& Moira Bianchi: série de livros
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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Empreendedorismo feminino no século XIX

Olá,
hoje é o dia, *lançamento* de 
'ECLIPSE DO CORAÇÃO'

e o cuore, você pergunta?
Ih, a mil!
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historik uk
Essa é Lady Hamilton, não é a jovem Pauline Hopkin que você conhecerá em seus 30+ em 'Eclipse do coração',
mas para mim ela personaliza a beleza clássica da
pobre-menina-bonita-demais-para-seu-próprio-bem no início do século XIX.
Entenderá quando ler. Um dia blogo sobre Emma Hamilton, ela merece.
Estou convivendo com os Hopkin-Devon há mais de um ano, toda hora invento, salvo, refaço intrigas e roubadas para eles. Agora mesmo estou levando a trupe para além-mar em uma tramoia larger than life para a qual estou me preparando faz tempo... Quem me espiona no Twitter sabe das agruras.
twitter
Mas calma com o andor!
Estamos aqui no livro 1, 'ECLIPSE DO CORAÇÃO' e por enquanto, tudo são flores na Inglaterra. 
Bem, quase tudo. 
BTW, sim, a série está bem adiantada, toda alinhavada, plotted, livros farão todo sentido. Prometo.


Então, CADA LIVRO DA SÉRIE, focará em 3 pontos básicos:
1- a influência desses CUPIDOS na família Devon e seus agregados (e são muitos);
2- um (ao menos) romance principal;
3- evoluções e ambientações históricas do período.

Sempre muito delicadamente, a narrativa conduz o romance dos protagonistas em um delicioso boy-meets-girl ou girl-meets-boy ou ainda, girl-has-to-marry-boy. Tem muita treta vindo aí. 
Escolhi o período da primeira metade do reino de Victoria porque acho muito fascinante como as instituições evoluíram rapidamente. Depois de séculos no mimimi de sucessão por ideologias religiosas, o casamento maritalmente feliz de Victoria e Albert e a paz no continente pós Guerras Napoleônicas trouxeram ambiente favorável para a avalanche de modernidades da revolução industrial.
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amazon
E neste cenários, temos
Os Hopkins são classe média, herdeiros de pequena propriedade, precisam trabalhar.
Os Devons são ricos, herdeiros de vastas propriedades rurais e investimentos altos.
Quando as duas famílias se juntam, abrem um leque de grandes possibilidades, pois, de mentes abertas, cosmopolitas, pretendem expandir negócios visando atender a nova Inglaterra que se auto-constrói.


E tem tanta coisa...

Logo de início encontramos a protagonista, Pauline Hopkin, solteira acima de seus 35 anos de vida, o que para a sociedade era perdição total. Hoje já é um poço de chateação, imagina em 1835 quando se passa 'Eclipse do Coração'...  E ela guarda muitos segredos em sua serenidade, é como um mar calmo escondendo um maremoto que um cavalheiro garboso vem singrar com seu veleiro... Coitadinho, mira no que vê, acerta em algo muito maior do que poderia lidar... 
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pinterest
Mas ela, Pauline, tem um grande accomplishment na vida: uma profissão digna. Sim, isso é uma licença poética para mulheres no início do século XIX, explicamos isso no livro - há um trechinho fofo de 'Moira de anáguas' - mas me conhecem, como conseguiria engolir o lugar submisso da mulher sem tentar imaginar quem lutava e conseguia sucesso naqueles tempos? 


Haveria de haver, né?
E havia!

Pauline conduzia o negócio de exclusivos leilões de arte de seu irmão Wellesley Hopkin, Kin para os íntimos. 



Mas na realidade houve a Eleonor Coade (1733-1821) que tinha uma fábrica de estátuas e bustos para jardim, foi nela que me inspirei. 


'Revolucionária na indústria da Arquitetura'
'Coisa muito rara, tanto uma artista quanto uma mulher industrial bem-sucedida'

Coadestone 1
culture concept
Não só ela tocou seu negócio, como desenvolveu processos e produtos, criou demanda e mercado. Mulherão virada no jirayia!
Lion Better
culture concept
leão de Westminster bridge feito de Coadstone perfeito e lindo e majestoso até hoje
Leia sobre ela aqui. Mas Pauline não é Eleanor, ela foi a inspiração porque eu acredito que o que nós, mulheres, somos hoje uma evolução do que elas construíram. 
Na Rússia, década de 1810, cerca de 15% das fábricas de papel, tecidos, utensílios de metal, vidro e refinarias eram de propriedade feminina. fonte
Com a expansão do mercado têxtil, nas fábricas o trabalho feminino era cada vez mais requisitado (infantil também, infelizmente) como vimos em North&South, e dentre as trabalhadoras haviam as líderes sindicais (proto) e as chefes.
As escritoras e poetisas que fizeram carreira assinando seus nomes depois de Austen (que por muito tempo usou 'a lady') como as Bronte, Shelley, etc.
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1st art gallery
O papel feminino mudava tanto no dia-a-dia Vitoriano quanto o social, eram tempos difíceis, havia fome e pobreza, necessidade de procurar emprego e bons serviços à disposição não só de homens. Da mulher cuidadora do lar e filhos para a auxiliar na manutenção do básico para sobrevivência, lutadora. Era um recambiamento familiar que por vezes, tornava-se conflitante. Na série, como tenho pessoas de todo tipo e origem, veremos amostras de como essas revoluções afetavam ricos e pobres. Por vezes eram evoluções e por vezes, involuções.
Andamos para frente e para trás no mundo, é um círculo vicioso.
Nas palavras de Lucy Stone, famosa feminista e abolicionista do século XIX (olha o spoiler de para onde estou levando os Devon...):


'Eu era uma mulher antes de ser abolicionista. 
Eu devo falar pelas mulheres.'

Lucy Stone, 1860s
thought co.
Assim falo quando começo a série de Romances HISTÓRICOS (ou seriam ROMANCES históricos ?) com certa ênfase no papel da mulher relativamente independente. Pauline tem vida própria, não depende do irmão solteiro como Jane e Cassandra Austen dependeram décadas antes uma vez que ficaram órfãs, mas aos olhos da sociedade, Srta. Pauline Hopkin é somente uma solteirona. Linda, educada, casta. Nada mais. Uma coisa digna de admiração e pena.
Ainda de Lucy Stone, que mesmo depois de casada, manteve seu sobrenome de solteira:


'Eu não sei o que você acredita de Deus, mas eu acredito que Ele deu anseios a serem preenchidos, e que Ele não quis dizer que todo o nosso tempo deveria ser dedicado a alimentar e vestir o corpo.'

Ao abrir o livro 2, as escolhas de Pauline ainda são questionadas por parentes - e muito. E um personagem principal muito calmamente diz: 'Como sabe que ela não quis seguir novos caminhos na vida?'

Bem, deixemos que ela fale por si mesma, certo?


 

Leia mais sobre a série aqui
e sobre o nome Devon aqui.
bj



aviso: todas as imagens achadas no google sob procura: 'victorian lady' e 'victorian painting'

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Noiva em 6 pérolas - Cinderela moderna - capítulo 2

Serafina e Nicolas ainda têm muito à sua frente, e tudo-ao-mesmo-tempo-agora...
Olha só!



Série PRINCESAS POSSÍVEIS
VOLUME 2
romance inspirado em 'Cinderela'
capítulo anterior

~ 8.05 ~

Na semana seguinte, a cidade em antecipação ansiosa do frenesi da compra de ingressos inflacionados,  Serafina e Melissa foram convidadas para a festa pré-Olímpica da empresa onde a amiga Bianca trabalhava. Era uma grande companhia multinacional de exploração de petróleo, um dos grandes patrocinadores do evento que distribuiria ingressos antes e faria festas durante os dezenove dias de competições.

‘Gostaríamos de agradecê-la por sua gentileza em diversas maneiras, mas meras palavras não seriam suficientes, Bia. De mais a mais, queremos mesmo é aproveitar o open bar e torcer para ganhar algum ingresso nos sorteios!’ Serafina sorriu enquanto a irmã ria.

‘Ah, mas vou querer todas as palavras que conseguir encaixar em frases rebuscadas, senhorita!’ Bianca riu da gaiatice da amiga.

‘As meninas vêm?’

‘Ceci disse que viria, mas está atrasada.’ Levantou o telefone indicando uma mensagem de texto. ‘Ari disse que não quer encontrar ninguém do trabalho e Bele viajou com Pedro. Somos só nós por enquanto... Podemos ir ao bar. Algumas vezes. Depois você começa com a formalidade!’

‘Fui!’ Serafina se virou.

Bianca segurou-a pelo braço. ‘Fica de olho, Mel. Não deixa ela estragar o emprego novo antes mesmo de começar.’ As duas irmãs Mello se entreolharam. ‘A tal entrevista semana passada?...’ Um sorrisinho de lado.

‘Foi você!’ Serafina apontou para o nariz de Bianca e riu. ‘Por que não me falou?’

‘Não posso. Tem que vir de uma agência, coisa de protocolo.’ Bianca deu de ombros. ‘Ouvi dizer que você pediu uma grana alta. Pode esperar uma contraproposta.’ Piscou um olho.

‘Espera, estou confusa.’ Melissa levantou a mão. ‘Ofereceram a Rafí um emprego na HHO. Como você sabe-’

‘O quê?’ Bianca arregalou os olhos.

‘Não foi bem uma oferta... A mulher disse que eles precisam montar um departamento para caçar ecologistas.’ Serafina explicou.

‘Ai, quando meu chefe ouvir isso... Te indiquei para trabalhar com a gente, não com eles para nós!’ Bianca cruzou os braços no peito sacudindo o cabelo cleópatra para tirar dos olhos e procurar entre as muitas pessoas na festa. ‘Achei!’

‘Mmm... Bia, não fala nada agora.’ Serafina torceu os lábios. ‘Seu chefe é aquele gordinho carequinha? O cara bonitão conversando com ele?’ A amiga e a irmã esticaram o pescoço. ‘Ele trabalha lá na HHO.’

‘Não vou deixar essa traição passar em branco.’ Bianca suspirou tentando derreter a irritação.

‘É o Otariano que te falei, Mel.’

‘Gato, ?’

‘Sim...’

‘Otariano de que modalidade?’ Bianca apertou os olhos para analisar o espécimen com cuidado.

‘Master.’ Uma sacudida de cabeça vigorosa o suficiente para bagunçar o cabelo. ‘A tal esquisitona magrinha que me convocou saiu para almoçar na hora que marcou comigo, fiquei de castigo esperando.’

‘Que cretina!’ A amiga se solidarizou.

‘Então.’ Serafina franziu a testa. ‘Esse Otariano chegou, a recepcionista disse que a esquisitona deixou ordem para me entrevistar, mas ele disse que estava ocupado demais.’

‘Nem disse ‘foi mal’?’

‘Ofereceu café.’

‘Master otariano.’

Concordaram todas com um decisivo aceno de cabeça.

‘Mas sabe, a cretina tinha dois furos em cada orelha.’

‘Ainda acho que é coisa antiga isso, de ter vários furos.’

‘Coisa de mãe, Rafí. Nossa mãe tem três em cada.’

Serafina suspirou. ‘Ainda assim, vou fazer mais um...’

Bianca balançou a cabeça devagar, olhos ainda no chefe conversando com Nicolas. ‘Melhor esperar mesmo... Que tal um espumante?’

Durante a festa, Bianca não teve muita chance de falar com o chefe sobre o assunto e menos ainda quando pudesse fazê-lo se interessar. Tinham que dar atenção à muita gente interessante, fornecedores, coordenadores, acionistas e a festa empolgante tomava conta de todos.

Quando apresentações artísticas de modalidades olímpicas começaram no palco, Serafina de repente se achou cara a cara com o Otariano.

Tinha ido ao bar para outra minigarrafa de vinho espumante e ao se virar quase bateu nele. Um longo momento constrangido se passou quando seus olhos se encontraram até que ela corou o vendo corar.

‘Desculpe.’

Serafina sacudiu a cabeça baixa.

Ele arrumou a camisa, coçou a nuca, passou a mão no cabelo, mas não conseguiu tirar os olhos da garota bonita. O dia que ela esteve no seu escritório, ele estava muito ocupado para trabalhar para sua recrutadora. Era uma profissional tão competente quanto esperta, vivia montando esquemas para delegar suas funções para outras pessoas. Mas se arrependeu de resistir ao apelo da garota bonita, a economista excêntrica. Agora ela estava perto o suficiente para uma segunda chance.

Como o cara não saía da sua frente, Serafina precisou olhar para cima e pedir licença, mas ficou presa na horda de pessoas em busca de caipirinhas e o Otariano acabou sendo sua chance de sair de perto do bar. Bem mais alto, ele levantou o braço sobre a cabeça dela, pegou sua cerveja e gentilmente abriu caminho para ela passar na frente dele.

‘Valeu.’ Ela sorriu sem jeito.

‘Sem problema.’ Ele devolveu o sorriso.

Serafina já estava pronta para fugir quando sua impertinência falou por ela. ‘HHO, certo?’

‘Sim.’ Ficou contente de saber que ela se lembrava.

‘O cara ocupadíssimo.’ Ela levantou uma sobrancelha. ‘Deve estar ocupado agora também...’ Talvez fossem as bolhas do vinho falando por ela.

Nicolas corou e teria levantado as sobrancelhas de susto se não tivesse se contido a tempo.

Serafina estudou a reação dele com cuidado. O cara não tinha um rosto exatamente bonito, mas era muito agradável. Era charmoso, alto, atlético, carregava a camisa da Grã Bretanha e o jeans velho com muita elegância. Estranhamente ela se sentiu atraída pelo Otariano e seu olhar intenso. Corou constrangida e se surpreendeu com sua própria reação. Poderia ser o mini espumante que ela havia bebido quase todo antes de ficar quente, ou o outro congelando seus dedos enquanto ela esperava o cara responder, mas qual fosse a razão para sua impaciência, resolveu oferecer trégua. ‘Antes que seus muitos compromissos te chamem, eu sou Rafí.’ Disse esticando a mão ironicamente.

Nicolas acabou rindo baixinho. ‘Muito prazer. Nico.’ Sacudiu a mão delicada com vontade.

‘Nico...’ Ela franziu os lábios para o lado. ‘Apelido?’

‘Sim, como Rafí.’ Ele espelhou as sobrancelhas elevadas. ‘Apelido para Nicolas. Brent, sou Nicolas Brent.’

O nome lhe pareceu familiar. ‘Mas você não é Brasileiro, é? Tem um sotaque...’

Fifty-fifty. Mãe Brasileira, pai Inglês.’

Would you rather talk in English?’ Perguntou franzindo a testa.

Ele sacudiu a cabeça. ‘Tranquilo, sempre falei Português em casa; moro aqui há anos.’ Ficou satisfeito com a oferta, ela pretendia continuar a conversar com ele. ‘No escritório falamos muito Inglês, talvez por isso não tenha conseguido perder o sotaque ainda.’ Sorriu sem jeito.

Serafina fez bico para alcançar o canudinho e bebeu com olhos nele pensando que o cara tímido tentando flertar não lhe era bem vindo. Nem um cara desinibido flertando também. Ela tinha tipo um caso com Jorge e... Ah, que bobeira. Ela não tinha nada demais com Jorge que flertaria com um poste se estivesse de saias. Mas dar uma chance a esse otariano... Sua paciência estava prestes a abandonar Nicolas. ‘Sabe meu nome... Então me fala da proposta de emprego que seu escritório me fez.’

Ele prendeu os lábios. ‘É assunto para ser discutido no escritório. Os clientes sempre pedem discrição para não alertar a concorrência.’

Serafina mordeu o lábio. “Claro, Rafí. Que burrice! Dando furo na frente do otariano gato. Otária!”

‘E de qualquer forma, não tenho detalhes sobre a oferta que lhe foi feita.’ Nicolas continuou por receio de que ela encerrasse sua conversa tatibitate e não percebeu que tinha instigado sua curiosidade.

‘Achei que a tal Zara tinha deixado recado para você falar comigo... Ainda assim não sabe nada do que conversamos?’

‘Mmmm...’ Nicolas tentou achar uma saída.

‘E sei que seu escritório soube de mim porque uma amiga que trabalha na empresa que está dando essa festa me indicou, querem que eu trabalhe com ela ajudando nas ações de proteção do meio ambiente – o que é irônico, na minha opinião. Explorar petróleo e cuidar do meio ambiente. Enfim, se fui indicada por uma empresa para ser contratada pela sua agência, como me ofereceram um emprego de recrutadora? Pelo menos foi o que entendi.’ Ainda Nicolas continuava mudo e Serafina pensou ouvir o cérebro dele funcionando. ‘Mas bem, discrição, concorrência, ocupadíssimo e tal.’ Deu de ombros e bebeu de novo.

Nicolas piscou, olhou sobre o ombro direito, esquerdo e apontou para as mesas atrás dela. ‘Está vendo aquelas mesas perto da piscina?’ Serafina se virou e balançou a cabeça. ‘Srta. Mello, podemos conversar por alguns minutos?’ Perguntou mudando a expressão do rosto. ‘Uma reunião informal, se me permitir.’

‘Sabe até meu sobrenome.’ Ela levantou as sobrancelhas mais uma vez. ‘Vamos lá, Sr...’ Apertou os olhos tentando lembrar.

‘Brent.’ Ele disse apontando a direção.

Ela o acompanhou pela cobertura do hotel de luxo na praia de Copacabana sentindo-se constrangida pela camiseta do Brasil rebordada de paetês e o short jeans. Sem falar dos tênis! Quando ele entregou a cerveja pela metade a um garçom que passava, ela fez o mesmo e quase sem querer encontrou os olhos da irmã. Apontou para o cara na sua frente e fez careta, Melissa respondeu com outra e ela deu de ombros.

Em volta da piscina, Nicolas escolheu a mesa mais afastada, puxou uma cadeira para ela e sentou à sua frente.
‘Como lembra meu nome?’

‘Sua ficha.’ Ele disse, ela balançou a cabeça achando óbvio. ‘E eu sabia que tinha sido convidada para uma entrevista.’ Ele emendou uma explicação ao mesmo tempo sucinta e detalhada da história da HHO.

‘Li no seu site. Pesquisei porque achei a insistência em me entrevistar muito esquisita.’

‘Peço desculpas se Zara foi lacônica. Mas como o herdeiro vem assumindo os negócios aos poucos, estamos redefinindo alguns processos. Nossa meta é focar em profissionais jovens para oxigenar o sistema e oferecer inovação aos nossos clientes.’ Nicolas explicou que quando pesquisaram sobre ela para o cliente descobriram seu potencial para eles que ainda não dominavam a área. Desculpou-se por não tê-la atendido pessoalmente e sutilmente deixou-a entender que seria convidada para uma nova entrevista.

Em um misto de orgulho e desânimo, Serafina viu que ele flertava com ela profissionalmente e não romanticamente. Todo o tempo ele queria a convencer de que a empresa dele era um lugar maravilhoso para se trabalhar... Nenhum interesse pessoal. Foi salva de mais constrangimento pelo início dos sorteios e ambos levantaram para voltar ao restaurante onde estava o apresentador.

‘Obrigado por sua atenção, Srta. Mello.’ Ele disse educadamente a acompanhando em volta da piscina.

‘De nada, Sr. Brent.’ Sorriu. ‘Pode me chamar de Rafí. Nico?’

‘Rafí.’ Ele sorriu de volta, desta vez espontaneamente e seu rosto todo mudou; sorria como um menino. ‘Mais uma apresentação.’ Disse esticando o pescoço na direção do palco. ‘Ginástica artística, acho.’

‘É... Vamos às Olimpíadas.’ Prendeu os lábios. ‘Iupi.’ Ela olhou ao redor procurando a irmã ou a amiga, precisava de colo.
‘Não parece muito animada, Rafí…’

Ela deu de ombros deixando a alça bordada escorregar. ‘Não ligo, até evito me envolver muito. Perdemos tantas medalhas por falhas, não temos um programa bacana de incentivo ao esporte... É frustrante. Tem nadador com mais medalhas de ouro que o Brasil.’

‘Mas ele é um caso excepcional.’

Still.’ Ela deu de ombros, ele balançou a cabeça. ‘Você gosta?’

‘Adoro. Sou viciado em Olimpíadas.’ Sorriu espontaneamente de novo e esticou o braço mostrando uma tatuagem antiga.

‘Anéis Olímpicos? Nossa!...’ Ela se admirou sem se admirar pensando com tristeza no 7x1. ‘Ué, seis anéis?’

‘Bronze. Atenas, 2004.’

‘Jura?’ Agora ela se admirou realmente, levantou as sobrancelhas e um sorriso lhe escapou os lábios.

‘Juro. Em Pequim caí nas semifinais.’

‘Está brincando, não está?’

Ele sacudiu a cabeça. ‘Fencing, foil.’ Ela franziu a testa sorrindo tão linda, ele fez força para pensar em como a modalidade se chamava em Português. ‘Esgrima.’ Pensou. ‘Florete?...’

‘Espada fininha e comprida, que nem de mosqueteiro?’

Ele riu. ‘Mais ou menos.’

‘Nossa!... Que… máximo!’

Ele sorriu de orelha a orelha.

‘Era novinho.’ Ela corou, sem querer tinha perguntado a idade dele.

‘Dezessete anos. Foi incrível.’

Serafina riu. ‘Uau! Parabéns!’

‘Obrigado.’

‘Vai ver as competições aqui?’

‘Claro!’ Ele riu satisfeito. ‘Meus amigos do time já me mandaram credencial, estão hospedados comigo para treinamentos, reconhecimento do local, essas coisas.’

‘Boa sorte para Inglaterra.’

Great Britain.’ Sorriu apontando a camisa. ‘Boa sorte para o time do Brasil também!’

Trocaram ainda alguma conversa sobre competições e espírito olímpico até que ele a deixou perto da irmã e amiga a quem foi apresentado.

Ficou de olho na garota bonita e esperta, tão fora do seu alcance quanto antes de juntar coragem o suficiente para ir ao bar quando ela foi. Nem sabia dizer por que esta garota bonita dentre as muitas garotas Brasileiras bonitas mexia tanto com ele, mal a tinha conhecido, mas incrivelmente a havia visto de longe como naqueles romances açucarados de amor à primeira vista.

Andava distraído, pensando em cinderelas e mistérios intrigantes, fantasmas até e de repente lhe apareceu a bela muito real. Quão... Curioso! Pensou a observando de longe.

Serafina, nome incomum. Um anjo, se não estava enganado. Serafina Mello, linda, curiosa, esperta. Rafí.


Ela tinha noção que ele esteve sempre por perto enquanto ela ficou na festa, mas não tinha mais graça.

Bia: o cara é gato, mas mau caráter
Rafí: nem sei se é
Ceci: me esperem, tô chegando!
Mel: sei que é gato
*foto*

Serafina parou de digitar para repreender a irmã ao seu lado na festa. ‘Não acredito que fez isso! E se ele te viu tirando a foto?’ Bianca riu oferecendo a mão para um high five com Melissa.

‘Viu nada, agora é que está de olho em você!’
Serafina piscou sentindo o rosto queimar.
Ari: gato
Vai fundo
Rafí: ele só quer me contratar
Ceci: que safadeza é essa?
Pedi para me esperarem!
Bele: gente, duas horas sem celular e todas essas mensagens?
Gato safado querendo contratar quais serviços?
*emoticon de piscadela*
As três amigas riram, uma delas sem muita convicção.
Sabia que era bonitinha, tentava manter uma rotina preguiçosa de esporte na praia, estava em forma, se vestia bem (mesmo que de short, tênis e camiseta), cabelo bonito, maquiagem em ordem... Mas o cara charmoso só via a economista especializada em ecologia.

Tudo bem, ser vista como uma boa profissional era bacana. Tipo. O problema era que toda mulher bonita queria ser apreciada por um homem bonito.

Foi como se tivesse feito gol contra.



É... nem tudo é fácil.
Ou é? 

Para comprar o livro, vem aqui.

domingo, 21 de maio de 2017

Noiva em 6 pérolas - Cinderela moderna - capítulo 1

hey, e la nave va...
As 'Princesas Possíveis' vão seguindo seu schedule, amigas de mãos dadas uma puxando a outra. Depois de Cibele encantar em sua versão de 'A bela e a fera' em BIBLILOVE, agora é a vez de Serafina e sua própria maneira de viver um romance a la Cinderela.

Quer ver como é?




Série PRINCESAS POSSÍVEIS
VOLUME 2
romance inspirado em 'Cinderela'


~ 1.05 ~

A animação das Olimpíadas já contagiava a todos no Rio de Janeiro quando Maio começou. As infinitas obras finalmente ficando prontas, a tocha caminhando pelo país, programas de TV dedicados, jornalistas correspondentes, atletas e turistas conhecendo a cidade – ninguém conseguia fugir da maior festa do esporte internacional prestes a começar. Havia protestos e a turbulência na política, mas também a excitação que a distribuição de medalhas trazia.

Apesar de se considerar razoavelmente politizada, Serafina Mello tentava manter-se sóbria frente à presente situação do país, tanto em relação à Brasília quanto ao evento esportivo tão grandioso na cidade onde morava. Sobriedade não significava frieza e ela até pensou em se inscrever como voluntária – falava línguas, era despachada e curiosa... Poderia ajudar em alguma coisa bacana como protocolo ou guia. Quem sabe?

Mas não o fez. Bem no fundo temia que o fiasco da Copa do Mundo, ainda estava fresco na sua memória, fosse repetido. Na época, recém-chegada de um sabático longo que interrompeu sua faculdade de Economia por dois anos, andava insegura com a escolha de curso que havia feito. Apostava na ênfase em Ecologia, mas receando ter se equivocado contava que o esperado hexa campeonato de alguma forma significasse que tudo ficaria bem.
Lá veio o humilhante 7x1.

Para ela foi especialmente dolorido – aterrorizante até. Seus pais riram de sua ansiedade, a irmã e o grupo de amigas queridas muito próximas tentaram acalmá-la naqueles dias que sucederam o tetra campeonato da Alemanha. Como todo feitiço do mal, a sensação de falência custou a passar.

Para as Olimpíadas, Serafina estava emocionalmente mais protegida de seus próprios devaneios esperançosos. Muito bacana ter a cidade cheia, os novos museus, mais metrô, etc., etc.; fazia planos de ver uns jogos nas arenas, ia encontrar as amigas para ver outros na TV e esse seria todo o poder que essa nova festa do esporte ia ter na sua vida.

Ponto final.

Bem, havia seu emprego que a mergulhava nas Olimpíadas quase literalmente. Formada a pouco, trabalhava como terceirizada no Instituto Público de Rios e Lagoas em uma função (que ela achava) relevante, gostava do que fazia, dos projetos onde estava inserida e por isso ficou muito surpresa quando recebeu a surpreendente paquera de um renomado escritório internacional de recrutamento.

Sim, porque a insistência do Head Hunting Office só poderia ser definida como ‘paquera’.

Foi em uma terça-feira comum, daquelas que vem depois de uma segundona enfadonha e precedia uma quarta modorrenta; em uma terça dessas, Rafí - como era chamada pelos amigos e família - seguia sua rotina de se esgueirar da cama cedinho para ir à praia, na volta engolir um iogurte e uma fruta, tomar um banho rápido, bater papo com quem ainda estivesse em casa e correr para o metrô. 
Tudo absolutamente corriqueiro, nada fora do padrão, mas naquele dia houve a ligação de uma mulher educada, seca e muito insistente a convidando para uma entrevista. Serafina fez perguntas que não foram respondidas e desconfiada agradeceu já declinando, mas como a mulher insistiu com muita veemência, acabou concordando em uma reunião rápida.

Precisou planejar sua hora de almoço; uma saladinha, duas estações de metrô, passo apertado – ia dar tempo. O imponente prédio onde o HHO ocupava um andar inteiro não era longe do seu trabalho.
Com alguns minutinhos para perder, deu tempo até para caçar monstrinhos no celular! Que sorte: a praça em frente ao prédio imponente também era um hotspot fantástico. ‘Quantos conseguiu?’ Ela perguntou a outro ‘caçador’. ‘Seis? Qual deles perdi?’ Distraída, Serafina não notou dois rapazes charmosos passarem pelo grupo de pessoas envolvidas nos seus próprios celulares.

Para quem considerava a mania uma grande besteira, essa obsessão mundial estava perigosamente saindo do controle. Nicolas e Oswald Brent preferiam se dedicar às Olimpíadas. Após quase serem atropelados por dois caçadores andando atrás de um monstrinho virtual, continuaram em direção ao seu restaurante favorito para almoçar.

Os primos haviam sido descobertos pela HHO no último ano de faculdade na Inglaterra – Administração para um e Finanças para outro – e foram contratados antes mesmo de pegarem seus diplomas. A empresa que acompanhou suas especializações e MBAs os lapidou para cuidar do futuro escritório Brasileiro de olho em todo o potencial do país em franca ascensão. Nicolas era filho de Brasileira, tinha dupla nacionalidade, por isso caberia a ele a responsabilidade de manter a excelência do HHO contando com o auxílio de outras jovens mentes Europeias igualmente brilhantes e promissoras como o primo.

Apesar de sua origem aristocrática, os dois abraçaram a experiência de estabelecer a filial da empresa no Brasil assim que lhes foi oferecida. Não somente por ser uma façanha notável no âmbito profissional, mas também pessoal: viveriam sozinhos por anos.
Escolheram Copacabana, a praia famosa, apartamentos vizinhos, em frente ao mar: estariam no Brasil a trabalho, sim; mas também aproveitariam o que a cidade tinha de melhor. Nos Réveillons e na Copa, seus pequenos flats no apart-hotel ficaram lotados de amigos. Agora que os Jogos estavam próximos, seria ainda melhor já que os amigos do antigo time competiriam. Como tinham saudade da vida em Vilas Olímpicas...

Haviam feito parte do time de esgrima – Nicolas como atleta de competições individuais e Oswald da equipe técnica. Precisaram se desligar quando a vida profissional exigiu que se dedicassem mais à faculdade que ao esporte, mas a experiência os acompanharia para sempre.

Tinham orgulho de sua participação no time de sucesso e seu orgulho por vezes poderia ser confundido com arrogância. Nicolas por sua personalidade reservada – não tinha tanto de sangue Brasileiro a ponto de ser socialmente destemido; o primo por ser bonachão e assertivo.

Depois de um almoço leve e rápido, voltaram ao escritório discutindo relatórios e compromissos daquela tarde, também os preparativos para receber o dono da empresa em sua iminente visita que possivelmente perduraria até os Jogos. Evitar se deixar distrair pelas Olimpíadas já seria difícil, muito mais tendo que ciceronear seu chefe.

Esperando na longa fila para os elevadores, Nicolas deixou os olhos vagarem pela praça do lobby de seu edifício enquanto o primo checava o telefone, os pensamentos tão distraídos quanto seus olhos que focaram em uma garota bonita. Também concentrada no celular, ela precisou dar vários passinhos para o lado, saltitou graciosamente como uma ginasta para deixar um senhor muito gordo sair do elevador. Mesmo de longe Nicolas viu que ela deixou o celular cair, levou as mãos aos quadris reclamando e aceitou quando alguém abaixou para lhe devolver; agradeceu e entrou por último no elevador lotado. Mais uma caçadora de monstrinhos, provavelmente por isso levou o encontrão... Sorriu com ironia.

Mais de quinze minutos depois, Serafina ainda esperava na recepção luxuosa do HHO quando o elevador bipou. De novo. Para um edifício tão movimentado, os elevadores eram incrivelmente lentos e barulhentos, pensou irritada sem tirar os olhos de sua coleção de monstrinhos. Precisava colocar mais uns dois ovos para chocar e cuidar dos que já estavam prestes a eclodir.

Os dois homens entraram na recepção ainda conversando e cumprimentaram a recepcionista deixando escapar um leve sotaque. Um deles seguiu pela porta de vidro enquanto o outro perguntou se havia recados.

‘Só da Dona Zara. Quando ela saiu para o almoço deixou recado para o senhor atender essa moça se ela não chegasse na hora.’ Apontou para Serafina. ‘Já está esperando faz um tempinho.’ Cochichou.

Nicolas franziu a testa virando para ver quem seria, nunca marcavam entrevistas àquela hora. Lá estava ela, a garota bonita do elevador, a caçadora graciosa. De perto era ainda mais bonita, fã de jogos de celular e... Tentou lembrar o que sua recrutadora-chefe havia repetido incessantemente na reunião daquela manhã. A economista ecologista promissora, deveria ser ela.

Impaciente com a demora e a falta de educação, Serafina checou o relógio. Logo seu almoço estaria no fim, ela não procurava outro emprego, por que por em risco o que já tinha e gostava? Quando levantou os olhos contrariada, o cara ainda encarava com a testa franzida.

Ao encontrarem os olhares, Nicolas levantou as sobrancelhas discretamente, suas pupilas dilataram. Uau. Ele pensou. Serafina apertou as pálpebras.

Durou pouco mais do que se esperaria para duas pessoas que se encontravam pela primeira vez, três ou quatro segundos a mais.

Ele meneou a cabeça, ela estranhou com o cumprimento.

Havia ficado irritada quando a recepcionista disse que a mulher insistente não a estava esperando, deveria ter dado meia-volta e partido sem perder nem mais um segundo. Estupidamente se rendeu à sua curiosidade e sentado para esperar. Também estupidamente achou que o cara tão bonito iria se desculpar e a chamar para entrar. Mas não! Ele permaneceu plantado ao lado do balcão da recepção a encarando e... A cumprimentou silenciosamente!

Tomada por ironia e incredulidade, ela meneou a cabeça de volta forçando um sorriso de lábios presos. Otariano. Serafina apertou os olhos de novo.

‘Boa tarde.’ Ele a cumprimentou seca e inesperadamente, por um momento pensou em fugir para esconder suas bochechas coradas na sua sala.

Serafina foi mais uma vez pega de surpresa pelo cara bonito. Por alguns momentos achou que ele a ignoraria.

‘Estou com a tarde cheia.’ Nicolas virou-se para a porta na intenção de esconder o rosto aquecido. ‘Zara marcou essa entrevista na hora do almoço?’ Perguntou e a recepcionista balançou a cabeça. ‘Liga para ela, manda voltar imediatamente.’ Disse se recompondo. ‘Peço que desculpe o contratempo, logo será atendida.’ Explicou à Serafina. ‘Já lhe serviram água ou café?’ Nicolas ofereceu e esperou estoicamente.

‘Obrigada.’ Mal respondeu e sentiu o pescoço aquecer com a reação dele: balançou a cabeça uma vez, deu meia volta e sumiu pela porta de vidro. Francamente! Paciência tem limite!

Muito constrangida, a recepcionista se desculpou vendo Serafina se levantar. Esticou um tablet com um e-formulário para que fosse preenchido de modo a comprovar que ela esteve lá. Pediu por favor indicando com o polegar sobre o ombro a porta por onde Nicolas havia sumido; ela própria teria que dar explicações à auditoria caso Serafina não deixasse provas.

Mais uma vez estupidamente, Serafina sentou com pena da recepcionista e pegou o tablet. Pensou em digitar ‘Serafina Otariana’ no espaço ‘nome’ ouvindo o elevador bipar de novo e uma loura magra vagamente parecida com Lady Gaga em um bom dia, fortemente cheirando a cigarro entrou na recepção em passos decididos.

A recepcionista suspirou aliviada. ‘Dona Zara, Serafina Mello está esperando.’

‘Brent não chegou, por que não começou a entrevista?’ A mulher franziu a testa unindo as sobrancelhas negras e se virou para Serafina esticando a mão. ‘Serafina, boa tarde. Mando te chamar já, já.’ Apertaram as mãos em um cumprimento curto e energético antes que a mulher sumisse pela porta tão rápido como apareceu.
Que titica de lugar esquisito é esse? Serafina sacudiu a cabeça rearrumando os pensamentos, abaixou os olhos para o formulário em suas mãos e não conseguiu pensar em sequer uma razão para preenche-lo. Estava feliz no seu emprego, tinha um salário decente, carga horária confortável, não precisava procurar outra colocação. Havia porém a razão que a tinha movido, seu pecado: curiosidade.

Finalmente foi levada a uma pequena sala de reunião no final de um corredor longo cheio de pequenas salas de reunião. Eram especialistas em entrevistas concomitantes, aparentemente. Também em atraso e frieza.

‘Você foi indicada por um parceiro.’ Zara disse olhando para seu tablet pousado sobre a mesa. ‘Economista especializada em ecologia com ótima formação, cursos no exterior... Muito incomum.’ Continuou sem levantar os olhos. ‘Aqui no Head Hunting Office temos grande demanda para esta vaga. Não para um cliente, para trabalhar conosco em nossa divisão focada em Ecologia. É um departamento novo, em formação.’ Por fim olhou para Serafina. ‘Vários clientes estão aprimorando políticas de desenvolvimento sustentável, greenwashing não é mais aceitável.’

‘Um parceiro?’ Serafina inclinou a cabeça. ‘Quem?’ Zara desconversou dizendo que falavam com várias fontes diariamente, seria quase impossível lembrar quem a indicou primeiro. ‘Vários parceiros falaram de mim?’ Insistiu achando muito intrigante ser assim tão famosa. ‘Que companhias estão focando em ecologia com seriedade? Terceiro setor, um tipo de WWF ou Greenpeace?’ Mais respostas evasivas. ‘Olha, como te falei ao telefone, não estou interessada em outro emprego. Mas agradeço de qualquer forma.’ Disse decidida a levantar e partir.

Ainda assim a mulher continuou a entrevista pedindo que o tal formulário fosse preenchido e de repente, para surpresa de Serafina, ela levantou, apertou sua mão e a deixou sozinha na pequena sala de reunião. Estupefata, Serafina decidiu parar o formulário onde estava – mas não antes de pedir salário anual cinco vezes maior do que tinha no momento por pura irritação. Apertou os olhos pensando em adicionar mais um zero. Save. Send.

Assim que saiu do elevador na plaza do térreo, carregou ‘Só as princesas’, o grupo de mensagens das amigas.


Rafí: *mensagem de voz* Gente, acabo de sair da twilight zone. Uma pessoa misteriosa me indicou para ser entrevistada por gente bonita e mal educada para um emprego perfeito em uma companhia fantasma. Acham que é pegadinha de programa humorístico, meninas? Riu.



domingo, 7 de maio de 2017

BIBLILOVE - A bela e a fera modernos - Capítulo 2

The plot thickens...



Série PRINCESAS POSSÍVEIS
VOLUME 1
romance inspirado em 'A bela e a fera'
capítulo anterior

Petrônio checou o celular, olhou em volta, andou até o fim da rua e quando estava pronto para ligar para seu secretário e conferir o endereço, viu a fachada charmosa da livraria recuada na calçada. O letreiro era pequeno como uma bandeirola lateral, ele esteve procurando letras grandes e vitrines iluminadas.

Quando empurrou a porta recebeu o golpe forte do cheiro gelado de livro da loja climatizada. Por fora parecia modesta, mas era enorme. Longa como um sobrado do século passado, estantes de madeira lustrada, iluminação difusa, poltronas estofadas espalhadas entre as mesas cobertas de volumes.

Um sorriso lhe esticou os lábios, o cheiro de madeira mexia com sua memória afetiva, de repente estava na oficina do seu pai e avô em meio a serragem, chegou a ouvir o zumbido dos tornos.

Deveria ser bom presságio, as coisas iam dar certo, pensou consigo mesmo e sacudindo a cabeça reparou em movimento na estante do fundo.

‘Boa tarde?’

‘Boa!’

Naquela manhã, tinha acordado tenso ainda resolvendo pontas soltas de Brasília, estava preocupado em acertar a última pendência, o local onde encontraria o tal intelectual tinha cheiro de infância, a voz engraçada do camarada magrinho de boné no alto da escada fez Petrônio rir baixinho. ‘Estou procurando Machado.’

‘Pois não?’ Cibele se virou na escada sorrindo e franziu a testa. ‘Conheço você... Da academia?’

Petrônio também franziu a testa chegando mais perto. ‘Cibele, certo? Me deu uma surra no outro dia.’

‘Isso!’ Ela tirou os três pregos da boca. ‘O pessoal disse que você está fazendo aulas de manhã. Gostando?’

Ele se retorceu. ‘Ainda me acostumando.’

Cibele esperou a cantada com certa ironia. Geralmente os caras tentavam conquistá-la logo que a conheciam, esse tinha levado mais de uma semana. Talvez tivesse ganhado coragem quando ela perguntou por ele na academia, alguém deve ter comentado. Como ele parecia estar ocupadíssimo em analisar todos os detalhes das estantes e das milhares de lombadas de livros, ela resolveu tomar a dianteira. ‘Estava tentando arrumar aquela barra lá em cima.’ Apontou para o gato de cabelo grisalho e olhos fundos ver onde precisava de conserto. ‘Está soltando.’

Petrônio não precisava fazer nenhum favor à bela lutadora, mas era um cavalheiro e não estava com pressa. ‘Chama-se testada.’ Ele sorriu pegando o martelo. ‘Com unhas de gato muito caprichadas.’ De perto, o trabalho de marcenaria era ainda mais detalhado. ‘Estantes muito bonitas, bem cuidadas.’

Ela estendeu os pregos. ‘Obrigada.’

Ele pegou, olhou com cuidado e devolveu. ‘Melhor se for sem cabeça.’

‘Prego sem cabeça!’

‘Sim. De dezesseis.’

‘Huh?’

‘Pequenos assim.’ Ele mostrou apertando o polegar contra o dedo indicador. ‘Sua marcenaria merece ser cuidada.’

‘Entende mesmo de madeira...’

‘Pai e avô marceneiros.’ Ele sorriu. ‘Tem os pregos?’

‘Huh-huh.’ Ela sacudiu a cabeça. ‘Só esses.’

‘Não.’ Ele desceu da escada. ‘Compra os sem-cabeça e coloca bem no canto, cuidado para não machucar a unha de gato.’ A mulher bonita franziu a testa sob o boné, ele sorriu e acariciou as três ranhuras na lateral da estante. ‘Essas canaletas que terminam em elevação curva são chamadas de ‘unha de gato’, coisa de marceneiro bom, competente.’

Cibele balançou a cabeça recebendo o martelo de volta.

‘Xavier Machado?’ Petrônio insistiu sorrindo seu bom humor. ‘Seu marido? Patrão?’

‘Pai.’ Cibele fechou a escada e ele pegou para ajudá-la a guardar no armário no fundo da loja. ‘Precisa de alguma coisa em especial? Livro de arte ou-’

‘É só com ele mesmo.’

‘Ok.’ Levantou os ombros, agradeceu o cavalheirismo de manobrar a escada pesada, soltou o cabelo do boné e no balcão, ela ligou para o pai pedindo para ele descer. ‘Pode esperar no escritório do fundo.’ Cibele disse mal disfarçando o risinho de deboche. Seu pai ia olhar para o cara, balançar a cabeça e mandar resolver com ela.

Petrônio enfiou as mãos nos bolsos e levantou o rosto para o sol filtrado pela pérgola do grande jardim de inverno ligando a livraria ao escritório por um pátio muito charmoso. O lugar realmente só poderia pertencer a um amante da literatura.

De longe ele viu a mulher bonita tirar livros de uma caixa e arrumar na mesa da frente, sua silhueta tão bonita escondida no macacão jeans que só deixava metade da camiseta justa e os ombros à mostra. Quem diria que a fera loura trabalhava em uma livraria?

O homem barrigudo de cabeça branca entrou por uma porta lateral, beijou a testa da filha adulta e esticou a mão indicando o escritório.

Confortavelmente sentado na cadeira estofada atrás da sua mesa cheia de livros empilhados, Xavier desviou os olhos para o cartão de visitas. ‘Quem me indicou, Petrônio Rocha Leão?’ Perguntou limpando as lentes dos óculos em um lenço que sacou do bolso da calça depois de ouvir a proposta de serviço.

‘Um amigo em comum.’ Petrônio se recostou na cadeira em frente à mesa coberta de papel e livros. ‘Foi muito bem recomendado.’

‘Faço ghost writing, mas não gosto muito.’ Xavier recolocou os óculos no rosto e o lenço no bolso. ‘É trabalhoso e paga mal.’

‘Faça seu orçamento, será honrado.’

‘Seu amigo vai pedir desconto.’

‘Eu vou pagar diretamente.’

Xavier esperou.

‘Sr. Machado, preciso de um serviço primoroso de qualidade inquestionável e isso tem seu preço. Quem pegar esse livro poderá reclamar das revelações, mas não da linguagem e principalmente não de erros gramaticais.’ Petrônio se inclinou apoiando os cotovelos nos joelhos. ‘Sigilo absoluto, faremos um contrato meticuloso.’

‘O quão sigiloso?’

‘Somente você e ele estarão envolvidos.’

‘Sou funcionário público, preciso cumprir horário, minha filha me ajuda.’

‘Consigo licença remunerada para que se dedique a esse projeto especial.’

Xavier levantou as sobrancelhas. ‘Ainda assim Cibele trabalha comigo.’

‘Então, serão vocês três envolvidos.’

‘Você vai pagar, mas não vai ver?’

‘Não.’

O velho meneou a cabeça piscando devagar. ‘Tem habilidade para controlar a curiosidade e a ansiedade a este ponto?’

‘Conheço boa parte do que será revelado, sei que será chumbo grosso. Esse meu...’ Petrônio pausou para escolher o termo correto. Acabou por escolher o mais indicado no momento. ‘Amigo, está me ajudando a me desligar da colocação que exerci por anos e preciso retribuir a gentileza.’

‘E sobre o que seria este livro?’

‘Uma biografia.’

‘De quem?’

‘Um ex-congressista, atualmente age como assessor parlamentar.’

‘Brasília.’

‘Sim.

‘Desculpe-me o ceticismo.’

Ficou claro para Petrônio que a boa vontade do homem requeria alguma explicação (mesmo que frugal). ‘Me dediquei à função similar por uma década, mas este parece ser o momento exato para me desligar. Esse amigo foi meu maior concorrente por muito tempo, agora assume meus clientes e causas.’

‘Imagino que ser assessor parlamentar seja trabalho de prestígio com boa remuneração.’ Xavier investigou. ‘E vai sair.’

‘Sim.’

‘Respeito a discrição, mas me parece duvidoso.’

‘O trabalho de lobista tem essa conotação, é normal pensar assim. No meu caso específico, saio do Planalto no auge da carreira por não gostar do rumo que as coisas estão tomando; quem assume o poder das Casas faz um esquema perigoso. Tenho visto um movimento da Federal que nunca vi antes, Brasília não é mais a mesma. Decidi me dedicar à iniciativa privada.’ Petrônio se recostou novamente. ‘Mas o assunto não sou eu. Podemos acertar todos os detalhes antes que conheça meu amigo e depois vocês decidem se trabalharão juntos.’

‘Tem outras opções em vista? Procure outro, ghost writing não é meu passatempo preferido.’ Xavier prendeu os lábios.

‘Tenho três outros nomes, mas o seu é o primeiro da lista.’

‘Entendo. Cibele?’ Levantou a voz.

‘Pai?’ Ela respondeu da loja.

‘Imprime uma cópia do meu contrato de ghost writer, por favor.’

‘Você não faz mais isso, lembra?’

‘Essa menina é autoritária demais.’ Reclamou sacudindo a cabeça. ‘Pega?’ Insistiu.

Poucos minutos depois estavam no meio da xícara de café expresso quando Cibele entrou no escritório e o pai indicou Petrônio que agradeceu com um sorriso apertado nos lábios.

‘Já conhece minha filha?’

‘Sim.’ Petrônio trocou olhares com ela. ‘Me deu uma surra na semana passada.’

‘Na academia ou na rua?’ O pai riu vendo a expressão no rosto do homem. ‘A incentivei na prática de lutas logo cedo para proteção contra admiradores mais ardentes. Ela sempre foi assim, linda, desde pequena e só tem guarda-costas há pouco tempo.’

‘Olha o respeito, pai!...’ Cibele apontou o dedo e o pai riu mais alto. ‘Não liga, Petrônio. Ele debocha, mas é tão solidário quanto eu; inclusive foi ele quem primeiro deixou Átila usar o banheiro aqui do jardim.’ Ela apontou a porta vermelha em meio a vasos de plantas bem cuidadas. ‘É um homem educado em situação de rua, retribui como pode.’

Sem comentar, Petrônio pensou que o que viu no dia do jogo fazia um pouco mais de sentido. Abaixou os olhos para os papéis e quatro segundos foram suficientes para examinar o contrato de três páginas. ‘É razoável, vou fazer alguns adendos.’

‘Diga quais são e organizamos, eu ou Cibele. Não advogamos, mas temos registro na Ordem.’

‘Melhor.’ Petrônio balançou a cabeça devagar, pálpebras apertadas e olhar vago como se pensando em algo em especial. ‘Vamos cavar uma ação para você ajuizar para ele, assim garantimos confidencialidade.’

‘Está esperando problemas?’

‘Se ele gostar de você, acho que temos potencial para revelações explosivas; vou sondar editoras, quero que ele tenha todas as opções. O que está fazendo por mim vale minha atenção.’

Cibele sentou na janela do jardim de inverno e cruzou os braços. ‘Se são revelações sérias com um viés de opinião, acho que deveria considerar auto publicação.’ Os dois homens focaram nela. ‘Um editor pode ficar com medo de processos, exigir cortes. Ou mesmo ter que prestar contas a algum grupo...’

O pai concordou com a cabeça. ‘Bem pensado, querida. Mas nesse caso ia precisar de divulgação, um serviço de relações públicas competente...’ Se virou para Petrônio. ‘A não ser que a compilação já seja suficiente para catalogar memórias.’

‘Relações públicas e marketing são minha especialidade, minha equipe pode facilmente cuidar disso sem chamar atenção. Somos conhecidos de longa data, seria até esperado que ele me contratasse para essa função.’

‘Resolvido, então.’

‘Vou para Brasília amanhã, depois preciso estar em São Paulo e só devo voltar no final da semana. Antes disso meu assessor vai enviar as cláusulas revisadas, temos um advogado especializado na minha equipe direta.’ Petrônio levantou esticando a mão para o velho. ‘Senhor Machado-’

‘Xavier.’

‘Xavier, espero seu preço. Vou cobrir.’


‘E aí, pai?’ Cibele perguntou depois que o homem havia saído da livraria.

‘Parece uma armadilha.’

‘Por que alguém ia querer te pegar em uma armadilha?’ Sorriu ironicamente. ‘Nem impostos a gente deve!’

‘Pode não ser para mim, mas me usando como instrumento.’

‘Cobra caro, deve ser suficiente para espantar o cara.’

‘É o que você faz com admiradores, exige restaurantes caríssimos?’

Ela deu de ombros. ‘Dá certo.’ E torceu o nariz. ‘Achei que ele estava aqui para me chamar para sair.’

‘Orgulho ferido?’

‘Não exatamente, só fiquei surpresa... Parece um cara sério, né?’

‘Estou desconfiado apesar da aparência de credibilidade.’

‘Declina a oferta logo de cara, pai.’


‘E como fica minha curiosidade?’ Ele sorriu. ‘Vou trabalhar.’ Beijou a testa da filha, pegou o paletó do terno e saiu.


E começaram!...

Depois disso, tem muita estória, muitas rosas, muito amor...
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