& Moira Bianchi: erotismo
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terça-feira, 16 de agosto de 2022

Persuasão: 4 símbolos

olá,

Persusão é uma obra tão rica que eu juntei pesquisa demais para resolver em poucos posts. Ainda tenho muito para postar e ontem, do nada, descubro um segredinho sujo que Jane Austen escondeu de nós!

Young woman with letter - Lionel Baes . Wikicommons

capítulo 12 - logo depois do acidente de Louisa

"A essa altura, a notícia do acidente já havia se espalhado entre os operários e barqueiros ao redor do Cobb, e muitos se aproximaram para serem úteis se pudessem, e pelo menos, apreciar a visão de uma jovem inerte, ou melhor, duas mocinhas inertes, pois isso provou ser duas vezes melhor do que o primeiro relatório. 

Foi decidido que Henrietta era a mais bonita, pois, embora parcialmente recomposta, ela estava bastante indefesa."

pinterest

Percebe o erotismo vindo da submissão feminina?

Eu nunca tinha reparado antes...

Enfim, vamos continuar investigando e aprendendo sobre a última obra que Austen concluiu.

4 Símbolos em Persuasão

~ uma interpretação ~

Woman at piano with cockatoo - Gustave Léonard - 1870

Música

No jantar na Great House em Upercross, enquanto todos dançam, Anne fica em segundo plano. Ocupada e útil, ela toca para dar fundo à diversão dos outros ao invés de dançar e socializar. A música, portanto, representa a solidão de Anne Elliot e reflete seu relacionamento com o capitão Wentworth. 

Veja: capítulo 8. "Anne sofre silenciosamente vendo Wentworth ser banhado na atenção das moças mais jovens “... enquanto seus dedos trabalhavam mecanicamente, tocando por meia hora, igualmente sem erro e sem consciência. Uma vez ela sentiu que ele estava olhando na sua direção, observando suas feições alteradas, talvez, tentando traçar nelas as ruínas do rosto que outrora o encantara; e uma vez ela soube que ele devia ter falado dela; ela mal se deu conta disso, até que ouviu a resposta; então ela teve certeza de que ele havia perguntado à sua parceira se a srta. Elliot nunca dançava? A resposta foi: 

―Oh, não; nunca; ela desistiu de dançar. Ela prefere tocar. Ela nunca se cansa de tocar.”

Assim, ela criou para si um mundo à parte da vida social dos outros, observando os prazeres deles e negando os seus, relegada no canto e sentindo-se diminuída na presença de seu antigo amor que fazia questão de se divertir sendo o centro das atenções das meninas jovens na flor da beleza feminina. O capítulo termina assim:

“Anne não desejava mais desses olhares e discursos (meticulosamente polidos vindos do Capt Wentworth). Sua fria polidez, sua graça cerimoniosa, eram piores que tudo.”

buzzfeed

Ao mesmo tempo, a música representa sua devoção por Wentworth, quase como uma viúva de guerra. Ao se isolar, ela reserva seu coração para ele, e a música, uma alegria comum deles, é uma forma de ela se lembrar do amor que compartilharam uma vez.

Mais tarde no romance, no entanto, a música os une novamente, mesmo que ainda não permanentemente. O encontro deles no concerto no Capítulo 20 é um ponto de virada na história, pois é a música que encoraja Anne a participar do evento e conversar com o Capitão Wentworth. Veja:

“Sir Walter, suas duas filhas e a sra. Clay foram os primeiros de todo o grupo no salão à noite; e como Lady Dalrymple devia ser esperada, eles se posicionaram perto de uma das lareiras na Sala Octogonal. Mas mal eles se acomodaram, a porta se abriu novamente, e o Capitão Wentworth entrou sozinho. Anne era a mais próxima dele e, avançando um pouco, ela imediatamente cumprimentá-lo. Ele estava se preparando para fazer a reverência apenas e seguir em frente, mas o gentil ‘―Como tem passado?’ o fez parar perto dela e conversar educadamente, apesar de seu pai e irmã estarem logo atrás.”

Eles conversam por mais de 3 páginas e comentam da união de Louisa com o Capt Benwick deixando claro que ele nunca teve nenhum (real) interesse na mocinha (apesar de fazer ciúme em Anne por capítulos e capítulos).

Woman in the boat with Parasol (the white parasol) - Edward Cucuel

Navios

CARREIRA & FORTUNA

Navios simbolizam as vidas e destino de vários personagens do romance. 

Para o capitão Wentworth e o almirante Croft, os navios representam seu sustento na forma de carreira na Marinha Real, cercados de riscos e recompensas cercadas de aventuras viris. Ambos falam de navios romanticamente — e com reverência. Quando Wentworth se lembra do Asp, seu diálogo se torna intenso e emocional no Capítulo 8: "Ela fez tudo o que eu queria. Eu sabia que ela faria." 

Como na língua Inglesa, navios são tratados no feminino, essa declaração dele é como se falasse de uma mulher, uma amante. Parece que a tentativa de provocar ciúmes em Anne que ouve o relato que ele faz de suas aventuras no velho navio Asp em silêncio e apavorada pelos riscos que ele passou.

MOBILIDADE SOCIAL

Os navios e a carreira no mar indicam mobilidade ascendente e heroísmo. 

O capitão Wentworth comandou um navio e liderou seus homens durante a guerra, o que lhe trouxe status e fortuna, tornando-o um partido melhor aos olhos de seus conhecidos mais ricos (Lady Russel e os Elliots, por exemplo). 

A carreira militar era uma ótima opção de ascenção social para homens, especialmente em tempos de guerra. Observando seus irmãos, Austen teria tido plena consciência de que o avanço na marinha não era apenas uma questão de mérito. 

No caso de Wentworth, ele ganha sua fortuna capturando navios. Uma vez sob sua posse, ele (como qualquer outro oficial graduado) poderia se apropriar da embarcação, sua tripulação e bens. Além claro, do valor dos seguros. A marinha aproveitava das leis de pirataria e da companhia de privateers (corsários) na sua frota. No jantar em Upercross ele fala disso:

“...e depois de pegar corsários o suficiente para ser muito divertido, tive a sorte de, na minha vinda para casa no outono seguinte, encontrar na fragata francesa que eu queria. Eu a trouxe para Plymouth; e aqui tive outro exemplo de sorte.”

INSEGURANÇA & MEDO

Da associação de Anne com o capitão Wentworth, ela tem conhecimento da marinha, e seu interesse contínuo reflete seu amor por ele apesar de ter consciência de que a vida no mar é incerta e cheia de perigos. Para ela, os navios representam arrependimento e medo pela segurança dele – tanto quando o ouve contar das conquistas como depois de casarem.

FELICIDADE MARITAL

Os navios servem como símbolo do casamento feliz dos Croft, pois a Sra. Croft acompanha o marido em longas viagens. Essa possiblidade faz Anne sonhar com uma vida assim colorida bem distante da mesmice triste que ela vive como moça solteira na casa do pai.

A summer beauty - English School - século 19

Baronetage

O romance começa com Sir Walter com o nariz em um livro: o Baronetage é o único livro que ele lê, basicamente um livro de referência que cataloga essas estranhas criaturas, a nobreza britânica. Veja aqui.

A obsessão de Sir Walter com seu próprio verbete no Baronetage é o equivalente a uma subcelebridade que escreve para si mesma na Wikipédia. O Baronetage simboliza a posição na sociedade que Sir Walter detém e que sua opinião sobre sua importância é maior do que o registro oficial faz.

Seu gosto pelo livro já foi compartilhado por Elizabeth, que também compartilha sua obsessão com a posição, mas não mais porque o livro coloca seu status de solteira em preto e branco e a lembra que falha no que a sociedade dita ser seu principal objetivo na vida: casar com alguém que também está no Baronetage. Elizabeth vê o livro como símbolo de sua própria inadequação mesmo que seja prova de seu status social. 

Interior of drawing room at Wavedon - British school, 1840

Kellynch Hall

Kellynch Hall é mais do que apenas uma casa realmente grande: é a casa mais grandiosa da região, porque pertence à família mais importante da região, os Elliots. A única outra pessoa titulada da vizinhança, Lady Russell, mora em Kellynch Lodge, mostrando a hierarquia social e o tamanho da propriedade. 

E posição social significa mais do que apenas quem entra em uma sala primeiro: significa poder, e Kellynch Hall é um símbolo desse poder. 

De acordo com os velhos costumes feudais, Kellynch é o centro e seus proprietários devem ser responsáveis pelo bem-estar de seu entorno e formar um exemplo moral para todos os outros. Austen já tinha falado disso em Orgulho e Preconceito quando a governanta de Pemberley conta como Mr. Darcy é um senhor piedoso e justo; e ao apresentar Lady Catherine como um tipo de juíza da região de Rosings.

O fracasso dos Elliots em viver de acordo com esses padrões é mais do que decadência individual: eles estão falhando com todos que deveriam ser capazes de seguir sua liderança – sabemos disso porque a humilde Anne que fica presa ao dever de "ir a quase todas as casas da paróquia, como uma espécie de despedida" cap 5. E o fato de serem forçados a sair de Kellynch Hall, e ter que arrendar para os Crofts que não são nobres, simboliza uma mudança social maior em quem está ganhando poder e quem está perdendo. Se essa mudança está destruindo tradições ou trazendo algo novo e melhor é, no entanto, uma questão que Austen em aberto. 


fonte: meus arquivos pessoais, study.com, schmoop, reddit, spark notes, Jane Austen and Animals, wikipedia


O que você acha?

Ainda tem mais nesta maratona de Persuasão?

Tenho um monte mais para te contar, acredite!

Me fala aqui nos comentários o que você está achando.

Aqui você acha minhas PESQUISAS SOBRE JANE AUSTEN , 

inclusive os outros posts de Persuasão

Ebook

Livro físico

Leia no original gratuitamente (domínio público, vários formatos)

Veja o filme de 1995

Veja o filme de 2007

Veja o filme de 2022


aqui está a JUVENÍLIA de Jane Austen na íntegra!

    


 

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Sou Ellen, mas por que não ser Odete Roitman?

Olá,
Neste feriadão super alongado aproveitei para tirar umas férias do fla-flu político das redes sociais para finalizar um volume da série Cupidos em Devon e - tarefa cumprida com louvor - mergulhei nas maratonas. 
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Pleníssima com livro pronto e me dedicando ao hedonismo!
Sobre as crônicas de Frankenstein e de Lizzie Borden provavelmente farei posts depois. 
O nível de piração hj é outro. 
Falarei de... sexualidade feminina.
De novo, Moira?
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Deve ser o algaritmo do Google, toda hora me mostra o mesmo assunto. Fazer o que?
Veja só:


CASO 1: ODETE
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Maratonei os capítulos da semana de Vale Tudo. Já falei que é minha novela favorita de todos os tempos? Então, essa semana, Odete, a melhor vilã da vida, dá um show. Chora, tira o lenço de seda francesa da bolsa, faz mimimi, uma graça. Coitada, foi pega com a boca na botija. 
Armou com seu lover para ele se infiltrar na Paladar, empresa da purgante Raquel Acioli e envenenar a maionese - salada de batata e cenoura. Pausa para rir da ironia dos autores! Deve ser por isso que SEMPRE desconfio de maionese!! Então, Raquel descobriu, desconfiou do novo empregado, um monte de coincidências, acabou indo na TCA (empresa de aviação de Odete) e pegando-a na hora que pagava o pilantra para ele sumir. Um freje!
Os cetinhos purgantes acusam Odete de todos os nomes, usam 'cafetão', 'gigolô', 'michê', 'rapaz que ganha a vida na horizontal'. Era novela das 8 que passava às 8 da noite, né? 
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Odete, acuada, se faz de vítima até conseguir bolar uma escapada e assim que consegue, mostra as garras. A cena que dura uns 3 capítulos termina com ela dizendo para os bonzinhos: 'Vocês podem sair da minha empresa agora quietinhos com o rabo entre as pernas ou esperar a polícia chegar e descobrirem o quão poderosa eu sou.'
Uau, né?


CASO 2: ELLEN
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Comecei depois a maratonar Mr. Selfridge com certa preguiça pq são 4 temporadas longas. Estou adiando essa série faz tempo, é uma das que meu hubs não se interessa, então só verei quando der. Para fugir dela vi o documentário no Netflix mesmo no qual se baseou o seriado, umas 2 horas de duração, que é ótimo. Hubs pegou no meio, me fez recomeçar, adoramos. Sei os spoilers então, sei o que Harry recebe no final (da vida), final e sei que ele merece! Mal pai, mal marido, loko, mas visionário, comerciante de primeira, revolucionário.
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Mesmo assim, ver como ele renega a esposa americana em prol da lover Inglesa artista de teatro dói, irrita, dá raiva. Me peguei torcendo contra a moça que está só defendendo o seu. Ela faz limonada com o limão, pq vamos e venhamos, trabalhar na horizontal não há de ser moleza - perdão pelo trocadilho.


Daí é que veio minha piração. 

Por que imediatamente odiei a amante sem nem conhecer a esposa que mal foi apresentada na série?
Sei o que acontecerá com a amante famosa (as amantes famosas) de Selfridge, mesmo assim me recusei - a princípio - a entender minha miga mulher e ver no explorador homem o problema. A série coloca o empresário visionário como o pobrezinho que só queria vencer na vida seduzido pela harpia e EU CAÍ!...
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Rose e Jenny Dolly, gêmeas, em 1927. 
Por que Odete Roitman só pode ser dona de suas vontades e contratar um michê/garotão/gigolô por ser a vilã? Ela não tem direito de ter um amor? Ou uma companhia que seja?...
Leila se casa com Marco Aurélio por companhia...
Sei que quando ela se apaixonar de verdade, será pelo vilão pilantra mor e aí, bang bang I hit the ground, bang bang that awful sound, bang bang, Leila shot me down... 

CONCLUSÃO que chego: De novo, primeiro nos anos 80 e agora nos 2010, as mulheres ainda são punidas por sua sexualidade. Por ter desejo, gostar do tchaca-tchaca-na-butchaca, usar o que Deus lhes deu, etc, etc.
Chega, né?


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Essa é AMALDIÇOADA por ter desejo... Td bem, é doida. Mas mesmo assim...
Olha, nem vou na Colina Escarlate, filme LIIIINDO, mas oh, que massacre feminino... 
Não, lá não vou.

Enfim, minha piração é como somos manipuladas a, ainda, nos tolir. Como sabem, estou super enfiada na era Vitoriana, agora saindo da metade do século XIX, e vejo cada vez mais que, apesar de todas as muitas modernidades, nas convenções sociais as mulheres são tão tolidas quanto.
Sim, usamos saias mais curtas, decotes maiores, menos camadas, podemos ir a praia quase nuas, trabalhar e escolher não casar. Mas ai de quem quiser ter amante... O que?... Sem namorado fixo?
No epísódio antigo de The Big Band Theory que vi também esse finde - choveu no Rio e não posso correr, estou com o pé machucado - Sheldon faz estimativa de quantos parceiros Penny teve na vida e Amy pergunta na lata: 'Você é uma vagabunda?'





De miga para miga, o preconceito está lá, de cara...

Aff, mais 200 anos para nos livrarmos dessa escravidão?
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esperar sentada, né, migs?
até mais...

aviso: todas as imagens achadas no google em pesquisa: 'victorian lady', 'odete roitman namorado', 'mr selfridge', 'selfridge real lover', 'crimson peak', 'sheldon first date'

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Medos e erotismo na era Vitoriana

olá,
com a chegada do Halloween no final de outubro, festa que é estrangeira para nós e no entanto, tão próxima, somos inundados com estímulos de festa do além. Gosto, admito.


Gosto muito mais de vampiros do que de zumbis.

Daí, quando me deparei com um artigo sobre Drácula de Bram Stocker falando da ligação de vampirismo com os medos da Era Vitoriana, eu achei a conexão muito interessante.

Como sabem, como ando escrevendo muitos romances históricos, envolvidíssima na Era Vitoriana com minha série CUPIDOS EM DEVON que agora está em um momento um tanto periclitante com uma viagem além-mar que desestrutura dois jovens herdeiros em vários níveis, minha cabeça pira com ideias e revoluções e COMO ISSO PODERIA ACONTECER EM MEADOS NO SÉCULO XIX - a brincadeira está aí. 
Nesse artigo fazendo a conexão entre medos comuns à sociedade daquela época, um pouco mais à frente de onde eu estou nos Cupidos, entendemos bastante de como as coisas eram e como chegaram até aqui.

Como no artigo sobre fantasias sexuais ousadas, vou traduzir boa parte, para ler tudo - recomendo - venha aqui. Eu vou comentar em itálicos e juntar com outros assuntos correlatos que acho muito relevantes: Jack o estripador e casas mal-assombradas.


Chegamos no Halloween, estilo Vitoriano.

O vampiro é uma criatura complicada: preso entre a vida e a morte, ao mesmo tempo sedutor e horripilante, figura contraditória da repelente criatura sugadora de sangue que rasteja da sepultura e ao mesmo tempo é uma representação estranhamente sedutora de glamour noturno e sexualidade potente. O conceito horroriza e fascina em medida aparentemente igual, e muito dessa dualidade perversa deriva do mais famoso romance publicado pela primeira vez em 1897. O artigo do British Library considera a forma como 'Dracula' reflete os medos que assombraram a sociedade do final do século 19:
- imigração, 
- promiscuidade sexual 
- degeneração moral
- modernidade.

Ansiedade e o vampiro na Inglaterra vitoriana tardia
Drácula apresenta uma série de contrastes e confrontos entre antigas tradições e novas idéias. Stoker usa a figura do vampiro como uma abreviação velada para muitos dos medos que assombravam a fin de siècle vitoriana. Ao longo do romance, a racionalidade científica é colocada contra o folclore e a superstição; a velha Europa está contra a moderna Londres; e as noções tradicionais de restrição e dever civilizados são ameaçadas a cada passo pela disseminação da corrupção e da depravação desmedida.
Olhe que curioso, o vampiro é figurativo. É um subterfúgio para fazer alusão à situação de insegurança social com todas as revoluções que estavam ocorrendo.
As incursões de Drácula em Londres, sua capacidade de passar despercebido por ruas lotadas carregando seu risco velado tem a ver com a imigração, níveis aumentados de crime e a ascensão de comunidades de gueto. 
Neste ponto, chegamos a Dickens, luxuoso personagem convidado em um determinado nicho dos CUPIDOS, e Oliver Twist. Lá, é mencionada a favela Jacob´s island em Londres.
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Com o avanço das linhas de trem, as demolições para os trilhos e estações, as modernidades, os pobres ficaram cada vez mais pobres. Nos invernos rigorosos, o frio era inimigo muito cruel, tanto quanto a fome e a falta de higiene. Sujeira e degradação era comum, também crimes e insegurança.
Como hoje, um dos trabalhos mais dignos era o doméstico, mas também como hoje, a classe média sofria com crises e falta de grana, então casas com criadagem grande ficavam cada vez mais raras e a figura da maid-of-all-work. Nada incomum hoje em dia, uma funcionária, empregada doméstica para tomar conta da casa toda. Só que não era uma casa moderna, era tudo na dureza...
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Enfim, é na área de favela - diferente da imagem de favela que temos hoje aqui no Brasil e no Rio de Janeiro que é lugar quente - onde acontecerem na verdade os famosos crimes de Jack o estripador. 
Neste site especializado sobre o famoso serial killer (que hoje é fofinho comparado com o que vemos, né non?) você encontra todos e muitos detalhes. Para mim, agora, basta localizar o 'avental de couro' em Whitechapel, mesma área que Drácula e comparar os medos personificados.
Por um tempo se acreditou que Jack era de origem Judaica e que por isso os crimes nunca foram solucionados. O gueto se fechou protegendo a si mesmo, talvez até tenham feito justiça com as próprias mãos. Acho um tanto fantasioso, mas não sou especialista em Jack, nem assisti Ripper Street inteira, assumo. Sorry Mr. Darcy.
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Com isso juntamos os medos em uma ameaça única.
 Jack matava prostitutas - erotismo e luxúria - pobres - instabilidade financeira - que trabalhavam na favela, no gueto - violência- ; poderia ser imigrante ou de origem judaica - imigração. 

Como Drácula.
O vampirão dos vampirões cria vários covis na metrópole, incluindo um em Chicksand Street, Whitechapel - uma área notória pelos assassinatos de Jack, o Estripador de 1888 - e um em Bermondsey, a localização da Ilha de Jacob - o colônia de baixa vida imortalizado por Charles Dickens em Oliver Twist. 
Drácula saiu em 1897, Jack agiu em 1888 e Oliver Twist em 1838 (até é comentado no ótimo seriado Victoria.), é normal que Bram Stocker incluísse no seu romance referências deles. 

O ato do próprio vampirismo, com sua noção de sangue contaminado, sugere o medo de doenças sexualmente transmissíveis como a sífilis e, mais genericamente, o medo de decadência física e moral que muitos comentaristas acreditavam estar afligindo a sociedade. 


Sangue é sexy
Sangue é a essência da vida, o que nos move e recheia, tabu.
Paixão. Na cor, está associado ao coração, vida ou morte. Atrai os instintos primários das pessoas, enquanto outros simplesmente apreciam o elemento doloroso do mesmo.
Emoções. Teoriza-se que as pessoas que gostam de brincar com sangue podem estar subconscientemente deixando escapar emoções não resolvidas. 
Fetiche. Casais têm vida sexual normal durante períodos menstruais, alguns homens vêem como extremamente erótico por causa de todo o aspecto do tabu. Isso também infunde algum tipo de orgulho, saber que eles são "bastante masculinos" para fazer algo que outros são fracos para aguentar. E no BDSM é brincadeira extrema, mais tabu de qualquer tipo de fetiche. Durante uma sessão, usam-se facas ou qualquer coisa afiada para cortar um ao outro, depois espalham o sangue um sobre o outro, bebem ou simplesmente o deixam cair de seus corpos.
Riscos. Contaminação de infecções como o HIV ou qualquer outra DST. É importante fazer testes regularmente.
Responsabilidade. Uma praticante de 'jogos de sangue' diz que há que perceber que o fetiche gera grande responsabilidade e que ela praticou muito com seu bisturi em tomantes vermelhos antes que pudesse usá-lo em uma pessoa real e viva para evitar machucar alguém. Bem, machucar sem ter a intenção, porque tirar sangue é machucar.
Diretrizes. Antes de se envolver em jogos de sangue ou sexo consensual no período atroveram, a pessoa tem que combinar limites, diretrizes, regras até. E ter uma palavra-chave para parar a brincadeira quando chegar no seu ponto. Já falei sobre fantasias sexuais violentas ou ameaçadoras. Leu?
Substituições. Não se precisa fazer cortes ou sangrias, pode-se usar ketchup, vinho tinto ou até mesmo comprar sangue falso. Vale a fantasia.
Não julgais. Fetiches não são nada para se envergonhar, e não se deve julgar alguém que goste de algo diferente. A sexualidade é estranha.
fonte do artigo sobre o interesse sexual das pessoas pelo sangue
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Eric Northman, vampirão de responsa de True blood, Sookie Stackhouse novels.
Recomendo os livros e o seriado.

De volta a Drácula, Mina representa o feminino moralmente correto e respeitável; ela diz que "O conde é um criminoso e, do tipo criminal, Nordau e Lombroso o classificariam" (cap. 25) citando o crítico social húngaro Max Nordau e o criminologista italiano Cesare Lombroso. O primeiro, no seu livro Degeneração havia feito um ataque apaixonado ao que considerava o ar predominante da histeria e do declínio moral na Europa Ocidental baseada na  linguagem pseudo-darwiniana semelhante para analisar a psicologia da mente criminosa do segundo. Era época de dândis afetados,  busca de prazeres e a ascensão e queda de figuras brilhantemente extravagantes como Oscar Wilde, então Stoker deliberadamente alinhou o Conde Drácula com tudo que a respeitável sociedade do fim do período vitoriano consideraria moralmente corrupta. criminoso e perverso.
Um direcionamento perfeito para o vampirismo! Uma alegoria sexual. degenerado e liberado em seus ímpetos! O que se deve evitar a todo custo.


Sexo e a virtude feminina
A literatura vitoriana tende a apresentar a virtude feminina inglesa  ameaçada por vampiros predadores estrangeiros. 
No conto de Sheridan Le Fanu, "Carmilla" (1872), coloca a virtuosa garota inglesa Laura à mercê do predador vampiro da Europa Oriental do título. 
Drácula segue um padrão semelhante. Mina é uma mulher altruísta (que simbolicamente) passa sua lua de mel amamentando seu marido doente em um convento; a bela Lucy, por contraste, é perigosamente moderna. Ambas estão aparentemente em risco, o conde sugere intencionalmente insultando o professor Van Helsing: "Suas garotas que todos vocês amam já são minhas" (cap. 23). Drácula ataca as duas, mas Mina, devido às tradicionais qualidades vitorianas de determinação e lealdade para com o marido, é capaz de resistir aos seus avanços. A Lucy, um pouco mais livre, não tem tanta sorte. Ela personifica o conceito da Nova Mulher - um termo cunhado no final da era vitoriana para descrever mulheres que estavam aproveitando oportunidades educacionais, de emprego recém-disponíveis para se libertar do intelectual, restrições sociais impostas sobre elas por uma sociedade dominada pelos homens. 
Em um ponto Lucy recebe três propostas de casamento no mesmo dia e lamenta ter que recusar duas: 'Por que eles não podem deixar uma garota casar com três homens, ou quantos quiserem, e salvar? todo esse problema? '(cap. 5). A fraqueza moral de Lucy permite que Drácula a ataque repetidamente durante a noite, e apenas uma série de desesperadas transfusões de sangue de cada um de seus ex-pretendentes - um eco simbólico doentio do desejo de Lucy por três maridos (e, portanto, três amantes). enquanto o inevitável.  Para Stoker, o declínio de Lucy do ideal feminino vitoriano para a percepção da naturalidade egoísta da Nova Mulher é completo.
Ela é punida por assumir seus desejos e fantasias, por ter personalidade e ser mulher. Isso também foi feito em outras obras, muitas das que amamos.


Modernidade e degeneração
Como o romance é apresentado sob a forma de cartas, diários e recortes de jornais, ele reforça o método científico de observar e registrar informações como essencial tanto para a estrutura do livro em si quanto para as tentativas de destruir Drácula. 
Partindo desta atmosfera de avanço científico, no entanto, estão os conceitos intangíveis da fé religiosa e do sobrenatural. Usam-se transfusões de sangue em tentativas de manter Lucy viva, mas também flores de alho e crucifixos para segurar o vampiro a baia. Ao longo do romance há uma sensação de que Drácula, com sua capacidade de passar por buracos de fechadura como uma névoa e sua afinidade com morcegos, ratos e lobos, representa o inexplicável; uma força alienígena que a ciência, por si só, não pode derrotar. 
Se perderiam o controle, daí vai-se tudo para o buraco. Com a modernidade, viria a libertinagem, a facilidade de comunicação, de relações interpessoais, a degeneração dos restritos limites sociais da Era Vitoriana.


E o curioso é que, como disse Cazuza, tudo vira um museu de grandes novidades, né?
Hoje em dia, com o Halloween batendo nossa porta, pensamos em vampiros sexys em fantasias (eróticas) bacanas em casas mal-assombradas que são... Mansões vitorianas abandonadas!
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Era modernidade lá, agora é relíquia.
como se chegou nisso?
Diz-se que foi outra revolução, a do modernismo. 
Veja o que diz o Jstor.
Casas vitorianas foram de lares a horrores no começo do século XX quando todas as coisas “vitorianas” sairam da moda. Artistas como Edward Hopper e Charles Ephraim Burchfield começaram a pintar casas vitorianas abandonadas, imbuindo-as de caráter assustador.
Um movimento cultural mais amplo, longe do vitorianismo, “condenava todas as coisas da época vitoriana posterior como feias, excessivas e antiamericanas”. Os telhados de mansarda e detalhes rebuscados eram ridicularizados como indicativos de dinheiro novo e ostentação. Os estudiosos de arquitetura ansiosos por abraçar um novo modernismo jogaram o suposto excesso brega do passado e promoveram boas alternativas como os projetos "puros" de Frank Lloyd Wright.
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Um mestre, eu amo.
Casa da Cascata, 1935.

Depois da Primeira Guerra Mundial, a América deu as costas ao design vitoriano com mais veemência. Soldados que retornavam da guerra na Europa viram a morte nas fábricas antes edificantes e sonhos brilhantes de seus pais vitorianos, e começaram a retratar casas vitorianas como restos fantasmagóricos de um passado corrupto.
Demolir era o mais indicado, medidas extremas para exorcizar os fantasmas, limpar o presente do passado doente e varrer os excrementos imundos da terra. As casas foram despojadas de sua característica aconchegante de outrora. Mas na imaginação, eles começaram a assumir uma nova arquitetura do medo.


Então, nessa salada que fiz aqui, temos uma receita de Halloween perfeito: vampiros, erotismo, degeneração social na medida, cenário favorável.
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bebidinha caprichada no opióide! 
Delícia!

Onde nos encontramos para uns bons drinks vitorianos no dia 31?
bj.

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