sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Orgulho e Preconceito - Jane Austen parte 4

Orgulho e Preconceito
Jane Austen

parte 4 de 6

31

As maneiras do coronel Fitzwilliam foram muito apreciadas na reitoria. Todas as senhoras acharam que ele contribuiria consideravelmente para alegrar os jantares em Rosings. Passaram-se alguns dias, no entanto, antes que recebessem novo convite, pois havendo visitas em casa, eles não eram mais necessários. E foi só no domingo de Páscoa, quase uma semana depois da chegada dos cavalheiros, que o tal convite foi feito, ao saírem da igreja; assim mesmo foram apenas convidados para ir a Rosings depois do jantar. Durante a última semana não tinham tido quase ocasião de ver Lady Catherine ou a sua filha. O coronel Fitzwilliam tinha estado de visita à reitoria mais de uma vez neste intervalo. Mas Mr. Darcy fora visto apenas na igreja. O convite naturalmente foi aceito e à hora designada eles se reuniram ao grupo que já se encontrava na sala de Lady Catherine. Esta os recebeu amavelmente, mas era evidente que a companhia daquela gente não era nem de longe tão aceitável agora como nos dias em que não havia mais ninguém lá. Lady Catherine era toda atenção com os seus sobrinhos e falava com eles, especialmente com Darcy, muito mais do que com qualquer outra pessoa na sala.
 O coronel Fitzwilliam pareceu realmente contente de vê-los. Em Rosings, tudo o que aparecesse de fora para ele era um alívio bem-vindo e a bela amiga de Mrs. Collins o interessava muito. Sentou-se ao lado dela e falou muito agradavelmente acerca do Kent, do Hertfordshire, de viagens, livros e música; Elizabeth sentiu que jamais se divertira tanto naquela sala; a conversa era tão animada que atraiu a atenção de Lady Catherine, bem como a de Mr. Darcy. Os olhos deste último se voltaram repentinamente para eles com uma expressão de curiosidade; e dentro em pouco tornou-se evidente que Lady Catherine compartilhava dos sentimentos do seu sobrinho, pois exclamou, sem nenhuma reserva:
 — Que é que você estava dizendo, Fitzwilliam? De que é que vocês conversavam? Que é que você estava contando para Miss Bennet? Queria saber o que é.
 — Estávamos falando de música — disse ele, impossibilitado de esquivar uma resposta.
 — De música? Então fale em voz alta. É de todos os assuntos, o meu favorito. Se estão falando de música quero tomar parte na conversa. Creio que existem poucas pessoas na Inglaterra que apreciam mais a música do que eu. Ou que tenham um gosto mais fino. Se eu jamais tivesse aprendido música, seria uma grande intérprete. E Anne também, aliás, se a saúde dela o tivesse permitido. Estou certa de que ela tocaria admiravelmente. Georgiana tem feito muitos progressos, Darcy?
 Mr. Darcy louvou afetuosamente o talento da sua irmã.
 — Estou muito satisfeita com isto — disse Lady Catherine. — Diga-lhe que nunca poderá brilhar se não estudar muito.
 — Eu lhe asseguro, minha tia — replicou ele —, que não precisa de tal conselho. Estuda com muita constância.
 — Tanto melhor. Nunca é demais. E na próxima vez que escrever para ela, recomendarei que não se descuide do seu piano. Eu sempre digo às moças que nenhuma distinção pode ser alcançada sem um estudo constante. Já disse a Miss Bennet várias vezes que nunca tocará realmente bem se não estudar mais. E como não há piano em casa de Mrs. Collins, ela está convidada, como já disse muitas vezes, a vir a Rosings todos os dias estudar piano no quarto de Mrs. Jenkinson. Naquela parte da casa ela não incomodaria a ninguém.
 Mr. Darcy pareceu um pouco envergonhado da grosseria da sua tia e nada respondeu. Depois do café, o coronel Fitzwilliam lembrou a Elizabeth a sua promessa de tocar para ele; e a moça se sentou imediatamente ao piano. Ele aproximou a sua cadeira. Lady Catherine ouviu metade de uma canção e em seguida continuou a conversar como antes com o outro seu sobrinho, até que este último se afastou e, dirigindo-se resolutamente para o piano, colocou-se de maneira a poder observar o rosto da bela executante. Elizabeth percebeu o que estava fazendo e na primeira pausa virou-se para ele e disse, com um sorriso malicioso:
 — É para me assustar, Mr. Darcy, que se aproximou com toda esta imponência? Mas eu não ficarei alarmada, embora a sua irmã toque tão bem. Tenho uma persistência que a vontade dos outros é incapaz de intimidar. Nesses momentos a minha coragem sempre me socorre.
 — Eu não direi que a senhora está enganada — replicou ele —, porque é impossível que acredite realmente que eu tivesse a intenção de alarmá-la. Eu tenho o prazer de conhecê-la já há bastante tempo para saber que gosta muito de exprimir de vez em quando opiniões que de fato não são as suas.
 Elizabeth riu cordialmente com essa descrição da sua pessoa e disse para o coronel Fitzwilliam:
 — Seu primo vai lhe dar uma bela ideia a meu respeito, ensinando-lhe a não acreditar numa só palavra do que eu falo. É uma falta de sorte ter encontrado uma pessoa capaz de expor aos outros o meu caráter real num lugar onde eu tinha tido a esperança de deixar uma boa impressão. Realmente, Mr. Darcy, é uma falta de generosidade da sua parte mencionar aqui tudo o que descobriu sobre as minhas fraquezas no Hertfordshire. E além disso acho a sua atitude muito pouco política, pois me incita a represálias. Neste caso podem sair coisas que escandalizarão os seus parentes.
 — Eu não tenho medo da senhora — disse ele sorrindo.
 — Não deixe de dizer as coisas de que o acusa — exclamou o coronel Fitzwilliam. — Queria saber como é que ele se comporta entre os estranhos.
 — O senhor o saberá. Mas prepare-se para ouvir coisas horríveis. Na primeira vez em que eu o vi no Hertfordshire foi num baile. E nesse baile o que é que o senhor acha que ele fez? Dançou apenas quatro danças. Sinto muito causar-lhe essa desilusão, mas é verdade. Ele dançou apenas quatro danças, embora faltassem cavalheiros. E sei que mais de uma moça ficou sentada por falta de um par. Mr. Darcy, o senhor não pode negar o fato.
 — Naquela ocasião eu não tinha a honra de conhecer outras moças no salão a não ser as do meu próprio grupo.
 — É verdade, e ninguém pode ser apresentado a uma pessoa estranha num salão de baile. Bem, coronel Fitzwilliam, que devo eu tocar agora? Meus dedos esperam a sua ordem.
 — Talvez — disse Darcy — eu teria feito melhor se houvesse solicitado uma apresentação. Mas eu me considero malqualificado para me recomendar pessoalmente aos estranhos.
 — Devemos perguntar a seu primo a razão para isto — disse Elizabeth, continuando a se dirigir ao coronel Fitzwilliam. — Devemos perguntar-lhe por que um homem bem-educado e sensato, que tem a experiência do mundo, está malqualificado para se recomendar às pessoas estranhas?
 — Posso responder a sua pergunta sem consultá-lo — respondeu Fitzwilliam. — E porque ele não quer se dar ao trabalho.
 — É certo que eu não tenho um talento que muita gente possui — disse Darcy —: o de conversar facilmente com pessoas que não conheço. Não consigo encontrar o tom apropriado nem me fingir interessado pelos assuntos dos outros, como vejo acontecer frequentemente.
 — Meus dedos não se movem sobre este instrumento de uma maneira tão magistral quanto os de muitas outras mulheres. Eles não têm a mesma força e a mesma rapidez, nem possuem a mesma força de expressão. Mas disso eu sempre me acusei como de um defeito. Porque eu nunca me dei ao trabalho de estudar; não é que eu não acredite que os meus dedos sejam inferiores aos de outra qualquer mulher.
 Darcy sorriu e disse:
 — Tem toda a razão. Empregou o seu tempo muito melhor. Ninguém que tenha tido o privilégio de ouvi-la pode pensar que lhe falta alguma coisa. Nenhum de nós dois executa para os estranhos.
 Nesse momento foram interrompidos por Lady Catherine, que perguntou qual era o assunto da conversa. Elizabeth imediatamente recomeçou a tocar. Lady Catherine se aproximou e depois de ouvir durante alguns minutos, disse para Darcy:
 — Miss Bennet não estaria tão fora de forma se estudasse mais e tivesse a vantagem de ter um professor de Londres. Ela articula bem, mas não tem tanta expressão quanto Anne. Anne seria uma pianista notável se a sua saúde tivesse permitido.
 Elizabeth olhou para Darcy, para ver como ele acolhia aquele elogio à sua prima; mas nem naquele momento, nem em outra qualquer ocasião pôde discernir qualquer sintoma de amor. E a julgar pela atitude geral de Mr. Darcy, Elizabeth pôde fazer a seguinte reflexão consoladora para Miss Bingley: que se esta fosse também sua prima teria a mesma possibilidade de se casar com ele.
 Lady Catherine continuou com as suas observações sobre a execução de Elizabeth, alternando-as com conselhos sobre técnica e expressão. Elizabeth os recebeu com toda a paciência e amabilidade; e a pedido dos cavalheiros, continuou tocando, até que a carruagem de Lady Catherine foi chamada a fim de conduzir as visitas para casa.

32

No dia seguinte, de manhã, Elizabeth estava sentada sozinha escrevendo para Jane, quando a campainha da porta a fez sobressaltar-se. Mrs. Collins e Maria tinham ido fazer compras na aldeia. Como Elizabeth não tinha escutado nenhuma carruagem se aproximar, pensou que provavelmente a visita seria Lady Catherine e, apreensiva, estava escondendo a carta que escrevia, a fim de escapar a perguntas indiscretas, quando a porta se abriu e Mr. Darcy, sozinho, entrou na sala.
 Ele pareceu também surpreendido ao encontrá-la só. Desculpou-se pela sua intrusão, dizendo que pensava estarem todas as senhoras em casa.
 Em seguida sentaram-se e, depois das perguntas de estilo, estavam a ponto de cair num silêncio total. Era absolutamente necessário, pois, encontrar assunto. E nessa emergência, Elizabeth, lembrando-se da última vez que o vira no Hertfordshire, e curiosa de saber o que ele diria para justificar a sua súbita partida, observou:
 — Com que rapidez todos partiram de Netherfield em novembro passado, Mr. Darcy! Deve ter sido uma surpresa muito agradável para Mr. Bingley revê-los todos tão cedo depois que partiu. Se não me engano, ele saiu no dia anterior, não? Espero que o tenha deixado bem, a ele e a suas irmãs, agora quando deixou Londres.
 — Perfeitamente, obrigado.
 Elizabeth compreendeu que não receberia outra resposta. E depois de uma curta pausa, acrescentou:
 — Se não me engano, ouvi dizer que Mr. Bingley não tenciona voltar mais a Netherfield.
 — Nunca ouvi dizer tal coisa; mas é provável que ele passe lá muito pouco tempo, de cada vez, daqui para o futuro. Ele tem muitos amigos e está numa idade em que os amigos e os compromissos aumentam continuamente.
 — Se ele tenciona ficar tão pouco em Netherfield seria melhor para a vizinhança que desistisse inteiramente do lugar. Pois neste caso outra família poderia se instalar lá. Mas talvez Mr. Bingley a tenha tomado pensando menos na conveniência dos vizinhos do que na sua própria. E naturalmente não devemos esperar que se guie agora por outros princípios.
 — Eu não ficaria surpreso se ele passasse a propriedade a outros assim que se oferecesse uma oportunidade vantajosa — respondeu Darcy.
 Elizabeth não respondeu. Tinha medo de falar mais longamente sobre Mr. Bingley. E nada mais tendo a dizer, resolveu deixar a cargo de Mr. Darcy o trabalho de encontrar um novo assunto.
 Ele percebeu aquela intenção e logo começou:
 — Esta casa parece muito confortável. Creio que Lady Catherine a reformou bastante depois da vinda de Mr. Collins.
 — Acredito que sim. E estou certa de que ela não poderia ter dispensado a sua bondade a uma pessoa mais reconhecida.
 — Mr. Collins parece ter tido muita sorte na escolha da esposa.
 — Realmente. Seus amigos têm motivos para satisfação, pois ele encontrou uma das poucas mulheres sensatas que o teriam aceito. E tendo-o aceito, capaz de torná-lo feliz. A minha amiga é muito compreensiva, e embora eu não considere o seu casamento com Mr. Collins o seu ato mais ajuizado, reconheço no entanto que parece perfeitamente feliz. E considerando as coisas com prudência, parece de fato que ela fez um bom casamento.
 — Deve ser certamente muito agradável para ela ter a sua casa a uma distância relativamente tão curta da sua família e dos seus amigos.
 — O senhor chama isto uma distância curta? São quase cinquenta milhas.
 — E o que são cinquenta milhas numa boa estrada? Pouco mais do que meio dia de viagem. Considero isto uma distância fácil.
 — Nunca consideraria a distância como uma das vantagens do casamento — exclamou Elizabeth. — Eu jamais teria dito que Mrs. Collins está instalada perto da sua família.
 — É uma prova da sua afeição pelo Hertfordshire. Qualquer lugar que não se encontre nas proximidades de Longbourn deve lhe parecer longínquo.
 Enquanto falava, havia nele uma espécie de sorriso que Elizabeth julgou compreender. Devia supor que ela estava pensando em Jane e enrubesceu, ao responder:
 — Não quero dizer com isto que uma mulher não deva morar um pouco longe da família. O longe e o perto são relativos e dependem de várias circunstâncias. Quando existe fortuna e as despesas de viagem são pouco importantes, as distâncias não têm inconveniência. Mas este não é o caso aqui. Mr. e Mrs. Collins têm um rendimento que lhes permite uma vida confortável, porém não é suficiente para viagens frequentes. Estou persuadida de que minha amiga só se consideraria perto da família se morasse na metade da atual distância.
 Mr. Darcy aproximou um pouco a sua cadeira e disse:
 — Mas a senhora não tem direito de ser tão bairrista. A senhora não pode ter morado sempre em Longbourn.
 Elizabeth olhou para ele, surpresa.
 Mr. Darcy pareceu mudar de ideia. Recuou a cadeira, tomou um jornal em cima da mesa e percorrendo-o, num tom mais frio:
 — Agrada-lhe o Kent?
 Seguiu-se um curto diálogo sobre o condado, calmo e conciso de ambas as partes, que a chegada de Charlotte e da sua irmã, um pouco depois, veio interromper. O tête-à-tête pareceu surpreendê-las. Mr. Darcy relatou o engano que ocasionara a sua intrusão, e depois de ficar sentado mais alguns minutos sem dizer quase nada, foi-se embora.
 — Qual pode ser a significação dessa visita? — disse Charlotte, depois que ele partiu. — Minha cara Eliza, ele deve estar apaixonado por você. Sem o que nunca nos teria visitado dessa forma pouco cerimoniosa.
 Mas quando Elizabeth contou que ele ficara em silêncio, a hipótese não pareceu muito plausível, mesmo para Charlotte que a desejava. E depois de várias conjeturas, elas supuseram afinal que a visita era devido apenas à dificuldade de encontrar ocupação, coisa que naquela época do ano não era nada de estranhar. Todos os jogos em campo aberto estavam fora de questão. Dentro de casa havia Lady Catherine, livros e uma mesa de bilhar. Mas os cavalheiros não podem ficar sempre trancados dentro de casa; e fosse porque a reitoria era tão próxima, ou porque a caminhada fosse agradável, ou os seus moradores interessantes, o fato é que os dois primos se acharam tentados a caminhar até lá quase todas as manhãs. Eles chegavam em horas diferentes, ora juntos, outras vezes separados, e de vez em quando acompanhados pela sua tia. Era evidente para todos que o coronel Fitzwilliam vinha porque achava agradável a companhia dos habitantes de Hunsford, coisa que naturalmente o recomendava ainda mais. E a satisfação que Elizabeth experimentava ao vê-lo, bem como aquela com que recebia a sua evidente admiração, lembrava-lhe o seu antigo favorito George Wickham. E embora, ao compará-los, visse que havia menos doçura cativante nas maneiras do coronel Fitzwilliam, acreditava que ele fosse dos dois o mais culto.
 Era mais difícil compreender por que Mr. Darcy vinha tão frequentemente à reitoria. Não podia ser pela companhia, pois ficava a maior parte do tempo calado, às vezes durante dez minutos seguidos. E quando falava, parecia fazê-lo mais pela dura obrigação de ser polido do que por prazer. Raramente parecia ficar de fato animado. Mrs. Collins não sabia o que fazer com ele. E o fato do coronel Fitzwilliam caçoar ocasionalmente da casmurrice do seu primo, provava que havia mudado; o pouco que Charlotte sabia a respeito de Mr. Darcy não era suficiente para que compreendesse, por si, este fato. Teria ficado satisfeita se descobrisse que esta mudança era o efeito do amor, e o objeto daquele amor a sua amiga Eliza. Portanto dispôs-se seriamente a encontrar a causa daquela mudança. Observava-o todas as vezes que o encontrava em Rosings, ou quando ele vinha a Hunsford, mas sem grande sucesso. Ele olhava decerto bastante para a sua amiga, mas a expressão daquele olhar era duvidosa. Era um olhar sério, fixo, e Charlotte perguntava muitas vezes se havia realmente nele alguma admiração. Outras vezes, parecia-lhe apenas um olhar distraído. Uma ou duas vezes sugerira a Elizabeth a possibilidade de Mr. Darcy se achar interessado por ela, mas esta sempre ria de semelhante ideia. E Mrs. Collins achou que era melhor não despertar esperanças que pudessem acabar em desapontamento; pois na sua opinião, toda a relutância da sua amiga se desvaneceria no momento em que o supusesse em seu poder.
 Nos planos afetuosos que às vezes fazia para Elizabeth, pensava em casá-la com o coronel Fitzwilliam; ele era, sem comparação, o mais agradável dos dois. Era evidente que sentia admiração por Elizabeth, e a sua situação na vida era das melhores; mas para contrabalançar as suas vantagens, Mr. Darcy tinha uma influência considerável na igreja, e seu primo não podia ter nenhuma.

33

Mais de uma vez, durante os seus passeios pelo parque, Elizabeth teve a surpresa de se encontrar com Mr. Darcy. Ela percebeu a perversidade do acaso, que o trazia aonde ninguém mais costumava aparecer. E para impedir que isto tornasse a suceder, deu-se ao trabalho de preveni-lo de que aqueles passeios constituíam um dos seus hábitos favoritos. Achou muito estranho portanto que o acaso se repetisse uma segunda vez, e mesmo uma terceira. Parecia o efeito de uma vontade maléfica, ou então de uma voluntária mortificação, pois nessas ocasiões Mr. Darcy não se limitava a fazer simples perguntas de cortesia, e depois de uma pequena pausa embaraçosa ir embora; ele voltava sobre os seus passos e a acompanhava. Falava pouco e Elizabeth não se dava ao trabalho de ouvi-lo com muita atenção. Mas da terceira vez, Mr. Darcy lhe fez umas perguntas estranhas e desconexas, sobre o prazer de estar em Hunsford, o gosto que ela parecia encontrar naqueles passeios solitários, e a opinião de Elizabeth sobre a felicidade do casal Collins; e disse também que, por falar em Rosings, e já que parecia que ela não compreendia bem aquela casa, esperava que quando voltasse novamente para o Kent fosse hospedar-se lá também. Era isto que as suas palavras pareciam subentender. Estaria ele pensando no coronel Fitzwilliam? Elizabeth pensou que se aquilo fosse uma indireta tal seria o seu sentido mais provável. Ficou um pouco perturbada e deu graças a Deus porque naquele instante estavam se aproximando do portão da reitoria.
 Certo dia em que Elizabeth estava caminhando, relendo a última carta de Jane, especialmente um determinado trecho que parecia provar que Jane estava deprimida, viu, ao levantar os olhos, que se encontrava diante do coronel Fitzwilliam, e não de Mr. Darcy, como ela tinha suposto. Guardando a carta imediatamente e forçando um sorriso, disse:
 — Eu não sabia que o senhor costumava passear por esses lados.
 — Estive fazendo a volta do parque — respondeu ele —, como o faço todos os anos, e tencionava encerrá-la com uma visita à reitoria. Tenciona ir mais adiante?
 — Não, eu ia voltar logo.
 E dizendo isto virou-se. Juntos voltaram até a casa.
 — Está mesmo decidido a deixar o Kent sábado? — perguntou Elizabeth.
 — Sim, a menos que Darcy torne a adiar a partida. Estou a seu dispor. Ele que decida como lhe aprouver.
 — Ele parece ter grande prazer em exercer a faculdade de escolha. Não conheço ninguém que pareça ter tanto prazer em fazer as suas vontades como Mr. Darcy.
 — É verdade, ele gosta mesmo de fazer o que quer — respondeu o coronel Fitzwilliam. — Mas todos nós gostamos. Somente, ele tem em geral mais meios de realizar os seus desejos do que o comum dos homens. Falo com sinceridade. Como filho caçula, tenho que estar preparado para o sacrifício e a obediência.
 — Na minha opinião o filho mais moço de um nobre pouco sabe a respeito dessas virtudes. Agora fale seriamente, que é que o senhor sabe a respeito do sacrifício e da obediência? Quando foi o senhor impedido, por falta de dinheiro, de se locomover livremente ou de obter as coisas que desejava?
 — Isto são perguntas privadas. E talvez eu não possa dizer que tenha experimentado muitas dificuldades desta natureza, mas em outras questões de importância, é possível que eu sofra falta de dinheiro. Os filhos mais moços não podem se casar como desejam.
 — A não ser que se apaixonem por mulheres ricas e eu creio que muitas vezes isto acontece.
 — O hábito que temos de gastar dinheiro nos torna dependentes demais. E não há muitos na minha situação que se podem casar sem considerar a questão monetária.
 “Será isto uma indireta para mim?” — pensou Elizabeth. E esta ideia fê-la enrubescer; mas, dominando-se, disse, num tom alegre:
 — E diga-me, qual é o preço usual para o filho mais moço de um nobre? A não ser que o irmão mais velho seja muito doente, não creio que possam exigir além de cinquenta mil libras.
 Ele respondeu no mesmo tom e o assunto morreu. Para interromper um silêncio que poderia fazer crer ao coronel que ela se sentira afetada pelo que acabavam de dizer, Elizabeth disse, pouco depois:
 — Imagino que o seu primo deve tê-lo trazido consigo com o intuito principal de ter alguém à sua disposição. Não sei por que não se casa. Teria desse modo uma pessoa sempre à sua disposição. Mas talvez a sua irmã preencha esses requisitos no momento. E como ela se encontra sob os seus cuidados exclusivos, Mr. Darcy pode fazer com ela o que quiser.
 — Não — disse o coronel Fitzwilliam —, esta é uma vantagem que tem que compartilhar comigo. Exerço juntamente com ele a tutela de Miss Darcy.
 — Ah, sim? Diga-me, que espécie de tutores são os senhores? A sua tutelada lhes dá muito trabalho? As moças naquela idade são às vezes difíceis de governar. E se ela possui o verdadeiro espírito dos Darcy, deve ser voluntariosa.
 Enquanto falava, Elizabeth via que o coronel estava olhando para ela seriamente e pela maneira com que lhe perguntou pouco depois por que é que supunha que Miss Darcy lhes pudesse causar preocupações, ficou convencida de que tinha chegado próximo à verdade.
 Elizabeth respondeu diretamente:
 — Não precisa se assustar. Nunca ouvi nada de mal a seu respeito. E ouvi dizer até que é uma das pessoas mais tratáveis do mundo. Duas senhoras minhas conhecidas gostam muito dela: Mrs. Hurst e Miss Bingley. Penso que já ouvi o senhor dizer que também as conhece.
 — Conheço-as um pouco. O irmão delas é um cavalheiro muito agradável e bem-educado. É um grande amigo de Darcy.
 — Oh, sim — disse Elizabeth, secamente. — Mr. Darcy é muito atencioso para com Mr. Bingley. Tem um cuidado realmente prodigioso com ele.
 — Sim, acredito realmente que Darcy cuide de certas coisas dele que na verdade precisam de cuidados. Por um fato que ele citou durante a nossa viagem para cá, tenho razões para pensar que Bingley deve muita coisa a Darcy. Mas tenho de desculpar-me com ele, pois não tenho o direito de pensar que Bingley seja a pessoa a que se refere a história. E uma simples conjetura.
 — Qual é essa história?
 — É um caso que Darcy naturalmente não pode desejar que se espalhe, pois se chegasse aos ouvidos da família da moça poderia ser uma coisa desagradável.
 — Pode ficar certo de que nunca falarei a este respeito.
 — E lembre-se que não tenho muitas razões para supor que esta pessoa seja Bingley. O que ele me contou foi apenas o seguinte: que se felicitava a si mesmo por ter salvo um amigo dos inconvenientes de um casamento dos mais imprudentes, mas sem mencionar nomes ou outros quaisquer detalhes. E eu suspeitei que fosse Bingley, apenas porque acredito que é desses rapazes que se metem em aventuras dessa espécie e porque sei que eles estiveram juntos durante todo o verão passado.
 — E Mr. Darcy apresentou os motivos dessa interferência?
 — Compreendi que havia objeções muito fortes contra a moça.
 — E de que artifícios usou para separá-los?
 — Ele não me falou a respeito dos artifícios que tinha usado — disse Fitzwilliam sorrindo. — Disse-me apenas o que acabo de lhe contar.
 Elizabeth não respondeu e continuou a andar, com o coração repleto de indignação. Depois de observá-la durante alguns instantes, Fitzwilliam perguntou-lhe por que estava tão pensativa.
 — Estive pensando no que acaba de me contar — disse ela. — A conduta do seu primo não se coaduna com os meus sentimentos. Por que é que ele se arrogou o direito de julgar?
 — Parece que a senhora está disposta a considerar a interferência dele inoportuna.
 — Não sei com que direito Mr. Darcy pode decidir a respeito da legitimidade das inclinações do seu amigo, ou baseado apenas no próprio julgamento determinar de que maneira aquele amigo poderia ser feliz. Mas — continuou, voltando a si —, como não conhecemos as circunstâncias, não é justo condená-lo. Não suponho que existisse grande afeição naquele caso.
 — A suposição não é improvável — disse Fitzwilliam —, porém diminui bastante o triunfo do meu primo.
 Estas palavras foram ditas em tom de gracejo; mas pareceu a Elizabeth que traçavam um retrato tão justo de Mr. Darcy que resolveu refrear a sua resposta. E portanto, mudando abruptamente de assunto, falou de coisas indiferentes até que chegaram à reitoria. Aí, logo depois que o visitante partiu, ela se trancou no quarto para pensar sem interrupção em tudo o que tinha ouvido. Não era de supor que fossem outras as pessoas envolvidas. Não poderiam existir no mundo dois homens sobre os quais Mr. Darcy exercesse um domínio tão absoluto. Nunca duvidara de que ele tivesse tido a sua parte nas medidas que tinham sido adotadas para separar Mr. Bingley de Jane. Mas sempre atribuíra a Miss Bingley a iniciativa do plano e a parte mais importante da execução. Se ele não tivesse sido portanto iludido pela sua própria vaidade, Mr. Darcy, com o seu orgulho e seu capricho era a causa de tudo o que Jane tinha sofrido. Ele tinha arruinado por algum tempo todas as esperanças de felicidade para o coração mais afetuoso e mais generoso do mundo. E ninguém poderia dizer quão duradouro era o mal que tinha causado.
 Havia objeções muito fortes contra a moça, tais tinham sido as palavras do coronel Fitzwilliam. E estas fortes objeções eram provavelmente as seguintes: o fato dela ter um tio que era advogado no campo e outro que era comerciante em Londres. “Contra Jane em pessoa”, pensou, “não poderia haver possibilidade de objeção. Ela é toda doçura e bondade. É inteligente, educada e suas maneiras são cativantes. Nada pode ser objetado tampouco contra meu pai, que embora um pouco excêntrico, tem qualidades que nem Mr. Darcy pode desdenhar. E uma respeitabilidade que ele provavelmente nunca alcançará.” Quando pensava na sua mãe, com efeito a sua confiança declinava um pouco. Mas não era crível que quaisquer objeções desse gênero pesassem aos olhos de Mr. Darcy, cujo orgulho, pensou Elizabeth, seria mais facilmente ferido pela falta de importância das relações do seu amigo do que pela falta de senso dessas mesmas pessoas. E finalmente Elizabeth chegou à conclusão de que Mr. Darcy se deixara levar em parte pelo seu desmedido orgulho e em parte pelo desejo de reter Mr. Bingley para sua irmã. As agitações e as lágrimas que o assunto causara trouxeram a Elizabeth uma dor de cabeça que à noite se agravou. Esta circunstância e a sua repugnância em ver Mr. Darcy determinaram-na a não acompanhar as suas primas a Rosings, onde deviam tomar chá. Mrs. Collins, vendo que ela realmente não estava bem, não insistiu, impedindo o mais que pôde o seu marido de insistir. Mr. Collins não pôde esconder a sua apreensão de que Lady Catherine se mostrasse aborrecida por Elizabeth ter ficado em casa.

34

Depois que os seus amigos partiram, Elizabeth, como se tencionasse exasperar-se o mais que podia contra Mr. Darcy, escolheu como ocupação a leitura de todas as cartas que Jane lhe enviara, desde que ela, Elizabeth, estava no Kent. Essas cartas não continham nenhuma queixa expressa. Não relembravam acontecimentos passados nem comunicavam sofrimentos presentes. Mas em todas elas, em quase cada linha, sentia-se a falta daquela animação que sempre caracterizara o estilo de Jane, e que procedia da serenidade de um espírito tranquilo e bem-disposto para consigo mesmo e para com todos. Elizabeth observou com uma atenção que não tivera durante a primeira leitura cada frase que traía alguma inquietude. A vergonhosa jactância de Mr. Darcy a respeito dos sofrimentos que ele pudera causar fazia com que sentisse mais agudamente os sofrimentos da sua irmã. Era um consolo pensar que a sua visita a Rosings terminaria daí a dois dias. E outro, ainda maior, a ideia de que em menos de 15 dias ela estaria novamente junto de Jane, preparada para contribuir com toda a afeição de que era capaz para o restabelecimento da sua tranquilidade.
 Não podia pensar na partida de Darcy sem se lembrar de que o primo também iria com ele. Mas o coronel Fitzwilliam dera a entender claramente que não tinha nenhuma intenção em relação a ela e, embora fosse um homem agradável, Elizabeth não estava disposta a ficar triste por sua causa.
 Decidira este ponto, quando teve a sua atenção despertada pelo som da campainha da porta. A princípio ficou um pouco emocionada com a ideia de que pudesse ser o coronel Fitzwilliam, que já uma vez aparecera tarde à noite, e que viesse agora para se informar da sua saúde. Mas esta ideia foi logo banida e a sua emoção foi inteiramente diversa quando viu com imensa surpresa Mr. Darcy entrar na sala. Ele começou apressadamente a fazer perguntas sobre a sua saúde, atribuindo a sua visita ao desejo de se tranquilizar. Ela respondeu com fria amabilidade. Darcy ficou sentado durante alguns instantes e depois, levantando-se, pôs-se a caminhar pela sala. Elizabeth ficou espantada, mas não disse nada. Depois de um silêncio de alguns minutos, aproximou-se agitado, e disse:
 — Em vão tenho lutado comigo mesmo; nada consegui. Meus sentimentos não podem ser reprimidos e preciso que me permita dizer-lhe que eu a admiro e amo ardentemente.
 O espanto de Elizabeth não teve limites. Olhou fixamente para ele, enrubesceu, duvidou e ficou calada. Mr. Darcy considerou esta atitude com um encorajamento e imediatamente fez-lhe a confissão de tudo o que sentia e já desde há muito vinha sentindo. Declarou-se bem, mas através das suas palavras outros sentimentos além dos do coração podiam ser percebidos. E ele não falava com mais eloquência da sua ternura do que do seu orgulho. O sentimento da inferioridade de Elizabeth, do rebaixamento que aquele amor constituía, os obstáculos de família que a razão sempre opusera à inclinação foram descritos com um ardor que parecia devido ao seu amor-próprio ferido, mas que recomendava muito pouco as suas pretensões.
 Apesar da sua profunda antipatia, Elizabeth não podia deixar de ficar desvanecida pela afeição de um tal homem. E embora as suas intenções nem por um só instante mudassem, a princípio teve pena de ser obrigada a lhe causar uma tal decepção. Mas as palavras seguintes de Mr. Darcy tornaram a provar o seu ressentimento. Encolerizada, perdeu toda a compaixão. Procurou no entanto dominar-se, para responder com paciência, assim que ele acabasse de falar. Ele concluiu descrevendo-lhe a força daquela afeição que, apesar dos seus esforços, não conseguira dominar. E exprimiu a sua esperança de que essa afeição seria agora recompensada pela aceitação de Elizabeth. Enquanto Mr. Darcy falava, era evidente para Elizabeth que ele não duvidava de que a resposta fosse favorável. Ele falava em apreensão e ansiedade, mas o seu rosto exprimia realmente a certeza. Isto ainda a exasperou mais, e quando terminou, o sangue subiu ao rosto de Elizabeth, que disse:
 — Em casos como estes creio que é costume estabelecido exprimir a nossa gratidão pelos sentimentos que nos são confessados, embora esses sentimentos não possam ser retribuídos. É natural que essa gratidão seja sentida. E se eu a experimentasse agora, eu lhe agradeceria. Mas eu não posso desejar e nunca desejei a sua boa opinião e aliás o senhor a confere a mim contra a sua vontade. Sinto muito ter de causar decepção a qualquer pessoa, não o faço de propósito, entretanto espero que ela será de curta duração. Os sentimentos que, segundo o senhor me disse, o impediram durante muito tempo de reconhecer a sua afeição hão de socorrê-lo facilmente depois da presente explicação.
 Mr. Darcy, que estava apoiado contra a lareira, com os olhos fixos no rosto de Elizabeth, parecia receber as suas palavras com tanta surpresa quanto ressentimento. O seu rosto se tornou pálido de cólera e a perturbação era visível em cada um dos seus traços. Ele lutava para dar aos seus gestos uma aparência de calma e não queria falar antes de ter conseguido o que desejava. A pausa era insuportável para Elizabeth. Afinal, numa voz em que transparecia o esforço para torná-la calma, respondeu:
 — E esta é a única reposta a que eu tinha direito e com a qual tenho de me contentar! Desejaria talvez que me informasse por que sou assim rejeitado, sem a menor tentativa de cortesia da sua parte. Mas isto tem pouca importância.
 — Por minha vez, eu poderia perguntar — replicou ela — por que, com o intuito tão evidente de me ofender e de insultar, o senhor resolveu dizer que gostava de mim contra a sua vontade, contra a sua razão e mesmo contra o seu caráter? Não é essa uma escusa suficiente para a minha falta de cortesia? Se é que realmente eu cometi essa falta... Mas tenho outros motivos para me sentir ferida. E o senhor bem o sabe. Mesmo que os meus sentimentos não lhe fossem contrários, se lhe fossem indiferentes ou mesmo favoráveis, o senhor acha que qualquer consideração me inclinaria a aceitar um homem que arruinou talvez para sempre a felicidade de uma irmã querida?
 Enquanto ela pronunciava estas palavras, Mr. Darcy mudou de cor. Mas a emoção foi curta e ele continuou a ouvir sem tentar interrompê-la.
 — Tenho todas as razões do mundo para pensar mal do senhor — prosseguiu Elizabeth. — Nenhum motivo poderá escusar o ato injusto e mesquinho que praticou. O senhor não ousará negar que foi o meio principal, senão o único, de separar aquelas duas pessoas e de expô-las à censura e ao ridículo do mundo, uma delas por capricho e instabilidade, outra pela decepção das suas esperanças, causando-lhe um grande mal.
 Fez uma pausa e viu, com grande indignação, que ele a ouvia com ar de quem não sentia o menor remorso. Olhou mesmo para ela com um sorriso de incredulidade afetada.
 — O senhor pode negar o que fez? — repetiu.
 Ele então respondeu com fingida tranquilidade:
 — Não desejo negar que fiz tudo o que podia para separar meu amigo da sua irmã. Nem tampouco negarei que me alegro desse êxito. Fui mais previdente para com ele do que para comigo próprio.
 Elizabeth não quis mostrar que compreendia esta observação, mas o seu sentido não lhe escapou. Nem tampouco era de natureza a aplacá-la.
 — Mas não é apenas nessa história que se funda a minha antipatia — continuou. — Muito antes dela acontecer eu já tinha opinião formada a seu respeito. A narrativa que já há muitos meses me fez Mr. Wickham me revelou o seu caráter. Que tem o senhor a dizer sobre este assunto? Que ato imaginário de amizade poderá o senhor alegar para se justificar? Que falsos motivos poderá inventar para iludir os outros?
 — A senhora parece se interessar extraordinariamente pelas mágoas daquele cavalheiro.
 — Nenhuma pessoa que conheça o seu infortúnio pode deixar de se interessar por ele.
 — Seu infortúnio! — repetiu Darcy, num tom de desprezo. — Sim, o seu infortúnio foi realmente grande.
 — E foi o senhor quem o infligiu — exclamou Elizabeth, com energia. — Foi o senhor quem o reduziu ao seu estado atual de pobreza, de comparativa pobreza. O senhor lhe recusou os direitos que lhe cabiam, as vantagens que lhe tinham sido destinadas. Privou-o, durante os melhores anos da sua vida, da independência a que tinha direito e que aliás merecia. Tudo isso o senhor fez! E agora ouve o relato do seu infortúnio com desprezo e ironia.
 — Então é esta a opinião que tem de mim! — exclamou Darcy, caminhando apressado pela sala. — É este o valor que me dá! Agradeço-lhe por se ter explicado tão claramente. Minhas faltas, tais como as descreve, são realmente pesadas. Mas talvez — acrescentou detendo-se e voltando-se para Elizabeth —, talvez essas ofensas pudessem ter sido relevadas, se eu não tivesse ferido o seu orgulho, confessando-lhe com toda a franqueza os escrúpulos que me impediram durante tanto tempo de tomar uma resolução. Eu poderia ter evitado as suas amargas acusações, se me tivesse mostrado mais hábil, escondendo-lhe as minhas lutas e fazendo crer que era movido por uma inclinação a que nada se opunha, nem a razão, nem a reflexão, nem outro qualquer motivo. Mas eu odeio toda a espécie de fingimento. Nem tampouco me envergonham os sentimentos que lhe exprimi. São naturais e justos. Pode exigir de mim que me felicite pela inferioridade social dos seus parentes? Ou que me alegre com a esperança de me relacionar com pessoas de condição inferior à minha?
 Elizabeth sentia a sua cólera crescer de momento a momento; apesar disso procurou falar com toda a calma:
 — O senhor está enganado, Mr. Darcy. A sua atitude pouco cavalheiresca apenas me poupou o desgosto de recusar o seu pedido, se tivesse sido feito de outra forma.
 Elizabeth percebeu que ele se sobressaltava ao ouvir estas palavras. Mas Mr. Darcy nada disse e ela prosseguiu:
 — Eu o teria recusado de qualquer forma. Nada me poderia ter persuadido a aceitar a sua mão.
 Novamente o seu espanto foi evidente. Mr. Darcy olhou para Elizabeth com incredulidade e mortificação. Ela continuou:
 — Posso dizer que desde o princípio, desde o primeiro instante quase em que o conheci, as suas maneiras me convenceram de que era um homem arrogante, pretensioso, e de que tinha a maior indiferença pelos sentimentos dos outros. Esta impressão foi tão profunda que constituiu, por assim dizer, o alicerce sobre o qual os acontecimentos subsequentes elevaram uma indestrutível antipatia; e menos talvez de um mês depois de conhecê-lo, estava convencida de que o senhor seria o último homem no mundo com o qual eu me casaria.
 — Não precisa acrescentar mais nada — disse Darcy. — Compreendo perfeitamente os seus sentimentos, e nada me resta senão me envergonhar dos meus. Perdoe-me ter tomado o seu precioso tempo, e aceite os meus mais sinceros votos de felicidade.
 E dizendo estas palavras, saiu apressadamente da sala e, depois de alguns instantes, Elizabeth o ouviu abrir a porta da frente e sair. O tumulto das suas ideias lhe era tão doloroso, que, incapaz de recuperar o seu equilíbrio, deixou-se cair sobre uma cadeira e chorou durante meia hora sem cessar. A sua surpresa aumentava cada vez que recordava o que se tinha passado. Recebera uma proposta de casamento de Mr. Darcy! Há vários meses estava apaixonado por ela! Amava-a tanto que desejava desposá-la, apesar de todas as objeções que o levaram a impedir o casamento do seu amigo. Era agradável saber que ela tinha inspirado uma afeição tão forte. Mas a piedade, que a ideia de uma tal paixão por um momento tinha inspirado a Elizabeth foi logo sufocada pelo orgulho de Mr. Darcy, o seu abominável orgulho, pela cínica confissão de sua atitude para com Jane, a sua imperdoável tranquilidade ao reconhecer o que tinha feito, embora não o pudesse justificar, e pela maneira desapiedada com que se referira a Mr. Wickham, sem que tentasse negar a crueldade com que o tinha tratado.
 Essas reflexões agitadas prosseguiram até que Elizabeth ouviu o ruído da carruagem de Lady Catherine. Sentindo que não estava em condições de enfrentar a perspicaz atenção de Charlotte, correu para o quarto.

35

Na manhã seguinte, ao despertar, Elizabeth encontrou no seu espírito os mesmos problemas que debatera na véspera até adormecer. Ainda não voltara a si da surpresa. Era impossível pensar em outro assunto; incapaz de encontrar uma ocupação que a distraísse, resolveu, logo depois da primeira refeição, fazer um pouco de exercício ao ar livre. Estava se encaminhando para o seu lugar favorito, quando a lembrança de que Mr. Darcy costumava aparecer lá a deteve. E em vez de entrar no parque, Elizabeth tomou a vereda que a bordejava. A cerca do parque limitava a estrada de um lado e pouco depois ela passou por um dos portões. Depois de andar duas ou três vezes naquela parte do caminho, sentiu-se tentada pela beleza da manhã a parar nos portões e contemplar o parque. Durante as cinco semanas que tinha passado no Kent, uma grande transformação se operara, e cada dia as árvores ficavam mais verdes. Elizabeth estava a ponto de continuar o passeio, quando avistou de relance, no pequeno bosque que bordejava o parque, um homem que vinha na sua direção. Temerosa de que fosse Mr. Darcy, ela recuou. Mas a pessoa se encontrava agora tão próxima que podia vê-la. Apressando o passo, esta pessoa se aproximou e pronunciou o nome de Elizabeth. Ela estava de costas mas ao ouvir o seu nome, embora reconhecesse a voz de Mr. Darcy, voltou a se acercar do portão. Mr. Darcy, do outro lado fizera o mesmo. Ele lhe estendeu uma carta, que ela aceitou instintivamente. Em seguida disse, com um olhar altivo:
 — Estive passeando no bosque na esperança de encontrá-la. Quer me dar a honra de ler esta carta?
 Em seguida, depois de inclinar-se levemente, voltou-se e partiu. Sem esperança de prazer mas com a maior curiosidade, Elizabeth abriu a carta; com espanto sempre crescente viu que o envelope continha duas folhas de papel, inteiramente recobertas por uma letra apertada. Continuando o seu caminho pela alameda, Elizabeth começou a ler. A carta estava datada de Rosings, das oito horas da manhã, e dizia o seguinte:
Não fique alarmada, Miss Eliza, ao receber esta carta, pela apreensão de que ela contenha a repetição daqueles sentimentos ou a renovação daquelas propostas que ontem à noite tanto lhe repugnaram. Escrevo-lhe sem nenhuma intenção de aborrecê-la ou de me humilhar, insistindo em exprimir esperanças que para a felicidade de ambos não podem ser esquecidas cedo demais. E o esforço da minha parte ao escrever esta carta e da sua em percorrê-la teria sido poupado se o meu caráter não exigisse que ela fosse escrita e lida. É preciso, pois, que me perdoe a liberdade com que exijo a sua atenção; sei que os seus sentimentos a concederão com relutância. Mas eu a exijo da sua justiça. Duas foram as acusações que me fez ontem à noite, de natureza muito diferente e de importância igualmente desigual. A primeira foi: que eu tinha separado Mr. Bingley da sua irmã, indiferente aos sentimentos de ambos. E a outra, de ter arruinado a possibilidade imediata e as probabilidades futuras de Mr. Wickham, ferindo vários direitos, desafiando a honra e a humanidade. Ter repudiado voluntária e gratuitamente o companheiro da minha infância, o favorito declarado de meu pai, um rapaz que dependia exclusivamente da nossa proteção e a quem esta fora prometida seria uma perversidade incomparavelmente mais grave do que a separação de duas pessoas cuja afeição, embora real, não poderia ter crescido excessivamente, no espaço das poucas semanas que estiveram juntas. Espero estar a salvo para o futuro da severidade das censuras que me foram feitas com tanta veemência, a respeito destes dois casos, depois de ter lido a seguinte explicação dos meus atos e dos seus motivos. Se durante esta explanação eu me encontrar na necessidade de exprimir sentimentos que possam ser ofensivos aos seus, posso dizer apenas que isto me entristece sinceramente. A necessidade de expô-los deve ser obedecida. E outras quaisquer desculpas serão supérfluas. Pouco depois da minha chegada ao Hertfordshire, percebi, juntamente com outras pessoas, que Bingley preferia a sua irmã mais velha a qualquer outra moça da região. Mas foi só por ocasião do baile de Netherfield que fiquei pela primeira vez apreensivo de que ele se apaixonasse seriamente. Muitas vezes antes eu já o tinha visto apaixonado. Naquele baile, enquanto eu tinha a honra de dançar com a senhora, soube através da informação acidental de Sir William, que as atenções de Bingley para com a sua irmã tinham dado lugar a um rumor geral acerca do seu casamento. Sir William falou naquilo como num acontecimento positivo, acerca do qual só a data era incerta. A partir desse momento observei a atitude do meu amigo com muita atenção. E vi que a sua inclinação por Miss Bennet era mais forte do que qualquer uma das que lhe tinha visto antes. Observei também a sua irmã; seu olhar, suas maneiras, eram francas, alegres e atraentes como sempre, mas sem qualquer sintoma especial de afeição. E a partir desta noite fiquei convencido de que embora ela aceitasse as atenções de Bingley com prazer, não as provocava porque participasse do mesmo sentimento. Quanto a este ponto, se a senhora não se enganou, enganei-me eu. Como conhece melhor a sua irmã, a última hipótese parece ser mais provável. Se este é o caso, se este erro me levou a infligir um desgosto à sua irmã, o seu ressentimento é incompreensível. Mas eu não tenho receio de afirmar que a serenidade do rosto da sua irmã e a tranquilidade da sua expressão são tais, que o observador mais agudo concluiria que, por mais amável que seja o seu gênio, seu coração não é dos mais fáceis de atingir; é certo que eu desejava acreditar na indiferença dela, mas arrisco-me a afirmar que as minhas investigações e as minhas decisões não são geralmente influenciadas pelas minhas esperanças ou pelos meus receios. Não foi porque o desejasse que acreditei na indiferença da sua irmã, foi porque cheguei a esta convicção imparcial e ela é tão sincera quanto o meu desejo. Minhas objeções contra aquele casamento não foram apenas as que lhe descrevi ontem à noite e que no meu próprio caso exigiram toda a força da paixão para serem vencidas; a desigualdade social não seria um mal tão grande para o meu amigo quanto para mim. Mas existiam outras causas para a minha resistência; causas que, embora ainda existentes, e existentes do mesmo modo, eu tentara esquecer porque não as via de maneira imediata diante de mim. Essas causas precisam ser ditas embora sumariamente. A situação da família da sua mãe, embora pouco recomendável, não era nada em comparação com aquela falta total de delicadeza tão frequente e quase permanentemente demonstrada por sua mãe, por suas três irmãs mais moças e às vezes até por seu pai. Perdoe-me, dói-me ter de ofendê-la. Mas no meio dos aborrecimentos que os defeitos dos seus parentes mais próximos lhe causam e o desprazer que a presente descrição não pode deixar de lhe dar, a seguinte reflexão lhe sirva de consolo: saiba que o fato universalmente reconhecido de que tanto a senhora como a sua irmã mais velha sempre se comportaram de modo a evitar uma censura semelhante é o melhor elogio que se poderia fazer à sensatez e ao caráter de ambas. Acrescentarei apenas que os fatos que se passaram naquela noite confirmaram a minha opinião sobre todas as pessoas em questão e fortaleceram a minha resolução de proteger o meu amigo de uma aliança que eu considerava a mais desastrada. Ele deixou Netherfield no dia seguinte, como decerto está lembrada, com a intenção de regressar breve. Agora devo explicar a parte que tomei no caso. A inquietude da irmã de Bingley fora igualmente despertada e logo descobrimos que os nossos sentimentos coincidiam a esse respeito; convencidos ambos de que devíamos agir rapidamente, resolvemos acompanhá-lo a Londres. Foi o que fizemos. E lá tomei a meu cargo a incumbência de revelar ao meu amigo as consequências desastradas da escolha que fizera. No entanto, por mais que esta advertência possa ter abalado a sua resolução, não creio que ela teria sido suficiente para impedir o casamento, se não tivesse sido apoiada pela afirmação, que não hesitei em fazer, de que a sua irmã lhe era indiferente. Ele acreditava até aquele momento que Miss Jane correspondia à sua afeição sinceramente, senão com igual intensidade. Mas Bingley é por natureza muito modesto, e além disso tem mais confiança no meu julgamento do que no seu próprio. Convencê-lo, portanto, de que ele se tinha enganado não foi muito difícil. Persuadi-lo, em seguida, de que não devia voltar para o Hertfordshire, depois de firmado o primeiro ponto, foi coisa de um instante. Não me arrependo de tê-lo feito. Existe apenas uma parte da minha conduta que não me satisfaz. É que eu condescendi em usar de certos artifícios para esconder de Bingley o fato de sua irmã se encontrar em Londres. Sabia dessa presença, bem como Miss Bingley, mas o seu irmão até agora ainda não sabe. É possível que eles pudessem ter-se encontrado sem outras consequências; mas o seu afeto não me pareceu suficientemente extinto para que ele pudesse ver a sua irmã sem correr algum perigo. Talvez esse artifício seja indigno de mim. Mas o que está feito está feito. E a minha intenção foi a melhor possível. Sobre este assunto nada mais tenho a dizer, nem outra explicação a dar. Se feri os sentimentos da sua irmã, foi sem a intenção de fazê-lo, e embora os motivos que inspiraram a minha conduta lhe pareçam naturalmente insuficientes, não vejo ainda razões para condená-los. Com relação à outra acusação, a mais grave, a que diz respeito a Mr. Wickham, só poderei refutá-la, expondo-lhe toda a história das suas relações com minha família. Ignoro se ele formulou alguma acusação particular à minha pessoa; mas acerca da verdade do que vou relatar posso dar mais de uma testemunha insuspeita. Mr. Wickham é o filho de um homem muito respeitável, que durante muitos anos geriu todos os bens da propriedade de Pemberley; a fidelidade com que sempre se desincumbiu das suas funções mereceu naturalmente a gratidão do meu pai. E para com George Wickham, que era o seu afilhado, meu pai se mostrou sempre generoso, dedicando-lhe uma grande afeição. Pagou os seus estudos num colégio e mais tarde em Cambridge. Auxílio importante, pois o pai de Mr. Wickham, que as extravagâncias da sua esposa privavam quase sempre do necessário, não estava em condições de dar ao filho uma educação liberal. Meu pai não só gostava muito da companhia de George Wickham, cujas maneiras, aliás, eram sempre muito atraentes, mas tinha por ele a maior admiração e, alimentando a esperança de que o rapaz abraçasse a carreira eclesiástica, tencionava reservar-lhe um lugar na mesma. Quanto a mim, há já muitos anos que comecei a pensar de maneira diferente a respeito dele. As suas inclinações viciosas, a falta de escrúpulos, que ele tinha o cuidado de esconder do seu melhor amigo, não poderiam passar despercebidas a um rapaz da sua idade, que o observava e tinha a oportunidade de vê-lo em momentos de descuido, coisa que meu pai não tinha. Aqui, novamente, terei de magoá-la. Até que ponto não sei. Só a senhora mesma poderá dizê-lo. Mas quaisquer que sejam os sentimentos que Mr. Wickham lhe tenha inspirado, a suspeita que alimento acerca da natureza desses sentimentos não me impedirá de lhe revelar o verdadeiro caráter daquela pessoa. Acrescento mesmo um outro motivo. Meu excelente pai morreu há cerca de cinco anos e a sua afeição por Mr. Wickham foi até o fim tão firme que me recomendou particularmente no seu testamento que me encarregasse de promover o seu adiantamento na carreira que tinha escolhido, e manifestou o desejo de que um posto importante, à disposição da família, lhe fosse dado, assim que vagasse, caso Mr. Wickham se ordenasse. Deixou-lhe também um legado de mil libras. O pai dele não sobreviveu muito tempo ao meu, e meio ano depois desses acontecimentos Mr. Wickham me escreveu, informando-me que resolvera não tomar ordens. Dizia-me também que esperava que eu não achasse despropositado o desejo de uma compensação pecuniária mais imediata, em lugar do posto do qual não poderia agora se beneficiar. Acrescentou que tinha intenção de estudar direito, e que eu devia compreender que os juros de mil libras não eram suficientes para o seu sustento e os seus estudos. Apesar do meu desejo de acreditar na sinceridade dele, não o conseguia. Mas de qualquer modo mostrei-me perfeitamente disposto a ceder à sua proposta. Eu sabia que Mr. Wickham não devia ser pastor. O negócio foi portanto logo arranjado. Ele desistiu de toda proteção relativa à sua entrada na igreja, mesmo se estivesse algum dia em situação de recebê-la, e aceitou em troca a quantia de três mil libras. Todas as nossas relações a partir dessa época ficaram interrompidas. O que eu sabia a respeito dele era suficiente para não o desejar como amigo. E portanto eu não o convidava para vir a Pemberley, nem andava em sua companhia na cidade. Creio que durante esse tempo ficou em Londres, mas o seu estudo de direito foi um mero pretexto. Livre agora de toda obrigação, levava uma vida de dissipação. Durante três anos pouco ouvi falar nele. Mas ao falecer a pessoa que ocupava o posto que outrora lhe fora destinado, tornou a escrever, solicitando a sua apresentação para o dito lugar. Sua atual situação, dizia ele, e eu não tive dificuldade em acreditá-lo, era extremamente precária. Descobrira que o estudo de direito era pouco proveitoso e estava agora absolutamente resolvido a tomar ordens, se eu o apresentasse para o posto em questão, coisa de que não duvidava, pois estava informado de que não havia outro pretendente e eu não poderia ter esquecido as intenções do meu venerando pai; creio que não há de me censurar por lhe ter recusado aquela pretensão e rejeitado todas as novas tentativas no mesmo sentido. O ressentimento que manifestou foi muito violento, dada a situação precária em que se encontrava. E, sem dúvida, os insultos de que me cobriu ao falar a meu respeito com outras pessoas foram tão violentos quanto as recriminações que me dirigiu. Depois desse período, todas as relações de mera formalidade foram cortadas. Como ele viveu, não sei. Mas no último verão tornou a aparecer no meu caminho da forma mais desagradável possível. Devo agora mencionar certas circunstâncias que eu mesmo desejaria esquecer e que só uma obrigação tão forte quanto a atual me poderia induzir a relatar para qualquer outra pessoa. Depois de ter dito isto, confio inteiramente na sua discrição. Minha irmã, que é dez anos mais moça do que eu, foi deixada em tutela ao sobrinho de minha mãe, o coronel Fitzwilliam, e a mim próprio. Há um ano ela saiu do colégio e foi morar em Londres em companhia de uma senhora encarregada de superintender a sua educação; e no verão passado, foi com aquela senhora para Ramsgate. Mr. Wickham, sem dúvida propositadamente, partiu para o mesmo lugar; depois descobriu-se que havia um relacionamento anterior entre ele e Mrs. Jounge, sobre cujo caráter infelizmente nos enganamos. Graças ao auxílio e conivência desta pessoa, aproximou-se de Georgiana, em cujo coração por natureza afetivo ainda era muito vívida a impressão da bondade com que ele a tratava em criança. Ela se deixou persuadir de que estava apaixonada e consentiu em ser raptada. Como a moça tinha apenas 15 anos, essa loucura é até certo ponto escusável. Tenho o consolo de poder acrescentar que soube disto por ela própria. Cheguei a Ramsgate inesperadamente um ou dois dias antes da projetada fuga. E Georgiana, incapaz de suportar a ideia de desgostar e ofender um irmão que considerava quase como um pai, confessou-me tudo. A senhora pode bem imaginar como me senti e como agi. Para não prejudicar a reputação da minha irmã e não ofender os seus sentimentos, eu me abstive de qualquer ato de represália em público. Mas escrevi para Mr. Wickham, que partiu imediatamente. Mrs. Younge foi naturalmente despedida. Sem dúvida, o fito principal de Mr. Wickham era de se apoderar da fortuna da minha irmã, que é de trinta mil libras. Mas não posso deixar de pensar que o desejo de se vingar de mim tenha também influído fortemente nele.
 Esta é uma narrativa fiel desses acontecimentos que nos concerne a ambos; e se não a rejeitar como absolutamente falsa, espero que me absolverá daqui por diante da falta de ter agido com crueldade para com Mr. Wickham. Não sei de que maneira se impôs à sua atenção, nem as falsidades que usou para isto. Mas o êxito que alcançou não é de espantar, dada a sua ignorância de tudo o que acontecera antes. Não estava em seu poder desmascarar estas falsidades e o seu temperamento não é inclinado à desconfiança. Talvez a senhora se surpreenda de não lhe ter dito ontem, mas naquele momento não tinha suficiente domínio sobre mim mesmo para decidir o que devia e o que não devia revelar. Quanto à verdade de tudo o que ficou aqui relatado, posso apelar particularmente para o testemunho do coronel Fitzwilliam, que, dado o nosso parentesco e constante intimidade e sobretudo a sua qualidade de executor testamentário de meu pai, conhece necessariamente todos os detalhes desses acontecimentos. Se a antipatia que tem por mim privar de valor as minhas asserções, a mesma causa não a poderia impedir de confiar no meu primo, e para que haja a possibilidade de consultá-lo, procurarei entregar-lhe a presente carta de manhã. Acrescentarei apenas: Deus a abençoe!
 Fitzwilliam Darcy.

36

Ao receber a carta de Mr. Darcy, Elizabeth não esperava que contivesse uma repetição das suas propostas; por outro lado, não tinha a menor ideia a respeito do conteúdo da carta. E fácil imaginar com quanta avidez se inteirou dos seus termos e quantas emoções contraditórias eles produziram no seu espírito. Durante a leitura os seus sentimentos não podiam ser definidos. Primeiro constatou com assombro que ele acreditava poder se desculpar; estava persuadida de que um justo pudor o impediria de dar qualquer explicação; fortemente prevenida contra tudo o que ele pudesse dizer, começou a ler o seu relato do que tinha acontecido em Netherfield. Leu com uma ansiedade que quase a impedia de compreender, a impaciência de saber o que a próxima frase deveria trazer a incapacitava de aprofundar o sentido daquela que tinha diante dos olhos. Elizabeth imediatamente resolveu que era falsa a alegação de Mr. Darcy de que ele acreditara na insensibilidade da sua irmã. As outras objeções contra o casamento, as piores, a enfureciam de tal forma que aboliam todo o seu desejo de ser justa. As palavras de Darcy não exprimiam nenhum arrependimento; seu estilo não era de quem se quisesse desculpar. Era arrogante, orgulhoso e insolente.
 Mas, quando passou para o outro assunto, depois de ter lido, com mais atenção, o relato de acontecimentos que, se verdadeiros, jogariam por terra toda a sua boa opinião de Mr. Wickham, e que aliás tinham uma semelhança alarmante com a história que Mr. Wickham contara a seu próprio respeito, os seus sentimentos cresceram em intensidade e se tornaram ainda mais difíceis de definir. O assombro, a apreensão e até o horror a oprimiam. Ela se recusava a acreditar naquilo, exclamando repetidamente: “deve ser falso, não pode ser! É a maior das mentiras!” E depois de ter percorrido toda a carta, embora não se lembrasse de quase nada que tinha lido nas duas últimas páginas, Elizabeth pôs a carta de lado, dizendo a si mesma que nunca mais a leria. Nesse confuso estado de espírito, cheio de pensamentos que não repousavam em coisa alguma, continuou a andar, até que meio minuto depois, incapaz de resistir a um impulso que se formara nela, tornou a desdobrar a carta, e concentrando o mais que podia a sua atenção, exigiu de si mesma o esforço mortificante de reler toda a parte que se referia a Wickham, pesando o sentido de cada frase. A história das suas relações com a família de Pemberley era exatamente a que Wickham lhe tinha contado e a bondade do falecido Mr. Darcy, embora até então não lhe conhecesse toda a extensão, concordava igualmente com as suas palavras. Até este ponto as duas narrativas coincidiam; mas quando ela chegou ao testamento, a diferença era grande. Ainda tinha frescas na memória as palavras de Wickham; era impossível, portanto, não sentir que havia uma grosseira duplicidade de um dos lados. E durante algum tempo ela teve a esperança de que a verdade coincidisse com os seus desejos. Mas depois de ler e reler com a maior atenção os detalhes que se seguiam imediatamente à desistência que Wickham fizera de todos os direitos ao posto, recebendo em troca a soma considerável de três mil libras, novamente ela foi forçada a hesitar. Pesou cada circunstância com a maior imparcialidade de que era capaz, calculou a probabilidade de cada afirmação, tudo sem chegar a um resultado. De ambos os lados havia apenas afirmações. Tornou a ler. Mas cada linha provava mais claramente que a história, que a princípio achara impossível interpretar de maneira a tornar a conduta de Mr. Darcy menos infame, podia ser vista sob um aspecto que o inocentava inteiramente. A extravagância e a dissolução que Mr. Darcy não hesitava em atribuir ao caráter de Mr. Wickham a feriam extremamente. E tanto mais que não podia apresentar uma prova de que essas acusações eram injustas. Elizabeth nunca ouvira falar em Wickham antes da sua entrada na milícia do condado de..., na qual ele se engajara, obedecendo à sugestão de um rapaz que encontrara acidentalmente em Londres. Nada se sabia no Hertfordshire a respeito da sua vida anterior, a não ser o que ele próprio tinha contado. Quanto ao seu caráter real, mesmo que tivesse meios para isto, Elizabeth nunca sentira o desejo de fazer investigações a respeito. A sua figura, a sua voz, os seus modos haviam sido suficientes para que lhe atribuísse todas as virtudes. Ela procurou se lembrar de algum exemplo de bondade, de algum traço marcante de integridade ou de benevolência que o pudesse salvar dos ataques de Mr. Darcy. Ou pelo menos de uma virtude que prevalecesse sobre aquilo que o seu desafeto tinha descrito como sendo ociosidade e vício e em que ela procurava ver apenas uma série de erros casuais. Mas não lhe foi possível encontrar nenhuma lembrança dessa natureza. Podia vê-lo instantaneamente diante de si, com todo o encanto das suas boas maneiras, mas não podia se lembrar de nenhum ato concreto de virtude que merecesse a aprovação geral da sociedade e a consideração que ele desfrutava entre os oficiais. Depois de refletir consideravelmente sobre este ponto, mais uma vez recomeçou a ler. Mas, infelizmente, a história que se seguia, relativa aos seus desígnios de raptar Miss Darcy, era confirmada pela conversa havida entre ela própria e o coronel Fitzwilliam na manhã anterior; e finalmente Mr. Darcy havia apresentado o testemunho do coronel Fitzwilliam, a fim de que ela pudesse obter a confirmação de cada detalhe da sua versão. Sabia por informação prévia do coronel que ele estava intimamente ligado a todas as circunstâncias da vida do seu primo, e não tinha nenhum motivo para duvidar do seu caráter. Por um momento esteve quase resolvida a apelar para o coronel, mas esta ideia foi afastada, porque exigiria uma explicação embaraçosa, e porque sabia que Mr. Darcy jamais a teria sugerido se não se tivesse previamente assegurado da colaboração do seu primo.
 Ela se lembrava perfeitamente de toda a conversa que tivera com Mr. Wickham, na primeira noite, em casa de Mr. Philips. Muitas das expressões que ele usara ainda estavam frescas na sua memória. Compreendia agora, de súbito, toda a impropriedade que havia naquelas confidências a uma pessoa estranha, e espantou-se de nunca haver pensado nisto antes. Viu a indelicadeza daquela exibição e a incompatibilidade entre as suas afirmações e a sua conduta. Lembrava-se de que ele se gabara de não temer um encontro com Mr. Darcy — que Mr. Darcy poderia se mudar, caso se sentisse mal, mas ele não o faria. No entanto ele tinha se furtado de comparecer ao baile de Netherfield, na semana seguinte. Recordou-se também de que, até o momento da partida da família de Netherfield, ele se abstivera de contar a sua história para outra pessoa, mas em seguida fora discutida em todos os lugares; que ele não tivera então nenhum escrúpulo em denegrir o caráter de Mr. Darcy, apesar de lhe ter declarado que o respeito pela memória do pai sempre o impedira de acusar o filho.
 Como tudo lhe parecia agora diferente! Suas atenções para com Miss King eram a consequência de odiosas intenções puramente mercenárias. Mas o fato dessa moça possuir apenas uma pequena fortuna não provava a moderação dos desejos do pretendente, mas a avidez de se lançar sobre a primeira oportunidade que lhe aparecesse. Quanto à sua atitude para com ela, Elizabeth, ou ele se enganara a respeito da sua fortuna ou agira por pura vaidade, encorajando uma preferência que ela tivera a imprudência de revelar. Todos os esforços de Elizabeth para justificá-lo se tornavam cada vez mais fracos. E como uma justificação adicional ao que dissera Mr. Darcy, não podia se esquecer do que dissera Mr. Bingley quando, inquirido por Jane, afirmara a inocência do seu amigo na questão. As maneiras de Mr. Darcy eram orgulhosas e desagradáveis, mas durante todo o curso das suas relações com ele e do contato frequente que ultimamente haviam tido, concedendo-lhe uma espécie de intimidade, nunca presenciara nenhum fato que provasse que ele era inescrupuloso e injusto ou que possuía hábitos irreligiosos ou imorais. Todos os seus amigos o prezavam, e até Wickham lhe havia reconhecido qualidades como irmão. Ouvira-o várias vezes falar afetuosamente da sua irmã, o que provava que ele era capaz de sentimentos ternos. Se os seus atos fossem tais como Wickham os havia descrito, se houvesse violado tão brutalmente todos os direitos, dificilmente os poderia ter ocultado do mundo. E se ele fosse capaz de tamanha injustiça, não se explicaria a sua amizade com um homem tão estimável quanto Mr. Bingley. Elizabeth sentiu uma grande vergonha de si mesma. Não podia pensar em Darcy nem em Wickham sem sentir que ela tinha sido cega, parcial, injusta e absurda. “Como foi mesquinha a minha conduta!”, exclamou, “eu que me orgulhava tanto do meu discernimento, da minha habilidade! Eu, que tantas vezes desdenhei a generosa candura da minha irmã, e gratifiquei a minha vaidade com inúteis e censuráveis desconfianças. Como é humilhante esta descoberta! Mas como é justa esta humilhação! Eu não poderia ter agido mais cegamente se estivesse apaixonada! Mas a vaidade, não o amor, foi a minha loucura! Lisonjeada com a preferência de uma pessoa e ofendida com a negligência da outra, logo no início das nossas relações cortejei a parcialidade e a ignorância e expulsei a razão. Até este momento eu não conhecia a minha verdadeira natureza.”
 Enquanto o seu pensamento ia de si mesma para Jane e de Jane para Bingley, logo lhe ocorreu a ideia de que a explicação de Mr. Darcy quanto àquele ponto lhe parecera muito insuficiente. E ela leu novamente. Muito diferente foi o efeito desta segunda leitura. Como dar valor às afirmações de Mr. Darcy em um ponto e lho negar no outro? Ele declarava que nem de longe suspeitava da afeição de sua irmã. E Elizabeth não podia deixar de se lembrar da opinião constante de Charlotte. Nem tampouco podia negar que fosse justa a sua descrição de Jane. Ela sabia que Jane, embora capaz de fervor nos seus sentimentos, pouco os exteriorizava. E que havia sempre nas suas maneiras uma placidez que raramente se encontra unida a uma grande sensibilidade.
 Quando chegou ao lugar da carta em que a sua família era mencionada, em termos mortificantes, porém merecidos, ficou profundamente envergonhada. No entanto, a justiça daquela afirmação era inegável e as circunstâncias que ele mencionava, particularmente as que se referiam ao baile de Netherfield, confirmando as suas primeiras impressões desfavoráveis, não haviam causado uma impressão mais forte na mente dele do que na sua. Elizabeth não ficou insensível ao elogio com que Darcy a gratificara, bem como à sua irmã. E esse elogio suavizava a sua mortificação, mas não compensava o desprezo que o resto da sua família atraíra pela sua conduta. E ao refletir que o desapontamento de Jane tinha sido de fato causado pelos seus parentes mais próximos, cuja extravagância prejudicava a reputação de ambas, ela se sentiu deprimida como nunca anteriormente se sentira.
 Depois de passear pela alameda durante duas horas, entregando-se a toda espécie de pensamentos, relembrando acontecimentos, determinando probabilidades e reconciliando-se da melhor forma que podia a uma mudança tão súbita e tão importante, o cansaço e a lembrança de que ficara muito tempo ausente fizeram com que voltasse para casa; e ao entrar fez um esforço sobre si mesma, a fim de parecer alegre como de costume, reprimindo todas a reflexões que a poderiam tornar inapta para a conversação.
 Disseram-lhe imediatamente que os dois cavalheiros de Rosings tinham aparecido durante a sua ausência, Mr. Darcy apenas durante alguns minutos para se despedir, mas o coronel Fitzwilliam ficara pelos menos uma hora, esperando pelo seu regresso, e quase resolvera sair a pé para ir procurá-la. Elizabeth fingiu que isto lhe produzia uma grande decepção; mas na verdade ela se alegrava. O coronel Fitzwilliam tinha perdido todo o interesse; ela só podia pensar na carta.

37

Os dois primos partiram de Rosings na manhã seguinte, e Mr. Collins, que tinha ido esperá-los perto da casa do vigia para apresentar as suas despedidas, voltou pouco depois, trazendo a boa notícia de que eles pareciam estar de muito boa saúde e relativamente de bom humor, apesar da cena melancólica que se tinha passado em Rosings. Mr. Collins então se dirigiu apressadamente para Rosings, a fim de consolar Lady Catherine e sua filha e, de volta, trouxe, com grande satisfação, um recado de Lady Catherine: ela se sentia tão entediada que desejava vê-los todos em sua casa para jantar.
 Elizabeth não pôde deixar de se lembrar, ao ver Lady Catherine, de que se o tivesse desejado, poderia agora ser-lhe apresentada como a sua futura sobrinha, e sorriu ao imaginar a indignação com que Sua Senhoria receberia a notícia.
 O primeiro assunto abordado foi a diminuição que sofrera o grupo de Rosings.
 — Asseguro-lhes que sinto muito — disse Lady Catherine —, creio mesmo que ninguém sinta tanto a ausência dos amigos quanto eu. Sou muito ligada àqueles rapazes e sei que também gostam muito de mim. Ficaram tristíssimos de partir, e todos os anos acontece o mesmo. O coronel conseguiu dominar os seus sentimentos até o fim, mas Darcy parecia estar consternado. Mais do que no ano passado. Vê-se que ele gosta cada vez mais de Rosings.
 Mr. Collins aproveitou a ocasião para fazer um elogio, que foi recebido com um sorriso pela mãe e pela filha.
 Lady Catherine observou depois do jantar que Miss Bennet parecia melancólica. E atribuindo imediatamente esta tristeza à proximidade da sua partida, acrescentou:
 — Mas se este é o caso, escreva à sua mãe pedindo-lhe para ficar mais um pouco. Estou certa de que Mrs. Collins terá grande prazer em ter por mais tempo a sua companhia.
 — Eu lhe fico muito agradecida pelo seu amável convite — replicou Elizabeth —, mas infelizmente não posso aceitar. Preciso estar em Londres no sábado vindouro.
 — Mas neste caso só terá ficado aqui seis semanas. Contava que permanecesse pelo menos dois meses. Foi o que eu disse a Mrs. Collins antes da sua vinda. Não pode haver motivo para uma partida tão prematura. Mrs. Bennet lhe concederia outros 15 dias.
 — Mas meu pai não o faria. Ele me escreveu na semana passada, dizendo que apressasse a minha volta.
 — Oh, se sua mãe deixa, seu pai também deixará. Uma filha nunca é muito necessária para um pai. E se quiser ficar mais um mês, eu poderei levá-la comigo até Londres. Preciso de ir lá em começo de junho. Demorar-me-ei uma semana e na minha carruagem haverá espaço para uma de vocês. E até, se o tempo estiver frio, poderiam ir as duas, pois ambas são magrinhas.
 — Muito me desvanece a sua bondade, Lady Catherine, mas creio que serei obrigada a seguir o meu plano anterior.
 Lady Catherine pareceu ficar resignada.
 — Mrs. Collins — disse —, é preciso que mande uma criada com elas. Sabe que eu sempre falo o que penso. Eu não posso tolerar a ideia de duas moças viajarem sozinhas na diligência. É muito impróprio. É preciso que mande uma pessoa. São coisas que eu não suporto. As moças devem sempre ser acompanhadas e protegidas, de acordo com a sua situação na vida. Quando minha sobrinha Georgiana foi para Ramsgate no verão passado, fiz questão que dois criados homens a acompanhassem. Miss Darcy, a filha de Mr. Darcy de Pemberley e de Lady Anne, não poderia viajar de maneira diferente. Dou muita atenção a estas coisas. Mrs. Collins, mande John acompanhar as moças. Estou satisfeita de me ter lembrado disto, pois seria pouco recomendável para o senhor mandá-las sozinhas.
 — Meu tio vai mandar um criado para nos acompanhar.
 — Oh, o seu tio... Ele tem um criado? Ainda bem que tem alguém na sua família que pense nestas coisas. Onde trocarão os cavalos? Oh, Bromley, naturalmente. Se falarem lá no meu nome, serão muito bem-servidas.
 Lady Catherine fez muitas outras perguntas a respeito da viagem. E como ela própria não respondia a todas, era necessário prestar atenção, coisa que Elizabeth apreciou, pois de outra maneira, com as preocupações que a absorviam, ela poderia até se esquecer do lugar onde estava. Era necessário deixar suas reflexões para as horas solitárias. Sempre que se encontrava sozinha, entregava-se a elas com alívio. E todos os dias saía a passeio sozinha, para poder se dar ao consolo de recordar as coisas desagradáveis.
 Dentro de pouco tempo já sabia a carta de Mr. Darcy quase de cor. Estudava cada frase, e os seus sentimentos para com o missivista variavam frequentemente. Quando se lembrava do seu estilo, ficava cheia de indignação, mas quando considerava a injustiça com que o tinha condenado e tratado, a sua cólera se voltava contra si mesma. Enquanto o desapontamento que ele tinha sofrido o tornava objeto de sua compaixão, o afeto de Mr. Darcy despertava a sua gratidão, e o caráter dele, respeito. Mas Elizabeth não podia concordar com o que tinha feito. Nem podia arrepender-se da sua recusa. Tampouco sentia a menor vontade de vê-lo. A sua conduta passada era uma fonte constante de amarguras e de ressentimentos. E os infelizes defeitos da sua própria família eram um motivo ainda mais forte de aborrecimento. Eram falhas irremediáveis. Seu pai se limitava a rir e nunca faria nenhum esforço para corrigir as leviandades das suas filhas mais moças, e sua mãe, cujas maneiras não eram muito melhores, continuava naturalmente insensível a esse mal. Elizabeth frequentemente reunia os seus esforços aos de Jane, numa tentativa de reprimir as imprudências de Katherine e de Lydia. Mas fortalecidas pela indulgência da mãe, elas resistiam e não havia esperança de melhorarem. Katherine, espírito impressionável e fraco, completamente sob o domínio de Lydia, sempre tomava a mal os conselhos das suas irmãs mais velhas, e Lydia, voluntariosa e descuidada, nem sequer lhes dava ouvidos. Ambas eram ignorantes, indolentes e vaidosas. Enquanto existisse um oficial em Meryton, elas continuariam a namorar. E enquanto Meryton ficasse a uma milha de distância de Longbourn, viveriam em caminhadas para lá. Outra das suas maiores preocupações era o futuro de Jane. A explicação de Mr. Darcy, inocentando Bingley, realçava o valor daquilo que Jane tinha perdido e demonstrava a sinceridade da sua afeição. E sua conduta ficava livre de toda censura, a não ser, talvez, a de uma demasiada confiança em seu amigo. Como era triste, pois, pensar que Jane fora privada de uma situação tão desejável, tão cheia de vantagens e de promessas de felicidade, pela extravagância e loucura da sua própria família! Quando a essas recordações se acrescentava a decepção que sofrera com Wickham, era fácil acreditar que a coragem e o bom humor de Elizabeth, tão difícil de se reprimir, estavam agora tão afetados que lhe era quase impossível manter com as outras pessoas o mesmo tom de antigamente.
 Os convites para Rosings foram tão frequentes durante a última semana como durante a primeira. A última noite foi passada lá. E Lady Catherine tornou a se informar minuciosamente de todos os detalhes da viagem. Deu conselhos sobre a melhor maneira de fazer as malas e insistiu tanto na necessidade de empacotar direito os vestidos, que de volta Maria se sentiu obrigada a desfazer todo o trabalho da manhã e fazer novamente a sua mala.
 Quando se despediram, Lady Catherine, com grande amabilidade, desejou uma boa viagem. Convidou-as a voltarem a Hunsford no ano seguinte. E Miss de Bourgh levou a sua benevolência ao ponto de fazer uma reverência e estender a mão a ambas.

38

Sábado de manhã, Elizabeth e Mr. Collins se encontraram para a primeira refeição, alguns minutos antes dos outros aparecerem. E ele aproveitou a oportunidade para apresentar as suas despedidas com todas as formalidades que julgava indispensáveis.
 — Não sei, Miss Elizabeth — disse ele —, se Mrs. Collins já lhe exprimiu os seus sentimentos de gratidão pela visita que nos fez. Mas estou certo de que não deixará esta casa sem receber todos os seus agradecimentos. Asseguro-lhe que o privilégio da sua companhia foi muito apreciado. Sei que a nossa humilde casa possui poucos atrativos, a nossa maneira simples de viver, a exiguidade dos nossos cômodos, o pequeno número dos nossos criados e o pouco que vemos do mundo devem tornar Hunsford uma residência extremamente aborrecida para uma moça. Mas espero que acreditará que tenhamos feito tudo em nosso poder para que não passasse o seu tempo de uma maneira pouco agradável e que a nossa gratidão seja sincera.
 Elizabeth respondeu, exprimindo-lhe os seus calorosos agradecimentos e assegurando-lhe que tinha sido muito feliz. Tinha passado seis semanas muito agradáveis. O prazer de estar com Charlotte e as grandes atenções que tinha recebido faziam com que fosse ela que estivesse na obrigação de apresentar agradecimentos. Mr. Collins ficou satisfeito e replicou com solenidade, sorridente:
 — Dá-me a maior alegria saber que não passou o seu tempo de uma maneira desagradável. Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. E tivemos a felicidade de ter podido apresentá-la à mais alta sociedade. E graças às nossas relações com Rosings, tivemos meios de variar frequentemente a humilde cena doméstica. Penso portanto que podemos nos gabar de que a sua visita a Hunsford não foi cansativa para a senhora. Nossa situação relativamente à família de Lady Catherine é realmente uma dessas extraordinárias vantagens de que poucos se podem gabar. Viu a intimidade que temos e os convites frequentes que recebemos. Na verdade é preciso reconhecer que apesar de todos os inconvenientes desta humilde reitoria não penso que os seus hóspedes possam ser um objeto de compaixão, enquanto compartilham da nossa intimidade com Rosings.
 As palavras eram insuficientes para traduzir a elevação dos seus sentimentos. E na sua agitação ele se pôs a caminhar de um lado para outro na sala, enquanto Elizabeth procurava umas frases curtas que pudessem servir ao mesmo tempo à verdade e à cortesia.
 — Creio que poderá levar um relato muito favorável a nosso respeito para o Hertfordshire, minha cara prima — continuou. — Presenciou as grandes atenções com que Lady Catherine cumula Mrs. Collins quase todos os dias; e espero que se tenha tornado evidente que a sua amiga não fez má... Mas sobre este ponto é melhor silenciar. Deixe apenas que eu lhe assegure, minha cara Miss Elizabeth, que eu lhe desejo do fundo do coração uma felicidade igual no casamento. Minha cara Charlotte e eu só temos um espírito e um pensamento. Existe sob todos os aspectos entre nós uma notável semelhança de caráter e de ideias. Parece que nascemos um para o outro.
 Elizabeth afirmou, aliás com razão, que isto era uma grande felicidade e com igual sinceridade acrescentou que acreditava firmemente na sua felicidade doméstica, coisa que muito a alegrava. Não se aborreceu contudo por ter de interromper a sua frase devido à entrada da pessoa cuja felicidade comentavam. Pobre Charlotte! Era triste deixá-la em tal companhia. No entanto, não se podia deixar de reconhecer que ela escolhera de olhos abertos. E embora triste porque os seus hóspedes iam embora, não parecia agora querer solicitar a sua compaixão. A casa, os trabalhos domésticos, a paróquia, a sua criação de aves domésticas e todos os demais trabalhos ainda não tinham perdido o seu encanto. Finalmente a carruagem chegou, as malas foram amarradas, os embrulhos levados para o interior e foi-lhes anunciado que tudo estava pronto. Depois de uma despedida afetuosa, Elizabeth foi levada até a carruagem por Mr. Collins e, enquanto caminhavam pelo jardim, ele a encarregava de levar os seus mais respeitosos cumprimentos para a família, sem se esquecer dos seus agradecimentos pelas atenções que recebera em Longbourn quando lá estivera e as suas saudações para Mr. e Mrs. Gardiner, embora não os conhecesse. Então ele a ajudou a subir para a carruagem. Maria acompanhou-a e a porta estava a ponto de ser fechada quando de súbito ele lembrou que elas se tinham esquecido de deixar qualquer mensagem para as senhoras de Rosings. Naturalmente, acrescentou, desejarão que eu transmita os seus humildes respeitos com os seus mais cordiais agradecimentos pelas bondades de que foram objeto enquanto aqui moraram. Elizabeth não fez objeção a isto. A porta pôde ser fechada finalmente e a carruagem se afastou.
 — Arre! — exclamou Maria, depois de alguns minutos de silêncio. — Parece que chegamos ontem. E no entanto quanta coisa aconteceu!
 — Muita coisa de fato — concordou Elizabeth, com um suspiro.
 — Jantamos nove vezes em Rosings e tomamos chá duas vezes lá. Quanta coisa terei para contar!
 Elizabeth acrescentou consigo: e quanta coisa eu terei que esconder! A viagem decorreu sem muita conversação e sem nenhum incidente. Quatro horas depois de terem saído de Hunsford, chegaram à casa de Mr. Gardiner, onde deviam passar alguns dias.
 Jane tinha boa aparência e entre os vários divertimentos que a sua tia tivera a bondade de organizar para as meninas, Elizabeth teve pouca oportunidade de observar as disposições da sua irmã. Mas Jane devia regressar com ela, e em Longbourn teria oportunidade de observá-la detidamente. Não foi sem esforço entretanto que ela esperou até Longbourn para contar à sua irmã as propostas de Mr. Darcy. Sabia que estava em seu poder fazer uma revelação que assombraria Jane e viria agradar ao mesmo tempo o que lhe restava de vaidade. Era uma tentação a que nada se poderia opor senão o estado de indecisão em que ela se encontrava sobre a quantidade exata de fatos que deveria revelar e o medo de ter que repetir certas coisas a respeito de Bingley que poderiam ferir Jane ainda mais.

39

Foi na segunda semana de maio que as três moças partiram juntas de Gracechurch Street para a cidade de... no Hertfodshire. E ao se aproximarem do lugar em que a carruagem de Mr. Bennet as devia encontrar, elas avistaram, como garantia da pontualidade do cocheiro, Kitty e Lydia numa das janelas de cima de uma hospedaria. Havia uma hora essas duas meninas esperavam naquele lugar, fazendo visitas frequentes a uma modista em frente, para passar o tempo, observando a sentinela de plantão e preparando um molho para a salada.
 Depois de dar as boas-vindas às suas irmãs, elas exibiram uma mesa posta com as várias espécies de carnes frias que tinham conseguido encontrar no guarda-comida da hospedaria.
 — Então, que tal, não está bem, não é uma surpresa agradável?
 — E nós convidamos vocês todas — acrescentou Lydia. — Mas é preciso que nos emprestem dinheiro, pois gastamos tudo naquela loja ali defronte.
 Em seguida, mostrando as compras que tinha feito:
 — Olha, comprei este chapéu. Não acho que seja muito bonito, mas achei que era melhor comprar do que não comprar. Vou desmanchá-lo assim que chegar em casa e ver se eu posso fazer uma coisa melhor.
 E quando as suas irmãs disseram que era muito feio, ela acrescentou, com perfeita indiferença:
 — Oh, mas havia dois ou três ainda mais feios na loja. E depois que eu comprar um bonito cetim para enfeitá-lo, ele vai ficar tolerável. Além disso não tem muita importância a roupa que a gente usar este verão, pois o regimento vai sair de Meryton daqui a 15 dias.
 — Ah, vai? — exclamou Elizabeth, com a maior despreocupação.
 — Eles vão acampar perto de Brighton. Eu queria tanto que papai nos levasse até lá para passar o verão... Seria um ótimo plano. Creio que não custaria nada e mamãe, principalmente, ficaria encantada de ir. Pensa só que verão miserável nós teríamos se ficássemos aqui.
 “Sim”, pensou Elizabeth, “isto seria realmente um projeto estupendo. Imagina estas meninas lá em Brighton, com o acampamento cheio de soldados. Elas que já ficaram de cabeça virada com um pobre regimento de milícia e um baile mensal em Meryton.”
 — Agora tenho outras novidades para você — disse Lydia ao se sentar à mesa. — Imagina só: é uma notícia excelente. E é sobre uma pessoa de que todas gostamos muito.
 Jane e Elizabeth olharam uma para a outra. O garçom foi informado de que podia ir embora. Lydia pôs-se a rir e disse:
 — É engraçada esta sua formalidade e discrição. Você achou que o garçom não devia ouvir, como se ele se importasse com isto. Ele deve ter ouvido coisas muito piores do que o que eu vou dizer; mas é um sujeito tão feio, foi bom mesmo ter ido embora. Nunca vi um queixo tão comprido na minha vida. Bem, agora passemos às novidades. São acerca do nosso caro Wickham. Bom demais para o garçom, não é? Não há perigo de Wickham se casar com Mary King. Ela foi morar com um tio em Liverpool, definitivamente. Wickham está salvo.
 — E Mary King está salva — acrescentou Elizabeth. — Salva de um casamento imprudente, só pelo lado pecuniário.
 — Ela é uma grande tola de partir, se gosta dele.
 — Mas espero que não haja uma paixão muito forte de ambos os lados, — disse Jane.
 — Estou certa de que não há do lado dele. Garanto que nunca se importou com ela. Quem pode se interessar por uma bobinha daquelas? Além disso tem o rosto cheio de sardas.
 Elizabeth pensou, com certa amargura, que embora ela fosse incapaz de se exprimir com tanta brutalidade, aqueles sentimentos não eram menos grosseiros do que os que ela mesma tinha abrigado anteriormente no seu coração e que ainda por cima pensara fossem generosos.
 Depois que todas tinham comido, as mais velhas pagaram a despesa e as meninas mandaram chamar a carruagem; instaladas todas as malas, caixas e embrulhos, além dos objetos que Kitty e Lydia tinham comprado, todas tomaram os seus respectivos assentos.
 — Como vamos apertadas! — gritou Lydia. — Estou contente de ter comprado o meu chapéu. Só pelo prazer de ter ainda mais uma caixa. Bem, agora vamos ficar à vontade, conversar e rir até chegar em casa. Em primeiro lugar, contem tudo o que aconteceu a vocês desde que saíram de casa. Conheceram rapazes agradáveis? Arranjaram algum namorado? Eu tinha esperanças que uma de vocês arranjasse um marido. Jane daqui a pouco vai ficar solteirona. Ela tem quase 23 anos! Eu ficaria envergonhadíssima se não me casasse antes disto! Minha tia Philips quer que você arranje um marido, você nem imagina! Ela disse que Lizzy devia ter aceitado Mr. Collins. Mas acho que isto não teria graça nenhuma. Bem que eu gostaria de me casar antes de vocês. Eu serviria de pau de cabeleira para vocês em todos os bailes. Nós nos divertimos tanto, no outro dia, em casa do coronel Forster... Kitty e eu fomos passar o dia lá. Entre parênteses, Mrs. Forster e eu somos amicíssimas. Então ela convidou as duas Harrigton, mas Harriet estava doente, e portanto Pen foi obrigada a vir sozinha. Sabem o que nós fizemos? Vestimos o Chamberlayne com roupas de mulher. Foi engraçadíssimo. Ninguém sabia, só o coronel, Mrs. Forster, eu e também minha tia, pois fomos obrigadas a pedir emprestado um vestido dela. E você não imagina como ele ficou bem! Quando Denny, Wickham, Prett e dois ou três mais chegaram, nenhum deles o reconheceu. Eu morria de tanto rir. Mrs. Forster também. Rimos tanto que eles ficaram desconfiados e descobriram então do que é que se tratava.
 Com histórias deste gênero e diversas anedotas, procurou Lydia, auxiliada pelas sugestões de Kitty, distrair as suas companheiras durante todo o caminho até Longbourn. Elizabeth ouviu o menos que pôde. Mas a sua atenção era despertada pelas frequentes alusões ao nome de Wickham.
 A recepção em casa foi das mais afetuosas. Mrs. Bennet ficou satisfeita de ver Jane bonita como sempre. E mais uma vez durante o jantar, Mr. Bennet disse espontaneamente para Elizabeth:
 — Estou contente que você tenha voltado, Lizzy.
 O grupo que se sentou para jantar era grande, pois quase todos os Lucas tinham vindo para rever Maria e ouvir as novidades. Vários foram os assuntos que os ocuparam. Lady Lucas atirava perguntas a Maria, que estava do outro lado da mesa, acerca da prosperidade e das aves domésticas da sua filha mais velha. Mrs. Bennet estava duplamente ocupada. De um lado indagava quais eram as novidades da moda e repetia essas informações para as filhas mais moças dos Lucas; e Lydia, numa voz mais alta do que a de qualquer outra pessoa, enumerava os vários acontecimentos da manhã para todos os que desejassem ouvir.
 — Oh, Mary — disse ela —, eu queria que você tivesse vindo conosco, pois nos divertimos imensamente. Durante o caminho Kitty e eu fechamos todas as cortinas do carro e fingimos que não ia ninguém lá dentro. Teríamos continuado assim até chegar, mas Kitty ficou enjoada. E quando chegamos à hospedaria, acho que nos comportamos muito bem, pois regalamos as outras três com o melhor almoço frio do mundo, e se você tivesse ido, também teríamos convidado você. E depois, na volta, também foi muito divertido. Eu pensei que nunca iríamos caber naquele carro. Quase morri de tanto rir. Falamos e rimos tão alto que qualquer pessoa nos ouviria a dez milhas de distância.
 Mary replicou, gravemente:
 — Longe de mim depreciar tais prazeres, minha cara irmã; são os que melhor se enquadram geralmente nos temperamentos femininos. Mas confesso que não têm encantos para mim. Prefiro infinitamente um bom livro.
 Lydia não ouviu nem uma só palavra desta resposta. Ela não dava atenção a ninguém durante mais de meio minuto. E nunca ouvia o que Mary dizia.
 De tarde Lydia insistiu com o resto das meninas para que fossem todas a Meryton saber das novidades; mas Elizabeth se opôs firmemente a esse plano. Não se deveria dizer que as irmãs Bennet não podiam ficar um dia em casa sem ir correndo atrás dos oficiais. Havia também outro motivo para esta oposição. Ser-lhe-ia extremamente penoso encontrar-se com Wickham e estava resolvida a evitá-lo o mais que pudesse. A próxima partida do regimento era um imenso consolo para ela. Daí a 15 dias partiriam os oficiais e esperava ficar livres deles para sempre.
 Poucas horas depois de chegar em casa, Elizabeth descobriu que o plano de Brighton a que Lydia aludira na hospedaria estava frequentemente em discussão entre os seus pais. Viu imediatamente que o seu pai não tinha a menor intenção de ceder. Mas as suas respostas eram ao mesmo tempo tão vagas e equívocas que sua mãe, embora muitas vezes desanimada, ainda não tinha perdido as esperança de triunfar afinal.

40

Elizabeth não conseguiu refrear por mais tempo a impaciência em que estava para contar a Jane o que tinha acontecido. E afinal, resolvendo omitir todos os detalhes que dissessem respeito à sua irmã, e prevenindo-a de que ia ficar surpresa, contou-lhe na manhã seguinte a maior parte da cena que se tinha passado entre Mr. Darcy e ela própria.
 A surpresa de Miss Bennet a princípio foi grande, mas aos poucos começou a achar natural o que tinha acontecido, pois julgava que todos deviam compartilhar a admiração que sentia por Elizabeth. Era realmente lamentável que Mr. Darcy tivesse manifestado os seus sentimentos de uma forma que os recomendava tão pouco. Mas o que mais a entristeceu foi o desgosto que a recusa de sua irmã lhe devia ter causado.
 — A certeza que ele tinha do seu êxito era falsa — disse Jane. — E sobretudo não devia ter transparecido. Mas não se esqueça de que isto torna ainda mais cruel o seu desapontamento.
 — Realmente — disse Elizabeth —, eu sinto muito por ele. Mas Mr. Darcy tem outros sentimentos que provavelmente expulsarão dentro de muito pouco tempo a admiração que tem por mim. Mas você não me censura por tê-lo recusado?
 — Censurar você? Oh, não...
 — Mas você me censura por ter tomado tão a peito o partido de Wickham?
 — Não, não sei o que haveria de errado no que você disse.
 — Mas você saberá, depois que lhe contar o que aconteceu no dia seguinte.
 Elizabeth falou então na carta, repetindo tudo o que ela continha, na parte que se referia a George Wickham. Foi um grande choque para a pobre Jane, que de bom grado passaria pelo mundo sem saber que existia nele todo tanta maldade, como a que se concentrava aqui num só indivíduo. Nem mesmo a justificação de Darcy, grata aos seus sentimentos, era suficiente para a consolar de uma tal descoberta. Com a maior seriedade, Jane procurou provar que havia uma possibilidade de erro, tentando inocentar um deles sem acusar o outro.
 — Isto não pode ser — disse Elizabeth —; você nunca conseguirá fazer com que ambos tenham razão. Faça a sua escolha, mas é preciso que se contente com um deles. As qualidades dos dois reunidas chegam apenas para fazer um homem bom. Ultimamente as situações se têm invertido várias vezes. Quanto a mim estou inclinada a acreditar em Mr. Darcy, mas você pode escolher o que quiser.
 Passou-se algum tempo, entretanto, antes que um sorriso aparecesse no rosto de Jane.
 — Não me lembro jamais de ter sofrido um tão grande desapontamento — disse ela. — Wickham é tão ruim assim? É quase inacreditável! E coitado de Mr. Darcy... Pensa, Lizzy, em tudo o que ele deve ter sofrido. Que decepção! E ficou sabendo o que você pensa dele... E ter de contar uma coisa daquelas da sua própria irmã! É realmente muito triste. Creio que você deve sentir a mesma coisa.
 — Oh, não, minha compaixão e meu arrependimento se dissipam quando vejo você toda cheia dos mesmos sentimentos! Tenho tanta certeza que você lhe fará toda a justiça, que cada vez me sinto mais despreocupada e indiferente. A sua generosidade dispensa a minha. E se você continuar a lamentá-lo muito mais tempo, meu coração ficará tão leve como uma pena.
 — Pobre Wickham! O rosto dele exprime tanta bondade... Suas maneiras são tão francas e amáveis...
 — Houve certamente um grande erro na educação desses dois rapazes. Um tem todas as qualidades e outro todas as boas aparências.
 — Eu nunca achei que as aparências de Mr. Darcy eram tão más assim.
 — E no entanto, ao tomar partido tão violentamente contra ele, sem nenhuma razão, eu me vangloriava da minha agudeza. Uma antipatia tão forte como a que eu tinha por ele é um grande incentivo para a inteligência e para a ironia. A gente pode falar mal de um homem continuamente, sem nada exprimir de justo, mas não se pode rir a vida inteira de alguém, sem de vez em quando se esbarrar numa coisa espirituosa.
 — Lizzy, estou certa de que quando leu a carta pela primeira vez não encarava as coisas do mesmo modo.
 — Realmente, eu não podia. Estava muito perturbada. Posso dizer até infeliz. E depois eu não tinha ninguém com quem falar, não tinha Jane para me consolar, assegurando-me que eu não tinha sido tão fraca e leviana quanto eu sabia que realmente fora. Oh, como eu desejava que você estivesse junto de mim.
 — Foi pena que você tenha usado de expressões tão fortes falando de Wickham para Mr. Darcy. Pois agora vê-se claramente que foram imerecidas.
 — Certamente. Mas a infelicidade de falar amarguradamente é uma consequência natural da parcialidade de que me tinha tornado culpada. Há um ponto sobre o qual eu quero o seu conselho. Quero saber se devo ou não revelar aos nossos conhecidos qual é o caráter real de Wickham.
 Miss Bennet fez uma pequena pausa e depois respondeu:
 — Acho que não há motivo para uma tão terrível denúncia. Que pensa você?
 — Acho que isto não deve ser feito. Mr. Darcy não me autorizou a tornar públicas as suas declarações; pelo contrário, ele me recomendou que guardasse exclusivamente para mim todos os detalhes relativos à sua irmã. E se eu não mencionar este fato central, quem me acreditará? A má vontade geral contra Mr. Darcy é tão violenta que metade dos habitantes de Meryton morreria se eu tentasse colocá-lo sob uma luz mais favorável. Não tenho forças para isto. Wickham dentro em pouco partirá. E portanto, pouco importa que ninguém aqui saiba o que ele é realmente. Algum dia será descoberto, e então nós poderemos rir da estupidez dos outros por não terem adivinhado há mais tempo. No momento eu não direi nada.
 — Tem toda a razão. Se denunciarmos publicamente os seus erros, podemos arruinar a sua vida para sempre. Talvez esteja arrependido do que fez e ansioso em refazer a sua reputação. Não devemos fazê-lo desesperar.
 Esta conversação ajudou Elizabeth a pôr em ordem os seus tumultuosos pensamentos. Ela se tinha libertado de dois segredos que lhe haviam pesado durante 15 dias. Tinha a certeza de que Jane a tornaria a ouvir com a mesma boa vontade, quando desejasse falar novamente. Mas ainda havia outra coisa que se escondia na sombra e que a prudência de Elizabeth impedia de desvendar. Não ousava relatar a Jane a outra metade da carta de Mr. Darcy, nem lhe revelar que Bingley correspondera sinceramente ao seu afeto. Aí estava um segredo que ninguém podia compartilhar. E ela compreendia que só o restabelecimento da mais perfeita compreensão entre eles poderia desobrigá-la desse silêncio. E refletiu que se este acontecimento tão pouco provável ocorrese, tudo o que poderia fazer era repetir o que o próprio Bingley diria de uma forma muito mais agradável. “Só ficarei livre desse segredo”, pensou Elizabeth, “quando ele tiver perdido todo o valor.”
 Agora, instalada em casa, tinha toda a oportunidade de observar o estado real dos sentimentos de sua irmã. Jane não estava feliz. Ela conservava muito viva a sua afeição por Bingley. Como nunca anteriormente ela se imaginara apaixonada, esses sentimentos tinham todo o calor e toda a frescura do primeiro amor, e devido ao seu caráter e idade, maior firmeza do que essas primeiras paixões em geral possuem. Cultuava com tanto fervor a lembrança de Bingley e de tal modo o preferia a qualquer outro homem, que precisava lançar mão de todo o seu bom senso e de toda a sua consideração dos sentimentos alheios para dominar aquelas tristezas que poderiam se tornar prejudiciais para a sua própria saúde e para a tranquilidade dos seus amigos.
 — Bem — disse Mrs. Bennet um dia para Elizabeth —, que é que você pensa agora desse insucesso de Jane? Quanto a mim, estou decidida a não falar mais nisto com ninguém. Foi o que disse à minha irmã Philips no outro dia. Mas eu não consigo saber se Jane se avistou com ele em Londres. Bem, é um rapaz muito pouco merecedor. E não creio que haja a menor probabilidade de Jane reavê-lo. Nada se fala a respeito da sua volta a Netherfield no verão. Eu já indaguei de todas as pessoas que poderiam saber.
 — Eu creio mesmo que nunca virá a Netherfield.
 — Ah, bem, ele fará o que quiser. Ninguém deseja que volte. Mas eu continuaria a dizer que foi muito desleal para com a minha filha. E se eu fosse ela, não teria suportado isto; mas o meu consolo é que Jane morrerá de desgosto. E ele então se arrependerá do que fez.
 Mas como Elizabeth não via nenhum consolo neste prognóstico, nada respondeu.
 — Bem, Lizzy — continuou a sua mãe, pouco depois. — Os Collins vivem lá muito confortavelmente, não é? Bem, bem, eu só desejo que isto dure. E como é a mesa deles? Charlotte é uma excelente dona de casa. Se é tão econômica quanto a mãe, deve estar pondo dinheiro de lado. Não há extravagância nenhuma na casa dos pais dela.
 — Não, nenhuma.
 — A boa administração de uma casa depende principalmente disto. Sim, sim, aqueles não correm o risco de gastar mais do que têm. Nunca terão atrapalhações de dinheiro. Bem, que sejam felizes. E naturalmente fazem muitos planos a respeito de Longbourn depois que o seu pai morrer, não? Já consideram isto naturalmente como uma propriedade sua.
 — Foi um assunto que nunca mencionaram na minha frente.
 — Mas também era só o que faltava. Mas não tenho a menor dúvida de que falam nisto constantemente entre si. Bem, se a consciência não lhes dói, tanto melhor para eles. Eu teria vergonha de herdar uma propriedade que não fosse minha, legalmente.



continua