foi surpreendida pela reviravolta de ser abandonada na amargura. 

Cary preferiu abraçar a vida nova assumindo o amor fulminante que sentia por Pauline Hopkin. Nesta nova vida de recém-casado, Cary não tinha mais espaço para a irmã.

Decidida a ocupar o lugar que Pauline deixou na família Hopkin, Florence se mudou para o aconchego de mãe e irmãos postiços. 

Essa escolha corajosa iniciou uma reação em cadeia que a atingiu em cheio, como maré em dia de tormenta.

Agora ela precisa lidar com inesperados e excitantes desafios, especialmente o proposto pelo melhor leiloeiro de toda Londres, o intrigante e misterioso Richard Richardson.

Summer (1890), Thomas Wilmer

Leia o trecho emocionante que ofertei na Bienal do livro de São Paulo de setembro de 2026.


Aquela dama de sociedade que tinha acabado de virar família do seu patrão era refinada, tinha estudo, cultura clássica e atitude - para a infelicidade de Richard Richardson. 

A mulher bonita de pele tão intocada pelo sol nunca deve ter se ocupado de uma trouxa de roupa na vida, mal deve saber que existe um utensílio chamado vassoura e, com certeza, jamais enfrentou uma tina de água gelada no inverno. Mas ela passou míseros dois dias da viagem estudando os livros de Srtª Pauline – agora sua cunhada, Sra. Devon – e conversando com seu novo concunhado Sr. Hopkin, e todo esse exíguo conhecimento parecia-lhe suficiente para ditar ordens a ele que tinha anos de experiência em leilões.

Que audácia!

Era em momentos assim que Richard Richardson sentia mais forte doer sua inferioridade, prendia os dentes a ponto de marcar sua mandíbula na pele das bochechas, apertava os olhos azuis, as grandes orelhas ficavam vermelhas, mas ele não respondia. Ainda mais para uma dama como aquela, tão bela e arrogante. 

Os leilões eram apinhados delas, várias e elegantes, gordas, magras, altas, baixas, bem-vestidas, exageradas, tristes, felizes; mas como aquela, raramente via. 

Srtª Devon parecia que havia acabado de sair de uma redoma de vidro. Era beleza etérea de rosto oval, olhos cor de mel com brilho mordaz, cabelos castanhos perfeitamente penteados, lábios cheios e sempre apertados – a não ser quando proferiam as mais vis críticas sobre o funcionamento do leilão.

O embate entre ele e a linda dama foi tão tenso que o jovem Sr. Hopkin encurtou a reunião dizendo que, como haviam acabado de chegar da estrada, iriam para casa se refrescar.

— Estaremos na mansão Devon, Richardson. Amanhã pela manhã, mais descansados, vamos trabalhar para organizar todos os detalhes a tempo. 

— Pois não. — Richardson respondeu polidamente. Por dentro, silenciosamente, ensaiou dizer: Mulheres bonitas sempre acham que podem mandar, mas aprenda que, na verdade, seu papel é enfeitar o evento, senhorita. 

Era uma harpia elegante, esbelta e absolutamente nenhuma palavra gentil para Richardson. Para ser sincero, ela não lhe faltou com a cortesia, apenas lhe era indiferente e agia com superioridade.

E para ele, isso era difícil de aturar.


No dia seguinte, com a paciência descansada, ao entrar no salão dos leilões pela porta dos fundos, Richardson parou no meio do depósito ouvindo a linda melodia que enchia seus ouvidos até esquentar o peito, subiu devagar seguindo o canto de uma sereia.

No átrio do salão, encontrou o jovem patrão virando páginas de partitura para a megera tocar com tamanha maestria que Richardson ficou estupefato.

As delicadas mãos de dedos finos corriam pelas teclas do antigo órgão igual a gotas de chuva em folhas novas. Era natural, simples e, no entanto, se assemelhava a um milagre.

Ele não tinha cultura musical suficiente para apontar erros, mas só notava uma nota desafinada porque era frequente, sempre que a mão esquerda de dedos ligeiros chegava perto do limite direito do instrumento.

Richardson ficou parado na beirada do hall assistindo por tanto tempo quanto lhe foi permitido, duas ou três músicas. Teria ficado por horas se ela não tivesse parado e o patrão, acusado sua presença.

— Richardson, bom dia! 

— Bom dia, Hopkin. — Ele fez uma reverência. — Srtª Devon. 

Florence meneou a cabeça, coluna ereta e permaneceu muda.

— O que achou do instrumento, Flo? Tem potencial? — Kin voltou-se para Florence sentada no banquinho.

Ela balançou a cabeça de lado a outro devagar. — Sim... Já existem pianos bem mais modernos com dois pedais e seis oitavas, este órgão precisa de afinação... Talvez trocar algumas cordas. Foi negligenciado aqui neste canto, imagino. 

— Srtª Pauline decidiu manter como adorno. — Richardson respondeu. Estaria a megera insinuando que ele não cuidava da casa? 

— Ninguém toca este monstro, recebemos como parte de um lote, mas o avaliador disse que renderia pouco. Deve ser por isso, é antigo demais. Certo, Richardson? 

O leiloeiro concordou, dentes presos em irritação. — Na temporada passada, com o conjunto de cravos Kirckman e Shudi. — Ficou satisfeito em notar que a megera se surpreendeu ao ouvi-lo falar dos renomados fabricantes de instrumentos musicais.

— E não venderam junto? — Ela perguntou.

— Depreciaria os outros itens. — Richardson explicou, ela levantou as sobrancelhas. — Não concorda? 

— Não vi os cravos. — Deu de ombros. — Tenho dom para a harpa, piano só aprendi o que era de praxe. Toquei aqui por curiosidade.

Ele pensou na linda megera com uma harpa entre as pernas, tocando o enorme instrumento ainda melhor do que tocou aquele instrumento velho e sua libido respondeu antes de sua mente reagir horrorizada. 

— Acho que vale a pena mandar para reforma, trazer minha harpa, talvez um flautista?... 

— Ah, ótima ideia, Flo! — Kin se recostou no órgão e cruzou os braços no peito. — Seria ótimo entretenimento para o leilão principal da nossa temporada. Richardson? 

— Concordo.

— Nossos lotes, como estão? 

— De boa qualidade, farão volume de vendas. Ainda hoje receberei um cavalheiro que diz ter uma preciosidade para nos oferecer. 

— Ah! — Kin inclinou a cabeça. — Sabemos o que é? 

— Quadro, um... — Richardson checou o bolso do colete, puxou uma caderneta, folheou. — Falero.

Florence se contorceu no banquinho do piano. — Lesley! — Kin olhou para ela com ira, ela abriu mais os olhos. — Posso falar com você em particular?

Prevendo que a megera ia ocupar a atenção de seu patrão como no dia anterior, Richardson achou melhor interferir; negócios eram mais importantes que ataques de coquetice de damas solteiras. — Hopkin, temos assuntos a tratar. — Ele fechou o rosto também. — Aquele assunto que falamos antes de sua viagem precipitada... 

Kin, ainda contrariado por ter sido chamado por seu apelido de infância na frente do austero empregado, rosnou. — Me lembre o que é.

— Um assunto particular.

— Lesley, agora! — Florence insistiu achando que o leiloeiro disputava com ela a  atenção do sobrinho postiço.

Richardson checou o relógio barato preso por uma correntinha na cintura da sua calça. — Logo o cavalheiro do quadro estará aqui, seria bom falarmos antes que ele chegasse, Hopkin. 

— Lesley! 

— Diabo te carregue, Flo! — Kin levantou a voz, ela estremeceu ofendida. — Não me chame de Lesley! Quantas vezes tenho que pedir? — Bateu o pé no chão como um menino de oito anos. — Apelido infernal que me persegue, implorei que Lynn não usasse na frente dos outros, agora, todos me chamam assim! — Resmungou. — Fale logo o que é!

Muito contrariada, ela desviou os olhos para o leiloeiro.

— Ande, diga! Richardson sabe de tudo sobre o negócio, Lynn não te contou? 

Ela contorceu os lábios, mediu palavras, arriscou olhar para o leiloeiro. — Falero é um artista obsceno.

— Como? — Kin fez uma careta.

Ela corou até a raiz dos cabelos. — Ele só retrata mulheres desnudas, bruxas, ninfas, messalinas.

— Como sabe?

— Eu conheço arte. — Florence abaixou a voz. —Esse está despontando na Espanha, ao que parece faz muito sucesso. 

— Mas é de baixa qualidade o que ele produz? Vulgar? Vai depreciar nossa casa? 

— Não!... — Ela piscou várias vezes. — Já vi um esboço que ele fez de uma... Errr... Dama. É belíssima a arte, talento nato. 

— Então quero ver, Richardson. 

— Les... — Florence tentou, mas o olhar de ira do sobrinho a fez engolir o apelido no meio. — Kin?... Sr. Hopkin? 

Ele revirou os olhos, Richardson tossiu para esconder o riso. — Kin está bom, Flo. 

Ela corou ainda mais, sentada olhava para cima, pois os homens continuavam de pé, e como estavam afastados ela virava o rosto de um para o outro sentindo-se profundamente desconfortável. — Não são dignos de ser expostos perante damas... 

— Nem todas as damas são recatadas como você. — O jovem rapaz abriu um meio sorriso caridoso. — Foi a dama que serviu de inspiração quem te mostrou a arte?  

— Não sei em quais condições foi composta a obra, mas, na verdade, recebi de presente. — Florence entrelaçou os dedos, mãos presas no colo.

— Quer vender? — Kin perguntou, Florence sacudiu a cabeça. 

Richardson podia jurar que viu fogo relampejar naqueles olhos cor de mel, ela parecia impaciente.

— O que quero dizer, e você falha em compreender, é que esse pode ser um tipo de quadro que se tem no boudoir, Kin, mas que só se mostra para os mais íntimos. Ninguém de bom tom vai comprar na frente dos outros. 

— Ah!... — O jovem coçou o queixo. — Agora entendi.

Richardson balançou a cabeça. — Senhor, isso leva ao outro assunto. 

Kin franziu a testa ainda coçando o rosto. — Sabe que mal me lembro? Tanta coisa aconteceu desde que saí daqui... Lynn aceitou proposta de casamento de Cary, contraiu núpcias, eu desencavei segredos de família, Flo veio nos ajudar; agora, me preparo para começar os estudos... — Ele sacudiu a cabeça. — Por favor, me refresque a memória. 

— Na frente da dama?

— Sim.

Richardson prendeu os dentes por um momento. — Antes não queria que Srtª Pauline estivesse a par desses trâmites...

— Flo é diferente de Lynn. — Kin trocou olhares com ela. — É minha parceira, pode falar. 

— Hopkin?... 

— Fale, homem! 

— Pois bem. O corsário trará o Falero com o carregamento de whiskey que encomendamos.

Kin bateu as mãos uma vez, olhos arregalados. — Me esqueci completamente, homem! Já é hora do recebimento?

— Provavelmente, faz tempo que ele não aparece aqui e, agora, pediu para marcar essa reunião.

— E os vinhos Franceses?

— Semana que vem.

— Bom. — Kin balançou a cabeça devagar. — A tempo de leiloarmos tudo antes do início da temporada. 

— Precisamente. Já tenho quase tudo pronto para deixar a notícia correr nos clubes de cavalheiros.

— Esperem! — Florence mostrou a palma. — É um leilão clandestino? — Os dois homens assumiram expressões vagas nos rostos. — Whiskey é proibido no país. — Ela apertou os olhos. — E esses vinhos, o que têm de especial? 

— Veja bem, Flo...

— Kin, não tente me enrolar. — Florence levantou o longo dedo indicador em riste. — Conto tudo para Lynn e para Cary. Já viu meu irmão contrariado? — O rapaz uniu as sobrancelhas como uma criança. — Então, sabe que é algo a se evitar. 

— Todos consomem whiskey, só não compram livremente. Temos família em Scot, eles aprimoraram uma pequena destilaria até chegar a um produto excelente, pergunte a Cary! — Kin gesticulava com veemência. — Dei a ele uma garrafa de presente de casamento.

— Eu mesmo enviei quando Hopkin me escreveu, senhorita, do nosso estoque reservado para clientes especiais.

— Ele adorou. Cary entende das coisas. 

— E ele sabe que está agindo fora da lei? 

Kin abaixou os ombros. — Não é assim tão ruim... 

— É, sim.

— Contei a ele que tenho umas garrafas enviadas pelos parentes. 

— Mas tem muitas.

— Teremos. — Richardson interveio.

— Por que o corsário?

— Mais seguro vir por mar que por terra.

Ela balançou a cabeça. — E o que ele tem a ver com a pintura obscena? 

O leiloeiro deu de ombros. —Provavelmente ganhou do artista ou da modelo. — Ele disse por perversidade, sabia que a megera ia corar. E ela corou como um morango maduro.

— O importante, Flo, é que esse leilão será especial, só para cavalheiros. — Kin explicou muito empolgado. — Mais tarde à noite, itens especiais, boa comida e bebida, mesa de jogos com um crupier que trabalhou no Fishmonger, será evento de alta classe e dinheiro solto.

— E oferecerá moças? — Florence piscou.

Neste momento, por um lampejo, Richardson julgou ver nos olhos amendoados da megera algo bem mais profundo que uma dama fútil, rica e solteirona, porém, não conseguiu identificar o que – foi rápido demais.

— Claro que não! — Kin respondeu horrorizado. — E pouca bebida será servida, quero vender meus produtos. Bêbados compram e não pagam, quero ter lucro alto.

Florence piscou seguidamente e sacudiu a cabeça. — Desgosto disso. 

— Farei bom dinheiro. — Kin sorriu. — Faremos. — Esticou o braço sobre o ombro do leiloeiro. — Richardson é meu sócio minoritário, o Conde de Brakenbury em maior volume.

Ela juntou as mãos no peito, rosto pálido. — Quando Lynn souber disso!... 

— Não conte!

— Lesley!

— Diabos! — Ele reclamou.

— Isso é coisa de criança, está brincando com fogo, merece ser chamado de Lesley.

— Engana-se, senhorita. — Richardson se intrometeu na discussão que considerava ridícula. — São negócios de cavalheiros sérios, homens de luta, de palavra. Sob a lei, sim, em parte. Mas não há nada de infantilidade aqui.

Florence prendeu os olhos nos dele, o leiloeiro manteve-se firme. — Vejo que estão decididos e minha opinião é irrelevante. — Ela disse secamente. — Entendo que sequer pediram-na, ofereci livremente por impertinência.

— Flo... — Kin suspirou. — São negócios.

— Pois bem. Prometi a Pauline que ajudaria e o farei no que posso. Conheço arte, posso avaliar e separar os lotes para alcançarem maiores lucros. E será só esta minha participação no evento principal.

— Desiste de tocar para encantar os clientes? — Richardson disse antes de perceber que se traía. — Nunca ouvi nada tão belo. 

Florence corou mais uma vez, tão forte que uma gota de suor apareceu em sua testa. — Eu jamais seria capaz de me apresentar em público.

— Devia. — Ele insistiu.

Ela sacudiu a cabeça, levantou-se do banquinho ereta e ofendida. — Se era minha opinião sobre o instrumento que precisava, Kin, já tem. Voltarei para casa. — Alcançou seu bonnet, luvas e bolsinha na mesa lateral.

— Espere, Flo. — O jovem parecia triste. — Combinamos de visitar o depósito e começar a ver as peças.

— Podemos fazer isso em outro dia que não tenha reuniões tão importantes como as de hoje. — Ela fez uma mesura curta. — Bom dia, senhores.

Richardson entendeu que a indireta foi para ele.

Florence tinha consciência de que não era amiga de Richardson, eram só pessoas capazes de ter convivência tranquila. Com o passar dos meses, passou a ir à casa de leilões sempre. Naquele dia, Florence passou a tarde toda no escritório e só foi para casa na hora do chá. 

Ao ser servida, ela notou a pequena colher de cabo trabalhado em ourivesaria que a criada lhe trouxe. Pensou no jogo de garfos que deixou de lado no depósito da casa de leilões por não saber como catalogar. Se era um faqueiro, por que todos os talheres não estavam juntos?

Sem perder tempo, ela chamou o cocheiro e voltou à casa de leilões para revirar tudo até encontrar todas as peças e organizar em uma caixa. Tão determinada, passou a mão no xale e sequer considerou chamar sua criada, pois sabia que seria uma visita rápida. Como um jogo de peças pesadas poderia ser ocultado? Claro que encontraria os talheres perdidos rapidamente!

Apesar da temperatura amena, ela se enrolou no xale cobrindo ombros e cabeça e apeou da carruagem assim que o lacaio abriu a porta da cabine. Já escurecia, mas a pouca luz da tarde lhe permitiu entrar pelo hall principal, trancar a porta e descer as escadas até o depósito. Pensava em ir direto à mesa central acender o castiçal grande com a tinder box que ficava na gaveta quando ouviu barulho, alto.

Florence gelou.

Encostou-se na parede da escada, pensou no que fazer. Deveria voltar correndo para seu cocheiro que a esperava? Por que não pediu que sua criada a acompanhasse? Tantas vezes ela se ofereceu para ajudar...

Era barulho de homens alegres, Florence distinguiu. Muitos. Conversavam animados, xingavam. Provocavam alguém.

Curiosa e apavorada, ela desceu os últimos degraus devagar, apertou o xale em volta do rosto, se esgueirou para trás das estantes do fundo e boquiaberta perdeu a respiração ao ver Richardson levar um soco no peito.

Gritaria se sua voz não tivesse morrido na garganta. Paralisada de medo, ela assistiu o leiloeiro bater no homem de volta, os outros homens formando um círculo em torno deles, todos com o torso desnudo, descalços, suados. As mãos em punho, rosto contorcido em concentração irada, ele atingiu o outro homem com um soco no ombro, os outros em volta aplaudiram e gritaram ordens, incentivos! 

Deveria subir as escadas correndo, pedir ajuda, salvar a vida de Richardson e o negócio de Kin. Mas ela ficou onde estava, mal respirava. Isso também se devia ao fedor de homens suados que ao mesmo tempo era odioso e excitante.

Aos poucos, de olhos arregalados, Florence notou que não era um ataque ou roubo, era luta por esporte! O leiloeiro batia e apanhava na mesma medida, grunhia e gritava, xingava palavras que ela jamais pensou existirem. Sua respiração era alterada, barulhenta, como um animal selvagem lutando pela vida.

Ele era a imagem da... virilidade. Ela, que poucos momentos antes não conseguia respirar, viu-se ofegante, seu corpo aquecido, segurava a estante com força: torcia por Richardson!  

Lutaram em socos e tapas somente onde não havia roupas, ela notou que a nudez servia para determinar onde era permitido atingir, até que o adversário levantou o braço e apontou para o alto. Richardson riu, bateu palmas e a luta simplesmente acabou. 

Os outros homens aplaudiram junto, houve uma breve discussão e outra dupla assumiu o centro da roda para uma nova luta, recomeçando o divertimento. Revezavam-se na atividade com prazer estampado em seus rostos, torciam ora por um, ora por outro, encorajavam golpes mais fortes, mais violentos.

A atmosfera pesada com odor forte e denso ajudava a fazer Florence entrar em uma espécie de torpor, sabia que não deveria estar ali e não conseguia deixar de admirar o espetáculo de masculinidade crua.

Ela somente via aquele segredo por ter ido à casa de leilões inesperadamente, não deveria saber daquilo. Especialmente naquele dia que ele a havia ajudado tanto, sido tão atencioso, organizado os documentos para ela despachar rápido... ah! Ele queria esconder dela que haveria a reunião de homens selvagens!

Quinta-feira – seria toda semana?

Excitada com a possibilidade de que realmente tivesse descoberto uma parte tão eloquente da intimidade de Richardson, Florence o observou enquanto ele torcia pela briga ocorrendo bem em frente a ela. Como ele estava de costas, ela via os músculos flexionando quando ele gesticulava e batia palmas, seu rosto de perfil quando falava com outro homem, as horríveis marcas vermelhas já começando a arroxear nos ombros e costelas. 

Era um homem grande mesmo que menor que Devon, a pose elegante permanecia intacta apesar da falta de vestimentas e dos duros golpes que recebeu, as fortes mãos grandes ela via bem apesar da luz que tremia com os movimentos abruptos dos homens: manchas vermelhas nos punhos denunciavam as feridas criadas no... esporte? Brincadeira?

Como ela nunca notou suas mãos machucadas antes? 

Richardson nunca esteve com olhos roxos ou mancando, a regra de costume deveria ser atingir somente no torso que poderia ser facilmente escondido.

Dentro de Florence havia uma revolução começando: medo a manteve parada atrás da estante assistindo por quase uma hora sem arriscar respirar alto, também fascinação pela figura descabelada, suada e machucada do leiloeiro sisudo. Era absolutamente... Viril!

Robusto. Sensual.

E na confusão rondando sua mente, em todas as emoções circulando seu corpo, ela só lembrava de sua mamma postiça, Sra. Hopkin, e suas explicações. Sentia acontecer em suas partes exatamente o que ela descreveu.


Bem vinda ao Clube de Florence.

Gostou desse trechinho? Leia o livro todo!

Reserve o seu na pré-venda e garanta os brindes de lançamento.


PRÉ-VENDA LIVRO FÍSICO

Saiba detalhes & curiosidades da série CUPIDOS EM DEVON aqui.

E todas as pesquisas que guiaram a composição deste romance:

Mulheres desonradas

Grandes mulheres do século 19

Estudos da anatomia feminina na Era Vitoriana

Com que idade as moças casavam no século 19

Um Florence de verdade da Era Vitoriana

bj

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Preto, inspiração no século 19

 olá!

Hoje falo de uma cor que adoro, uso todos os dias, é um must:

O preto que representa poder, sexualidade, sofisticação, formalidade, riqueza, mistério, profundidade e, o melhor de tudo, estilo puro. 

PRETO

Rainha Victoria no Jubileu de Diamante - pic de Museum of New Zealand

Quando penso no século 19, sempre imagino logo que preto era cor somente para o luto - o que não era verdade! 

Olha esse vestido de corte em veludo preto leiloado pela Christie's:

gogsmite net
A descrição diz: vestido de corte, 1810-1820, veludo preto adornado com renda prata e dourada, cauda curta, decote reto, cintura alta (empire). Lindo de morrer!

O assunto 'luto' no século 19, especialmente na era Vitoriana, foi muito complexo especialmente porque ela, a rainha Victoria, carregou luto por seu amado Príncipe Albert de 1861 (quando ele faleceu aos 42 anos) até sua morte aos 81 anos em 1901. Então, ao invés dos 3 ou 4 anos de luto, ela manteve-se de preto por 40 anos.

Analisando as fotos dela com Albert, eu imagino que ela já usava preto antes do falecimento dele. 

Rainha Victoria e seus nove filhos (9!!!) circa 1860. pic de wttw

São fotos preto-e-branco dos primórdios da arte da fotografia, ela poderia estar usando vermelho, azul, verde. Mas comparando com as casacas do marido Príncipe Albert e do filho Albert Edward, parece que ela veste preto também.

HOMENS

Autoridades na arte do bem vestir, revistas e manuais, diziam que para os homens, preto era mesmo o certo. Routledge's Manual of Etiquette (for gentlemen) diz que 'Pela manhã, (cavalheiro) use sobrecasacas, coletes trespassados ​​e calças de cores escuras ou claras, de acordo com a estação. 

À noite, embora apenas no seio de sua própria família, vista apenas preto e seja tão escrupuloso ao colocar um paletó como se estivesse esperando visitas. Se você tem filhos, ensine-os para fazer o mesmo. É a observância dessas ninharias menores na etiqueta doméstica que marca o verdadeiro cavalheiro.

Para festas à noite, jantares e bailes, use paletó preto, calça preta, colete de seda ou tecido preto, cravat branca, luvas de pelica brancas ou cinza e botas finas de couro envernizado. Uma cravat preta pode ser usada em ocasiões de gala, mas não é tão elegante quanto uma branca. Um colete de veludo preto só deve ser usado em um jantar.'

pinterest

O LUTO

Vamos ao assunto que domina a cor.

Estudei bastante o luto vitoriano para escrever um dos romances da série CUPIDOS EM DEVON e menciono na série LORDS IMPERFEITOS, mas confesso que é tanto detalhe & ordem & regra que só tendo uma colinha para seguir sem errar.

lady in mourning, H Thorell 1896 - pic de gallerix org

Para os homens, tudo era simples. Antes da metade do século, usavam uma casaca de luto. Depois, já vestiam bastante preto e quando não usavam a cor, bastava uma banda preta no braço, no chapéu e luvas pretas - o que devia ser bom porque sujava menos. E, claro, tinham a benesse de não precisar se isolar do mundo, podiam seguir com seus afazeres, visitando clubes, teatros, negócios.

Crianças não precisavam usar luto, meninas às vezes usavam branco.

Para as mulheres, luto era uma dureza. Em notas gerais, mostrar luto era feito em fases - LUTO PROFUNDO a LUTO LEVE. 

Dependia da relação do (a) falecido (a) com a mulher. Fontes variam muito, manuais específicos tinham mais regras, mas não é errado seguir que para:

- marido, o luto era de 2 anos (todo o processo, do negro ao branco)

- pais ou filhos, 1 ano

- avó, irmãos e primos, 6 meses


Havia moda para o luto como para vestidos de passear, ficar em casa, casar. E lojas especializadas em roupas de luto, joias (as poucas permitidas), mementos morris, chapéus, luvas, etc. 

burials and beyond

Jay's merece um posto só para ela, é uma referência no assunto.

E os tecidos também variavam, do bombazine e crepe pesados à seda fina e delicada. Parece-me claro que simbolizava a dureza da perda (lembre que a mulher dependia totalmente do seu homem - pai, irmão, marido, filho) até a volta à vida normal. Mas imagina que foi pega de surpresa, não tinha roupa de luto preparada e precisou TINGIR?

Tingimento era o assunto desse post, mas preto dá tanto pano pra manga, que virou um detalhe. Na Encyclopedia of practical receipts, aprendemos várias formas: 

Preto comum: Mergulhe os itens em um preparo de sumagre quente e deixe descansar de um dia para o outro. Torça e mergulhe em água de cal, e por fim uma solução de cobre. Daí os itens podem tanto ser lavados, ou trabalhado novamente em água com cal por 10 minutos; então trabalhe-os em um preparo quente de eucalipto (corymbia opca), adicionando lixívia de câmara e por fim cobre em solução. Depois lave e seque.

Preto profundo (Jet Black): Os itens são tingidos da mesma forma que o última receita; objetivo junto com eucalipto adicione tatajuba. Ao invés do cobre, use licor de ferro para um tom mais rico de preto. Ao menos uma mistura de  metade de cada um.

Preto azulado:  Tinja primeiro os itens em um bom tom de azul e então proceda como para o preto comum. E se o azul é muito profundo, então metade da quantidade de tingimento preto é suficiente.

Imagine-se em choque por uma morte inesperada e precisando consultar um manual para juntar ingredientes e tingir metros e metros e metros de tecido de um vestido. Ainda bem que haviam os criados, não é mesmo?

retrato de criada sentada descancando fruta - 19th century. pic de mutulart

Tentei achar um tweet bacana de Mrs. Finnegan, governanta de 1830 falando como o preto tingido descoloria miseravelmente, mas não consegui. Se achar, incluo depois. 

Menciono isso no 'O Conde Sovina', como era difícil manter roupas, lavar, guardar, etc.

Noivas de preto na Espanha e Alemanha

Vestido de noiva branco foi uma 'invenção' de Victoria na ocasião de seu casamento com Albert em 1840, antes disso a moça usava vestidos bonitos, mas nada tão específico. Muitas usavam o vestido da apresentação na corte, que era caro, elegante, rebuscado. Falo disso em dois livros da série CUPIDOS EM DEVON: uma noiva é simples e a outra é apressada, casamento forçado que mal deu tempo para fazer um bolo!

Mas aqui quero falar dos vestidos de noiva pretos!

vintag es


Preto é uma cor de elegância, classuda. Em alguns países como China, Espanha e Alemanha, preto nas noivas era tradição. Na Espanha se dizia que o negro significava a dedicação da mulher ao marido a partir do casamento.

vestido de casamento seda preta com bordados em renda - 1885, Rijkmuseum, Holanda


Em Baden-Wurttemberg, na Alemanha, a convenção ditava que todas as mulheres deveriam usar vestidos pretos para ir à igreja, mesmo em um dos dias mais memoráveis ​​de suas vidas. No entanto, puderam iluminar o vestido preto com acessórios brancos, como véu, luvas e buquê.

E havia o caso das viúvas que recasavam antes do final do luto. Ou por simpatia ao momento em que viviam.

the met

Este de seda, franjas de algodão e couro é da coleção do Met, veja: 'De acordo com a história da família, Amelia Jane Carley (1844-1892) usou este vestido em seu casamento com William Edward Chess (1842-1926) em 1868 na Virgínia Ocidental, as cores de meio luto escolhidas em homenagem aos que morreram durante a Guerra Civil. A noiva e o noivo tiveram a sorte de não ter perdido nenhum parente próximo durante a guerra, embora o irmão da Sra. Carley e o Sr. Chess tenham servido no Exército da União. Essa narrativa familiar sugere que a noiva escolheu tons de luto em resposta às perdas generalizadas sofridas durante a guerra, em vez de homenagear um indivíduo. Uma paleta suave de cinza e preto pode ter parecido mais respeitosa do que um vestido de noiva mais vistoso, enquanto tantas famílias ainda sofriam. 

Manuais de etiqueta e revistas femininas frequentemente ofereciam orientação para noivas cujos casamentos cruzavam com um período de luto, embora a escolha do vestido em tais circunstâncias muitas vezes refletisse o julgamento pessoal de uma mulher, em vez de conselhos prescritivos.'


bolo de noiva negro, que tal?

Tudo tão bacana e interessante...

Dava para ficar falando disso forever!

lisa's history room

Para encerrar, um must dos musts é esse figurino coisa-linda-de-morrer-vou-copiar do filme 'Bonequinha de luxo' de 1961. Obra magnífica de Givenchy (para Holly) e Edith Head (supervisora geral).



e...
 meu novo livro da SÉRIE CUPIDOS EM DEVON, o volume 3
'DILEMAS EM LEILÃO' já está disponível em ebook! 
Aproveite do  guapíssimo Kin!

Não foi à toa que enrolei tanto para postar esta cor!
Até a próxima!
M.

Mais estudos dos antigamentes apaixonantes aqui.

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e meus arquivos pessoais.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Uma real Florence da era Vitoriana

Olá,

em minhas andanças pelo YouTube, dei de cara com uma joia! Uma entrevista de uma mulher Vitoriana da vida real! Que graça!

liveleak

Mrs. Florence Pannel tinha já 108 anos quando deu essa entrevista ao programa 'Money-go-round' (que era sobre consumo e proteção ao consumidor). Achei uma fofura, assisti duas vezes, e daí, já sabe, fui pesquisar...

Primeiro vamos a Florence.

Florence Pannell 

e sua perspectiva da vida feminina no século XIX


Florence Pannell nasceu em Kensington, Inglaterra, em 26 de dezembro de 1868. Quando adulta, ela abriu uma empresa de cuidados de beleza e trabalhou por muitos anos em Paris e Londres.

Em maio de 1971, aos 102 anos, Pannell foi relatada como o eleitora mais velha de Kensington e Chelsea daquele ano. Em 1977, aos 108 anos, Pannell foi entrevistada por Joan Shenton para o programa Money-Go-Round, no qual disse que a maior mudança que ela viu foi... "tudo".

Pannell morreu em 20 de outubro de 1980 com a idade de 111 anos e 299 dias.

Eis a entrevista traduzida: Achei essa tradução no Tudor Brasil do Facebook.

Entrevistadora: Agora vamos conhecer alguém que pode trazer um pouquinho de história para nós. Seu nome é Sra. Florence Pannell, e ela tem 108 anos de idade. Ao contrário da maioria das mulheres de sua época, Pannell conseguiu montar seu próprio negócio de produtos de beleza. Ela trabalhou por muitos anos em Paris e em Londres e sabe muito sobre moda. Florence, diga-me, era comum uma dama mostrar seu tornozelo?

Florence: Em Paris nada importava, mas eu estou falando de anos antes disso [antes dela viver em Paris] … Anos… Quando, creio eu, eu tinha cerca de 10 anos de idade.

E: Sim…

F: Havia uma charge na (revista) Punch, sobre um ônibus antiquado, com assentos paralelos e todos ocupados por homens, eles estavam assim [Florence gesticula como alguém que olha com curiosidade e certo espanto]

wikiwand

E: Sim…? [Sorrindo] O que eles estavam olhando?

F: Havia uma mulher atravessando a rua e segurando seu vestido, mostrando o tornozelo aqui [Florence se abaixa e mostra com o dedo, uma medida de mais ou menos um palmo acima de seu próprio tornozelo].

E: [Emite um ruído que, em inglês, conota desaprovação]. Florence?

F: Sim?

E: Me conte um pouco sobre como conseguiu dar início ao seu próprio negócio de beleza?

F: Naqueles dias nenhuma mulher trabalhava. [Ela] Poderia ser apenas uma acompanhante, professora ou uma enfermeira do hospital. Mas nada privado.

E: Então foi difícil?

F: Oh… Para as mulheres, incrivelmente difícil! Eu posso lhe contar uma história a respeito, que também estava, creio eu, na Punch… hmmm… Havia uma mulher madura sentada; uma pequenina e desajeitada menina, com cerca de quatro anos, estava sentada no chão, e um horrível homem estava desse lado da poltrona. 

‘Mãe, quando eu crescer, preciso me casar?’

‘Sim, querida’’. 

‘Eu terei que me casar com um homem como o papai?’

‘Sim, querida’’.

‘E se eu não me casar com ele, eu serei uma velha solteira como a tia Eliza?’

‘Sim, querida’

… Silêncio … 

‘Diga mãe, é um mundo difícil para nós mulheres, não!?’

cartoonstock
E: - suspiros - Você já esteve em um avião?

F: Nunca. 

E: Você gostaria?

F: Eu poderia agora, mas não o fiz quando eles apareceram. Eu nunca… Eu nunca fantasiei sobre isso. Mas eu, eu iria agora, porque sou mais aventureira! (risadas)

E: Eu acho que você foi muito aventureira em sua vida. Qual a maior mudança que você viu? 

F: A maior mudança? TUDO! Nada é o mesmo. Tudo está mudado!


Eu faria um milhão de perguntas diferentes, gostaria de saber do negócio dela (era loja, era fabricação de produtos de beleza, era salão de esteticista). Procurei bastante, não achei nenhum detalhe do negócio dela. Sei que Helena Rubinstein, nascida em 1872) começou sua marca em 1905 em NY, e Elizabeth Arden (nascida em 1881) em 1910, também NY. 

A entrevistadora fraca é um consenso, btw.

Open culture lista os eventos que Florence viu e viveu:

-Os cinco monarcas que sucederam a Rainha Vitória: Eduardo VII, Jorge V, Eduardo VIII, Jorge VI e Elizabeth II 

-Jack, o Estripador, aterrorizando Londres

-O naufrágio do Titanic

-Ambas as guerras mundiais

-A grande Depressão

-O telefone

-Televisão

-O movimento hippie

-O pouso na lua

-Guerra das Estrelas (Star Wars)

isso me fez pensar no que eu vi e vivi até agora...

-fax

-telefone celular

-ebooks

-autopublicação

-tv a cabo

-internet

-youTube

-computadores, smartfones, etc

-videogame

-carro a álcool

-carro elétrico

-pandemia... ah, para!

Tenho uma personagem FLORENCE, o livro leva o nome dela logo no título 'O CLUBE DE FLORENCE' que fala de mulheres que precisam encontrar força no fundo do poço que a sociedade as jogou - sejam ricas, criadas, lésbicas, grávidas, traídas. Claro, e como um amor inesperado ajuda nessa trajetória difícil.



O que achei lindinho foi ouvir a pessoa da era vitoriana falar, contar. Claro, bem velhinha, o raciocínio nem sempre rápido, mas muito legal.

Continuo aqui nas pesquisas, nos escritos, nas tramoias e nos lançamentos vindo por aí!

Fica ligado!!!

bj, M,


outras pesquisas históricas, aqui






sábado, 25 de julho de 2020

Hábitos de escritores famosos

Olá!
Feliz dia do escritor!
Desde 1960 a data de 25 de julho é dedicada para comemorar e escrever, mais que merecido, não é?

Este ano eu catei e selecionei hábitos & curiosidades de autores famosos clássicos para nos inspirar, divertir e distrair!
Vamos a eles:

ALEXANDRE DUMAS
Ele dedicava cada momento livre ao seu ofício, escrevia entre recados e refeições. E durante décadas, ele escreveu toda sua ficção em um tom particular de papel azul, poesia em amarelo e artigos em rosa; em uma ocasião, enquanto viajava pela Europa, ficou sem seu precioso papel azul e foi forçado a escrever em um bloco de cor creme, que ele estava convencido de que fez sua ficção sofrer.
>> Fiquei curiosa quanto ao papel no meio do século 19 e fui pesquisar. O método era bem parecido com o que fazemos papel artesanal hoje em dia, mas a fonte de fibra mais comum eram as recicladas de tecidos usados, trapos de cânhamo, linho e algodão catados por catadores de lixo, também bem similar ao que temos hoje em dia. 
Durante a década de 1840, os irmãos Hollingsworth patentearam um processo de branqueamento de uma caldeira de pano e na década de 1850, uma usina em Chatham Four Corners, NY, usando esse processo de clareamento, começou a fazer uma
nova variedade de papéis de palha chamados "manila falsa". Bogus manila foi feito de 20% de palha e 80% de cânhamo ou estopa, com um pouco de algodão para dar textura. A popularidade do falso manila rapidamente pegou, e a caldeira de água sanitária, como foi chamada, logo se tornou um padrão na indústria. 
Enquanto isso, em 1843 começou a produção de papel vindo de fibras de madeira, mas ninguém sabia quão instável era. O papel à base de madeira causou uma grande transformação da economia e da sociedade do século XIX em países industrializados por serem mais baratos; isso significava mais acesso a livros escolares, ficção, não ficção, jornais, cartas e diários. As profissões de notário, escriba e escrivão até ganharam alto status. O lance era que na produção o papel ficava ácido pelo uso de alúmen (falei disso listando corantes em posts anteriores) o que lentamente o transformava em cinzas - por isso, hoje em dia, livros antigos ficam em redomas e são manuseados com luvas. 
Só na 2ª metade do século 20 foi desenvolvido papel livre de ácido, mais barato, à base de madeira.

AGATHA CHRISTIE
É dito que ela tinha o costume de passar horas inspecionando e estudando fotos de crimes comendo maçãs na banheira. Achei bem estranho isso, pensar em tramas de assassinato no banho - comendo! Mas era verdade! No livro 'Agatha Christie Miscellany' tem essa passagem: "Christie disse que pensava melhor enquanto estava deitada na banheira, comendo maçãs e bebendo chá. Ela alegou que as banheiras modernas não eram feitas com os autores em mente, pois eram "muito escorregadios, sem uma borda de madeira agradável para descansar lápis e papel".


CHARLES DICKENS
Dickens tinha uma casa em Broadstairs, um cidadezinha spa perto de Brighton e frequentemente escrevia de lá; essa peculiaridade aparece um um volume da série CUPIDOS em DEVON - na verdade em um spin off UM VISCONDE PARA ME AMAR. Ele, Dickens, gostava muito de tinta azul, mas não por estética ou superstição, ela secava mais rápido que outras cores, permitia que ele escrevesse sua ficção e cartas sem a melecada de borrar.
>> Lá fui eu procurar tinta azul. No maravilhoso 'Receipts and processes' de William B Dick, 1872 - NY, existem várias receitas de tintas, muitas e muito variadas. Pesquei duas de tinta azul:
fluido de escrita azul de Reade
prepare uma solução de iodeto de ferro a partir de iodo, ferro e água e adicione à solução metade do iodo utilizado pela primeira vez. Despeje a mistura em uma solução semi-saturada de ferroprussiato de potássio, contendo quase tanto do sal quanto o peso total de iodo. Colete o precipitado, lave e finalmente dissolva em água, para formar a tinta azul. A solução da qual o precipitado é separado, evaporado até à secura e o resíduo fundido, redissolvido e cristalizado, produz iodeto puro de potassa.
líquido de escrita azul de Mohr
triturar até uma pasta perfeitamente lisa, 6 partes de azul da Prússia puro e 1 parte de ácido oxálico, com um pouco de água. Depois diluir em água suficiente para tornar fluido.

EDGAR ALLAN POE
Ele achava que sua querida gata chamada Catterina era sua guardiã literária que "ronronava como se aprovasse complacente do mundo que continua sob sua supervisão". O campeão da marginália, escreveu seus rascunhos finais em pedaços de papel unidos em um rolo por lacre de cera.

ERNEST HEMINGWAY
Eu visitei a casa dele em Key West e suspirei pelo studio de trabalho enfiado nas árvores, alto e delicioso... Lugar maravilhoso, cheio de gatos! Hemingway tinha várias manias, pelo que descobri. Ele preferia escrever de pé usando uma mesa alta e logo pela manhã. "Quando estou trabalhando em um livro ou uma história, escrevo todas as manhãs logo após a primeira luz do dia. Não há ninguém para incomodar, é fresco e me aqueço enquanto escrevo e sempre sempre paro quando sabe o que vai acontecer a seguir... Sinto que fico tão vazio e, ao mesmo tempo, nunca vazio, mas cheio, como quando fazer amor com alguém que ama. Nada pode me machucar, nada pode acontecer, nada tem importância até o dia seguinte, quando começar novamente. É difícil esperar até o dia seguinte."

JANE AUSTEN
Esse trecho vem do livro 'Uma Memória de Jane Austen' lançado pelo sobrinho dela alguns anos após a morte. Capítulo 10, trecho, tradução livre minha: 'Algumas pessoas supuseram que ela baseava seus personagens em pessoas que conhecia por serem tão realistas que deviam ter vivido e foram transferidos para suas páginas. Mas certamente essa suposição trai a ignorância da alta prerrogativa do gênio em criar, a partir de seus próprios recursos, personagens imaginários, que serão fiéis à natureza e consistentes em si mesmos. Talvez, no entanto, a distinção entre manter-se fiel à natureza e copiar servilmente qualquer amostra dela nem sempre seja claramente compreendida. ... Na verdade, tanto o escritor quanto o pintor, podem usar lineamentos que existem, caso contrário, ele produziria monstros em vez de seres humanos; mas em ambos é o ofício da alta arte moldar esses recursos em novas combinações, colocá-los nas atitudes e transmitir-lhes as expressões que podem servir aos propósitos do artista. ... Os poderes de Jane Austen, qualquer que seja o grau em que ela os possuísse, eram certamente dessa ordem superior como a de Shakespeare. Ela não copiava indivíduos, mas investiu suas próprias criações com individualidade de caráter. ... Seus amigos e parentes nunca reconheceram ninguém nas obras e ela própria, quando questionada sobre o assunto por um amigo, expressou pavor do que chamou de "invasão de propriedades sociais". Ela disse que achava bastante justo notar peculiaridades e fraquezas, mas que era seu desejo criar , para não reproduzir; "além disso", acrescentou, "tenho muito orgulho dos meus senhores para admitir que eram apenas o senhor A. ou o coronel B." Ela não supunha, no entanto, que seus personagens imaginários fossem de uma ordem superior ao que deveriam ser. encontrado na natureza; pois ela disse, ao falar de dois de seus grandes favoritos, Edmund Bertram e Knightley: "Eles estão muito longe de ser o que eu sei que os ingleses são".
Ela certamente teve um interesse parental pelos seres que havia criado e não os dispensou de seus pensamentos quando terminou seu último capítulo. Vimos, em uma de suas cartas, seu afeto pessoal por Darcy e Elizabeth; e ... se perguntada, ela nos contava muitos detalhes sobre a vida subseqüente de algumas pessoas. Assim soubemos que a Srta. Steele nunca conseguiu pegar o doutor; que Kitty Bennet fez bom casamento com um clérigo perto de Pemberley e Mary com um dos funcionários de seu tio Philip; que a "soma considerável" dada pela Sra. Norris a William Price era de uma libra; que o Sr. Woodhouse sobreviveu ao casamento da filha e por 2 anos impediu que ela e o Sr. Knightley mudassem em Donwell; e que as cartas não lidas de Frank Churchill diante de Jane Fairfax continham a palavra "perdão". 
O livro inteiro está em domínio público e no original pode ser achado no Gutenberg.

STEPHEN KING
É moderno, sei, mas Mr. King é muito prolífico, escreve muito e rápido. Achei bacana ouvir o que ele fala nesta entrevista: 'Aqui está a coisa, ok? Existem livros e existem livros. Do jeito que trabalho, tento chegar lá e tento compor seis páginas por dia. Então, com um livro como End of Watch, e ... quando estou trabalhando, trabalho todos os dias - três, quatro horas, e tento ter essas seis páginas bastante acabadas. Portanto, se o manuscrito tiver, digamos, 360 páginas, isso significa basicamente dois meses de trabalho. ... Mas isso pressupõe que tudo corra bem.'
>>Parece fácil e possível, vou tentar!

TRUMAN CAPOTE
Adoro! As histórias dele são muito engraçadas, era muito excêntrico! Ele não começava ou terminava um trabalho em uma sexta-feira, trocava de quarto de hotel se o número de telefone do quarto envolvesse '13' e nunca deixava mais de três pontas de cigarro no cinzeiro, enfiando as extras no bolso do casaco.

VIRGINIA WOOLF
Uma das minhas favoritas, adoro a narrativa e a fluidez dos enredos. Ela usava tintas de cores diferentes em suas canetas - verdes, azuis e roxos- sua favorita, reservada para cartas, diários e rascunhos de manuscritos. Muito opinativa sobre a maneira correta de escrever, assim como sobre a maneira certa de ler, ela passava duas horas e meia todas as manhãs escrevendo em uma mesa de 1,5m de altura e com um tampo angular que lhe permitia olhar para o trabalho de perto e de longe - como Hemingway. Mas a mesa para ficar de pé era menos uma questão prática do que um sintoma de sua rivalidade com sua irmã, Vanessa Bell, que pintava de pé para igualar a dureza da arte. Woolf permaneceu incrivelmente engenhosa - até uma espécie de inventora. Depois que ela mudou de pé para sentada, ela criou uma engenhoca da qual estava muito orgulhosa: para sentar em qualquer poltrona ou cadeira de braços, ela usou um pedaço de madeira fina como uma tábua de escrever, na qual colocou uma bandeja de canetas e tinta para não precisar se levantar e interromper seu fluxo de inspiração, caso ela ficasse sem materiais.

VICTOR HUGO
No outono de 1830, Victor Hugo começou a escrever O Corcunda de Notre Dame contra o prazo aparentemente impossível de fevereiro de 1831. Ele comprou um frasco inteiro de tinta em preparação e praticamente se colocou em prisão domiciliar por meses, inclusive trancou as roupas para evitar qualquer tentação de sair e ficou sem nada para vestir, exceto um grande xale cinza comprado apenas para a ocasião e serviu como seu uniforme por muitos meses. Ele terminou o livro semanas antes do prazo final, usando todo o frasco de tinta. Ele até considerou intitulá-lo O que um frasco de tinta produziu, mas acabou por se contentar com o título menos abstrato.

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Bacana, não é?
Eu sou totalmente irregular, tem dias que produzo 5 capítulos, tem semana que não escrevo um parágrafo... Preciso me inspirar em King e Victor Hugo. Tenho um hábito parecido com Agatha, corro na praia para pensar e resolver nós no enredo. Nunca tentei escrever de pé, mas posso tentar... 
reedsy blog

Cada um com seu cada um, né?

E meu livro novo, 'DILEMAS EM LEILÃO' já saiu!



bjs
até mais,
M.

pesquisei aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui.