& Moira Bianchi: lost in translation
Mostrando postagens com marcador lost in translation. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador lost in translation. Mostrar todas as postagens

sábado, 22 de abril de 2023

Lizzy Bennet não merece perdão

 olá,

hoje eu li uma matéria no The Guardian sobre o manuscrito inacabado que Hilary Mantel, premiada autora de Wolf Hall (entre outros títulos), deixou. A manchete já diz logo que era uma fanfic de Orgulho e Preconceito, então eu me interessei na hora.

Depois vi que era sobre Mary Bennet, a irmã do meio. Perdi 50% do interesse porque Austen nunca quis dar crédito a Mary. Como sei disso? Ora, ela fez uma Bennet sob medida para Mr. Collins, mas casou o primo chato com Charlotte Lucas. Se Mary tivesse papel maior do que ser alívio cômico ao piano ou no zelotismo, ela teria ao menos dado uma doença da moda para a pobre irmã do meio - fez isso com Kitty, não foi?

Aparentemente, Mantel escolheu Mary porque considerava a personagem uma outsider como Cromwell na era Elizabetana. Olha, uma coisa que aprendi em Austenation é que todos somos donos e proprietários de Jane e cada um entende a obra dela como quer. Então, se Mantel queria ver em Mary algo que Austen não colocou, a escolha era dela.

pinterest

Isso me traz ao assunto deste post: subjetividade. 

Para isso, vou te mostrar o trecho divulgado deste manuscrito inacabado de Mantel. Reproduzo o que o Guardian postou na versão original (propriedade de Tertius Enterprises) e em tradução livre feita por mim. 

POVOCATION

An extract from Mantel’s unfinished Austen satire

Elizabeth took her new sister’s silence as a token of profundity. But I myself saw that, compared to Georgiana, my sister was Socrates. And this led me to question, in due course, whether Darcy himself were in command of any significant intellectual power. How often, I believe, we women must suppress the question? A solemn countenance, a grave manner, a pre-occupied frown; these suggest to us a mastering of life’s perplexities born of a habit of deep reflection, and vigorous examination of every fact and circumstance. Yet, but what if the frown means nothing but ill humour? If the grave and pre-occupied air means nothing but insufficiency in the face of whatever circumstances present? What if the long silences, so intimidating to my sex, are merely the consequence of having nothing to say? What if that prevailing solemnity results from a simple failure to see the joke? Reader, to think it is to know it: Darcy was a more harmless soul than we had imagined, and replete with good intentions; his silence in company proceeded, not from a conviction of natural superiority, but from a solid, sterling stupidity, such as an English gentleman alone dares display. When was Darcy ever contradicted? His every assertion was treated as scripture. When were his wishes not performed, as if they were law? Such infallible consideration must divide a man from himself: he is dull but never knows it, for he receives witty answers to witless questions. I saw that it would be Elizabeth’s lifetime work to collaborate with his innocent self-conceit. It is what she will give, in return for being mistress of Pemberley.

“Darcy believes it is going to rain!”– and the whole county must seek cover. “Darcy believes there will be a vote in the house!” and all interested parties are agog. Never mind that the sky is clear. Never mind that Parliament is prorogued. We simple souls will all agree that Darcy has power to perceive what is hidden from us, because he is a man, and a gentleman and has a park that is ten miles round. - fim do trecho.

- tradução livre -

PROVOCAÇÃO

Um trecho da sátira inacabada de Austen por H. Mantel

"Elizabeth interpretou o silêncio de sua nova irmã como um sinal de profundidade. Mas eu mesma vi que, comparada a Georgiana, minha irmã era Sócrates. E isso me levou a questionar, em sequência, se o próprio Darcy tinha comando de algum poder intelectual significativo. Quantas vezes, creio eu, nós, mulheres, devemos suprimir a pergunta? Um semblante solene, uma forma grave, uma carranca preocupada; estas expressões nos sugerem um domínio das perplexidades da vida nascido do hábito de reflexão profunda e exame vigoroso de cada fato e circunstância. No entanto, mas e se a carranca não significar nada além de mau humor? Se o ar grave e preocupado não significa nada além de frustração diante de quaisquer circunstâncias presentes? E se os longos silêncios, tão intimidantes para o meu sexo, forem apenas consequência de não ter nada a dizer? E se essa solenidade predominante resultar de uma simples falha em entender a piada? Leitor, pensar é saber: Darcy era uma alma mais inofensiva do que imaginávamos, e repleta de boas intenções; seu silêncio em companhia provinha, não de uma convicção de superioridade natural, mas de uma estupidez sólida e genuína, como só um cavalheiro inglês ousa exibir. Quando Darcy foi contrariado? Cada afirmação sua foi tratada como sagrada. Quando seus desejos não foram atendidos, como se fossem lei? Tal consideração infalível deve separar um homem de si mesmo: ele é obtuso, mas nunca sabe disso, pois recebe respostas espirituosas para perguntas sem sentido. Percebi que seria o trabalho de toda a vida de Elizabeth colaborar com sua presunção inocente. É o que ela dará em troca de ser a dona de Pemberley.

― Darcy acredita que vai chover! ―  e todo o condado deve procurar abrigo. ― Darcy acredita que haverá uma votação no parlamento! ― e todas as partes interessadas estão ansiosas. Não importa que o céu esteja claro. Não importa que a sessão no Parlamento seja adiada. Nós, almas simples, concordaremos que Darcy tem o poder de perceber o que está escondido de nós, porque ele é um homem, um cavalheiro e tem uma propriedade de dezesseis quilômetros de extensão." fim do trecho

E chegamos onde eu quero: vamos falar de Lizzy.

A divulgação desse trecho (o único polido o bastante para ser divulgado, segundo o viúvo da autora) pode ter várias razões:

  • chamar atenção atacando Mr. Darcy
  • mostrar o humor mordaz da autora
  • vender um feminismo anacrônico que ridiculariza Austen
  • provocar demanda para publicar a obra

Eu não sei se gosto do que li porque Lizzy é vista como uma interesseira que faz tudo para manter sua posição. Eu mesma já comparei Lizzy com Charlotte, elas são lados do mesmo espelho, na minha opinião. Mas o que me incomoda aqui é pintar a impulsividade vibrante de uma como a sagacidade calculada da outra.

aesthetics

Austen não nos apresentou Charlotte com 19 anos, não sabemos se ela gostava de flertar e mostrar sua inteligência, se gabava por ser esperta e julgava todo mundo por esporte. Quando a conhecemos, ela é uma jovem mulher sensata que entende a realidade feminina e precisa lidar com urgência da garantia de sua sobrevivência.

Já Lizzy nos é mostrada na flor da juventude. Vibrante, linguaruda, inconsequente, a estrela brilhante de uma família de garotas cujo patrimônio está atrelado a um herdeiro homem - que não existe. A beleza de Lizzy é justamente enfrentar a vida como se não tivesse o peso da realidade lhe puxando para baixo como uma âncora.

Ao rejeitar Mr. Collins (herdeiro do patrimônio que a sustenta) e depois Mr. Darcy (milionário), ela mostra que é regida pela emoção - reage com o fígado! Se ela pensasse mais objetivamente, teria aceitado qualquer uma das duas, por mais insuportável que fosse a convivência com um homem boçal ou com um arrogante.

Claro, a personagem amadurece (muito) ao longo da trama. Eu considero que ela tem um arco dentro do arco. Te explico. Lizzy começa arrogante e inconsequente, enfrenta desafios, quebra a cara, passa um aperto, faz as pazes consigo mesma e aceita o amor. Esse quebra a cara 'crescimento pessoal' é o arco secundário.


A mudança na personagem começa quando ela recebe a carta de Darcy. Nesta hora, Austen nos mostra claramente o quão errada Lizzy estava, é um tapa na cara!

  • ele é rico e por isso pode arcar com o custo de escrever tanto em papel caro;
  • ele entrega em mãos evitando expô-la já que solteiros honrados não deveria trocar correspondência;
  • ele conta segredos de família dizendo que confia na discrição dela;
  • ele justifica tim-tim por tim-tim a avaliação que fez do comportamento público da família dela;
  • ele avisa que não vai repetir que a ama.
Lizzy reconhece o peso dessa carta, mas nós aqui no século 21 desconhecemos o VALOR dessa comunicação e por vezes, passamos despercebidos. Daí para frente, Austen nos atropela com tantas pistas que nos sentimos humilhados como Lizzy.
Jane volta de Londres contando que nem viu Bingley, as irmãs mais novas fazem mil-e-uma titicas mostrando o quanto são insuportáveis, a tia gente-boa aparece para contar que conhece a família Darcy e fala bem deles e por último, ela aceita viajar com esses tios.
É nessa hora que Lizzy cai de joelhos. Viajar era um luxo na época, os pais dela não conseguem fazê-lo - nem sozinhos, nem com as filhas- então ela viaja na condição de convidada, de carona na diversão dos parentes. É dessa forma que ela conhece Pemberley, a casa de Mr. Darcy. E é nessa hora que ela é condenada para toda a eternidade:

... ela (Lizzy) percebeu que ser Senhora de Pemberley seria incrível!
"she felt that to be mistress of Pemberley might be something!" O&P, cap 43

Nesta fala, Austen nos mostra a epifania de Lizzy.
Caramba! Ele é um cara importante e eu agi como uma troglodita estúpida!
wifflegif

Veja bem, não é que Lizzy pense em DINHEIRO, ela pensa no ORGULHO de ter sido escolhida por um cara que tem tudo, que conhece o mundo, que já deve ter visto e conhecido garotas muito mais inteligentes ou bonitas que ela. É lisonjeiro ser notada por uma pessoa que tem horizonte mais amplo, que sabe mais do que você, que tem perspectiva. Mas ela não viu isso e foi um criança mimada fazendo pirraça.

Ah, Moira, está me dizendo que Lizzy tinha que ter aceitado os desaforos de Darcy?
Não!

Minha versão de O&P, 45 dias na Europa com Sr. Darcy, deixa claro que Lizzy tinha mesmo que fazê-lo engolir cada insulto!
O que quero dizer é que na hora que ela percebe a imponência do homem, ela passa a dar valor ao sentimento dele, mais do que - ou talvez tanto quanto - a fortuna que ele tem. E ela quebra a cara reconhecendo que entendeu tudo errado.
No entanto, para o mundo, Lizzy não merece perdão já que entende-se que ela é uma material girl encantada com dinheiro.
Assim eu te trago de volta ao texto de Mantel. Veja.

"Percebi que seria o trabalho de toda a vida de Elizabeth colaborar com a presunção inocente de seu marido idiota. 
É o que ela dará em troca de ser a dona de Pemberley."

Entendi errado? 
Não era para onde ela ia levar minha querida Lizzy Bennet?

gifer - The Lizzy Bennet Diaries

até mais,
M.

Leia minhas versões respeitosas e fofas de Orgulho e Preconceito

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Golden cage

Hi there!



Lizzy is in turmoil and Darcy is decided to put pressure. 

It´s Pemberley!


How William Darcy persuaded Lizzy Bennett to love again is getting to its final moments and Lizzy is getting really scared. She senses that a time for a decision is drawing close, the rope is getting tighter, and she´s not liking the situation. Although she loves Darcy.
Everyone has had a fork in their roads - maybe there will be many others still - and it's never an easy moment. Decisions taking, paths choosing, life altering. Nope, not easy at all. 

O amor é isso. Não prende, não aperta, não sufoca. 
 Porque quando vira nó, já deixou de ser laço.

Mário Quintana was a master of words, I´m just a fan. Not sure his poetry is really eloquent in my translation.


Love is like this. It doesn't arrest, doesn't press, doesn't choke. 
 Because when it turns into a knot, it's no longer a bond.


I've talked about Lost in translation before, and I always feared getting lost in translation myself. What if I just can´t take a decision and life runs me over? What if I loose my slot? Oh, crap.

These pressured moments are worst when we find ourselves locked in golden cages. Perfect places, lovely situations, hot dates, our own minds... and yet it's no good.

I always thought about Pemberley as the ultimate golden cage in Pride and Prejudice. Darcy's homeland, huge and object of envy but that tied him up. The fact that he spends most of the book away from it, to me, shows that he both loves it and shies away from its restrictions. I´m of the thought that, if not for his father's early death, Mr Darcy would be a playboy cruising his youth untill the time he would have to face the landlord duties. So, 

Pemberley = Darcy´s golden cage


In my fanfic, it's also Lizzy's.

Sigh...
Anyone else lost? Doesn't know what to do?

Let's wait and see...

bj

Amazing songs:
Rest of my life - Michelle Featherstone
Good Riddance - Green day
Landslide - originally Fleetwood Mac's but here in a lovely Glee rendition by Gwyneth Paltrow

Disclaimer: Google's pictures, my words.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Earth shattering moment

AKA the end

OR when she says goodbye


Hello, there.

Yes, Lizzy gathered all her strength and broke up with Mr Darcy.
No need to shave, no one to please. Shattered heart.

I don't wanna be adored
Don't wanna be first in line
Or make myself heard
I'd like to bring a little light
To shine a light on your life
To make you feel loved


I´m not as much as retelling Pride and Prejudice, it´s more like an inspired on story. And i´m not linear either. That´s why Darcy´s letter, Lizzy breaking contact with him and Mr Gardiner bringing them closer is happening now at Chapter 40 of 41.

No, don't wanna be the only one you know
I wanna be the place you call home


Nevertheless, it is an Earth shattering moment. It always is, the moment when lovers break up.

I lay myself down
To make it so, but you don't want to know
I give much more
Than I'd ever ask for


One of the movies I ever watched that can perfectly well picture this moment is 'The end of the affair'. I'm a bit ashamed to say that although I loved it, I only watched the 1999 version with Ralph Fiennes and Julianne Moore and haven´t read the book yet - I plan to start soon. Anyway, when they are caught in a bombing and she thinks he is dead, she prays for a miracle. Once he wakes up, she has to give him up because of the bargain with Heavens. I can always remember her despair at having to leave him.

Will you see me in the end
Or is it just a waste of time
Trying to be your friend
Just shine, shine, shine
Shine a little light
Shine a light on my life
Warm me up again


About loneliness, there´s Lost in translation. Two lonely people finding each other in a place where they felt more out of place, a foreign language, a different culture. 


Fool, I wonder if you know yourself at all
You know that it could be so simple


In spite of the lame casting (Sorry, I did hate it. Edward deserved better, Bella deserved some facial expressions, the Cullens didn´t deserve wigs.) Twilight´s New Moon has a very heart breaking situation when Edward leaves Bella. It is in every way awful. How could he leave us all?

I lay myself down

To make it so, but you don't want to know

You take much more

Than I'd ever ask for

When Derek had to choose between Meredith and his wife, it was a damn sad moment. Everyone had to hold their breath until he did.

Say a word or two to brighten my day

Do you think that you could see your way


Didn´t you world shook, even if just a bit, with Gatsby's when he realizes his love is... in every way wrong and unwanted?

To lay yourself down

And make it so, but you don't want to know

You take much more

Than I'd ever ask for


For us, what is left is wait for closure on the last chapter of 'How William Darcy persuaded Lizzy Bennett to love again.' Mission accomplished. 
Now what, Mr Darcy?
Exquisite lyrics of Hamburg song by Keane.
All images found on Google.